Hello, stranger De manhã, minutos antes das 8, estou subindo até o 14º andar no prédio em que trabalho. “Até mais.” Com um simpático sorriso um cara que eu nunca vi na minha vida me cumprimenta após ter dividido comigo uma cabine de elevador por não mais que 30 segundos. Existem pessoas que não sabem adentrar ou sair de um ambiente sem se comunicar os demais presentes. Não ficam à vontade para “entrar mudo e sair calado”, em bom português. Se sentiriam mal fazendo isso. Quem me conhece sabe que sou o extremo oposto. Somente as convenções sociais da vida profissional me obrigaram a interagir com pessoas que dividem uma sala, gabinete ou escritório comigo. Quando era mais jovem, relutava até mesmo em cumprimentar meus parentes e amigos mais próximos, nem que fosse apenas com um singelo apertar de mãos. Abraços e beijinhos no rosto (quando a interlocutora era uma mulher), então... era quase um tabu pra mim. Aliás, quem costumava assistir à sitcom “Seinfeld” deve se lembrar de um episódio em que ele decidia, por si próprio, parar de cumprimentar as mulheres (vizinhas, colegas, amigas, esposas/namoradas de conhecidos) com os tais beijinhos, alegando que esse tipo de contato é invasivo demais, quase uma agressão. Porém, acabou abrindo mão de suas convicções ao perceber o quanto as pessoas se sentiam ofendidas diante da recusa de um gesto que, ao ver delas, é somente um ato gentil e amigável. Até pelo tipo de identificação imediata, esse capítulo acabou sendo o meu favorito. Porém eu não concordava de todo com o Seinfeld. Na época em que assistia o seriado, eu ainda era só um adolescente. Minhas obrigações sociais se limitavam às aulas do colegial, de modo que havia poucos contatos com mulheres, não acontecendo lá muitas ocasiões em que essa maneira de cumprimentá-las se fizesse necessária. Ao contrário do comediante, eu não chegava a achar que os beijinhos fossem uma invasão de privacidade, apenas considerava que esse ou qualquer outro tipo de cumprimento era tão somente uma formalidade tola e dispensável. Ainda mais que nesse época da vida tinha o lance do “deixa eu te apresentar fulana”, o que tornava o ato de iniciar uma conversa com uma menina um verdadeiro acontecimento, cheio de protocolos a serem rigorosamente cumpridos. Tinha cada vez mais certeza do quanto essa prática de “Oi, tudo bem? – ‘Smack’” não passava de um preciosismo bobo. Continuei com minhas convicções até os tempos de faculdade, evitando o máximo que podia cumprimentos mais calorosos, seja com homens ou mulheres. Mas o fato de se estar longe da casa dos pais faz com que os amigos passem a ser, de certo modo, a sua segunda família. E toda família tem suas regras e acordos de boa convivência. Desse modo, passei a encarar de forma normal os cumprimentos advindos dessas amizades, já que ainda estava fresco na memória o tal episódio do Seinfeld e com ele as lembranças das confusões em que eu podia me meter ao não cumprir o ritual de se aproximar de forma artificialmente íntima, com um sorriso largamente amarelo, e beijar a face de uma namorada ou casinho de algum amigo de faculdade. Na mesma época e faculdade ainda, um grande amigo, talvez aquele com que eu mais conversei durante aqueles bons 4 anos, era um cara que simplesmente não sabia adentrar um ambiente, seja qual fosse, e não cumprimentar a todos, um por um, com um forte aperto de mão (os homens) e um caloroso abraço seguido de um selinho na bochecha (as mulheres). Ninguém é perfeito... Mas, enfim, ele era meu amigo, um grande amigo, e eu suportava essa característica dele que, ao meu ver, era um tanto excêntrica. O engraçado é que sempre que me lembro de seus trejeitos dou algumas risadas, pois ele me faz lembrar de outro episódio clássico de Seinfeld, onde o protagonista é obrigado a aturar um chatíssimo vendedor que toda hora que o encontra vem com um “gimme five”, repetindo o mesmo gesto a cada 5 minutos. Dizem que a universidade nos prepara pra vida. Com certa dose de boa vontade, dá pra levar a sério essa afirmação. Prefiro a frase que ouvi de um colega durante o intervalo das aulas: mesmo que a vida acadêmica não lhe forneça o nível de instrução que você deseja, pode ter certeza de que ao menos você sai daqui como um bom relações públicas. Bingo! E foi assim que aprendi a conviver com o mundo das convenções e dos bons costumes. Já não reluto tanto em cumprimentar alguém de forma mais calorosa, mesmo que não seja uma pessoa que me desperte algum interesse. Porém, ainda acho engraçado ver pessoas que se importam de ser simpáticas mesmo com aqueles que provavelmente não verão mais, ou com as quais jamais manterão qualquer tipo de relação. Lá no interior, quanto menor a cidade, mas comum (e pitoresco) as pessoas darem bom dia, boa tarde e boa noite umas às outras, em especial os mais idosos. Mesmo eu morando numa cidade de tamanho médio, no ônibus que eu pegava pra ir à escola eu encontrava de vez em quando um cobrador que respondia um jovial “obrigado” a todos os passageiros que giravam a catraca à sua frente. Eu respondia um sorridente “de nada”, quase por reflexo. Mesmo aqui em São Paulo a gente ainda encontra essas figuras. Quando eu ia ao trabalho de ônibus fretado, uma senhora sempre fazia questão de cumprimentar todos os passageiros, tanto na hora de subir no ônibus, quando na hora de desembarcar. Fazia isso de manhã e à noite também. 4 cumprimentos por dia. 20 por semana. 80 por mês. Quase mil por ano. Pra um monte de gente que ela nem sabe o nome. E pensar que eu tinha achado curioso o cara me cumprimentar no elevador, de manhã.
Escrito por Álvaro às 16h14
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A solução pra Zona Leste é sair dela.
