ADEUS

Relutei muito pra admitir, mas foi inevitável. Blogs são meios de comunicação com início, meio e fim. E este daqui não será mais atualizado.


Se tiver gostado de algo que viu aqui, dê uma olhada em http://quemsabedia.blogspot.com.br/.


Abraços.



Escrito por Álvaro às 12h41
[] [envie esta mensagem] []



 
 

ELAS E AS LETRAS


 

 

Décadas atrás, em minha busca inglória dos por ques que me sujeitavam à condição de solteiro involuntário, nos primórdios da adolescência desenvolvi um hábito que carreguei por anos: ler revistas femininas. Imaginei durante um bom tempo que aquelas reportagens, crônicas e artigos, um dia, me trariam o conhecimento necessário pra romper os obstáculos até então insuperáveis frente às fêmeas da espécie.

 

Nas casas de irmãs ou amigas de minha mãe, toda vez que encontrava as tais revistas, me atirava na leitura daqueles textos escritos por e para mulheres.

 

Como poderia se supor, a leitura desses textos foi muito pouco produtiva no sentido de me ajudar na arte do galanteio. Ao invés de esclarecimentos, me trouxeram ainda mais dúvidas; afinal, não foram escritos pensando em ter a mim como leitor.

 

Além disso, as revistas descreviam figuras masculinas muito distantes da minha realidade. Mais pareciam caricaturas do que homens – ora atuando como pais turrões, ora tratados como filhos mimados.

 

Concluí que o problema estava no formato. Revistas são superficiais, descartáveis. Quem sabe, a literatura poderia me fornecer algumas respostas.

 

Mas, por onde começar?

 

A dica veio de um escritor que tava na TV falando sobre “Madame Bovary” (Gustave Flaubert), dizendo ao entrevistador que passou a escrever por causa desse livro. No dia seguinte procurei o tal livro e achei numa banca perto de casa. Li no escuro, sem saber muito bem do que se tratava a história. Contudo, fiquei curioso pelo fato do romance ser protagonizado por uma mulher.

 

Quanto ao livro em si, digo que Flaubert é um frasista de primeira (grifei dezenas de passagens), mas a história como um todo não me impressionou. De forma análoga às revistas femininas, o escritor francês descrevia o sexo oposto de modo caricatural. A “madame” do título, embora nas primeiras páginas seja descrita como culta e bem educada, passa a se comportar de maneira fútil, passional, beirando a inconsequencia. Uma mulher estereotipada, enfim.

 

Decepcionado com a literatura, desencanei do tema e passei a me concentrar em outros assuntos.

 

Tempos depois, me apaixonei pela minha atual esposa. Só que eu ainda não havia encontrado uma maneira certa de me aproximar dela. As mulheres do meu convívio social me davam conselhos contraditórios. Revistas femininas já tinham caído no meu conceito. As masculinas, então, consistiam no mantra “seja rico, bombado e feliz”. Assistir Sex and the City também não ajudava muito.

 

Decidi dar uma nova chance à literatura. Fui a uma biblioteca e encontrei “A Legião Estrangeira”. Contos da Clarice Lispector. Tá aí, uma boa aposta, imaginei.

 

As histórias eram curtas. Envolviam mulheres de todas as idades, em situações diversas, se comportando como seres humanos comuns. Foi interessante notar o existencialismo presente na indecisão entre matar ou não uma barata.

 

Ganhei a aposta e passei a namorar minha mulher.

 

Uma vez dentro de um relacionamento, no entanto, minha curiosidade acerca das sutilezas do universo feminino não diminuiu. O desejo de tentar me antecipar a algumas situações se tornou cada vez mais presente. Não lido bem com toda essa imprevisibilidade inerente ao convívio com elas.

 

Passei a ler alguns blogs escritos por mulheres. O tom confessional e direto desse formato me interessou. Suas crônicas continham boas dicas acerca dos (muitos) humores que se sucedem durante apenas 24 horas na vida de cada uma delas. Uma delas recomendou “Never Let me Go” (Kazuo Ishiguro).

