Escrito nas estrelas Não acredito em destino. Não acho que “o futuro está escrito” ou que sejamos meras marionetes de um porvir já estabelecido. Mas creio piamente que certas coisas não nos acontecem por acaso. Tomo como exemplo experiências ruins que tive nos últimos meses. Calma! Nada drástico, hehe. Me refiro ao contato que tive com a discografia do Faith no More e ao livro “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar. Em comum está o fato de eu nunca ter me interessado pelos dois ou de eu nunca tê-los encontrado a seu devido tempo, na época em que estiveram em evidência. Fui guiado a eles por conta de recomendações de amigos que os veneravam. Faith no More é uma banda que teve uma reconhecida importância durante a segunda metade de década de 80 e que estendeu sua influência no pop realizado no início dos anos 90. Tinha como principais características um bandleader bastante criativo e versátil, bons guitarristas e um baterista fraco tecnicamente, mas que possuía um estilo totalmente peculiar, que dava uma cara ímpar ao som do conjunto. Ouvi atrasado demais, talvez, mas achei as músicas muito datadas. Escolhi ouvir a discografia da banda em ordem cronológica e encontrei desde os beats eletrônicos dos 80’s nos primeiros discos até o grunge (com pitadas de acid-jazz!) dos 90’s nos álbuns mais recentes, tudo lá, no som dos caras. Você ouve uma música de cada vez e pensa consigo: “putz, isso é bem anos 80 mesmo” ou “nossa, olha esse teclado... já ouvi isso 15 anos atrás”. Cada álbum representando fielmente a sonoridade de sua época. Isso não chega a ser um demérito, mas torna qualquer forma de expressão restrita ao seu tempo, sem chance de alcançar a posteridade. Passada uma década após o último disco da banda, suas músicas já não têm nada a dizer. Quanto ao escritos Raduan Nassar, muito embora jamais tenha ouvido falar dele até questão de meses atrás, após ter lido seu nome pela primeira vez, passei a prestar atenção no que a crítica literária como um todo falava a seu respeito e notei que se tratava de um autor com poucas e marcantes obras. Em seu livro “Lavoura Arcaica”, me causou espanto a linguagem poética e a ausência de qualquer concessão, por parte do autor, em facilitar a leitura. Não há sequer indicações sobre o que os personagens querem dizer. Apenas um emaranhado de frases soltas e pensamentos aleatórios, tudo carregado de sentimentalismo camponês barato. Ao que parece, Nassar quis transmitir alguns de seus insights, mas não se preocupou em contar uma estória que fosse capaz de dar coesão a eles. Um menino obcecado por pés que resolve ir embora da casa dos pais não é um mote digno de uma romance que pretenda ser minimamente interessante. Podem até chamar isso de experimentalismo de linguagem. Pra mim, é simplesmente preguiça autoral. Sem contar que a renúncia a pontos e parágrafos me parece birra infantil, algo, no mínimo, desnecessário.
Essas experiências me levaram a crer que as obras de arte que até agora não vieram até mim de maneira natural não têm nada a me acrescentar. Exemplifico. Eu gosto de músicos de quem eu, inesperadamente, ouço alguma música (às vezes apenas um trecho). Daí eu corro atrás e vejo o restante do seu trabalho. Em geral, me surpreendo com músicas ainda melhores e passo a querer ouvir tudo que já foi gravado pelo artista. Corro atrás, inclusive, de suas influências musicais e seus parceiros habituais. Não me lembro de ter me decepcionado com esse método. Com os livros é a mesma coisa. Um trecho, uma citação, um ensaio, uma resenha, uma adaptação cinematográfica, enfim, qualquer contato inicial que eu tenha com a obra me trará interesse por ela. Sem indicações “no escuro” ou artificialismos diversos. O livro deve chegar até mim, e não o contrário. Se uma obra de arte qualquer não me chamou a atenção antes, por si só, não foi à toa. É porque, de fato, não havia por que me interessar. Nenhuma recomendação pode ser melhor do que uma amostra. E quando essa amostra chega até mim, a partir da emoção que me desperta, corro atrás, para sentir aquilo de novo. Isso acaba nos dando a sensação de que o universo ou alguma força superior nos guia em direção às coisas com as quais nos identificamos. Estamos sempre rumando ao nosso “destino”, enfim. Porém, o que ocorre é que nosso próprio inconsciente nos guia àquilo que mais gostamos. Estamos fazendo escolhas o tempo todo, muitas delas sem nos darmos conta. Nós mesmos estamos sempre atraindo o nosso destino e não o contrário. Talvez o segredo esteja aí. O meu próprio interesse é que deve motivar o contato com uma obra qualquer. O feeling que dá o tom da escolha só pode ser o meu, isso jamais deve ser delegado a outrem. O que é interessante pra alguém ou em determinada época pode não ter nada a me dizer em meu atual momento. Egocêntrico, eu? Não, pragmático. Até porque o que caracteriza melhor a grande obra é o fato de ser atemporal, universal. É isso que torna o seu autor um gênio da espécie. Se determinado autor não alcança isso, não merece minha atenção. Já existe muita coisa boa composta e escrita, esperando por meus olhos e ouvidos. E é pra essa direção que eu vou. Rumo ao meu destino.
Escrito por Álvaro às 08h44
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Pais confusos, filhos incompreendidos Não foram poucas as vezes que ouvi nas últimas duas décadas pais, médicos e educadores aflitos comentarem sobre a “banalização do sexo”, algo que supostamente estaria acometendo a juventude de nossos dias. Nos debates que abordam esse tema, em geral promovidos por meios de comunicação destinados aos próprios jovens, vozes adultas apontam o dedo em direção aos mais novos e decretam que, ultimamente, tudo que envolve uma relação entre duas pessoas tornou-se fácil demais, pouco desafiador. Segundo essa linha de pensamento, a libertinagem teria sobrepujado o mistério, a promiscuidade teria engolido o galanteio e a perversão teria atropelado o flerte. “O romantismo acabou” é a frase-feita preferida nessas ocasiões. Me incomoda saber que essas mesmas pessoas, ao comentarem sobre as formas de lazer mais praticadas pela juventude contemporânea, discursam que as pessoas, “hoje em dia”, estão mais distantes umas das outras. Afinal, a televisão substituiu a pipa, o peão e as bolinhas de gude, o vídeo-game substituiu a pelada de rua e a internet substituiu os gibis e os livros infanto-juvenis (e o Orkut substituiu a pracinha da esquina). Ou seja, os mesmos pais, médicos e educadores compactuam da idéia de que os jovens nascidos em uma era de acesso relativamente livre às telecomunicações estão usando seus recursos com o objetivo de se isolarem cada vez mais em seus respectivos quartos. São idéias difíceis de se complementarem porque, oras bolas, são diametralmente opostas! O pior: ninguém se dá conta disso; são conceitos que, em geral, estão presentes simultaneamente nos mesmos cérebros. Ou seja, a neurose contemporânea que tanto aflige a turma da meia-idade é formada por uma combinação de diagnósticos antagônicos com relação ao dia-a-dia dos mais jovens. É uma concepção esquisita de que um adolescente é capaz de ir pra cama com 3 meninas diferentes em uma semana ao mesmo tempo em que é um anti-social enclausurado ciberneticamente em um quarto. Os mesmos jovens que têm uma vida social super ativa, repleta de beijos fugazes e sexo sem compromisso, são também pessoas solitárias que passam a maior parte do tempo diante de um monitor. Será que é preciso ser tão inteligente e perspicaz pra descobrir que isso é um baita contrasenso? Na verdade tudo é mais simples do que parece. Os atualmente jovens, quando se vêem numa situação em que não são mais crianças, têm os mesmos medos e dúvidas que seus pais tiveram décadas antes. A sensação de se tornar livre das amarras da infância é descoberta de forma simultânea à percepção de que seus pensamentos, palavras e atos acarretam consequências nem sempre previsíveis (ou desejáveis). A partir daí, cada um tenta lidar com isso da maneira que acha melhor e tenta aprender alguma coisa entre um tropeço e outro. A presença ou não de internet e a profusão de acessos à pornografia (que, de fato, está mais acessível a cada dia) não determina a vida social de ninguém, muito menos molda o caráter das pessoas. Além disso, a presença de dançarinas rebolativas na TV não implica na maior facilidade de um adolescente em obter sexo. E o fato de gostar de vídeo-game não impede ninguém de ir bater uma bola com os amigos da escola aos fins-de-semana. Um rapazinho que tem acesso 24 horas a milhões de fotos e vídeos com mulheres nuas garante apenas uma boa dose de masturbação diária via TV a cabo, internet e revistas especializadas. O solavanco que ele sente no peito ao dar o seu primeiro beijo e a dificuldade que encontra, mais tarde, ao tentar convencer uma garota a se deitar com ele é que forjarão a sua vida afetiva, da mesma maneira que seus antepassados. Litros de esperma ejaculados na solidão do lar não garantem, em absoluto, o poder de persuasão que é exigido pelas garotas. Além disso, características humanas como a socialização, a identificação com o outro, auto-afirmação e a capacidade de se relacionar com as pessoas são, mais do que necessárias, exigidas em todos os ambientes coletivos (casa, trabalho, escola, clube, etc.). Para entrar num mero grupo de trabalhos escolares ou mesmo participar de uma tribo urbana qualquer é fundamental que as pessoas saibam se comunicar e interagir umas com as outras. Ninguém quer saber se você gosta de livros, pescaria ou seriados da Fox quando se está procurando um emprego, por exemplo. O que o seu futuro chefe quer é conhecer a sua capacidade de se expressar diante dos demais. E seria muita presunção achar que os jovens não sabem disso. Claro que existem algumas diferenças, mas elas são apenas simbólicas. Se antes o legal era colecionar selos, hoje é bacana baixar músicas na internet. Se antes o lance era jogar futebol de botão com a rapaziada, hoje o que pega é reunir uma cambada pra algumas horas de Winning Eleven. Se antes era preciso passear pela vizinhança e ter boa dose de charme e cara-de-pau para bater um papo com a garota mais bonita da rua, hoje ela está ao alcance o mouse – em compensação, a concorrência pela mesma beldade cresceu em dose exponencial, com gaviões de toda a cidade adicionados no MSN dela. Ou seja, a rotina de um jovem típico dos anos 2000 inclui doses de desafios, adrenalina, alegrias e frustrações em igual proporção em relação à rotina dos que foram jovens nos anos 60 ou 70. Os adultos do amanhã fazem e desfazem amizades, se sentem fortes e inseguros, trocam idéias e divergências, cooperam e competem um com os outros, enfrentam conflitos externos e internos e alcançam a sua maturidade a partir do que conseguem assimilar de tudo isso, da mesma forma que os jovens de outrora faziam. No entanto, essa incompreensão persiste entre as gerações (como houve também entre nossos pais e nossos avós), mesmo que as diferenças, volto a dizer, sejam apenas superficiais. É bastante simples chegar a essa conclusão. Só que deduções simples não lotam palestras, nem formam filas em consultórios e tampouco alimentam a indústria da auto-ajuda.