Categoria: Aforismos
Escrito por Álvaro às 16h43
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TV e você. Tudo a ver Eu gosto de televisão. Bastante. É um passatempo e tanto. Ultimamente eu tenho assistido pouco. Trabalho, estudos, trânsito, casamento. São muitos os fatores que tomaram de assalto as minhas horas livres de uns anos pra cá. Sou um telespectador exigente. Programas bons, acima de tudo, se fazem com ideias inteligentes. Se elas reproduzem fórmulas antigas, pouco importa. O importante é que funcione e que a televisão seja uma distração agradável. Novelas, esportes, seriados, programas de auditório, entrevistas, debates, filmes, shows, telejornais, programas de variedades, culinária, documentários e, a grande (e polêmica) inovação da última década, os reality shows. Reality shows não é, nem de longe, um tema que priorizo em minhas conversas ou pensamentos. No entanto, como esse tipo de programa se propõe a ser um laboratório que reproduz em pequena escala atos e fatos da nossa sociedade, volta e meia acontece de vermos em seus participantes (e espectadores) exemplos claros dos infortúnios da condição humana. Tomo como exemplo um caso que está na boca do povo. A bola da vez é uma garota que, uma vez dentro de um desses realities, cujo mote é dividir a mesma casa com pouco mais de uma dúzia de participantes, passou a namorar um de seus companheiros de confinamento. Até aí, nada demais, certo? Só que o dito-cujo tinha deixado uma noiva em stand by fora da casa, o que, na visão dos demais moradores da casa e da digníssima plateia, tornava o romance entre os dois participantes algo moralmente questionável. E depois, ainda pior: o casal, não satisfeito em trocar beijos e afagos mútuos, resolveu – horror dos horrores – passar às carícias mais íntimas debaixo de um edredom. De modo que a garota diretamente envolvida na situação, além de uma oportunista que ousou se aventurar com um rapaz comprometido, passou a ser vista como uma depravada, uma pistoleira que lançou mão da luxúria para corromper o bom moço. Carrego nas tintas aqui porque é exatamente como eu percebo as reações de indignação que o caso inspirou. Telespectadores condenaram a moça, declarando que ela seduziu o pobre rapaz, que se viu sem meios de oferecer resistência diante da impulsividade da garota. Repercutem a toda velocidade na internet fotos e vídeos contendo a silhueta dos dois corpos sob uma tecido espesso, dentro de um quarto escuro, com ruídos pouco identificáveis, para a alegria dos voyeurs assumidos e indignação dos não-assumidos. Os defensores da ordem e dos bons costumes expressam seu descontentamento com a lascívia provocada pelo programa. Sites de humor exploram as imagens que, mesmo sem qualquer traço de erotismo, permitem (com boa dose de imaginação) especular sobre as posições em que os corpos se encontram embaixo da coberta. Outros formulam teorias sobre reais motivos que levaram a garota a aliciar o rapagão – que seria oriundo de uma família judia com respeitável posição econômica. Obviamente, há doses cavalares de machismo envolvendo todo esse episódio. É o velho caso de dois pesos e duas medidas. Um solteirão que, uma vez dentro da tal casa, conseguisse se envolver com uma moça que estivesse comprometida aqui fora, não só levaria a fama de conquistador competente como atrairia para si a simpatia do público – algo que de fato aconteceu em uma das edições passadas (o dito-cujo foi inclusive o grande campeão do jogo). Já a moça solteira que teve a petulância de compartilhar seus lençóis com um rapagão compromissado é uma depravada, a ser enxotada do jogo tão logo houver uma brecha para tanto. Porém, o que me incomoda não é nem tanto esse tipo de mesquinhez, algo com o qual a gente se acostuma com o passar dos anos. Inveja e provincianismo fazem parte do nosso dia-a-dia. É o arroz com feijão de qualquer observador mais ou menos atento. O que me chamou a atenção foi o fato de que, não importa muito o contexto, os homens são tratados como crianças incapazes, frágeis diante de uma mulher provocante. Não passamos de uns imbecis sem condição alguma de repelir o ataque de uma sedutora mais impetuosa. Não podemos ainda nos esquecer de que nascemos pra procriar, não podemos correr o risco de desperdiçar uma oportunidade sequer para espalhar nossos genes. Quanta abobrinha... Semanas atrás, o rapaz tinha feito em rede nacional votos de amor eterno à sua então noiva, nas vésperas de adentrar no jogo. Ninguém senão ele mesmo poderia saber que tipo de intenção havia em sua cabeça no momento em que resolveu encarar o desafio proposto pelo programa, mas o fato é que uma vez lá dentro ele achou por bem se evolver com uma das garotas que encontrou por ali. Digo que ele achou por bem se envolver com ela porque uma coisa pra mim é certa: se ele não a quisesse, não haveria nada a convencê-lo de que seria bacana ficar com ela. Se um homem não gosta de algo em uma mulher, não gosta e ponto final. Não passar a curtir a mina só porque ela é legal com ele. Nenhum cara passa a desejar uma amiguinha só pelo fato dela ter um papo legal. A mulher sempre tem a palavra final? Certamente que sim. O “sim” ou o “não” são sempre proferidos por ela, no fim das contas? Com certeza. Mas a pergunta final, aquela que vale (“Quer?”), quem formula é o homem. E foi esse o papel ao qual o rapaz em questão se prestou, a despeito das consequências ocorridas com o seu (ex-)noivado. Mas isso ninguém quer ver. Preferem acreditar que a mulher pode exercer algum tipo de influência sobre a mente de um rapaz. O que, óbvio, é uma tremenda balela, caso contrário não haveria mal-comidas no mundo. Além do que, esse tipo de raciocínio descamba no argumento machista de que um homem não pode se privar de algum desejo momentâneo – mais um boa maneira de fingir que os homens podem passar a vida se comportando como crianças mimadas. O engraçado é que, nesse ínterim, durante o desenrolar desse affair televisivo e seu triste desfecho, pudemos assistir na “novela das 8” (imediatamente antes do tal reality) uma moça, de boa família, com carreira promissora, trocando flertes com o irmão do próprio namorado. Em outro núcleo da mesma novela acompanhamos o desenrolar de um romance entre uma jovem recém-casada e um solteirão aventureiro. Enquanto isso, o marido dessa mesma jovem se envolve com uma mãe solteira que conheceu durante um passeio pelo litoral. Detalhe: a audiência torce, ansiosa, pelo enlace de todas essas pessoas e que as mesmas consolidem seus casos extra-oficiais. Realmente curiosa essa diferença das maneiras de se encarar um adultério (ou quase isso), tanto num reality show como numa novela. Inexplicável? Nem tanto. Pode-se argumentar que ficção e realidade possuem escalas de valor diferentes. Além disso, teledramaturgia é fantasia pura, um espaço dedicado a sonhos irrealizáveis e inconfessáveis; enquanto os reality shows nos servem mais de catarse, um modo de extravasar nossos conflitos mais íntimos. Sim. É hipócrita. Basta olhar na telinha. Plim-plim.
Escrito por Álvaro às 16h11
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ESTAGIANDO