 

Novamente, um romance escrito por um homem e protagonizado por uma mulher. Porém, o estilo de Ishiguro é o inverso do de Flaubert. “Never Let me Go” é uma história muito boa; contudo, o livro não contem nenhum aforismo notável.

 

Entretanto, ambos se assemelham em uma coisa: as inconsistências das decisões de seus personagens femininos. Apesar de toda a trama de Ishiguro não ter absolutamente nada de convencional, muito menos estereotipada, a relação da protagonista com sua sexualidade me pareceu inverossímil.

 

Por sorte, quando já estava finalizando esse livro, li uma crônica sobre certa feira literária onde estaria presente uma jovem escritora, Carola Saavedra. Numa rápida pesquisa na internet, vi outras boas críticas a seu respeito. Na primeira livraria que entrei, encontrei um exemplar de “Flores Azuis”, a publicação mais recente da autora.

 

Novamente, a surpresa foi das mais agradáveis. Uma mulher expondo suas fragilidades sem que o tom seja pedante ou misericordioso. Não cabe ao romance outro adjetivo senão o batido “visceral”. Bato aqui minhas palmas à coragem da Carola.

 

Curioso: ambas as escritoras que citei são estrangeiras que vieram ao Brasil ainda crianças. Coincidência?



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 17h41
[] [envie esta mensagem] []



De volta às aulas

 

Criei vergonha na cara e comecei uma pós-graduação esse ano. Um negócio de ocasião, na verdade – perto do trabalho, precinho camarada, grupo de amigos na mesma classe. Por que não?

 

Decisão tomada, pensei que a primeira coisa a me acostumar seria o ato de ir às aulas e acompanhá-las devidamente. No caso, são somente duas noites por semana. Sem drama.

 

Ah, tá. Senta lá.

 

O troço é que me formei há menos de uma década. Antes de me matricular na pós, imaginei que os métodos de ensino não haviam mudado muito durante esse período. Uma vez em sala de aula, porém, caí na real. De cara, posso dizer que demorei um pouco pra me conformar com essa moda (nem tão nova) do Power Point.

 

Não sou retrógrado. Compreendo perfeitamente as facilidades que um projetor traz à sala de aula. Traçar gráficos e tabelas em uma lousa, por exemplo, é uma tremenda perda de tempo – e, na maioria das vezes, resultam somente em garranchos incompreensíveis no quadro-negro. Além disso, o professor pode, antes mesmo de começar a discorrer sobre o tema, entregar aos alunos os slides com os tópicos que serão abordados naquela aula e ambos os lados ganham tempo. Ou seja, a tecnologia pode, sim, servir pra agilizar a transmissão de conteúdo, sem prejuízo à didática.

 

O que me incomoda é o povo que usa o Power Point como uma espécie de teleprompter. A pessoa vai lá, toda esforçada, e passa algumas horas escrevendo detalhadamente as definições e conceitos que serão extpostos em classe. Até aí, tudo bem, normal que alguém que vá se apresentar ao público faça um roteiro. O problema é quando o sujeito joga tudo, tim-tim por tim-tim nos slides... e daí, durante a aulas fica de costas para a plateia, lendo o conteúdo que escreveu no computador, projetado no canto da sala.

 

Dificilmente os laboratórios farmacêuticos inventariam um sonífero melhor. Dá uns 15 minutos e é tiro e queda. Repouso suave e ininterrupto, contagiando a classe toda. Uma maravilha.

 

Contudo, não é só com o Power Point que eu tenho que lidar. Ao que parece, todo e qualquer conceito passado em classe precisa (pre-ci-sa) ser “inovador”, de preferência juntando duas palavras – se adicionar à mistura um anglicismo qualquer, então, alcançamos a fórmula perfeita.