Escrito por Álvaro às 17h32
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Preparadas Esses dias saiu uma daquelas pesquisas destinadas a ratificar “cientificamente” certos padrões comportamentais humanos que qualquer observador com um mínimo de bom senso descobre ainda na infância. Desta vez os tais “cientistas” procuravam descobrir qual a cor de lingerie que mais despertaria desejos junto à libido masculina. Bateram o martelo no vermelho. Ainda bem que eles descobriram... Duas garotas de vinte e poucos anos lêem a notícia e comentam. – É verdade. Quando se quer provocar um homem, uma lingerie vermelha é uma boa pedida. – É mesmo, né? Mas, tipo, é preciso uma certa liberdade com o guri para se vestir dessa forma. – É, se for ver bem, precisa de uma certa intimidade entre os dois, né? – Claro, tipo, se a menina for logo de cara, no primeiro encontro, já com uma calcinha vermelha, vai parecer que, tipo, ela tá muito “preparadona”, né? – Sim, sim. São nesses momentos que eu me pergunto até que ponto a revolução feminista foi relevante para a sociedade brasileira. Será mesmo que as mulheres atingiram um ponto em que podem pensar, dizer e fazer o que querem? E outra: que raios de liberdade sexual é essa, tão proclamada aqui pelos trópicos, mas num discurso sem qualquer paralelo com a realidade? Questões assim, além de provocarem alguma reflexão, podem confundir os incautos. Em primeiro lugar, vivemos em uma cultura que estimula (praticamente obriga) a mulher a se insinuar de forma mais ou menos libidinosa, a depender do contexto, mas que não sabe lidar bem com o flerte quando este parte do lado feminino. Isso por si só já seria uma fonte inesgotável de sentimentos contraditórios, porém os desvios de valores são ainda piores quando a mulher demonstra algum tipo de vontade em ultrapassar o terreno do flerte. Imediatamente ela se torna vulgar, segundo a ótica vigente. Em segundo lugar, devemos ter a consciência de que estamos em um meio em que o homem, além de trabalhador, provedor e protetor de sua família, é festeiro, desportista de fim-de-semana, bebe como ninguém, é gozador com os amigos e arranca suspiros das moçoilas com sua personalidade supostamente forte. É o grande ideal do brasileiro: trabalha a semana toda (se for como peão de obra, melhor ainda), encara uma pelada com os camaradas no sábado de manhã, à tarde pula no carnaval fora de época, troca alguns sopapos ao entardecer e termina a noite se aventurando no motel com mais uma de suas conquistas. No domingo, churrasco com a família na hora do almoço (ele pilotando o braseiro, lógico), tonéis de cerveja durante o resto do dia e ainda dá duas sem tirar na patroa, “pra comparecer lá em casa” e encerrar a semana com chave de ouro. Onde está o papel da mulher nessa história toda? Pois é... Me recordo agora de um exemplo bastante ilustrativo sobre tudo isso. Muitos devem se lembrar da Maria Mariana, uma jovem atriz e escritora, autora de um best-seller dos anos 90, o livro “Confissões de Adolescente”, que deu origem a uma famosa peça de teatro (que, infelizmente, nunca vi) e uma bem-sucedida série de TV, ambas protagonizadas pela própria Maria Mariana. Ela é da mesma faixa etária que eu, ambos pertencemos à mesma geração, geração esta responsável pela introdução de um novo conceito, o “ficar”, algo que confundia tanto os adolescentes de então como seus respectivos pais. O livro de Mariana tem o mérito de descrever em linguagem ágil e informal o cotidiano de uma menina de 15 anos em meio a essas descobertas, tendo que conviver com seus dilemas e conflitos ao mesmo tempo em que precisa dar alguma satisfação para pais e amigas sobre aquilo que ela mesma não consegue decifrar por inteiro. Naturalmente, foi um estouro de vendas, inclusive sob os aplausos de pais e professores que lidavam diretamente com adolescentes. A série de TV, por sua vez, além de ser um primor técnico e artístico (a começar pela trilha sonora de reconhecido bom gosto, encabeçada pela canção de abertura cantada docemente por Gilberto Gil), prima também pela forma com que retrata as diferentes etapas que compõem aquele vácuo entre a infância e a fase adulta, com 4 irmãs com idades entre 12 e 19 anos que se complementam nessa tarefa. A Maria Mariana cabe o papel de irmã mais velha, a garota mais centrada e determinada da casa, que entre namoros, brigas e conselhos às irmãs mais novas (todas órfãs de mãe) faz um curso de Comunicação em uma universidade da elite carioca, batalha por estágios, elabora um jornal estudantil e lê Clarice Lispector em suas horas vagas. Um dia desses me deparo com uma reportagem ao estilo “que fim levou” com ela, a própria Maria Mariana. Comentando sobre o tempo em que se manteve longe dos holofotes, ela conta que aos vinte e poucos anos se casou, resolveu se mudar para o interior, teve filhos e abandonou a(s) carreira(s), pois descobriu que seria mais importante cuidar dos filhos em tempo integral. Ela diz ainda que está divulgando seu livro mais recente, “Confissões de uma Mãe”, onde descreve essa nova fase em sua vida. Deixe-me ver se entendi. A adolescente perspicaz, a jovem independente, artista de reconhecido talento e sucesso, que levou a milhões de pessoas a mensagem de despojamento, desembaraço e modernidade, decidiu copiar a avó e ser uma dona-de-casa. A menina que soube descrever como ninguém a juventude cosmopolita dos anos 90, livre das amarras normalmente impostas ao sexo feminino, toda a cultura juvenil da “new world order” da época, com todo o frescor ideológico dos anos seguintes à queda do muro de Berlim, chegou à conclusão que o bom da vida é se tornar uma matrona interiorana bancada pelo marido. Tudo isso exposto, só me resta perguntar: preparadona pra que, cara pálida?
Escrito por Álvaro às 23h00
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Rewind Já não é de hoje. Em qualquer lugar que a gente vá tem câmeras espalhadas por todos os lados. Todos. Mas, ao contrário de George Orwell, o que me intriga não é o “grande irmão” à espreita, focando suas lentes sobre o cotidiano das pessoas com o fim de manipulá-las. Me chama a atenção as câmeras portáteis manuseadas por gente comum. Desde os anos 90 as filmadoras vêm ficando cada vez mais e mais baratas, principalmente nos países mais desenvolvidos, chegando a virar artigo de consumo de massa. Mesmo no Brasil chegou a ser um produto adquirido por parcelas importantes de nossa classe média baixa. No entanto, as filmadoras antigas, com fitas VHS (ou mesmo as populares “palm-cams”), não chegavam a ser utilizadas com tanta freqüência por seus possuidores. Era mais algo destinado a filmar festinhas familiares (aqueles casamentos em que o vestido da noiva fica roxo no vídeo e os aniversários onde todo mundo sai com o rosto verde), reuniões com amigos, takes eventuais de alguma viagem, partos dos filhos (bleargh), uma ou outra peripécia da criançada, teatrinho da escola... situações prosaicas, enfim, mas já programadas e predeterminadas. Sempre devidamente registradas por algum abnegado que se propunha a zanzar com a câmera de lá pra cá enquanto os demais se divertiam, comiam, bebiam, batiam papo, brincavam, se emocionavam, etc. Hoje em dia, noto um fenômeno bastante diferente em relação ao uso das filmadoras atuais que, de tão práticas, pequenas e leves, nos acompanham o tempo inteiro (acopladas aos nossos celulares, máquinas fotográficas e até mesmo MP3 players). Decerto o que me intriga não é a conveniência desses aparelhos, mas sim a maneira como as pessoas os utilizam. Qualquer ocorrência inesperada ou incomum que desperte a nossa atenção já parece digna de registro. Uma briga na rua, carros batendo, fogos de artifício estourando no céu, uma mulher bonita passando pela calçada, alguma (sub)celebridade fazendo compras... tudo é motivo para que as pessoas saquem as suas câmaras do(a) bolso(a) e registrem, ansiosas, esses eventos. É curioso notar que preferem ver o ocorrido através do olhar digital da câmera e assistir aos detalhes no monitor, quando estes já fizerem parte do passado, ao invés de acompanhar tudo in loco, ao vivo, e registrar tudo “apenas” com as cores, sons e emoções que suas retinas e ouvidos emitem aos seus cérebros. O que seria melhor? Acompanharmos atentamente algum acontecimento, com olhos, ouvidos e mente bem abertos e contarmos apenas com a boa vontade da nossa memória para reviver os detalhes do ocorrido? Ou será que valeria mais a pena, em nome da posteridade, abrirmos mão da emoção momentânea, concentrando-nos em filmar certos trechos, tentando acompanhar com a inevitável imperfeição da câmera e abrindo mão de alguns detalhes que passam desapercebidos pelo vídeo?
Tanto o foco da câmera quanto a memória humana tornam esses registros incompletos. Resta saber qual deles transmite melhor para o futuro aquilo que veio a despertar o seu interesse naquele determinado momento em que tudo aconteceu. Não é preciso ser muito esperto pra se obter essa resposta.