“Vai fazer Direito”, disse meu pai. E cá estou eu, encostado nesse balcão, esperando a moça do protocolo cadastrar todos os documentos que eu trouxe do escritório para deixar aqui no fórum. 900 reais. “Um bom começo”, pensei há dois anos atrás, quando fiz a entrevista pra conquistar esse estágio. 900 reais. A gente sempre pensa que vale alguma coisa. Pro meu chefe, valho isso. Se bem que esse fórum aqui não é de todo mal. Tem uma ruiva alta que trabalha lá atrás dos caixas. É gostoso ficar olhando para ela. Ela tem belos peitos. O rosto é bacana também. Pernas compridas, esguias, longelíneas. American way, eu diria. Pra completar o look tem até a pintinha no canto da boca, tal qual uma Marilyn. Se bem que ela é mais enxuta que a Marylin. Tá mais pra Débora Secco, talvez. Mas dizem que a Débora é baixinha... a minha ruiva deve ter pelo menos um metro e oitenta. Um e setenta e cinto no mínimo. Ah, não importa! Uma moça bonita desse jeito não tinha que ficar aqui, enfurnada no meio dessa repartição pública poeirenta. Sou grato a ela por enfeitar a minha visão, enquanto eu disfarço, fingindo que presto atenção no que essa japonesa sem-graça do protocolo está fazendo com os documentos do meu chefe. Até porque se eu não pudesse olhar para a ruiva, teria que ficar olhando praquele sujeito boçal que me atendeu na semana passada. Cara ridículo. Grisalho e começando a ficar calvo sobre a testa, tá sempre com a manga da camiseta dobrada pra cima, na vã tentativa de impressionar com seu bíceps de 30 centímetros. Um coitado. O pior que o sacana tá sempre com alguma camiseta vermelha, com estampa chamativa. Uma droga isso. Li não sei onde que nossos olhos são atraídos pela cor vermelha, por causa de um instinto qualquer dos nossos antepassados. Esse cara deve ter lido a mesma coisa. Deve ter pensado “usando vermelho, todos vão me olhar e se admirar com o meu porte”. À merda com os nossos antepassados. Não podiam ter deixado herança melhor? Ficar vendo esse cara com sua camisetinha vermelha tamanho P andando de um lado pro outro faz o meu trabalho ser ainda pior do que ele já é. Eu devia ser indenizado por ter que aturá-lo. E se eu pedisse pro meu chefe um abono por insalubridade a cada vez que eu venho aqui? Tem semana que eu venho quase todos os dias pro fórum. Talvez eu passasse a ganhar até uns mil reais por mês, já pensou? Mas e nos dias, como hoje, em que a ruiva está aqui? Será que eu deveria indenizar o meu chefe? Afinal, só a visão daquele decote já seria uma remuneração justa pra esse servicinho de peão que eu venho fazer nesse lugar. Coitada da ruiva. Perdendo tempo nesse trampo chato, escondida atrás de um balcão de fórum de periferia. Balcão. Meu chefe gosta de um balcão. “Advogado só aprende o que é ser advogado quando encosta o umbigo no balcão do cartório”. Sempre com suas frases prontas, provavelmente saídas do manual de auto-ajuda que ele ganhou junto com as meias marrons no último natal. Mas meu chefe é um cara bacana, apesar de tudo. Nascido em um casebre minúsculo no litoral, veio pra capital adolescente, ainda semi-analfabeto. Fez um curso supletivo por correspondência e se formou em Direito ainda antes de completar 30 anos. Árabe é foda. Os caras são pobres só lá no Oriente Médio. Árabe que sai da terrinha sempre fica rico. Até parece que aquele narigão deles fareja dinheiro. Povo do caralho esses árabes. Os caras são bons. Eu queria ser árabe também, igual meu chefe. Daí, talvez, ele me dava um aumento. Ou eu conseguiria farejar dinheiro em outras bandas e parava de me preocupar por causa do meu estágio de 900 reais. Muito louco ser árabe. Eu podia tentar aprender a ser árabe. Será que eu também devo ler algum manual de auto-ajuda? Meu pai não gosta de auto-ajuda. Diz que é coisa de fracote, de gente que não encara a vida como ela deve ser. “Vai fazer Direito”, ele me disse em casa, anos atrás, quando, de brincadeira, perguntei pra minha irmã que faculdade ela achava que eu deveria fazer. Eu disse que não gosto de ler. Meu negócio é matemática. Números. Sim, números. A beleza da sua exatidão, sem dilemas, sem existencialismo, dúvidas ou hesitações. Reta é reta; curva é curva. Um mais um é dois e ponto final. Simples assim. – Mas nem tudo é feito de números – ele argumentou. Como você convenceria um cara que bateu no seu carro a pagar pelos estragos somente com a matemática? Recitaria pra ele a tabuada do um ao nove? – Posso ser engenheiro – eu falei. – E vai trabalhar onde? – Na indústria, claro – eu disse, confiante. – Mas na indústria também haverão advogados. – Como assim? – Oras, todo mundo precisa de advogados, seja pra andar dentro da lei, seja pra se livrar dela – ele falou. Um baita argumento, pensei. Já quase entregando os pontos, ainda tentei rebater, dizendo que num eventual corte de funcionários os advogados seriam os primeiros dispensados. – Engenheiros são os responsáveis diretos pela produção. Terão sempre prioridade dentre os demais empregados. Já pensou, eu e meu diploma de advocacia no olho da rua? – arrisquei. – Sem os advogados a empresa corre o risco de ser processada. Sendo processada, pode vir a falir. Daí tanto engenheiros quanto advogados são dispensados. – Qual a vantagem da faculdade de Direito, então? – Você pode prestar concursos públicos e não se preocupar mais em ser demitido. Delegado, procurador, fiscal. O leque é amplo. Merda. Detesto admitir que os outros estão certos. Não sou bom em discussões. Acabo sempre tendo que concordar com os outros. Nem me imagino num tribunal tentando convencer a todos que o réu é inocente. O júri me engoliria vivo. Podia ter usado esse argumento contra meu pai, mas ele já tinha ido lá pra fora dar um jeito no jardim. Minhas respostas boas sempre me vêm quando a oportunidade de usá-las já passou. Sou lerdo, penso atrasado. Eu sou um burro, isso sim. Meu pai até que é um cara inteligente. Meio fracassado, claro, mas inteligente. Mas teve um filho burro e não soube torná-lo esperto. Pensando melhor, será que eu sou burro mesmo? Afinal, se eu fosse um completo idiota, não saberia reconhecer a inteligência em alguém. Nem mesmo em meu pai. Mas que droga! Não consigo convencer nem a mim mesmo em uma discussão. Minha irmã ainda tentou me consolar, perguntando se além de matemática eu gostava da outra matéria na escola. “Genética”, eu respondi. “Você poderia ser médico, então, não é?”. Respondi um “de repente” lacônico. De onde eu tiraria a grana pra faculdade? Medicina é um curso caro. E o consultório, então? Quem montaria um pra mim? Meu pai? Nem se ele vendesse aquela porcaria de Palio 2003 dele. E cá estou eu no fórum. “Você faz Direito?” a japonesa me perguntou certa vez. Não, faço Veterinária. Tô aqui nesse fórum caindo aos pedaços, suando dentro dessa camisa quente de micro-fibra (“estilosa”, segundo minha vizinha), tentando encontrar um jumento disfarçado de funcionário público. Quer ser a minha cobaia? “Faço Direito, sim”, respondi, tentando caprichar no sorriso. “Eu queria fazer também, mas tá difícil. Faculdade é tão caro, né?” Oras, se você pega o seu salariozinho de atendente de repartição e gasta tudo em quadrinhos, máscaras, fantasias e DVDs com seus sobrinhos japa-nerds, o que eu tenho a ver com o galho? Ainda bem que ela não me perguntou nada hoje. Não fui obrigado a ver aqueles dentes acinzentados de fumante viciada.
Categoria: Contos
Escrito por Álvaro às 13h11
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ESTAGIANDO (continuação)