 

Afora os já batidos benchmarking e outsourcing, agora tão tentando vender como novo a tal co-opetição. Uma mistura de cooperação com competição, como logo se percebe. Segundo dizem, uma recentíssima e inovadora forma de administração, onde duas ou mais empresas concorrentes se unem em busca de um objetivo em comum.

 

Faltou explicar as diferenças entre a tal co-opetição e um mero cartel. Ou um pool de empresas. Ou mesmo um simples consórcio.

 

E, claro, ainda temos as dinâmicas em grupo. Ah, as dinâmicas. A salvação e glória de qualquer professor antenado do século XXI. Precisa exemplificar uma conjuntura qualquer? Dinâmica neles. A sala toda tá fazendo cara de “pois é”? Dá-lhe dinâmica. Alunos pouco participativos? Dinâmica na cabeça. Avaliação, nota, o que é isso? Dinâmica, ora essa! Levou chifre em casa? Di-nâ-mi-ca! Não é uma maravilha?

 

Entretanto, ainda vejo mais prós do que contras nessa história toda. De um jeito ou de outro, novamente estou em contato com informações novas, pessoas diferentes, visões de mundo distintas. E, obviamente, penso nas recompensas financeiras e intelectuais (nessa ordem) que a pós-graduação poderá me trazer.

 

Só torço para que não me venham com esse papo de neurolinguística, que aí já é demais.



Escrito por Álvaro às 19h01
[] [envie esta mensagem] []



 
 

TANTO FAZ - REINALDO MORAES

Li a edição mais recente desse romance curto, relançado pela Companhia das Letras comprimido num mesmo volume junto com a novela "Abacaxi" (que ainda não li). Digo que é a edição mais recente porque, como dito no prefácio do livro, o autor, Reinaldo Moraes, a cada relançamento de suas obras, recauchuta o texto, com intervenções aqui e ali.


Mas o que mais me chamou a atenção durante a leitura (além do estilo, que tornou Reinaldo num escritor idolatrado pelos seus leitores) foram as inúmeras semelhanças com "Travessuras da Menina Má", do Vargas Llosa. A saber:


- Os dois livros são protagonizados por um Ricardo;

- Narrativa em primeira pessoa;

- Os principais personagens, bem como os protagonistas, são latino-americanos;

- Cada Ricardo é chamado pelo diminutivo (Ricardinho e Ricardito) por suas amantes;

- Ambos são funcionários públicos;

- Os protagonistas têm amigos que tentam encorajá-los a se tornarem escritores;

- As duas histórias se passam, em sua maior parte, em Paris;

- Em "Tanto Faz", Ricardo mora na Rue des Écoles, e em "Travessuras", Ricardo vive na École Militaire;

- Os "clochards" parisienses têm um papel crucial em ambas as histórias;

- Tanto o escritor brasileiro como o peruano se utilizaram de elementos confessadamente autobiográficos em seus romances.


Talvez eu tenha esquecido alguma coisa, mas acho que já deu pra entender o que quero dizer.


Como eu disse, eu li a versão mais recente de "Tanto Faz", mas o livro foi publicado originalmente em 1981. Já "Travessuras da Menina Má" teve sua primeira edição em 2006. Não quero crer que o escritor peruano, vencedor do Nobel de Literatura no ano passado, tenha feito plágio da obra de Moraes. Apesar das coincidências, as histórias e o estilo de ambos os autores são muito diferentes. Mesmo os dois Ricardos só têm em comum o nome - suas aspirações e personalidades são praticamente opostas. Mas, diante de tantas semelhanças entre ambas as tramas, é de se pensar se Vargas Llosa não fez, ao menos, uma homenagem ao escriba paulistano.

 

Aliás, muito me surpreende que jamais tenham levantado essa hipótese.



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 17h34
[] [envie esta mensagem] []



 
 

Fumar se tornou um ato que mistura rebeldia juvenil com marginalidade senil.



Categoria: Aforismos
Escrito por Álvaro às 09h55
[] [envie esta mensagem] []



 

Afinal, por que escrever?