Escrito por Álvaro às 09h36
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O melhor da festa é esperar por ela Será? Domingo agora, dia 03/05/2009, será a grande final do Campeonato Paulista desse ano. São vários os atrativos: Corinthians em campo, enfrentando um adversário tradicional (Santos), com o Timão tendo a chance de se tornar campeão de forma invicta, Ronaldo jogando em grande fase e, como se não bastasse, meu aniversário. Estava duro, pra variar. Um amigo me empresta o dinheiro e eu me proponho a me arriscar na fila e tentar comprar os ingressos pra nós dois. Cheguei ao Pacaembu umas 7 e meia da manhã, no dia em que as vendas iriam começar. Nem fui trabalhar, tudo na esperança de comprar os ingressos. Pergunto a um funcionário do Pacaembu onde seria a fila pras numeradas. Ele me aponta um lugar e fico lá, lendo meu livro calmamente. Uma hora depois de chegar, uma repórter da CBN que dava plantão no local me entrevista, perguntando se havia alguma informação que os funcionários do Pacaembu tinham passado pra nós e me pergunta também se eu gostava de assistir jogos no tobogã. Falei que não importava muito aonde eu me localizaria no estádio, pois o importante era estar presente no jogo da final, mas que eu tava na fila pra comprar numeradas. Ela pergunta se eu tenho certeza de que a fila era aquela, pois a "organização" havia contado a ela que ali só seriam vendidos ingressos pro tobogã. Falei: "é... nesses eventos, muitas informações são desencontradas, né?". Ela concorda e vai embora. Alguns minutos depois, já perto das 9 da manhã (o horário marcado para que se iniciasse a venda de ingresso), um funcionário do Pacaembu (outro) grita avisando que a fila onde eu estava era só pro tobogã e que, dada a extensão da fila, naquele ponto onde eu me encontrava, até me aproximar das bilheterias os ingressos já teriam se esgotado. Legal! Pergunto pra ele onde é a fila pras numeradas. "Do outro lado lá, amigo." Muy amigo. Dou a volta no estádio e entro na fila paras as numeradas. A fila tá menor. "Se pá eu ainda consigo comprar antes das 10", penso. Enfim, 9 horas. Lógico (óbvio, claro, evidente) que as vendas não começam às 9 em ponto. Uma hora é confusão entre policiais e torcedores, outra hora é o sistema que cai, depois começam a vender e, lá pras 10 horas, 15 mil ingressos são "milagrosamente" vendidos em menos de 20 minutos. Eu e todo mundo lá esperamos, incrédulos, que a notícia seja desmentida. Todos ligam os rádios, celulares, palms, TVs portáteis, etc., procurando alguma notícia "oficial". "Segue a venda normal de ingressos no Pacembu, para a decisão de domingo", era a principal manchete dos meios de comunicação consultados. A polícia e os funcionários do Pacaembu insistem que os ingressos acabaram. Como ninguém acredita, os mesmos nos informam que o sistema caiu e que as vendas seria retomadas em instantes. Mais algum tempo de espera, ardendo ao sol. Os vendedores ambulantes das imediações fazem a festa. Após o meio-dia surge o boato de que liberariam mais uma carga extra de ingressos e que só estariam aguardando o retorno do sistema. O tempo passa, começam os programas esportivos do rádio e da TV, todos tentam se inteirar das últimas notícias do jeito que pode. Por fim, surge a notícia de que a "organização" avisou à imprensa, conclusivamente, que já não havia mais ingressos pra vender desde as 10 da manhã. Isso, como poderia se supor, gerou mais indignação. Um enorme contingente de pessoas que estava lá no Pacaembu dormindo desde terça-feira não conseguiu ingresso. Todos os presentes eram testemunhas de que poucas dezenas de pessoas apenas haviam sido atendidas nas bilheterias. A revolta era certa. Um pessoal da Gaviões viu alguns cambistas oferecendo ingressos por 200 reais pra uns garotos ricos, trajando tênis caros e uniformes do Colégio Dante Alighieri (provavelmente haviam matado aula para tentar comprar os ingressos). Tumulto, confusão, ocorre um princípio de linchamento nos cambistas, a Tropa de Choque da PM intervém, joga spray de pimenta e bomba no meio da turba enfurecida. E eu a uns 20m de distância, de gravata, fazendo cara de paisagem, quietinho na fila, encostado no muro, fingindo que tava lendo ainda meu livro (uma vez que, àquela hora, já não havia mais disposição ou estado emocional que me permitisse alguma concentração para ler). Acaba a correria. A Tropa de Choque fica montada, na frente dos guichês, como precaução. Eu já estava a poucos metros da bilheteria, ainda com esperança. A essa altura, já estava enturmado com os torcedores à minha volta, sempre trocando idéias e impressões sobre as partidas do Timão nesse ano. Vários já com experiência de filas e longas esperas, acostumados com informações desencontradas. “Pra que a polícia ficaria aqui montada desse jeito se já não houvesse mais ingresso pra vender? Se tivesse acabado mesmo, eles simplesmente dispersariam todo mundo.” O raciocínio me pareceu lógico. Meia-hora mais tarde, a Tropa de Choque se retira. Ninguém sabe interpretar o que seria aquilo. Uma recompensa pelo nosso bom comportamento? Ou um sinal de que, de fato, não havia mais ingressos? Na minha opinião, simplesmente se encheram de ficar derretendo naquele sol. Um cara me oferece um gole d’água. Recuso. “Vai desmaiar embaixo desse sol, hein? Cuidado.” O negócio é que eu tava muito apertado. Desde umas 8 da manhã eu já tava com vontade de fazer xixi. Acho que nunca em minha vida eu segurei tanto tempo. Por isso era o único por ali que não comprava nada dos vendedores. Chega uma hora da tarde. Não aguentava mais esperar. Precisava mijar. Pedi pros caras guardarem meu lugar e ficar de olho em uma nova informação. Haviam policiais e torcedores desorientados a vários quarteirões de distância do estádio. Tava difícil encontrar alguma privacidade ali na vizinhança. Enfim, vejo um muro imenso, sombreado por uma frondosa e robusta árvore. Nada me pareceu mais convidativo naquele momento. Uma vez aliviado, no caminho de volta ao estádio, reparo melhor nas casas. Puta bairro que é o Pacaembu. Casarões imensos, ruas tranquilas e arborizadas, tudo isso a 5 minutos da Av. Paulista, 15 minutos do Centro, com metrô pertinho e ao lado da casa do Corinthians. Deve ser caro. Oras, e daí que é caro? Sou muito mais morar aqui do que nesses condomínios para milionários malucos, distantes dezenas de quilômetros de tudo que interessa em São Paulo. Enfim, eu já tinha circulados por aquelas bandas, mas nunca fui tão a fundo no bairro como naquele dia. Que sorte de quem mora lá... Por fim, logo depois que eu volto ao meu lugar na fila, ficamos sabendo através do Globo Esporte que saiu um comunicado oficial, dado pelo próprio Presidente do Corinthians, falando que os ingressos acabaram mais cedo do que imaginavam, que a culpa era mesmo dos cambistas, que pedia desculpas à Fiel, blá-blá-blá... Mais confusão, mais corre-corre, uma verdadeira caça às bruxas. Qualquer tiozinho de barba desgrenhada e boné vira imediatamente um suspeito e a turba sai revistando esses tiozinhos, querendo arrebentar com qualquer cambista (ou qualquer um que se parecesse com um). Dessa vez a polícia só conversa. A TV ainda chega a tempo de filmar um cambista levando um direto no queixo e outro sendo chutado no chão por dezenas de corinthianos. Não sinto mais vontade de fazer xixi. Decido comprar uma cerveja. Duas horas. Já havia atingido meu limite. Fui almoçar no bar/restaurante ao lado do Museu do Futebol, ali pertinho. Que caro! 11 reais por um sanduíche “natural”. Um grupo de chorinho entretia os clientes. Estava um belo dia. Ao longe, ainda se ouvia gritos de torcida, mulher chorando pedindo ingresso, essas coisas. Depois de comer, ainda passei perto do muro onde eu fiquei, inutilmente, escorado durante mais de 5 horas naquele dia. Dentre os torcedores que havia conhecido, ainda restavam uns corajosos acreditando (o sonho não acabou). Fiquei quase o dia inteiro lá, em pé, embaixo de sol, à toa. Eu e mais 8 mil pessoas tivemos uma boa lição. Daqui 5 anos a gente tem uma Copa do Mundo aqui.