E a ruiva? Será que fuma? Nunca fui muito com a cara do cigarro. Dei uns tragos uma vez no cigarro de uma menina que beijei no carnaval do ano passado, mas não me deu barato nenhum. Só bafo. Ainda bem que lá em casa ninguém fuma. Acho que a ruiva não fuma não. Aqueles lábios fininhos mal devem ser capazes de envolver um fio de cabelo, que dirá um cigarro. Ela nem abre a boca enquanto eu fico aqui no caixa do protocolo. Ta sempre de cabeça baixa, analisando os papéis em sua mesa. Nunca vi seus dentes. Será que são branquinhos? Às vezes ela é banguela e eu nem sei. A boquinha dela é tão pequena que não deve caber aquele arsenal de molares, caninos e incisivos que fazer parte do nosso repertório mandibular. Já pensou? Eu aqui num fórum empoeirado pagando pau pra uma banguela, ha ha. E na bolsa dela, será que tem um maço de cigarros escondido atrás do estojo de maquiagem? Ou uma dentadura? Opa! O que é isso? Ela tá conversando com alguém. Putz, justo o panaca das camisetinhas agarradas. Deve estar dando em cima dela, o sacana. Talvez contando que foi na “acadimia” ontem malhar depois do expediente. E que veio com a camiseta dessa cor pra combinar com os cabelos dela. Ufa! Já saiu de perto da ruiva. Ainda bem. Foi uma conversa rápida. Talvez só rotina de trabalho mesmo. Não deu pra ver direito a boca dela aberta. Só vi que tinha dentes. Esse fórum tá paradão hoje, meio vazio. Além da ruiva, não tem mais nada pra ver, nenhum movimento a acompanhar. Bem que lá no escritório podiam ter casos maiores de clientes poderosos e grande repercussão. Assim eu poderia ir entregar petições lá no fórum do centro da cidade. Aquilo sim que é fórum. Um monte de estagiária gata zanzando pelos corredores. Nossa, o que é aquilo? Coisa de cinema, parece. Uma sucessão interminável de gostosas, todas de óculos, cabelinho liso e preso, com terninhos, tailleurs ou jaquetinhas, imponentes e inalcançáveis do alto de seus saltos. Uma vez eu senti o perfume de uma delas. Passei a semana seguinte homenageando-a durante o banho. Só tem gata naquele fórum. Estagiária de Direito é a raça mais tesuda do mundo. Se bem que na minha classe o mulherio não é tão legal assim. Tem lá uma ou outra patricinha mais ajeitada, mas a média geral não passa de três e meio. E ainda por cima tem aquela gorda ridícula que fez colegial comigo e que, por conta disso, se vê à vontade para puxar papo e me oferecer lanches durante os intervalos das aulas. Lá no escritório também não é grande coisa. Tem só uma estagiária realmente bonita. O pior é que ela senta bem na mesa ao lado, então não me sinto à vontade pra ficar olhando pro seu rosto ou aquelas pernas incríveis. Sinto um verdadeiro pânico só de imaginar que ela pode estar pensando que eu arrasto um bonde por ela. Mulher que se acha é a pior coisa que existe. Se for colega de trabalho, então... Por isso evito ao máximo conversar com ela. Cumprimento-a de cabeça baixa. Nunca olho diretamente em seu rosto. Só depois de alguns meses trabalhando a menos de dois metros de distância dela é que eu percebi que seus olhos são castanhos claros, como os da minha mãe. O máximo que eu reparo é na cor do esmalte que ela usa, pois quando preciso conversar com ela sobre algo relativo ao trabalho eu disfarço olhando para os papéis que ela segura em suas mãos. Teve até uma vez, no dia do aniversário dela, que eu inventei uma desculpa e passei a tarde inteira no fórum da ruiva, só pra não ter que abraçá-la. Por isso que lá no fórum do centro é legal. As gatinhas vão e vêm, fazendo toc-toc com seus sapatos pretos e elegantes. Passam tão rápido por mim, com rostos tensos e apressados, que nem reparam que eu estou babando por elas. Tem aquela droga de fila lenta e interminável na hora de entregar os documentos, os pés chegam a ficar ardendo dentro dessa porcaria de sapato que minha vó deu de presente quando entrei na faculdade. Mas naquele fórum o tempo voa enquanto se viaja no eterno toc-toc das estagiárias. O tempo voa. Aqui nesse fórum de merda o tempo também voa. Mais uma tarde inteira perdida, em pé na frente do balcão olhando pra essa japonesa magricela de cabelo curto protocolando os processos. Se eu fosse o juiz presidente desse fórum, só colocaria mulheres bonitas pra atender os estagiários. Seria a minha parcela de contribuição para um mundo melhor. Eu posso ser juiz. Sou um bom aluno. E mando bem no estágio. Outro dia eu ouvi o chefe explicando pro estagiário novo o que era prazo prescricional. Eu sei o que é prazo prescricional. Já sabia antes mesmo de entrar no estágio. E sei também o que é tutela antecipada, interpelação extrajudicial e agravo de instrumento. Malditas aulas de Direito Administrativo. Até que aprender esse monte de palavrão me ajudou, afinal de contas. Já consigo fazer uma pré-correção dos ofícios que os outros estagiários redigem. Eles escrevem, eu passo o pente fino e meu chefe dá seus últimos pitacos. Bem que eu podia ser promovido a estagiário-chefe. E ganhar mais de 900 reais. A ruiva tá com uma cara abatida. Parece cansada. A japonesa também tá cansada. Chego a ter pena dela. O dia inteiro só nisso, protocolando, cadastrando, separando documentos. Milhões de nomes de pessoas que ela nunca viu na vida, não tem idéia de quem sejam. Que lixo esse serviço. Eu também ficaria abatido. Ainda mais se eu fosse uma ruiva gostosa. Só o coroa metido a bombado que continua de lá pra cá, desfilando seu baby look vermelho berrante, todo sorrisos e gestos pretensamente másculos. Parece até que ele tá numa balada ou vendendo coco na praia, tentando a todo custo chamar a atenção daquelas pobres colegas, imaginando que ao agir assim alguma irá dar bola pra ele. Que que eu tô fazendo aqui?
Categoria: Contos
Escrito por Álvaro às 13h03
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1933 FOI UM ANO RUIM – JOHN FANTE
Estava procurando o clássico "Pergunte ao Pó", do próprio Fante, na prateleira da livraria. Não consegui encontrar e, confesso, comprei esse "1933..." meio ressabiado. Bastam algumas linhas pra ter a certeza de que é um baita livro – a despeito de ser um livro tremendamente enxuto, contando com cento e poucas páginas. Não importa que a história se passe na década de 30. Todo homem se reconhece imediatamente na pele do adolescente baixote com orelhas de abano que possui uma fé inabalável em um talento que só ele é capaz de levar a sério. É isso que faz o texto ser bom. Trecho:
– Quantos anos você tem? – ela perguntou. – O bastante. Idade não é importante. – Dezessete é importante. Você tem dezessete, não tem? – Quase dezoito. Ela estacionou ao lado do meio-fio no Elks Club. – Visto que estamos fazendo perguntas, quantos anos você tem? – Vinte e três. – Não é velha demais. – Velha demais para quê? – Quer dizer, você não é uma mulher velha. Ela sorriu. – Velha demais para você. Não falei nada, mas não concordei. Ela poderia ter setenta anos e não teria importância. Quando ela tivesse oitenta, eu teria setenta e quatro, e quando ela chegasse aos cem eu teria noventa e quatro, então que droga de diferença a idade fazia? Desci do carro, minha virilha guinchando por socorro enquanto eu ficava ereto e sentia um aperto nas ferramentas. Mas o casaco de lã do meu irmão me cobria até os joelhos enquanto eu percorria sem vacilar os degraus cobertos de neve até o ginásio. (...) Ela foi até o fogão, sinuosa como uma cobra dourada; eu cravei os olhos nela como um esfomeado e senti um demônio insurgindo-se em mim, uma onda de urgência súbita, quem não arrisca não petisca, agora ou nunca, tudo ou nada. – Eu te amo – falei. Ela baixou o bule de café e virou-se pensativa, achando e não achando engraçado, sem acreditar bem. – Não seja bobo – ela disse, sorrindo. – Eu te amo. Agora ou nunca. Me pus de pé e me vi puxando na direção dela, caindo de joelhos à sua frente, meus braços em volta de seus quadris, meu rosto nas profundezas de seu vestido, e o demônio tentando-me totalmente sob seu poder. – Eu ter amo, eu te amo! – Pare com isso! Ela se contorcia e lutava para se libertar. – Me solte seu idiota! Mas o demônio me dava forças, e eu beijei a sua barriga e as suas coxas enquanto ela lutava para escapar. Então os pés dela escorregaram nos ladrilhos brilhantes, ela caiu em cima de mim, e eu encha-a de beijos, inspirado, (...) e beijava agora o seu pescoço, depois seu joelho, a sua perna, o seu cotovelo, qualquer coisa ao alcance dos meus lábios (...).
Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 12h28
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Porrada! Faz parte da formação masculina a troca de socos e pontapés entre dois ou mais interlocutores em algum momento qualquer da nossa vida. Seja na escola, na academia, na rua ou no campinho de futebol da esquina, não há que se falar em um garoto que não tenha dado e tomado algumas boas bordoadas durante a sua infância/puberdade. Algumas mulheres ignoram solenemente essa parte do processo de formação do indivíduo masculino. Tanto que algumas mães simplesmente não aceitam e chegam a se escandalizar quando o seu menininho chega em casa com alguns hematomas e arranhões. No entanto, a energia que se tem quando é garoto é algo completamente incontrolável e beira a infinitude. É preciso descarregá-la de alguma forma. Por isso, as lutas ocorrem muitas vezes sem um motivo aparente, bastando somente a vontade dos antagonistas. Cito um exemplo pessoal. Eu devia ter algo entre 7 e 8 anos quando me mudei pra uma casa localizada em uma vila tranquila, arborizada, com poucos carros nas ruas e famílias repletas de crianças. Uma das lembranças mais fortes que eu tenho daquela época é que todos os dias, ao entardecer, após as aulas de Inglês ou Ed. Física, eu pegava minha bicicleta (uma BMX amarela) e dava uma volta entre os diversos quarteirões da vila. E sempre eu parava na frente de uma casa que era diferente de todas as outras – já que tinha um acabamento mais simples que as demais e não possuía calçada na frente, somente uma árvore imensa, cuja sombra parecia cobrir toda a casa, deixando-a com um aspecto envelhecido. Na frente dessa casa, apoiado por sobre um dos seus galhos enormes, sempre estava um moleque descalço, de cabelo pixaim meio aloirado, posicionado de um modo que me dava a entender que ele estava lá apenas me esperando. Não precisávamos conversar, já sabíamos que estávamos ali só pra lutar. Eu apoiava a minha BMX na guia, ele descia da árvore e começávamos a desferir murros e chutes, sem muita coordenação ou pontaria. Nunca nos machucamos muito, já que ele era somente um menino magricela, muito pouco mais alto que eu; e eu, por minha vez, sempre tive bastante força nas pernas, mas quando precisava da ajuda dos meus braços não passava de um fracote. Desse modo, nossos melhores socos, mesmo aqueles que pegavam em cheio no rosto do adversário, não chegavam a quebrar algum nariz, nem deixar marcas roxas. Minutos depois, exaustos, nos despedíamos com algum grunhido, deixávamos o cenário sombreado por aquela árvore tão incrivelmente grande e cada um voltava pra sua casa. Na escola, embora minhas encrencas sérias tenham sido poucas, tive meus momentos de medo (quando me estranhava com algum grandalhão mais velho) e fanfarronice (quando, no caso, eu era o grandalhão mais velho). Apanhei, bati, nada além do trivial. A pancadaria rotineira era fornecida somente por aquilo que na minha época era conhecida como “lutinha” – na prática, um linchamento periódico, em que a cada rodada um era o “eleito” pra ser o saco de pancadas do restante da turma. O que passou a me chamar a atenção, já durante o 2º grau (nada mais feio do que essa nomenclatura atual; “ensino médio” é meu pau de óculos), é que com o passar dos anos as “lutinhas” mudavam um pouco a sua configuração. Os golpes, antes atabalhoados, desferidos em grande quantidade, mas sem qualquer padrão, passaram a ser menos frequentes, porém mais certeiros e definitivos. Não demorou muito para que colegas, professores e pais começassem a notar que todos nós estávamos, volta e meia, machucados, com a pele esfolada, repletos de hematomas, voltando para nossas casas com as roupas encardidas ou até mesmo rasgadas. Tudo acabou quando uma das mães viu o filho saindo do banho, somente com a toalha enrolada ao redor da cintura, e notou que seu pimpolho estava coberto dos pés à cabeça de manchas arroxeadas, conseqüência natural dos sopapos que não conseguia evitar quando era a vítima da vez. Logicamente, ela foi tomada pela histeria natural das mães, entrou na sala da diretora, fez um escândalo que foi o assunto da escola durante toda a semana seguinte e nós fomos proibidos de continuar com o nosso pugilato matinal. Já na pós-adolescência, passados longos anos sem cerrar os punhos, vi-me envolto em uma briga de alguns amigos contra um trio de desconhecidos. Um dos caras do outro lado era alto, forte, e partiu pra cima de nós com o ímpeto que a sua compleição física permitia. Seus dois parceiros eram menores, mas também estavam dispostos a lutar. Como estávamos em maior número, levamos alguma vantagem, principalmente quando conseguimos controlar o marmanjo. Essa briga serviu pra me mostrar o quanto os anos de inatividade me prejudicaram, uma vez que, além de eu pouco ter colaborado com meus amigos, pude perceber claramente que, mesmo utilizando toda a força que ainda (achava que) dispunha, os golpes que eu desferira mal foram sentidos pelos oponentes. Me senti mal com isso e voltei a, pelo menos, fazer exercícios físicos diários, para calibrar os músculos, mesmo sem ter a menor disposição para me envolver numa briga daquelas proporções novamente. Eu sei, claro, que a vida adulta pouco me reservará de surpresas nesse sentido. Afinal, é difícil imaginar alguma situação em que eu possa me envolver numa troca de... que que é, hein? Tá me estranhando? Te cubro de porrada, hein, rapá...
Escrito por Álvaro às 13h32
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Mulher bonita é legal? Eis aí um mistério que me atormenta há décadas. Quem seriam as mais simpáticas e agradáveis para um bom papo, as feias ou as gatinhas? Um dado interessante é que a maioria das mulheres que podem ser chamadas de bonitas em geral estão sorrindo. São sorridentes porque são bonitas ou são bonitas porque são sorridentes? A auto-ajuda nos diz que uma pessoa que “esteja de bem consigo mesma e que se aceite como é”, seja lá o que isso queira dizer, estará sempre atraindo olhares de admiração para si – logo, alguém que demonstre felicidade em sua expressão facial, automaticamente, se torna um exemplo de beleza. Mas, para uma pessoa se aceitar e se admirar como tal, ela deve ser, pelo menos, bonitinha, será que não? O paradoxo do ovo e da galinha... Bem, de todo modo, sorriso não quer dizer simpatia, pelo menos na maioria das vezes. Então, como saber se aquela beldade será minimamente agradável, caso você queira ou precise falar com ela? Eu, particularmente, sempre fiquei muito reticente com mulheres bonitas em geral. Desde a infância, nunca notei muita receptividade por parte delas – ao contrário, sentia o deboche e o desprezo estalando em minhas costas quando passava diante de alguma. Era natural, portanto, que eu desenvolvesse alguma forma de defesa em relação às gatinhas – por exemplo, sendo prepotente e tentando desqualificar qualquer manifestação delas, antes mesmo de conhecê-las. Foi a maneira que eu encontrei de não me sentir rejeitado, afinal, eu a havia “rejeitado” antes. (Sim, claro, imaturidade, insegurança, boa dose de babaquice, etc.) Enfim, eu me portava dessa maneira diante de uma mulher bonita tentando me convencer de que a minha vida seria melhor enquanto eu pudesse esquecê-las. Mas daí vinha um outro problema: as feinhas seriam suficientes para preencher esse vazio? Dediquei minha adolescência na procura por essa resposta. Por um lado, eu achava que uma mulher feia, já que não possui muitos dotes físicos, deveria sempre se empenhar em acumular outras qualidades, como sensibilidade, cultura, conhecimento, boas doses de senso de humor, amabilidade... se tornando um pouco mais interessante, enfim. Por outro lado, tornou-se patente para mim que um moleque jamais se satisfaz com uma garota feia ao seu lado, mesmo ela sendo a menina mais legal da escola, do prédio ou da vila. Primeiro porque dá vergonha andar com uma menina muito feia ao seu lado (adolescência é isso: nada é mais importante do que a opinião de outrem); segundo porque cansa olhar durante muito tempo pra um rosto mal feito – o que era engraçadinho se torna enjoativo. E o mais grave: nem sempre as feinhas têm lá algum atrativo interno – muitas vezes não passam de umas escrotas, essa que á verdade. De todo modo, segui por um tempo tendo a firme convicção de que, apesar dos pesares, as feias era as mais legais, já que deveriam possuir todo o interesse do mundo em serem inteligentes, cultas e divertidas. Vieram o cursinho, o vestibular, a mudança de cidade e a minha entrada em um mundo completamente distinto do que e conhecia até então. Por isso dei um tempo em minhas teorias. Já na faculdade, conheci um cara que viria a ser um grande amigo e que possuía uma visão muito diferente da minha. Segundo ele, as feinhas, exatamente por serem assim, teriam tendências à depressão, à inveja e à irritabilidade, de modo que são sempre muito chatas, repulsivas e anti-sociais. Já as gatas, por serem constantemente cortejadas, possuem certa auto-estima, estão sempre de bom humor, gostam de se divertir e se demonstram receptivas a um bate-papo bacana. Não pude contestá-lo muito, já que eu mal havia conversado com meninas bonitas até então, conforme eu disse lá no 3º parágrafo. E eu não havia conversado com elas, basicamente, porque eu sempre fui feio e chato. Portanto, sendo esta figura que vos tecla um flagrante exemplo de feiúra inata misturada com chatice crônica, talvez meu amigo estivesse com razão, afinal de contas Porém, havia ainda algo que não se encaixava. Tudo bem, eu era mesmo muito chato. Mas, e se eu passasse a ser legal? Será que as coisas fluiriam melhor? Pois bem, passei a ser o legalzão sempre que me encontrava no mesmo ambiente em que houvessem mulheres. Sempre esbanjando sorrisos, voz suave, fala tranquila, procurando ser receptivo e engraçado. No entanto, segui tendo os mesmos problemas quando procurava falar com alguma menina mais bonitinha. Ou ela se irritava ou me ignorava. Eu tava certo desde o início, então? Sim e não. O grande problema aí é que eu procurava fazer com que tanto as feias quanto as bonitas fossem legais comigo. Mas eu não tinha, digamos, o perfil adequado para que alguém fosse bacana comigo (preto, tímido, feio e pobre... não podia nada dar muito certo mesmo, ha ha). Logo, para tentar desvendar o mistério, passei a observar o comportamento das gatas quando são abordadas por outros caras. Uma coisa óbvia: quando se é muito bonita, não dá pra ser simpática o tempo todo – afinal, chega uma hora que deve encher o saco ficar com um caminhão de Zé-ruela pagando pau onde quer que se esteja. Ou seja, se a mina é gata demais, o mais provável é que ela trate as pessoas de maneira fria e distante. E essa beleza não precisa ser em termos absolutos; basta ser relativa ao ambiente – uma mulher mais ou menos que seja a rainha da cocada na empresa em que trabalha já se torna uma antipática em potencial. Outra obviedade é que o fulano em questão, ao abordar uma gatinha, também não pode ser muito estragado. Ela pode, sim, ser legal e tratar o rapaz de modo amável e cortês, mas se o dito cujo for feio pode esquecer – o papo será seco e rápido. E o contrário? Se o cara for boa-pinta e a menina for feia? Sim, a recíproca é verdadeira. Mas, no caso, não será somente o bonitão que fará questão de ser lacônico com a baranga; ela também fará de tudo para que a conversa acabe o mais depressa possível. Por fim, se o cara, assim como a mina, for bem judiado, ambos não se animam muito a tentar puxar papo um com o outro e o diálogo não se desenvolve. Ninguém se abraça, nem se xinga. Na média, o que sobra desse palavrório todo? Que, em geral, contrastes são difíceis de se lidar. Causam desconforto, embaraço e, no limite, algum grau de estupidez de parte a parte. E quem é mais legal? As barangas ou as gatinhas? Mulheres bonitas podem, sim, ser bastante simpáticas e acessíveis, a depender da sua estampa. Com as feias, a probabilidade de rolar um clima agradável é sempre menor. Ah, sim! E a única menina que eu vi lendo um gibi de samurai na minha frente era feinha.