 

 


Quando resolvi começar um blog, minhas razões eram as mais nobres: dinheiro, mulheres, fama, essas coisas.

 

Faltou combinar com os russos.

 

Enfim, eu comecei a escrever nesse espaço a partir de uma mudança drástica em minha vida, envolvendo a saída de minha cidade natal, a conquista de meu primeiro emprego e... a presença de um computador dentro de casa – coisa que até então ainda não havia se mostrado fundamental em minha rotina.

 

Eu sempre gostei de escrever, muito embora tivesse preguiça de preencher cadernos, agendas, diários e similares. Cheguei a trocar cartas com uma amiga, que suportou bondosamente meus desabafos durante alguns anos.

 

Contudo, esse tipo de terapia epistolar passou a ser insuficiente quando passei à condição de ex-estudante. Ao me dar conta de que não existiam mais desculpas para permanecer na adolescência, minha atitude foi previsível: senti pena de mim mesmo, como o bom jovem mimado e sem fibra que havia me conformado em ser. Como consequência me tornei um poço de lamúrias e sentimentalismo forçado.

 

A preguiça em escrever continuava, mas só em sua forma manuscrita. Durante a faculdade eu havia desenvolvido minha técnica de digitação e vi que essa forma de redação era consideravelmente menos cansativa e aborrecida, inclusive durante meus momentos mais prolíficos. Daí veio o Orkut e graças a ele passei a exprimir meus pensamentos e sensações para um número maior de amigos. Esses, como bons amigos que são, me aconselharam a procurar um ambiente mais apropriado ao tom confessional que eu adotava em minhas narrativas. Surgiu a ideia do blog.

 

Havia um porém. Como jamais tivera computador em casa, não me animei a aprender a mexer em uma nova ferramenta que, ao que me parecia, demandaria tempo e dedicação inéditas. Um post no Orkut, um e-mail, algumas frases soltas no MSN, vá lá, mas me meter nas trevas do HTML, pensava eu, seria algo terrivelmente complexo e inglório pra quem só tinha acesso à internet através de lan houses ou PCs de conhecidos.

 

Esperei o momento em que teria um computador pra chamar de meu. O que aconteceu quando um primo me doou seu aparelho antigo, ao ganhar um novo de seus pais. Porém, ainda desempregado, eu havia me imposto um bloqueio moral que me impedia de tratar dessas frivolidades, como alimentar um blog.

 

Veio o tão esperado emprego, e logo que passei a usufruir da independência gerada por essa condição comecei a teclar meus impulsos. Percebi que não existiam as dificuldades tecnológicas anteriormente previstas, já que manusear um blog é tão simples quanto escrever em um editor de textos dos mais primários. Daí as frases e parágrafos foram se acumulando até que passei a públicá-los. Sempre com aquele firme e altivo propósito de me tornar milionário, comedor e famoso, claro.

 

As ideias vinham num ritmo mais lento se comparado aos demais blogueiros mundo afora. Inicialmente eu publicava no blog numa frequência que variava entre mensal e semanal. Depois abdiquei de qualquer padrão, já que dependo muito de um lampejo, de algo que me sirva de estopim para desenvolver um assunto. Passei a publicar eventualmente, às vezes passando meses sem qualquer atualização, outras vezes postando três textos em menos de uma semana.

 

Essa inconstância aliada à minha total incapacidade de me auto-promover tornou meu blog num espaço muito, muito pouco frequentado. Houve momentos em que pensei em desistir, muito embora não soubesse o que fazer com aquilo que já havia sido postado. Além disso, de vez em quando surgia alguém que comentava comigo que tinha lido algo de interessante por aqui.