Escrito por Álvaro às 17h30
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Coisa pra Macho Um relacionamento só dura enquanto o homem quer. Não estou falando de longos processos de divórcio que se arrastam por anos que, em geral, são as mulheres que solicitam. Também não estou me referindo àqueles relacionamentos que se prolongam desmedidamente, sem que nenhum dos dois esteja satisfeito. Estes também são interrompidos, na maioria das vezes, pelas mulheres. Sem contar que o vínculo propriamente dito já se perdeu em algum tempo lá atrás, ou seja, a separação dos corpos não coincide com o término do romance. Penso que sempre será a vontade do homem que determinará o futuro de um casal. E isso já ocorre desde o momento em que ambos estão solteiros. Se ele não correr atrás, não acontece nada. Mulheres são cortejadas. Homens cortejam. Isso é da natureza do ser humano. Se o cara tá afim de conquistar determinada mulher, irá batalhar por ela, fará de tudo pra chamar sua atenção. À mulher, resta avaliar e decidir se vale a pena. Nenhum dos lados é melhor nem pior que o outro, apenas funcionam assim. Mesmo uma mulher que, de início, se demonstre desinteressada, pode acabar se interessando por um cara que demonstre empenho em sua conquista. Ele foi à luta, enviou flores, mandou torpedos, escreveu poéticos e egraçados. Quando saíram, ele foi simpático, engraçado e prestativo, na medida certa. Teve até uma vez que ele deu pra ela um MP3 player, com uma só música, aquela que seria “a nossa música”. Mas isso é só a fase da conquista. Para que o romance perdure, é preciso que o cara insista. Uma palavra mais exaltada, um ataque de ciúmes, uma manha, isso é natural e recorrente. Basta ter jogo de cintura e uma caixa de bombons à mão para contornar esses problemas. Porém, as responsabilidades aumentam e as diferenças se evidenciam com o decorrer do tempo; a vontade de permanecer junto deve crescer na mesma proporção. Logo, logo, ela estará sonhando com mais atenção, mais segurança, estabilidade, um cachorro e um apartamento de 3 quartos. Com sacada, closet e uma suíte. Ele não precisa dar tudo a ela. Mas tem que demonstrar que está disposto a fazer de tudo para que um dia ela tenha tudo que merece. Não deu pra conhecer Cancún, mas aquela pousada na Serra Gaúcha foi muito legal. A idéia é essa. No começo, ela podia não estar muito afim, achou ele meio nada a ver, mas se sensibilizou com o empenho daquele sujeito para lhe conquistar. Ao longo dos anos, foi descobrindo suas forças, sua aplicação, seu jeito obstinado de fazer o melhor, a dedicação às coisas que importavam e o desapego àquilo que não faria diferença. Chorou assistindo “Marley & Eu”, mas é um homem confiável e seguro. Viril, no fim das contas. Passou anos ao seu lado sem morrer de amores por ele, mas já não saberia mais como deixá-lo. Se apaixonou profundamente sem ter se dado conta. Vejamos agora a situação inversa. Precisamos voltar lá atrás. Ambos estão solteiros. A mulher se interessa e o cidadão mal nota que ela existe. O que a mulher pode fazer pro cara? Já na hora da conquista, existem poucas armas. Ela irá fazer o quê? Talvez colocar um belo vestido, com um decote mais ousado, mais um perfume gostoso. Se ele não gostou do que viu antes (um sorriso torto, uma pinta fora do lugar, mãos grandes, qualquer coisa), nada disso irá adiantar. Suponha que ele tenha gostado. Namoram. Passou algum tempo. Ele não tá mais naquela fissura. Nunca esteve, na verdade. Houve desgaste. Ficou cansado, com todas aquelas responsabilidades. Agora, é casar ou se separar. Gosta dela? Gosta, mas... tá de saco cheio. O que ela pode fazer? Nada. E o vestido? O decote? Nada. E se ela for super legal, deixá-lo sair com os amigos, comprar o DVD do Batman (que ele não conseguiu ver no cinema) pra assistir no domingo? E se ela comprar cerveja, costurar o meião que ele usa quando joga bola e preparar um bolo de chocolate? Gratidão é diferente de amor. E se, além de tudo isso, ela ainda espera ele com um bom pernil no forno e sintoniza a TV da sala no Super Bowl? Amizade é diferente de amor. E se ela veste aquele baby-doll que ele adora, faz francesinha nas unhas e coloca o perfume que ele lhe deu no último aniversário? Tesão é diferente de amor. Pelo que dizem, esses sentimentos (tesão, amor, gratidão, amizade) são indissociáveis para as mulheres quando o assunto é seu par romântico. Mesmo que não haja o ímpeto inicial da paixão, constrói-se uma relação com uma mulher adquirindo-se a sua confiança. Passo-a-passo estabelecem-se os demais sentimentos no casal, o coração da mulher é arrebatado de vez, o homem cultiva esse amor e o relacionamento perdura. Os homens, por sua vez, lidam bem com tais emoções de forma separada. Não é porque um homem aprecia a companhia de uma mulher que ele irá se apaixonar por ela. Tampouco o enlouquecerá de paixão aquela que lhe faz maravilhas na cama, não necessariamente. E nada garante que ela sendo super boazinha irá despertar sentimentos mais nobres em seu peito. A afeição nasce no coração dos homens logo no contato inicial. Ele pode não saber de cara de quem ele gosta, mas sempre terá absoluta certeza daquilo que não gosta já no primeiro olhar. Se isso irá se desenvolver ou não, dependerá de eventual aproximação que porventura tiverem. O amor puro, original, é um sentimento genuinamente masculino, portanto. Logo, o desenvolvimento da afetividade entre homem e mulher dependerá do equilíbrio sentimental dele. Isso o faz ser bastante egoísta. Ou seja, a responsabilidade sempre cairá em suas costas. Isso não é um fardo, nem um privilégio, apenas uma constatação. Em resumo, uma mulher pode ser conquistada. Um homem, não. A mulher associa ao amor diversos sentimentos que nutre em relação ao seu companheiro. Um homem encara cada um deles por vez. Seria essa a razão de tantos desencontros?
Escrito por Álvaro às 17h38
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Acabou a brincadeira Suponha um jovem casal, formado por duas pessoas que estejam lá pelos 20 e poucos anos, ambos recém-formados, ou já na reta final da faculdade, vivendo aquela fase de não querer mais morar com os pais, mas ainda sem grana suficiente para bancar uma casa. Ambos estão em início de carreira, ainda desempenhando atividades de baixa ou nenhuma remuneração. Um estágio, um treinamento, uma bolsa de estudos, às vezes nem isso. O caminho óbvio para o casal é juntar forças para ajeitar um cantinho próprio e conquistar a tão sonhada liberdade. Procuram alugar um apartamento de dimensões modestas, preços módicos, de preferência em algum lugar pertinho do trabalho e/ou da faculdade, com alguma oferta de compras e diversão na vizinhança.
O prédio é velhinho, meio zoado, mas o zelador é gente boa e, olha!, a padaria da esquina entrega leite na portaria. A casa é pequena, o dinheiro é curto, perde-se pouco tempo entre os locais de serviço, lazer e moradia, quase não há o que administrar além do amor que cada um nutre pelo outro.
Ela cozinha, ele lava, eventualmente trocam de tarefas e se divertem ensinando ao outro as suas especialidades. A grande diversão, aliás, é o convívio mútuo, o aprendizado que cada um tem ao dividir o espaço com o outro, passeios no shopping e shows de rock tornam-se secundários. E, mesmo que fossem prioritários, não há dinheiro mesmo... o jeito é se adaptar. Adaptação! Eis a palavra-chave.
Aos 20 e poucos anos é fácil se adaptar. Você já vem de um longo processo de adaptação, que se iniciou lá nos seus 12-13 anos, quando seu corpo passou por transformações tão profundas, capazes de assustar até você mesmo, sendo que durante esse meio-tempo, ainda teve as equações de 1º e 2º graus, o primeiro beijo, a prova de Genética, o encontro com a vida noturna, a tabela periódica, a descoberta da ressaca, o vestibular, novos amigos, novas normas, novas regras, novos conceitos, novas concepções de vida, enfim. Logo após a faculdade, a característica mais notável em qualquer pessoa é a sua adaptabilidade e a maneira como ela foi desenvolvida.
No entanto, a vida coloca essa capacidade a toda prova logo depois dessa fase de inúmeras e impactantes transformações. Será quando você tiver que se conformar com a volta à rotina, à permanência dos compromissos e à imutabilidade das responsabilidades – tal qual verificava-se durante a infância, ainda na casa dos pais. O ponto de inflexão ocorre quando o casal ultrapassa os primeiros obstáculos, satisfaz seus desejos iniciais e começa a cultivar novos sonhos. Um carro novo, um apartamento maior, um jantar refinado, uma viagem ao exterior, um filho. O tempo ainda não é escasso, mas já não abunda quanto antes. Os dois já estão cumprindo jornada integral fora de casa, chegam em casa exaustos à noite, as risadas começam a rarear, passam a se curtir só nos finais de semana – isso quando não precisam visitar os parentes ou amigos que os intimaram para um churrasco de domingo à tarde. “A conta de luz subiu. O cartão de crédito estourou quando você comprou aqueles sapatos novos. Quem mandou querer trocar o carro? Aumente o limite do cheque especial, então. E meu curso, quem que paga? Eu sabia que era pra ter comprado aquela caixa de CDs quando eu tive oportunidade.” Os dias se tornam mais longos. O trabalho, além de cansativo, lhes obriga a conviver com pessoas medíocres. “Chegando em casa, quero tomar banho, tomar uma aspirina e ir direto pra cama.” Dão duro o mês inteiro, pagam as contas. Sobrou pouco. “Nossa, faz tempo que não vamos ao cinema. Eu deveria ter investido em ações”. Acabou a graça. A paciência se esgotou. Ambos têm quase 30 anos agora, possuem dois carros, uma poodle e financiaram um apartamento de 100 m² por 15 anos. Adaptabilidade, tolerância, serenidade, imaginação, criatividade. Tudo se esgotou no transcorrer de meia década, apenas. A tendência é piorar. Um projeto em comum é capaz de uni-los novamente. Um filho, talvez. Ele pediu demissão. Não suportava mais o cara da contabilidade que ganhava o dobro, mas que não sabia pronunciar “Shakespeare”. Ela quase bate nele, se contém, mas dorme aquela noite no sofá, com a poodle no colo. Ele não quer acordá-la. Tá com saudade. E remorso. Mas pensa: “por hoje chega”.
Uma semana depois, e ela ainda é lacônica com ele. “Voltarei a estudar”, ele fala. No primeiro mês vendem o carro novo. Depois as bicicletas e o anel que o pai dela lhe deu na formatura. Por fim, até aquele casaco horrível comprado numa noite gelada em Curitiba foi parar no brechó. No mês em que o condomínio atrasou, ele foi convocado pro novo emprego. “Agora vai”, ele pensou. Os empréstimos contraídos para pagar os livros e apostilas corroem ainda boa parte do salário. Mas já não pesam tanto. E o melhor de tudo: acabam em setembro. Mesmo assim, ela ainda acha ele pouco responsável. Não se sente plenamente segura ao seu lado. Antigamente, havia até um quê de engraçado o fato deles não poderem ter ido naquela festa de música eletrônica, pois os ingresssos custavam 80 reais, e eles acabaram passando o sábado assistindo "Lost" e fritando bolinhos de chuva - ela contava isso às amigas solteiras e dava risada. Mas agora ela vê no extrato que só tem 200 reais até o fim do mês, acha pouco, tem medo de acontecer alguma coisa e precisar de mais. E se arrepende de não ter comprado aquela blusinha em oferta. Não tem mais graça nenhuma. Acabou a brincadeira. O que os faz permanecerem juntos? Adivinhe. Ao invés do jovem casal, imagine agora um cara de quase 30 anos recém-casado com uma mulher mais velha, divorciada e com duas filhas. Eleve tudo ao cubo.