Escrito por Álvaro às 11h25
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Homens se apaixonam por mulheres, mulheres se apaixonam por situações.
Categoria: Aforismos
Escrito por Álvaro às 17h16
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Cine Brasilis Fui assistir ontem ao filme “Besouro”, um épico passado no começo do século XX que romantiza a história da luta dos negros, ainda recém-alforriados, contra os coronéis que dominavam o Recôncavo Baiano. É uma superprodução (guardadas todas as devidas proporções que se deve levar em conta quando se trata de um filme nacional) que foca, em especial, na forma como a capoeira era vista e usada sob aquele contexto, com direito a cenas de ação bem feitas e uma boa dose de pancadaria ao som de atabaques e berimbaus. A película me lembrou muito alguns filmes que são verdadeiros clássicos da porrada, como as produções da década de 70, rodadas em Hong Kong, protagonizadas por mestres como Bruce Lee e Jackie Chan – também, evidentemente, guardadas as proporções, tendo em vista o gigantesco know how que os chineses têm em produções desse tipo. “Besouro”, em muitas passagens, me lembrou, em especial, um filme definitivo em se tratando de épicos da pancadaria: “Tai Chi”, estrelado pelo fenomenal Jet Li – o mote de ambas as histórias gira em torno de dois garotos, treinados pelo mesmo mestre em artes marciais, onde um se corrompe por se aproximar do poder político local, acaba traindo suas origens e por fim ocorre o inevitável enfrentamento contra seu ex-colega de treinamento, e por aí vai. Durante a projeção do nosso “Besouro”, fiquei me perguntando por que, raios, o cinema nacional não se desenvolve pra valer e fica nesse eterno compasso de espera, dependendo de verba governamental a todo custo, sem que haja autonomia pra que qualquer roteiro possa sair do papel e ser devidamente rodado diante das câmeras. Minha dúvida maior se prende no fato de que o Brasil é um país cujo mercado interno consome, basicamente, produtos feitos por e para brasileiros, inclusive no que diz respeito a manifestações artísticas. Embora alguns analistas sociais (um tanto afoitos, é verdade) se preocupem com uma suposta dominação cultural vinda de fora (em especial dos Estados Unidos), qualquer observador atento nota facilmente que o público brasileiro consome, basicamente, arte brasileira. Sem entrar no mérito da questão, mas a forma de teledramaturgia esmagadoramente consumida pelas massas desse país se chama novela. E novela brasileira, escrita por brasileiros, encenada e dirigida por brasileiros, 100% falada em português. No mercado editorial, qualquer que seja o setor que se deseja analisar, encontra-se pesos-pesados genuinamente brasileiros, sempre no topo das listas de best-sellers. No campo da ficção, temos o imbatível Paulo Coelho. No segmento da auto-ajuda, podemos encontrar sempre os mais diversos lançamentos de Roberto Shinyashiki, Lair Ribeiro e seus seguidores. No campo da religião, enxurradas de romances espíritas, escritos pelo eterno Chico Xavier e pela infatigável Zíbia Gasparetto e seus mais diversos clones. No ramo musical, encontramos a mesma coisa: quando música ainda era um artigo de compra e venda, os campeões de venda eram, de forma alternada, ou sertanejos, ou pagodeiros, eventualmente ultrapassados por alguma bandinha de pop-rock ou algum modernete da MPB. Se formos observar o que as nossas rádios tocam, deslizando pelo dial encontramos diversas rádios que tocam, sim, música estrangeira. Mas as emissoras decididamente populares (e não utilizo o termo “popular” somente no sentido de “popularesco”) tocam música nacional durante a maior parte do tempo. E isso nas rádios FM. Na AM, então, a predominância do idioma português é absoluta. Aliás, basta uma caminhada pela cidade (qualquer cidade) para notar que se ouve música brasileira (em suas inúmeras vertentes) em 90% das casas e estabelecimentos comerciais, os mais diversos. As demais manifestações artísticas, como dança, teatro, pintura, etc., não me atrevo a comentar, pois, infelizmente, a grande massa não tem qualquer contato significativo com elas. Mas, por fim, voltando ao tal do cinema brasileiro, qual seria o motivo para que a produção nacional de filmes não desembuchasse de vez e passasse a criar um mercado sólido, de modo que a população que consome esse tipo de arte não fique eternamente à mercê dos blockbusters enlatados em Hollywood? O palpite que eu tenho é que o cinema é uma arte destinada a mostrar, da forma mais grandiloquente possível, os conflitos internos da psique humana, enquanto os autores nacionais ainda não entenderam isso muito bem, preferindo retratar os conflitos sociais. Dificilmente alguém que paga 50 reais pra levar a namorada no cinema (ou gasta 2 mil pra comprar uma TV de tela grande) tá interessado em saber que há um mendigo na frente do shopping que não come há 3 dias. Existem outras formas de se passar esse tipo de mensagem e o cinema, definitivamente, não é a mais adequada. Não à toa, os poucos filmes que obtém algum retorno financeiro são justamente aqueles mais interessados nas contradições humanas (mesmo que de forma pasteurizada, como na comédia romântica “Se Eu Fosse Você”, ou no sempre citado “Dona Flor e seus Dois Maridos”), por mais que os nossos “vanguardistas” esperneiem. Há público para um cinema mais, digamos, contestador? Sim, é preciso reconhecer que existe. Os casos de “O Pagador de Promessas” e “Cidade de Deus” estão aí pra quem quiser ver. Mas a abordagem tem que ser em tom de empatia, nunca em tom de denúncia. Quando o telespectador se reconhece retratado na tela, despertamos o seu interesse pela história que decidimos contar. Mas esse é um resultado difícil de se obter, já que o cinema, por juntar texto, movimento, closes, sons e música, amplifica e dramatiza demais qualquer mensagem que se deseja levar ao espectador. Desse modo, sem haver algum tipo de cumplicidade entre protagonista e espectador, passa-se a ter a sensação de que você sentou pra assistir a um filme e, ao longo da película, está sendo julgado e condenado pelo protagonista, como se o diretor do filme estivesse de dedo em riste, lhe culpando pelos erros do mundo. Infelizmente, dentre os cineastas brasileiros, poucos entenderam essas nuances.