 

No entanto, o que fez, de fato, eu insistir na ideia do blog foi destiná-lo a ser um depósito de minhas reflexões que penso serem dignas de nota – mesmo que não o sejam para o público. Eu, honestamente, me envergonho por não lembrar o nome do escritor que cunhou essa frase, já que ela define da forma mais exata possível a razão que mantém em mim a vontade de escrever, mas cito-a mesmo assim: “publico meus textos para me livrar deles”. Desde que ouvi isso, percebi que, muito mais do que ser lido (para, enfim, conquistar fortuna, sexo e celebridade), o que eu precisava mesmo era extravasar pensamentos que não saíam da minha cabeça por mais que eu refletisse sobre eles. Mesmo que a chance seja mínima de que alguém se interesse por tais teses, deixá-las à disposição de um interlocutor qualquer (mesmo que seja imaginário) aciona um mecanismo em minha mente que me permite não pensar mais naquilo; passo a refletir sobre outras coisas e sigo adiante.

 

Eu sempre achei uma tremenda hipocrisia as afirmações de alguns escritores quando esses dizem não se importar com opiniões e impressões de quem os lê. Considero tais afirmações hipócritas e pedantes pelo simples fato de que não há força mais tentadora ao ego do que a necessidade de encontrar semelhantes que pensem igual a nós. Ser o porta-voz de uma geração ou de um grupo, então, é algo idealizado por qualquer ser humano que descubra em si alguma capacidade de expressão. Portanto, é claro que eu gostaria, e muito, de ser lido, comentado, debatido (para, assim, atrair grana, garotas e holofotes, obviamente). Porém, a verdade é que vivo bem com o fato de que sou pouco lido, por isso compreendo as declarações mais afoitas daqueles escritores, enquanto me distraio por aqui.

 



Escrito por Álvaro às 12h39
[] [envie esta mensagem] []



 
 

TRAVESSURAS DA MENINA MÁ – MARIO VARGAS LLOSA

Nos últimos dois anos eu tenho desenvolvido uma teoria baseada numa conclusão literária óbvia: Livros grandes são grandes porque precisam ser grandes.

 

Um livro repleto de longas e numerosas páginas contém uma ideia que não tem como ser resumida. É razoável acreditar, inclusive, que o próprio escritor tenha sido o primeiro a esgotar as tentativas de reduzir a narrativa ao máximo (ou ao mínimo, no caso).

 

O raciocínio é o mesmo para os textos mais curtos. Não dá pra estender uma novela ou mesmo um conto de forma artificial – fatalmente haveria encheção de linguiça e a redação perderia a sua força.

 

No entanto, um romance de fôlego, cujo texto se estende por dezenas de milhares de palavras, para ser apreciado como deve, tem que ter ritmo. E minha teoria parte do pensamento de que esses tratados quilométricos só passam pelo crivo da posteridade por conterem exatamente isso: ritmo.

 

E o que é o ritmo no contexto literário? É a solução encontrada pelo autor para que a velocidade da narrativa esteja de acordo com os acontecimentos contidos em cada página, de um modo tal que tanto o estilo da escrita como a história em si estejam em sincronia.

 

Me dei conta disso ao perceber que demorei o mesmo tempo (3 semanas) para ler tanto “Crime e Castigo” de Dostoiévski (um calhamaço de quase mil páginas) como “O Processo” de Kafka (um livreto com menos de 200 pág.).

 

Hoje, decorridas as mesmas 3 semanas após o início da leitura de “Travessuras da Menina Má”, terminadas as suas 400 páginas, consolido a minha teoria. O ritmo da escrita de Vargas Llosa não é tão rápido como a narrativa quase policialesca de “Crime e Castigo”, tampouco se rasteja como no claustrofóbico “O Processo”. O que une as 3 obras, no entanto, é que a fluidez da história advém justamente da adequação entre a agilidade do texto e aquilo que está sendo revelado. É o que caracteriza, portanto, um grande mestre na arte (ciência?) de contar histórias.

 

O escritor peruano, a propósito, expõe a sua maestria ao demonstrar de maneira irretocável que é possível, sim, apanhar um punhado de clichês, temperá-los com erotismo (e alguma pieguice) e construir com isso um poderoso romance. Palmas para ele.