Escrito por Álvaro às 17h37
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Solta o som Que me perdoem as outras formas de arte, mas a música é, sem dúvida, a mais tocante criação humana. Confesso que ainda não explorei devidamente a arte em todos os seus gêneros e subdivisões. Artes plásticas, por exemplo, é algo que eu ignoro solenemente. Embora eu já tenha visto algumas mostras sensacionais de artes visuais, ainda me falta um bom caminho a percorrer nesse campo. Porém, é fato que, de todas as manifestações artísticas com as quais eu tive contato, a música é a que vai mais além. E, pelo jeito, não sou o único a ter essa impressão. Vi certa vez uma frase bastante precisa a esse respeito, algo como “a música é a única forma de arte que não lhe pede licença para tocar a alma”. Brilhante. Não quer ver um quadro? Feche ou desvie os olhos. Agora, evitar que uma música chegue ao seu cérebro é mais complicado, gostando ou não. Eu sou um curioso pela arte, com todas as suas manifestações e formas, tanto as mais antigas quanto as que surgiram e se consolidaram com o passar do fantástico século XX. Sempre que tenho alguma oportunidade de experimentar uma nova sensação propiciada pela arte, me jogo de cabeça sem o menor receio e tento curtir ao máximo as diferentes sensações. Durante alguma peça teatral, por exemplo, me arrepio diante de uma boa atuação, conjugada a um texto forte e uma encenação bem feita. Por outro lado, uma bela apresentação de dança facilmente me leva às lágrimas. Um livro emocionante e inteligente, por sua vez, pode me deixar em estado de choque durante e após a leitura. Filmes me fazem viver e sonhar com sensações que me são distantes, muitas vezes inalcançáveis. Já um vídeo-game me hipnotiza por horas, me faz esquecer o mundo lá fora. Por fim, os quadrinhos, que me entretiveram, educaram e forjaram a minha personalidade. Daí, vem a música, uma arte capaz de aglutinar todas essas emoções ao mesmo tempo, em uma breve execução de 4 a 6 minutos. Um déja vu bastante atual: pessoas que, ao se descreverem, dizem que “vivem por música”. O mais curioso disso é que ninguém aparenta ser fake por dizer isso, pois, de fato, por mais clichê que tal afirmação possa ser, é a mais pura verdade. Todos amam música. As vertentes admiradas são as mais diversas, mas todo mundo gosta de passar momentos de seu dia-a-dia ouvindo música, de modo a tornar esses períodos, por menores e exíguos que sejam, mais agradáveis. As facilidades trazidas pela popularização e constante aperfeiçoamento dos aparelhos sonoros portáteis foi um catalisador desse consumo voraz de música nas últimas décadas. Embora na década de 80 ainda causasse alguma estranheza ver pessoas, principalmente de meia-idade, usufruindo seus walkmen, nos anos 90 esse desconforto foi se dissipando e os discmen foram se multiplicando junto à população. Passado o ano 2000, com a massificação do MP3, ver gente portando fones de ouvido se tornou tão banal quanto ver pessoas de óculos. A música chegou a ocupar um espaço tamanho que hoje em dia eu já acho esquisito entrar em um carro e notar que não há um aparelho de som ou se este encontra-se desligado. Não consigo conceber como seria viver em outras épocas, quando o acesso à música era mais escasso ou mesmo inexistente. Sim, a música é uma arte recente e a tecnologia necessária para armazená-la (discos, fitas, CDs, MP3, nada disso existia há menos de um século) é mais recente ainda. Imagino que as pessoas conseguiam (conseguiam?) tocar as suas vidas sem toda essa necessidade de escutar um sonzinho durante as tarefas diárias ou seus momentos de lazer. Voltando ao início do raciocínio, quando foi dito que a música é uma arte tocante, profunda e até inevitável. Essa relação do homem com a música se revelou uma força-motriz capaz de trazer à tona uma completa inversão do que se entendia até pouco tempo no que diz respeito ao contato da humanidade com as artes em geral. Se nas demais formas de arte os artistas são seres venerados e a apreciação das artes se confunde com uma espécie de ritual, a música, por sua vez, aproxima artista e público de uma forma a confundir, muitas vezes, a razão e os sentimentos da platéia. Existem casos e mais casos de fãs que estabelecem um vínculo com seus músicos favoritos que beira o doentio. Isso foi algo inerente ao surgimento da música pop e perdura até hoje. É algo que jamais outra forma de arte qualquer chegou perto de alcançar. Por mais que existam fãs alucinadas pelos galãs do cinema norte-americano, Hollywood nunca foi capaz de provocar uma comoção social tão grande quanto os Beatles (que chegaram ao ponto de não poder mais fazer shows em estádios, pois os gritos histéricos de suas fãs abafavam o som dos instrumentos), só para ficar no exemplo mais óbvio. Há ainda a questão de parte do público simplesmente se apropriar do produto do artista. Há poucos anos atrás começaram a proliferar sites que compartilhavam músicas em formato digital. No início, a indústria musical tentou vetar a difusão dos programas de compartilhamento de arquivos musicais na rede. Dada a pulverização e a capilaridade de tais ferramentas, constatou-se a impossibilidade de conter tal movimento. Muitos músicos contemporâneos, já forjados nesse ambiente de franca disponibilidade de músicas na internet, procuram conviver de forma pacífica com esse fenômeno. Porém, o modo como irão tirar o seu sustento através de sua arte permanece uma incógnita. Enfim, a compulsão do ser humano pela música vem se mostrando tão curiosa quanto violenta e transformadora. Me pergunto se algum dia a humanidade se desencantará, perderá esse fascínio que mantém em relação à música. Aliás, melhor nem tentar imaginar como será esse dia. Prefiro curtir uma bela canção da melhor maneira possível: num quarto escuro, com as portas fechadas e o aparelho de som no volume mais alto possível antes de atingir o limite do insuportável. Aliás, curioso isso: mesmo ouvindo música o dia inteiro, enquanto desempenhamos as nossas tarefa do dia-a-dia, o momento de maior prazer com a música é justamente quando ela nos permite sair da rotina - pode ser num mega-show ou em casa, curtindo cada acorde, prestando atenção no arranjos e descobrindo novos instrumentos, "escondidos" na melodia, da maneira mais prosaica possível.
Escrito por Álvaro às 23h33
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Juventude Transviada Nas duas décadas anteriores à minha (nasci em 1980), houveram numerosas transformações de comportamento que forjaram a sociedade ocidental tal qual conhecemos. No Brasil, em particular, as mudanças no visual foram as mais impactantes, chegando até mesmo a confundir os incautos. Onde faltava pudor na estética, sobrava provincianismo no trato entre as pessoas. Algo bastante perceptível na relação do brasileiro com o sexo, onde insinua-se muito, mas realiza-se pouco. Embora as alterações no modo de se apresentar tenham sido chocantes, a liberdade no que se refere ao agir e fazer é bem menos empolgante. A timidez, o sentimento de culpa e o medo do julgamento de outrem ainda fazem parte da rotina – guardadas as devidas proporções, segue-se o mesmo padrão de meados do século XX. No último sábado teve uma festinha adolescente em um sobrado perto de casa. As meninas estavam dançando ao som de um desses “pancadões” provenientes dos morros cariocas, sempre repletos de palavras maliciosas e provocantes. Pois bem, estavam todas lá, na calçada, de frente pro sobrado, com seus 15 aninhos, já trajando calças de cintura baixíssima, saltos altos, tops curtinhos e cabelos esvoaçantes, cada uma tentando caprichar na dança e nos movimentos sensuais mais do que a colega ao lado. Os meninos, por sua vez, também na faixa dos 15 anos recém-completos, concentravam-se na parte de cima da residência, todos se esforçando pra parecerem másculos, bebendo bastante, alguns fumando, empostando a voz e tentando gesticular da forma mais expansiva possível sem desmunhecar. Não é muito fácil. Digo por experiência própria. Meninos de um lado. Meninas de outro. Eles no primeiro andar, elas no térreo. Cada um tentando parecer mais do que é, querendo chamar a atenção de todos para se destacar de seus pares e, quem sabe, atrair o sexo oposto. Salvo algumas exceções, meninas cansadas, com os pés em frangalhos, e meninos bêbados, sem a consciência quanto à ressaca que os aguarda, terminam a noite ainda mais separados do que no início da festa. O sono, a cerveja e o cansaço passam a confundir o raciocínio. A probabilidade de rolar alguma coisa já não parece tão alta quanto parecia no começo da noite. Saí da adolescência há mais de uma década. Pouca coisa mudou de lá pra cá.