Escrito por Álvaro às 12h07
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“Eu comi a Feiticeira” É verdade. Conheço um cara que pegou a Feiticeira. A própria, da TV. Antes, claro, dela virar uma dona-de-casa rechonchuda que vez por outra aparece em programas vespertinos para, com lágrimas nos olhos, aconselhar as jovens moças de agora a não repetirem a sua trajetória de exibicionismo televisivo, revistas masculinas, e fetichismo adolescente. Tomei contato com essa história ainda na faculdade, logo nas primeiras semanas. Tudo muito novo, os calouros procurando se conhecer e fazer amizade, cada um tentando contar algum “causo” mais curioso que o outro, para chamar a atenção de si e atrair a simpatia da maioria. Foi quando um dos caras mais engraçados da minha classe soltou esse papo de “comi a Feiticeira” no meio de uma turma de colegas. Obviamente, ninguém levou muito a sério e todos caímos na gargalhada. Ele tentou insistir, dizendo que, não bastasse a mina ser gostosa daquele tanto, ainda por cima adorava sexo anal. As gargalhadas simplesmente se avolumaram. Diante do ataque de risos, o sujeito tentou argumentar, dizendo que na época ela ainda não tinha silicone nos seios e nem mesmo fazia o papel de Feiticeira na televisão, era simplesmente a Joana, assistente de palco do programa do Luciano Huck, não era ainda um sex symbol nacional, enfim. Mas não tinha mais remédio, a cada palavra pronunciada a turma ria ainda mais e por fim o cara já virou motivo de piada entre os colegas. Assim sendo, toda vez que ele tocava no assunto ou alguém se lembrava da tal façanha, todos ao redor explodiam de dar risada, de tal forma que o sujeito desencanou totalmente de emitir uma palavra que fosse a esse respeito. Passou a ficar complicado falar disso, já que (óbvio) ninguém acreditava em nada do que ele dizia, o que por sua vez, com o correr do tempo, deixou o cara meio grilado toda vez que alguém tocava nesse assunto. Daí, certa vez, eu conversei na real com ele e pedi pra ele ser sincero comigo e me contar direito como que surgiu toda essa história, se era só papo furado mesmo ou se tinha alguma verdade ali, essas coisas. E ele falou que era verdade, sim, contou detalhes, disse que foi num daqueles programas "H de Verão", que era itinerante pelas praias brasileiras, e calhou dele estar uma praia do litoral norte (que não me lembro qual) bem no dia de gravação desse programa, que ele ficou na platéia, só olhando a menina de longe, flertando, e depois das gravações conseguiu se aproximar, conversou, combinaram de se encontrar numa balada naquela noite, etc. Também me disse que nunca mais falava aquilo em público, pois, pela lógica, realmente seria inconcebível aos olhos de qualquer pessoa que um moleque normal de 19 anos tivesse passado a noite ao lado de uma deusa desejada em todo o território nacional, fazendo barba, cabelo e bigode, ainda por cima. No final, até ele mesmo acabou admitindo que se tivesse ouvido a sua própria história da boca de outro, não teria botado fé. Soube rir de si mesmo, enfim. Ouvindo o cara me contar todo esse rolo, até me lembrei de uma piada velha que um tio me contou: um sujeito qualquer estava viajando em um avião sobrevoando o mar, viu que entre os demais passageiros estava a Sharon Stone (eu falei que a piada era velha) e ficou imaginando como seria ir pra cama com ela. Lá pelas tantas, o avião explode no ar e somente ele e a Sharon escapam com vida, salvos em uma ilha deserta no meio do oceano. Algumas semanas depois, sem conseguir qualquer sinal de que poderiam ser resgatados, a Sharon estranha que o cara jamais tentou qualquer coisa com ela durante esse tempo todo. Intrigada, ela pergunta: "Faz tanto tempo que estamos aqui, sem fazer sexo, você não quer transar comigo?". O cara responde, na lata: "Eu não! De que me adianta comer a Sharon Stone e depois não ter ninguém pra quem contar?".
Escrito por Álvaro às 14h59
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ECCE HOMO – FRIEDRICH NIETZSCHE
Nietzsche foi um escritor ignorado durante a vida e sua obra atingiu maior repercussão quando da publicação do provocativo texto “O Anticristo”, mais ou menos na época em que o autor contraiu uma severa enfermidade em seu sistema nervoso que o tornou incapaz. Eu, sinceramente, tenho lá alguma dificuldade com Nietzsche, já que não consigo saber exatamente quando ele está bancando o irônico ou simplesmente querendo chamar a atenção. Por exemplo: “Para mim, o ‘amor ao próximo’ é nada mais do que uma fraqueza, um caso isolado que demonstra a incapacidade de opor resistência a um estímulo – a piedade é uma virtude apenas entre os décadents. Eu acuso os piedosos de se perderem em sua vergonha, em sua reverência, em seu instinto delicado para as distâncias; a piedade, por sua vez, acuso-a de feder a povo num simples piscar de olhos, e de ser mito parecida com as más maneiras, com as quais facilmente pode ser confundida, aliás – olhos piedosos podem, conforme as circunstâncias, interferir de modo destruidor em um destino grandioso, em um isolamento entre feridas, em um privilégio para as grandes culpas. A superação da piedade, eu coloco entre as virtudes nobres...” [grifos no original] E também não compro a idéia de um cara que chama o cristianismo de manipulação social (cometendo o erro crasso de confundir o uso político da religião com a religião sem si) ao mesmo tempo que baba ovo pro budismo. Fica pior ainda quando tenta justificar o lado “psicológico” da coisa. Acaba saindo coisas como: Cristo prega o perdão – coisa de débil mental; Buda aconselha a responder a ofensa com um abraço – sabedoria oriental. Muito esperto. A velha história da grama do vizinho... De todo modo, reconheço que a escrita do alemão é bastante curiosa. Cada parágrafo é um convite à pausa pra pensar sobre o que foi dito e sobre o modo como foi dito. É uma leitura lenta, reflexiva. Requer certo esforço. Um bom exercício de retórica.
Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 22h32
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Desejo proibido Recentemente foi publicada uma pesquisa nos Estados Unidos onde foi confirmada uma tese bastante aceita pelo senso comum: muitas e muitas das mulheres solteiras se sentem mais atraídas por homens casados. Vamos analisar isso de perto. Em primeiro lugar, há uma possibilidade real de que os referidos homens casados sejam mais atraentes simplesmente por estarem mais amadurecidos do que os solteiros, um assunto já discutido anteriormente neste espaço (http://brancopreto.zip.net/arch2009-09-27_2009-10-03.html#2009_09-27_00_00_16-120112568-0). Em segundo lugar, é bom ver até que ponto esse tipo de constatação não é efeito de uma idealização que o ser humano faz, em especial quando se quer esconder algum grau de covardia. Um exemplo clássico disso é quando o sujeito está querendo bancar o corajoso, partindo pra cima de outro, simulando que irá agredí-lo, quando, na verdade, tudo o que ele quer é ser impedido por alguém – o famoso “me segura senão quebro a cara dele”, entende? Com as mulheres que alegam preferir se envolver com homens casados, é mesma coisa. Como não há coragem suficiente para se envolver numa relação de verdade com um homem desimpedido, encarando ônus e bônus, resta essa romantização, meio platônica, meio dramaticida, de ser um eterno mártir, ou estando sozinha ou mantendo encontros fugazes com um cara compromissado, fingindo pra si mesma que só não é feliz porque tem o azar de gostar de caras casados. Ao invés do “me segura”, ficam no “ai, que pena que não me apaixonei por um solteiro”. Por último, tem ainda o tal do “proibido é mais gostoso”. Mas esse é fácil de derrubar. Afinal, se o presidente promulgasse uma lei instaurando a proibição de se consumir picolé de jiló com cobertura de rabanete ao vinagrete, ninguém iria sair correndo para devorar tal iguaria. Em resumo: homens casados podem se tornar mais atraentes pelo simples fato de seguirem o fluxo natural da vida e progredirem, evoluírem, prosperarem, etc. E algumas mulheres, ao invés de escolherem um felizardo para repartir essa jornada, preferem simplesmente idealizar que um cara “pronto” já caia do céu. Como na maioria das vezes esses já estão casados com alguém, resta a impressão de que os homens comprometidos são os melhores – ou seja, elas não se dão conta de que eles simplesmente tiveram o tempo e as condições necessárias para se desenvolver. Mas o que eu acho mesmo é que mulheres assim querem de verdade é ficar sozinhas, nesse eterno joguinho de namorico às escondidas, beijos relâmpago, sem compromisso, onde não há espaço para incômodos, tampouco é preciso efetuar concessões de parte a parte. Tem cara que ainda topa encarar uma dessas, lhe servindo de massagem ao ego. Fetiche idiota.