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 17h36
[] [envie esta mensagem] []



Minha pequena

     

 

Uma frase de um primo meu define bem: “curto as baixinhas; é mais mulher por metro quadrado”.

 

E ficamos assim. Mulheres de proporções diminutas sempre são adoráveis aos nossos olhos.

 

E por quê? Oras, porque... bem, vejamos.

 

Pra começo de conversa, as mulheres são naturalmente, em média, menores do que os homens. Além de mais baixas e estreitas, as proporções das extremidades femininas também são menores. Ou seja, mesmo uma mulher alta, quando comparada a um homem da mesma estatura, suas mãos, pés e rosto sempre serão menores. Uma “grandalhona”, portanto, também pode ter as suas partes apreciadas na forma diminutiva pelo amante – seus dedinhos delicados, seu narizinho lindo, e por aí vai.

 

A consequência natural dessas condições é a reação instintiva que temos de associar pequenez a feminilidade. E, no caso de um homem apaixonado, nada mais sincero do que chamar a sua escolhida de “minha pequena”.

 

No campo literário, sempre propenso aos temas caros à sensibilidade humana, abundam os exemplos de exaltação ao minimalismo das formas femininas. O recém premiado Vargas Llosa, 4 anos antes de ser agraciado com o Nobel, publicou o notável “Travessuras da menina má”, em que descreve um personagem que vive em absoluto encantamento pelos “pezinhos” de sua amada. Mesmo um escritor assumidamente homossexual como Oscar Wilde, em seu clássico “O retrato de Dorian Gray”, aplica o diminutivo nas frases em que detalha a anatomia da moça que se derrete pelo protagonista da trama, sempre apontando suas “mãozinhas”. Já Guimarães Rosa gostava de se referir à graciosidade da “boquinha” sua esposa.

     

De fato, é gostoso ter aquele pedacinho de gente ao nosso lado. Para os homens, será um eterno mistério a fórmula matemática que permite conter em uma porção tão pequena uma quantidade aparentemente infinita de sensações, pensamentos e emoções. A vontade de pegar a mulher no colo, de serví-la, cobrindo-a com um simples abraço, deve vir desse fascínio masculino ancestral despertado por aquele ser que, embora menor, é tão mais complexo – como se fosse uma versão mais enxuta e revisada de nós mesmos.



Escrito por Álvaro às 16h29
[] [envie esta mensagem] []



 

A causa e a consequência

 

 

Da série “tá bom, agora descobre a cura da AIDS”, foi publicada mais uma dessas pesquisas comportamentais que têm como foco as relações afetivas.

 

A pesquisa, em questão, chegou à conclusão de que as mulheres são mais atraídas por homens que não deixam claros os seus sentimentos. Segundo a reportagem, os pesquisadores chegaram a essa conclusão através do raciocínio de que, se a mulher não tem certeza de que o seu companheiro a ama, tanto mais tempo ela passará pensando nele, o que reforçará, eventualmente, seus sentimentos em relação ao rapaz.

É difícil levar tal conclusão a sério. Afora a tortuosidade (e, por que não, criatividade) do argumento, temos aqui o caso típico de confusão entre o que é causa e o que é consequência.

 

Pra começo de conversa, um homem que não deixa claro os seus sentimentos é um sujeito que simplesmente não os tem – ou, se muito, não os tem de maneira suficientemente intensa para expô-los. Uma pessoa genuinamente apaixonada, independentemente do gênero, não consegue disfarçar isso de forma convincente; tampouco se preocupa em omitir suas emoções ao objeto de desejo a partir do momento em que surge cumplicidade entre ambos.

 

O fato de uma mulher se apaixonar por um homem que não lhe retribui suas demonstrações de afeto tem mais a ver com as condições em que os dois estavam quando se encontraram pela primeira vez. Isso é facilmente ilustrável.

 

Vejamos.

 

De um lado, temos um sujeito bem resolvido sexualmente, sem grandes traumas afetivos, que dispôs em boa parte de sua juventude da companhia de moças que lhe satisfaziam em vários aspectos.