Escrito por Álvaro às 13h00
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Não gosto, não quero gostar e tenho raiva de quem gosta
Não entendi esse bafafá todo em cima do filme “Sete Vidas”, estrelado por Will Smith e Rosario Dawson. A crítica se derreteu toda, falando que é um filme ultra-sensível, emocionante, comovente. “Pode levar o lencinho pro cinema”, alertava a “Veja”. Alguém que já tinha visto me avisou que, de fato, todo mundo saía do cinema chorando ao final da película. A mim, o filme só deu sono. Muito sono. Não me tomem como um monstro gélido com coração de pedra. Um filme bacaninha como “Marley e Eu”, por exemplo, foi capaz de me levar às lágrimas sem muito esforço. Agora, “Sete Vidas”... francamente... Eu achei esquisito. Interpretações forçadas do casal protagonista. Um ritmo lerdo demais. Nada pode ser mais clichê que a cena inicial, mostrando o personagem principal nadando, com a câmera lhe focalizando por baixo, à contra-luz, e a narração levemente embargada, reflexiva, falando coisas sobre aproveitar cada segundo e as pequenas coisas da vida, sons de pássaros e das ondas do mar ao fundo. A sensação de déja vu é inevitável e se repete ao longo do filme por várias vezes, além do tolerável. Enfim, não sei que graça viram nesse filme. Esse episódio me lembrou de outra coisa que, à época que surgiu, também foi considerado um tremendo fenômeno, adquiriu uma aura cult e tudo mais. Me refiro à banda britânica Radiohead: guitarrinhas ardidas, gemidos de um vocalista desafinado posando de depressivo e letras que hoje em dia seriam facilmente rotuladas como emo. Bem chatinho mesmo. Pensando bem, não são poucas as coisas que me desagradam, mas que fazem a alegria da esmagadora maioria (ou que pelo menos são apreciadas por parcelas importantes do meu círculo social, como o caso do Radiohead). Me lembro que, quando adolescente, dizia à minha mãe: “não sou brasileiro; não gosto de loira, nem de verão, nem de praia, não ligo muito pra carnaval, detesto ficar no campo e não suporto calor”. Aliás, outra coisa que atesta essa minha inépcia à brasilidade é minha relação com o café. Tipo, eu até tomo café. Pra espantar o sono. Só. Já ouvi dizer que brasileiro, ao contrário do que pensa, não sabe tomar café, que além de contar com um produto de qualidade inferior em seus supermercados, não sabe prepará-lo de maneira adequada. Bem, não sei que raios possa ser tão diferente assim em outros países, mas me lembro de uma passagem do lendário mangá “Dragon Ball”, escrito por um japonês (ah! jura??), em que o protagonista, o garoto Goku, toma café pela primeira vez, já com 12 anos de idade, e suas impressões se resumem à frase “essa sopa tá quente e amarga, blearght”. Ou seja, mesmo em outras paradas, a impressão causada pelo café é a mesma. Minha conclusão disso é que as pessoas, a maior parte delas pelo menos, se acostumam com o amargor do café desde a tenra infância e, desse modo, conseguem apreciar outras sensações que a bebida desperta em seus paladares. Por outro lado, isso não obscurece o fato de que o café é um troço ruim pra danar. Vê-lo sendo consumido tão vorazmente continua sendo um mistério pra mim; bebem por inércia, talvez. A propósito, o cheiro do café sendo preparado é delicioso – opinião compartilhada por outras pessoas que, como eu, não gostam do sabor café (sim, descobri que não sou o único). Toda essa conversa sobre cheiros e paladares me deu fome. Supondo que eu esteja em um shopping, dou uma olhada na praça de alimentação e vejo o que tem pra comer. Indeciso? Observo o que a maioria das pessoas pedem. Tirando os mais óbvios fast foods, me surpreendo ao ver que um contingente considerável se aglomera diante de uma lanchonete especializada em batatas recheadas. Olha, vou contar um segredo: nunca compre batata recheada; não existe na face da terra engodo maior do que aquilo. Tentei comer esse troço duas vezes e me arrependi amargamente (pois é, fui suficientemente burro a ponto de não ter aprendido com a primeira vez, ou seja, fui ludibriado em duas ocasiões). É ridículo. E todos (todos!) os lugares que vendem batatas recheadas seguem o mesmo padrão. A tal batata vem sempre servida entreaberta, coberta por um molho espesso, terrível e desumanamente quente, que parece que não esfriará antes da próxima era glacial. Diante da fome, ninguém quer ficar esperando muito o bendito molho esfriar e vai lá e saca uma garfada. O sujeito, lógico, queima a boca e toma um gole de refrigerante pra aliviar a dor. Convencido de que o negócio está, de fato, muito quente, o cristão se põe a assoprar a parte de cima da batata. E assopra e assopra e assopra e assopra. E assopra. Já cansado de tanto assoprar, dá mais uma garfada junto ao molho e leva à boca. Se queima de novo e toma outro gole do refrigerante. Nesse momento, a pessoa tem duas opções: se levantar e ir embora (a mais certa) ou continuar brigando com a batata e tentar devorá-la na marra. Após alguns minutos assoprando, se queimando e engolindo às pressas, óbvio que a pessoa já nem tá sentindo gosto algum – no máximo sente o sabor do refrigerante aliviando as queimaduras bucais. A partir desse ponto, o sujeito percebe que a batata, tão esplendorosamente recheada no cartaz da lanchonete, na verdade, contem só alguns gramas de molho escaldante em sua cobertura e que depois de tentar comer o tal molho com alguns milímetros de batata (já com a boca devidamente queimada e as papilas gustativas dormentes), já não resta mais nada a não ser uma batata com aspecto de velha, sem gosto de nada, meio crua por dentro. O que mais me chamou a atenção nessa cruzada toda foi reparar que um sem-número de casais formavam a grande maioria das filas presentes diante dessa lanchonete. Como assim? O sujeito leva a mulher dele pra um lugar desses? Não é possível que todos ali estejam indo pela primeira vez experimentar batata recheada. Muitos devem estar lá pela segunda, terceira, quarta vez, de modo que resta a pergunta: quem é o sádico e quem é o masoquista nessa história? Bem, acho que já me fiz entender: se nunca comeu batata recheada, caia fora; se já caiu nessa arapuca, bem-vindo ao clube dos trouxas; você gosta de batata recheada? mantenha distância, tenho medo de loucos.
Escrito por Álvaro às 13h39
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Paulistânia Não são poucos os que decretam a cidade de São Paulo como uma monstruosidade. A paisagem é feia, há sujeira por todos os lados, pessoas abandonadas na rua, céu acinzentado, prédios degradados e a pressa do dia-a-dia parece que ainda piora a sensação de desagrado que a estética da cidade impõe às nossas vistas. Vou logo avisando, não faço parte desse time. Mesmo antes de morar aqui, sempre gostei muito do visual de São Paulo. O gigantismo das construções, as linhas retas, as luzes fortes da noite, tudo isso me fascina desde a minha tenra infância. Pode me chamar de maluco, mas me traz uma sensação agradável o horizonte formado por prédios. Praias desertas, campos floridos, o verde da montanha? Nunca me interessaram. As maneiras encontradas pelo homem para moldar a natureza sempre me encantaram muito mais. Depois de me mudar pra esta cidade, passei a me interessar ainda mais pela sua arquitetura. E vi que um prestigiado escritor, Ignácio de Loyola Brandão, que, como eu, também é nascido em Araraquara, também emigrado para São Paulo, ao vir do interior paulista para a capital ficou igualmente fascinado com a beleza do centro e a elegância dos bairros antigos, sentimento que o fez redigir belas homenagens à Paulicéia, mesmo quando se preocupou, sabiamente, em apontar seus defeitos - cujo aparecimento se deveu exclusivamente por conta de um lamentável descaso de boa parte da população e, em conseqüência, a omissão dos políticos. De todo modo, tal qual meu nobre conterrâneo, as formas monumentais que caracterizam o Vale do Anhangabaú e todo o seu entorno, desde a Catedral da Sé até o Arouche, passando pelo Largo São Francisco, Edifício Itália, Viaduto do Chá, as musicalmente inesquecíveis Ipiranga e São João, o Teatro Municipal, Edifício Martinelli, Praça da República, Copan, Centro Cultural do Banco do Brasil, Biblioteca Mário de Andrade, Santa Ifigênia, Palácio da Justiça, São Bento, Pátio do Colégio, Mirante do Vale, etc., etc., etc., tudo isso me causou um agradável estarrecimento quando pude ver tudo isso ao vivo e pausadamente. E, exatamente igual ao Ignácio de Loyola, fiquei profundamente chateado por saber que essa cidade já teve tanto estilo e não soube utilizar, cultivar ou ao menos manter isso de forma eficiente. O que dizer de um lugar bonito, repleto de belas obras de arte, praças e jardins públicos, de fácil acesso a todos os cantos da cidade, rodeado de edifícios com elegantes coberturas, escritórios e repartições públicas importantes e com diversos pontos de referência como o Mercado Municipal e o Palácio das Indústrias? E o que dizer de um lugar assim ter sido tristemente ignorado por praticamente toda a opinião pública, a ponto de ter sido infestado por lixões clandestinos, prostíbulos, pontos de venda e consumo de drogas, mendigos e toda sorte de meliantes? Ver um lugar como o Parque Dom Pedro II ser tão estupidamente degradado, muito mais do que me causar tristeza, repulsa ou revolta, me fixou na cabeça, simplesmente, a pergunta: por quê? Mas nem só de seu centro antigo vive a capital paulista. Existe um sem-número de bairros confortáveis e bem-acabados na cidade. Nem sempre primam pela disponibilidade de transporte público confiável (o que torna seus moradores reféns do trânsito pavoroso que corrói o tempo do paulistano em geral), mas existem boas opções para quase todos os bolsos e gostos, basta procurar bastante. Aliás, procurar bastante é algo recorrente em São Paulo. Aqui tem de tudo? Sim, tem de tudo. Onde? Bem... aí é que são elas. Mesmo morando aqui em plena era da internet, ainda apanho bastante pra achar tudo que eu quero. O que é facilmente encontrável em apenas uma ou duas ruas em uma cidade interiorana de porte médio, em São Paulo tudo fica, muitas vezes, em uma distância desanimadora. Precisa de eletrodomésticos? Vá à Santa Cecília. Material pra escritório? Vá até a região da Luz. Roupas? Brás, Bom Retiro, Oscar Freire, à escolha do cliente. Vamos relaxar e comer uma boa pizza tipicamente paulistana? Fácil, basta ir até o Bixiga ou à Mooca. Haja disposição e tempo livre... não é fácil se acostumar... Foi exatamente esse aspecto que me desapontou muito em São Paulo. Tudo muito longe. Chega a me dar desespero perder duas ou três horas pra comprar um simples par de tênis. E nem sempre se pode dizer que o número maior de opções de modelos se reflete em um efetivo aumento no poder de escolha - afinal, um número maior de alternativas não significa necessariamente uma qualidade maior nas amostras disponíveis. É por essas e por outras que já houve fanfarrões que chegaram a levantar propostas, seriamente, no sentido de transformar outros municípios, como Bauru, em capital do Estado. Nada contra Bauru, uma bela cidade. Mas um Estado com a pujança de São Paulo precisa de uma capital adequada à enormidade de seus números. Me parece mais razoável melhorarmos o que já temos, e não construir toda uma estrutura gigantesca a partir do zero. De todo modo, cada vez mais entendo quem não gosta de São Paulo. Os morros apinhados de construções irregulares, com seu aspecto de caixas de sapato empilhadas umas sobre as outras, de fato causa aborrecimentos à vista. A imensa quantidade de sem-tetos, igualmente, aflige qualquer pessoa - seja pelo medo, pela ira ou pela compaixão que tal cena desperta. O ritmo apressado causado pelas distâncias enormes, certamente, traz como conseqüência imediata o stress. E a sensação constante de estar à deriva, em meio a um mar de caos, também não é das mais agradáveis. A solidão? Ah, a solidão... uma moça, coincidentemente araraquarense e também refugiada na Paulicéia Desvairada - tal qual o escriba que rabisca toscamente essas linhas e o nosso caro Ignácio de Loyola Brandão, citado logo acima - com quem conversei por ocasião de minha mudança pra cá me disse que a solidão que se sente aqui por essas bandas é a pior que qualquer um jamais sentiu. Dou 100% de razão a ela. Deve se levar em consideração, contudo, que a cidade de São Paulo não é só mazelas. Muito embora a capital paulista seja o oposto do restante do Brasil, uma característica que mostra São Paulo como uma cidade tipicamente brasileira é o fato de seus moradores serem exageradamente pessimistas em relação ao lugar onde vivem. Claro que uma dose razoável de auto-crítica é fundamental para que não nos tornemos um festival de bobos-alegres contemplativos e inoperantes. O problema é que ao darmos ênfase somente aos defeitos, acabamos por não criar raízes junto ao lugar onde moramos. Isso redunda em descaso e falta de compromisso. Acabamos por não nos sentirmos obrigados a preservar e melhorar a nossa cidade. Basta ver nossos rios, um baluarte da estupidez e cegueira paulistanas que já dura décadas. Não é difícil citar exemplos de estrangeiros que sabem notar o valor inerente a uma cidade como São Paulo. Porém, ao invés de ficarmos lisonjeados por conta do reconhecimento, imediatamente encaramos o elogio de um forasteiro como uma mentirinha pra fazer média com o povão. Um exemplo perfeito do que estou falando se resume nessa entrevista concedida por um assessor do presidente dos Estados Unidos Barack Obama ao jornal "O Estado de S. Paulo", onde o repórter parece simplesmente não acreditar no entrevistado quando este lista as qualidades da Paulicéia, mesmo quando ele fundamenta toda a sua argumentação em qualidades inequivocamente presentes em nossa cidade. (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081117/not_imp278742,0.php) Torço pelo futuro de São Paulo. Porém, é revelador o fato de que durante as últimas campanhas pela prefeitura da cidade nem sequer foram debatidos temas como o melhor aproveitamento do potencial turístico, habitacional e empreendedor de áreas da cidade que já foram nobres, vibrantes e inspiradoras e hoje padecem estéreis e degradadas (como boa parte da região da Bela Vista) num injustificável ostracismo. Isso me desanima um pouco.