Escrito por Álvaro às 22h14
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O CÓDIGO DA VINCI – DAN BROWN
Romance policial competente, repleto de curiosidades, escrito com linguagem ágil e instigante. Em algumas passagens, muito embora o autor se esmere por encavalar um mistério dentro do outro, o fio condutor da história acaba por se tornar previsível demais. Mas essa mistura de ação frenética, simbologia e uma levíssima pitada de erotismo faz do livro um verdadeiro page turner. Não fez tanto sucesso à toa. Trecho: O protagonista reflete acerca da fala de um parisiense, que exalta a visão da Torre Eiffel. “ (...) a França, um país famoso pelo seu machismo, mania de conquistar mulheres e líderes minúsculos e inseguros como Napoleão e Pepino o Breve, não podia ter escolhido um símbolo nacional mais adequado do que um falo de 300 metros de altura.” Hahaha! Boa! Que foi que disse que os best-sellers não têm nada a dizer?
Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 23h02
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Tateando Mudei de cidade algumas vezes na vida. Sempre foi uma experiência razoavelmente traumática. Afora as saudades iniciais, resta ainda, por um bom tempo, a irritação por se sentir constantemente perdido, sem os velhos parâmetros e pontos de referência. E a sensação de estar tateando no escuro não se resume apenas ao fator geográfico. Da infância à idade adulta residi em cidades médias, com pouco menos de 200 mil habitantes. É um tamanho de população suficiente para que você preserve um razoável anonimato quando transita em vizinhanças diferentes da sua. Porém, cidades desse porte também lhe permitem ter uma boa noção sobre o dia-a-dia do bairro ou região em que mora, sempre vendo, convivendo e se encontrando com as mesmas pessoas, ainda que estas não se tornem, nem remotamente, íntimas. Eu gostava (ou me acostumei, sei lá) dessa ambivalência entre ser “o filho da Margarida” no meu bairro e ser só um neguinho qualquer quando me afastava a três quilômetros de casa. Sempre achei legal ter como referência o comportamento de pessoas as quais eu já conhecia a rotina (muito embora eu sequer soubesse o nome). Por exemplo, se eu estivesse entrando no ônibus de manhã e já estivesse lá dentro uma mulher de quadris enormes e cabelos curtos, que sempre estava vestida de regata branca, esse era o sinal de que eu estava atrasado pra primeira aula e teria que, literalmente, correr desde o supermercado até a minha escola quando o ônibus me deixasse no ponto. Ou, então, durante uma tarde de sábado, enquanto eu tava jogando bola no campinho de terra batida da esquina de casa, se o senhor de bigode dono de uma Fiorino verde caindo aos pedaços a colocasse na rua e começasse a lavá-la, isso significava que a gente só teria tempo pra mais uma partida antes do pôr-do-sol. Mudar de cidade quando se tem esse nível de controle sobre a própria rotina, como se pode deduzir, é um choque. E quando passei a morar em São Paulo, logicamente, o desconforto foi muito maior. Pra começar, aqui a gente mal sabe quem mora em nosso prédio. À exceção do casal que tem o apartamento no mesmo corredor e da vizinha do térreo que vive no playground correndo atrás dos três (quatro?) filhos menores, não há rostos conhecidos no condomínio. Mesmos os guardas que se revezam na guarita são substituídos com tamanha frequência que muitos se vão antes mesmo de nos acostumarmos com suas fisionomias. Antes de vir definitivamente pra cá, obviamente eu já sabia que isso iria acontecer. Mesmo quando morava no interior, vim diversas vezes pra São Paulo (visitar parentes, na maioria dos casos) e ficava sempre imaginando como seria ver uma pessoa numa esquina qualquer e saber que jamais a encontraria depois. Me dei conta disso mais formalmente quando, certa vez, hospedado na casa de uma tia, ao voltar, sozinho, de um passeio, me surpreendi flertando com uma garota de longos cabelos ruivos durante o trajeto do ônibus que nos transportava. Ao chegar ao meu destino, refleti sobre o fato de que jamais, sob hipótese alguma, tornaria a vê-la. Quando, finalmente, me mudei pra São Paulo, além de toda a estranheza causada pela mudança, havia ainda essa sensação de ser um rosto aleatório na multidão, de uma forma que isso jamais irá se reverter. Feições, cabelos, expressões, cores, vozes, sotaques, gestos, tudo que torna uma pessoa única se traduz numa experiência que dura o tempo que o metrô demora a percorrer entre uma estação e outra. Há, evidentemente, um grande barato nessa invisibilidade causada por essa gigantesca aglomeração de seres humanos. Por exemplo, já li que alguns artistas se utilizam disso para compor personagens (seja de um livro, ou de uma peça de teatro), bastando entrar em algum vagão qualquer de metrô e ficar espiando, como quem não quer nada, o comportamento dos demais passageiros. Isso, claro, não é só um recurso disponível aos artistas, mas aos observadores em geral. O metrô é o exemplo paulistano mais clássico de posto avançado de voyerismo, mas essa prática é adotada amplamente em bares, restaurantes, ônibus e até na rua. Só não vejo esse comportamento curioso nos trens suburbanos, já que esse é um tipo de transporte muito duro, difícil, que torna as pessoas meio embrutecidas, sem muita paciência ou interesse para esse tipo de atitude contemplativa – não por acaso, o trem é um meio de locomoção majoritariamente masculino (um vagão de trem às 7 da manhã ou da noite nos traz a sensação de que São Paulo possui uma população 90% constituída de homens morenos com idade entre 20 e 40 anos). Mas, voltando ao ponto, durante uma simples viagem de metrô no trajeto entre casa e trabalho, é engraçado poder observar atentamente todos os traços e movimentos de uma pessoa enquanto ela displicentemente ouve música ou lê atentamente algum livro da faculdade ou simplesmente está esperando, impaciente, batendo nervosamente o pé enquanto olha pela janela, que o metrô chegue logo na sua estação. Porém, o que é ainda mais curioso é justamente olhar para alguém que esteja observando uma terceira pessoa, notar os seus olhos fixos em algum transeunte que lhe pareça interessante, a ausência de constrangimento em fitá-lo, a total atenção dispensada ao outro, distraindo-se de todo o resto, buscando, talvez, criar ou encontrar alguma empatia em feições estranhas. Um tipo de busca que nada mais é que o sintoma desse vazio provocado pela eterna ausência de familiaridade nos rostos que vêm e que vão, sem obedecer a qualquer padrão, lógica ou rotina. Estamos nos surpreendendo sempre, pro mal e pro bem. É como se, dia após dia, estivéssemos eternamente entrando em uma cidade diferente. Mesmo que estejamos transitando pelos mesmos lugares.
Escrito por Álvaro às 14h21
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Meu perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, JOSE BONIFACIO, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, English, Casado MSN - bozzomail@hotmail.com
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