 

De outro lado temos uma moça que, apesar de inegavelmente bonita, enfrentou algum tipo de obstáculo (como um círculo social restrito por excesso de severidade familiar ou por ter sido criada em uma comunidade pequena, ou seja lá o que for) que não lhe permitiu experimentar as mesmas sensações que o fulano acima vivenciou.

 

Os dois se encontram, curtem a presença um do outro e desenvolvem um relacionamento amoroso.

 

Pergunto: diante das experiências que tiveram ao longo da vida, qual a possibilidade de um e de outro descobrirem em seu parceiro alguma novidade que implique em um sentimento mais acalorado?

 

Outra: qual dos dois irá demonstrar mais vezes o quanto o companheiro é importante para si?

 

E aí a tal pesquisa vem querer me convencer que o cara conquistou a menina pelo seu jeito blasé?

 

Oras, faz mais sentido pensar que o cara vem a ser blasé justamente por ter os atributos que levaram a menina (e tantas outras) a se apaixonar por ele. Inverter esse raciocínio é uma mistura de desonestidade intelectual com liberdade poética barata.

 

Há toda uma indústria por trás disso, desde livros de paquera que ensinam os artifícios da abordagem falsamente descompromissada, até filmes que exploram a quantidade de dias que um homem deve esperar para conversar ao telefone com sua pretendente depois do primeiro encontro. Daí a necessidade de se fingir que determinado rapagão é pegador porque não dá bola pra ninguém. Se é possível aprender suas táticas, dá pra replicá-las. E, através da repetição, consegue-se o mesmo índice de sucesso do conquistador. É a cultura do do it yourself aplicada à mitologia de Don Juan.

   

Seria maravilhoso se isso fosse verdade. Porém, lembremos do seguinte: primeiramente, o legítimo conquistador não é muito adulador (ao menos não por muito tempo) simplesmente porque não vê motivos pra sê-lo, já que, caso perca a companheira, pode substituí-la sem tanta dificuldade. Em segundo lugar, só pode adotar a postura do “tô nem aí” alguém que disponha de outros artifícios (charme, riqueza, espirituosidade, whatever) para atrair o desejo da pretendente.

 

É o tal negócio: o galã da novela, se tá quieto no seu canto, é sossegado e não se deslumbra; o feinho da turma, quando fica na dele, é anti-social e excêntrico.

 

Findo argumento.



Escrito por Álvaro às 17h16
[] [envie esta mensagem] []



 

Passionalidade passiva 

 

 


O noticiário recente dá conta de que uma jovem escritora brasileira, ao participar de um reality show familiar, teve seu casamento abalado por conta de uma traição ocorrida durante as filmagens do programa.

 

Em suas considerações sobre o episódio, a escritora explica que sua relação com o marido sempre fora um tanto destrutiva – característica esta, segundo suas palavras, alimentada pela paixão ilimitada que sentiam reciprocamente enquanto estiveram juntos.

 

Achei curioso o fato de que uma moça letrada, observadora e sensível (uma artista, afinal) tenha apelado ao lugar-comum da passionalidade para justificar o erro que cometeu. Assumir que a relação se tornou destrutiva por causa da tortuosidade passional que tomou conta da personalidade do casal é a maneira mais fácil de se auto-perdoar – além de ser uma maneira disfarçadamente pedante (e, pretensamente, menos patética) de sentir pena de si mesma.

 

A primeira coisa que noto nesse tipo de situação é que é sempre o lado da mulher a sentir a aspereza do relacionamento. Muitas delas alegam que a relação é destrutiva, que a neurose derivada da paixão é tamanha a ponto do casal se agredir mutuamente. Contudo, vejo-as incapazes de perceber que essa destrutividade é sempre uma reação delas às ações dos companheiros.