Escrito por Álvaro às 14h05
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Mulherzinha No machismo contemporâneo existe uma máxima que diz: "Quem gosta de homem é viado, mulher gosta mesmo é de dinheiro". O que me espantou um pouco ao entrar na vida adulta foi ver que as próprias mulheres, mesmo quando munidas dos mais diversos eufemismos, compactuam firmemente com esse pensamento. Durante a minha solteirice, eu jamais perdia a oportunidade de ler alguma revista feminina que caísse na minha mão. Ainda na adolescência, me lembro de ter visto uma matéria extensa na revista "Nova" que tentava (e conseguia, diga-se) destrinchar os dilemas que a mulher urbana enfrentava na virada do século XX para o XXI. Era uma matéria interessante, onde as diversas filiais da revista, que abrange uma porção de países, abordavam, sob o ponto de vista local, as aspirações da mulher moderna. A editora da edição espanhola foi, dentre todas, a mais contundente. Segundo ela, a mulher contemporânea estava atrás de um companheiro que a estimulasse em sua carreira profissional ao mesmo tempo em que fosse viril, romântico, sedutor e bem sucedido financeiramente. O problema, nas palavras da editora, é que esse homem "não existe". "Ah, mas isso é óbvio", dirão os mais apressados. Mas não é bem assim. O que posso dizer, com base nas minhas observações, é que na vida real, de verdade, essa assertiva não é nem um pouco óbvia para a grande maioria das mulheres. Tanto é verdade que nas considerações feitas pelas demais editorias da revista ao redor do mundo o pensamento mais repetido é que as mulheres queriam um companheiro que lhes trouxesse "segurança", dando-lhes maior "liberdade" para suas escolhas. Como para bom entendedor, meia palavra basta, a sensação que eu tive é que as mulheres simplesmente se contentaram com a posição de esperar alguém que lhes banque, mesmo 40 anos após todo o esforço que o movimento feminista despendeu na luta pela conquista dos direitos civis a elas. O alerta estava dado. Porém, eu, em toda a minha inocência, ainda via condições de superar essa barreira. Afinal, eu conhecia muitas garotas que, embora tivesses famílias ricas, namoravam sujeitos de classe média, e que esses caras eram bem aceitos nas casas de suas namoradas. Isso, ao meu ver, representaria uma nova era de relacionamentos humanos, onde um casal seria formado por uma soma de dois profissionais competentes, sem haver distinção entre o homem ou a mulher no que tange aos ganhos financeiros de cada um. Quem ganha mais? Poderia ser ele, poderia ser ela, tanto faz, não importaria mais, já que ambos teriam chances iguais no mercado de trabalho. Dito de outro modo, a renda somada dos dois seria a base financeira do casal. Claro, eu não poderia estar mais enganado. O problema é que isso me fez perder muito tempo, na vã esperança de encontrar alguém que se adequasse a essa minha maneira de pensar. Afinal, eu assistia na TV "Friends", "Seinfeld", "Sex and the City", seriados cheios de novaiorquinas independentes e bem-sucedidas e jurei pra mim mesmo que bastava eu encontrar alguém com aquele espírito pras coisas darem certo pra mim. Eu nunca curti muito as profissões mais tradicionais, naquelas onde não é exatamente fácil ganhar dinheiro, mas sabe-se que com algum empenho qualquer pessoa conquista um padrão de renda bastante significativo. Estou falando das clássicas áreas ligadas a engenharia, medicina e direito e também daquelas mais recentes, associadas às finanças, ao gerenciamento empresarial e às tecnologias de informação. Um profissional que tenha se dedicado aos estudos, com vistas a adentrar e concluir uma faculdade reconhecida nessas áreas, e que depois se comprometa a trabalhar várias dezenas de horas por semana fatalmente irá alcançar razoável prosperidade econômica. Qualquer um sabe disso. O que ocorre é que nem todo mundo tem vontade ou se sente na obrigação de escolher uma dessas profissões. As pessoas que procuram outros ramos profissionais o fazem na busca de um preenchimento interior, querem uma carreira de acordo com aquilo que consideram que seja a sua vocação. O problema é que o mercado de trabalho, particularmente no Brasil, não comporta esse tipo de profissional - assunto já discorrido em outra ocasião (http://brancopreto.zip.net/arch2008-07-27_2008-08-02.html). E pra mim não tem conversa! Salvo aquele glamour que acomete os médicos, com aquela coisa de zanzar por aí vestido de branco e cuidar das pessoas, fazer o bem, salvar vidas, etc., o resto das carreiras onde se quer ganhar dinheiro é tudo trampo chato. Ninguém me convence que um corretor da bolsa morra de amores por ficar das 7 da manhã até as 10 da noite analisando mil e um balancetes, fazendo contas e lendo contratos. Ou que um juiz tenha tesão em emitir despachos, assinar milhões de documentos e seguir todo aqueles trâmites burocráticos para efetuar uma simples análise processual. São carreiras desgastantes e nada apaixonantes, a começar pelos cursos universitários necessários para ingressar em alguma delas. A única coisa legal é que se recebe uma bolada por mês - algo que implica na pouca ou nenhuma dificuldade em atrair pretendentes. Muitos homens, ao contrário do que aconteceu comigo, têm esse discernimento ainda na adolescência e já partem logo para alguma carreira que lhes garanta uma consistente ascensão social. Existem também aqueles que foram direcionados pelos pais a seguir uma área que seja considerada mais nobre e aceitam essa imposição por mera conveniência familiar. E, claro, há os que norteiam as suas vidas nesse rumo por possuírem vocação ou uma vontade genuína de seguir a carreira de médico, jurista, engenheiro, financista, executivo, tecnólogo, etc. Dois pontos. Em primeiro lugar, à exceção da área médica, esses ramos mais lucrativos e elitizados são esmagadoramente dominados por homens. Em segundo lugar, profissionais desse tipo são muito requisitados, o que reflete imediatamente na condição de obterem ganhos muito acima da média da população. Voltando à idéia inicial, de que mulheres contemporâneas dão prioridade a homens que lhes proporcione "segurança" e "liberdade" (dois belos eufemismos para os conceitos de riqueza e conforto material), eu noto que continua a haver uma delimitação muito séria no nosso mercado de trabalho, exatamente como no século passado. Há o "serviço de mulherzinha" e o "trampo pra macho". De um lado, as mulheres se sentem mais à vontade para seguir carreira em áreas mais prescindíveis (psicologia, nutrição, fisioterapia, decoração, farmacologia, recursos humanos, pedagogia, serviço social, letras, terapia ocupacional, paisagismo, etc.) em busca de uma realização subjetiva, sem que haja comprometimento em busca de uma melhor condição financeira, visto que sempre haverá alguém (o pai ou o marido) bancando a parte principal de seus gastos. De outro lado, os homens são veementemente empurrados para aquelas carreiras áridas, mas que permitem sua evolução financeira, e seguem tendo como único objetivo levar dinheiro pra casa, afim de garantir as tais "segurança" e "liberdade" à sua família. Essas condições mais duras trazem à personalidade masculina certa aspereza e algum egoísmo. Fica difícil exigir que seja afável e afetuosa uma pessoa que é programada a dedicar a maior parte da sua vida a fazer algo aborrecido com o único intuito de patrocinar os sonhos de outrem. E foi por isso que aquela editora espanhola foi tão enfática ao dizer àquelas mulheres que esperam um companheiro másculo, rico, bonito e carinhoso para que estas tirassem o cavalinho da chuva, porque isso simplesmente não é factível. Ainda que envolto em contornos modernos, o velho sonho do príncipe encantado que vem em busca de sua donzela galopando sobre um cavalo branco continua em voga. Em vez de um castelo, as mulheres atuais desejam uma carreira apaixonante, independente de sua rentabilidade, algo possível somente com alguém a sustentando desde o início. A propósito, não é à toa que dentre as carreiras mais "sérias" a medicina seja a única com um percentual relevante de mulheres ocupando um número significativo de postos de trabalho, já que é a única também a contar com um notável grau de empatia. Torço muito para que as mulheres tenham consciência de que precisam dar um passo para que superem essa barreira, sob pena de jamais virem a ocupar postos de efetiva relevância em nossa sociedade, salvo algumas poucas exceções. E clamo para chegue logo o dia em que homens e mulheres possam desenvolver carreiras que não sejam nem tão chatas para os homens e nem tão irrisórias, em termos monetários, para as mulheres. A propósito, só consegui ter alguém do meu lado quando parei de esperar por esse dia. Recomendo que façam o mesmo.
Escrito por Álvaro às 16h28
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Western
Nasci no século XX e foi nele que me acostumei a viver e ainda o tenho como referência. Sou daquelas pessoas que, ao se defrontar com a frase “século passado”, têm, de imediato, a imagem de alguma paisagem de 1800 e alguma coisa ilustrando a mente. No entanto, as minhas referências quanto ao século XX são recordações, em sua maior parte, dos meus tempos de criança. Nasci em 1980, de modo que o século XX perdura em minha memória mais pelas lembranças advindas das minhas descobertas infanto-juvenis do que pelas “grandes decisões” – estas, sim, meditadas com maior profundidade durante os últimos anos, já com os pés enfiados no outrora temido e instigante século XXI.
Uma coisa que eu acho é que quando se é criança (ou mesmo adolescente), fica mais fácil você estabelecer certos critérios de análise quando se parte de uma perspectiva de uma outra criança. Através do olhar de outras pessoas (ou personagens) com a mesma faixa etária, a assimilação dos mais variados conceitos se torna mais fluída e permanente.
O aspecto que quero expor nesse momento se refere ao ideário do herói. Aquele que todo menino tem bem claro em sua mente, em quem ele se espelha e tenta ser o mais parecido possível; aquele que todo garoto, ao se deparar com algum dilema, se pergunta: “o que ele faria se estivesse em meu lugar?”.
Pelo que percebia, lendo gibis, assistindo TV e vendo filmes, os garotos ocidentais das gerações imediatamente anteriores à minha tinham como seus heróis os cavaleiros do oeste bravio norte-americano. Sempre achei engraçado, inclusive, notar que diversos países, desde a Itália até o Brasil, produziram um contingente razoável de obras com essa temática, mesmo sem possuir em suas respectivas Histórias Oficiais uma dinâmica que sequer se assemelhava ao legendário “go west” yankee.
Porém, esse sucesso do popular bangue-bangue, tão evidente nos anos 60, já não encontrava respaldo em minha geração. O que houve de concreto no sentido de formar toda uma mítica de heróis viris e que serviam de exemplo aos garotos da minha faixa etária foi a redenção da televisão brasileira aos seriados (animados ou live-action) japoneses. De Jaspion a Naruto, o que temos assistido é uma série quase infindável de personagens que sempre têm algum nível de complexidade que lhes garante o carisma necessário junto ao público infanto-juvenil, como também tramas com a dose certa de maniqueísmo – não muito, para não aparentar inocente demais, mas também um pouco, para não se tornar hermética. Logicamente, antes da década de 80 já tinha havido incursões nessa área por parte da TV tupiniquim. Os Nacional Kid e Spectroman da vida estão aí para não me deixar mentir. Porém, só houve, de fato, um mergulho de cabeça no universo das sagas nipônicas a partir do investimento maciço feito pela extinta TV Manchete durante os anos 80 e 90.
Hoje em dia, observando tudo isso a certa distância, vejo o quanto há em comum entre a cultura western e a figura mítica do samurai. Ambos os cenários dão espaço ao “herói vagabundo” (vagabundo herói) – os bandoleiros do velho oeste, de um lado, e os “ronins”, de outro. Estes nada mais são do que símbolos extremos da eterna busca existencial humana, onde se procura imagens externas que saciem nossos conflitos internos. E não houve obra que melhor retratasse esse diálogo cultural do que o lendário seriado “Kung Fu”, estrelado por David Carradine no papel de “Gafanhoto”, um ronin que desbrava o oeste bravio norte-americano tentando aperfeiçoar sua ética samurai e sua técnica nas artes marciais em meio a saloons, fazendas, xerifes e ladrões de gado. Carradine, aliás, décadas mais tarde, participou, como personagem-título, de Kill Bill, um filme que também se aventurou a contar uma história de valentia e busca incessante pela verdade, onde a protagonista desbrava as estradas poeirentas que separam o Texas de Okinawa.
E ambos os cenários também permitem alianças entre os personagens, tanto entre os heróis entre si (cada qual com sua personalidade e seus conflitos íntimos), como entre heróis e vilões, afim de combater um mal maior – no caso das alianças entre bandidos e heróis (não gosto do termo “mocinho”), em geral estas assumem um caráter moral bastante importante, em que os facínoras se arrependem de seus atos e buscam a redenção através da cooperação amistosa com seus algozes.
Finalmente, as duas abordagens aqui tratadas (caubóis e samurais) permitem também o espaço para o confronto entre homens que, a despeito de todo contexto que possa cercá-los (e cerceá-los), simplesmente desejam duelar entre si pra ver, no final das contas, quem é o melhor.
Nenhuma imagem me parece mais apropriada para sintetizar todo esse post do que o duelo final entre Change Dragon, líder do Esquadrão Relâmpago Changeman, e o Pirata Espacial Buuba.
http://br.youtube.com/watch?v=Y-HP9dRmqao&feature=related
Aos mais pacientes, que quiserem se interar do contexto e saber exatamente do que estou falando, segue o capítulo inteiro:
http://br.youtube.com/watch?v=8-yVrNwPKNE&feature=related (Parte 1) http://br.youtube.com/watch?v=Lu6wtJXUMlA&feature=related (Parte 2) http://br.youtube.com/watch?v=I3fq5dgEUSQ&feature=related (Parte 3)
Escrito por Álvaro às 21h21
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Sexo Forte A impressão que se tem, ao analisar a literatura, é que os homens são muito mais afeitos à sensibilidade e às emoções dramáticas do que as mulheres. São muitos os casos de livros magníficos, feito por e para homens, explorando todos os labirintos da psique masculina, principalmente quando envolvendo a relação homem/mulher. Todo e qualquer tipo de reação diante da mulher amada já foi devidamente registrado na literatura universal. São vários os perfis abordados, de modo que os autores nos mostram as diferentes maneiras encontradas pelos homens de fazerem valer seus sentimentos, gostos e vontades referentes ao seu objeto de desejo. Temos o fraco, em “Dom Casmurro”; sendo que Machado de Assis também nos apresentou homem patético, representado por “Quincas Borba” no romance homônimo. Temos o romântico/porra-louca/batalhador, em “Mulheres”, de Charles Bukowski. Temos ainda o enérgico “Othelo”, de William Shakespeare. E até mesmo aquele que é narcisista, mas não deixa de se sentir culpado por isso e pelos efeitos que esse sentimento causa em sua vida amorosa – estou me referindo ao “Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde. Temos ainda o conquistador, de “A Insustentável Leveza do Ser”, magnificamente escrito por Milan Kundera. E o indeciso, em “A Idade da Razão”, de Jean-Paul Sartre. Do lado das mulheres,são pouco os livros que se aventuram a descrever as suas perspectivas. E, mesmo assim, são escritos por homens, o que não deixa de ser incômodo. O primeiro exemplo que me vem à cabeça é “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, que, embora o texto seja bastante verossímil, contém alguns clichês acerca do universo feminino que me incomodam. Gostaria mesmo de ler algum livro que dissesse, de modo claro e preciso, pela perspectiva feminina mesmo, o que se passa, afinal de contas, com uma mulher durante o turbilhão emocional em que ela se encontra quando está diante da pessoa à qual dedica a sua existência – se é que ela experimenta essa sensação. Dizem que Clarice Lispector nos traz algo muito bom nesse sentido. Concordo com essa opinião. Li pouco de sua obra, infelizmente, mas o pouco que li, de fato, credencia a autora a me trazer luzes sobre essa questão. Mas quero encontrar ainda mais exemplos. Afinal, a parte masculina tem vários representantes e cada um deles pintou a cabeça do homem à sua maneira. E, embora a escritora ucraniana-brasileira citada tenha um estilo pra lá de adequado para contar histórias que versem sobre esse mesmo tema, gostaria de me aventurar através de outros pontos-de-vista. Sugestões?
Escrito por Álvaro às 13h31
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Atração Fatal É recorrente ouvir mulheres dizendo que existem poucos homens capazes de preencher uma lista mínima de requisitos básicos à convivência. Um cara que seja interessante, bonitinho, tenha uma cabeça legal e alguma responsabilidade diante da vida, dizem, é raríssimo. Na verdade, não há mais tantas mulheres que dizem isso hoje em dia. Tornou-se clichê. Quase todo mundo sabe ou concorda com isso. Porém, não estou certo de que existam muitas pessoas cientes de que as mulheres que valem a pena também são escassas. Bonita e inteligente, é o que os homens pedem (os menos capazes contentam-se se for apenas bonita). Difícil encontrar algum satisfeito nesses dois quesitos com relação à companheira. Quando se encontra, resta o medo de perdê-la. O medo nos torna agressivos. A agressividade nos torna impulsivos. Alguns impulsos podem ser violentos. E existe gente disposta a matar por causa disso. Não é raro encontrar homens que chegam a esse patamar através do desespero em não encontrar substituta à mulher que o dispensou. Um caso triste, contando com todos esses ingredientes, permeia o noticiário brasileiro corrente – mais um, aliás, entre muitos e muitos casos que, por alguma razão não se tornam tão dramáticos e públicos Talvez alguém mais perturbado dissesse que esses casos de assassinos passionais têm mais a ver com pessoas frívolas e mimadas, que não conhecem frustrações ou privações graves e que, quanto têm algo, não sabem dividir. Ou o raciocínio pode partir do princípio de que talvez essas pessoas não saibam dividir o que têm exatamente porque nunca tiveram nada. Não importa. A exacerbação do sentimento de posse é sempre o maior responsável, em ambos os raciocínios. Porém, o que eu sinto mesmo é que a humanidade ainda não se acostumou a ser livre para selecionar aquilo que bem quer para sua vida. Ao terem liberdade de escolha para procurar os seus parceiros, as pessoas acabaram ficando com uma difícil decisão nas mãos e nem todas elas são capazes de lidar com uma dificuldade desse porte. Afinal, quando se tem liberdade de escolha, você é o responsável direto pelos caminhos que optou em trilhar ao longo da vida. E, caso algo dê errado, você talvez não seja o único, mas sempre será o maior responsável. As possibilidades são muitas. Mas deve-se levar em conta que as chances de acertar são bastante pequenas. Mesmo assim, quando o resultado deixa de ser espetacular – sendo “apenas” satisfatório – o ser humano não deixa de ficar frustrado. E isso é algo com o que ninguém é capaz de lidar, em maior ou menor grau. Ao menos por enquanto.
Escrito por Álvaro às 14h20
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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, JOSE BONIFACIO, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, English, Casado MSN - bozzomail@hotmail.com
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