 

E quais ações são essas, senão o exercício da arte da conquista? Aqui não cabe abrir espaço para ilusões. Um homem charmoso, galanteador, que saiba envolver uma mulher a ponto dela se apaixonar rapidamente por ele, tem uma vocação. Sua vocação é se aproximar, flertar e provocar a admiração de suas interlocutoras. E qualquer adolescente sabe qual o desfecho desse ritual. Mais: qualquer criança sabe que, quando uma pessoa descobre que possui uma vocação, ela passará a cultivá-la tão logo surjam oportunidades para isso.

 

Isso posto, a partir do ponto em que é despertado o genuíno interesse por um sujeito dessa estirpe, a interessada em prolongar essa união tem três caminhos a seguir: se conformar com essa habilidade do companheiro e deixar que ele exercite-a quando bem entender; aguardar uma improvável alteração comportamental por parte do dito-cujo; ou, então, reagir a esses infortúnios pagando com a mesma moeda. A síntese desses dois últimos caminhos (e todas as suas ríspidas consequências) resultam na tal “relação destrutiva” mencionada acima.

 


Enfim, quaisquer das alternativas descritas não me parecem nada promissoras para alguém que busca felicidade conjugal. No mínimo uma das partes permanecerá em estado de insatisfação permanente.

 

É óbvio, portanto, que os impasses resultantes desse tipo de relacionamento nada têm a ver com uma paixão supostamente violenta a ponto do casal se agredir de forma sincronizada. Atribuir à paixão esse papel nada mais é que cegar-se às evidências produzidas pela própria inviabilidade da união.

 

Esse tipo de mal entendido só será extinto no dia em que as mulheres perceberem que há uma incompatibilidade fundamental entre viver com um homem genuinamente sedutor ao seu lado e obter a exclusividade de sua atenção. Enquanto isso não ocorrer, estarão sempre submetidas à passividade diante do acaso – um acaso que não é, necessariamente, passional.

 

Por último, não deixa de ser irônico perceber que nunca há cafajestes reclamando da escassez de companhia. Para esse tipo, pretendentes é o que não falta.

 



Escrito por Álvaro às 12h47
[] [envie esta mensagem] []



Back to the Future

 

 

 

 

Nesse fim-de-semana revi um filme que havia assistido apenas uma vez, logo após seu lançamento, e que, tanto por ter gostado do filme, como por ter ouvido muita repercussão a seu respeito, tava com vontade de assistir novamente: “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”.

 

Terminada a projeção, me recordei das impressões que tive ao ver o filme pela primeira vez. Pra começar, achei o título meio sem pé nem cabeça. Mesmo o original, Eternal Sunshine of a Spotless Mind, é estranho, embora faça um pouco mais de sentido e tenha uma sonoridade bonita – e a explicação dada para a frase durante a película não é muito convincente. Em segundo lugar, lembrei que naquela época achei estranho o fato de que todos comparavam “Brilho Eterno...” com outro blockbuster de seu tempo, o “Efeito Borboleta”.

 

Sim, sou um marcha-lenta que precisou de 6 anos pra chegar à mesma conclusão que as pessoas normais fizeram em menos de duas horas. Claro que é possível, sim, fazer uma analogia entre esses filmes, já que, para fins existenciais, manipular memórias (Brilho Eterno) pode equivaler a uma viagem pelo tempo (Efeito Borboleta).

 

Mais do que isso. Ambos os filmes propõem a reflexão (claro, numa linguagem adolescente, com um arremedo de ficção científica, etc., etc., etc.) sobre se vale a pena embarcar nesse tipo de viagem.

 

A clássica trilogia “De Volta para o Futuro” diz que sim, vale muito a pena – mesmo correndo o risco de alguma coisa dar errado, dá pra resolver tudo se você souber andar de skate e já tiver jogado Wild Gunman.

 

Nostalgias de Sessão da Tarde à parte, a reflexão proposta por histórias que abordam essa temática passa pela possibilidade de se reviver certas experiências, algo que, ao meu ver, é perturbador. Mesmo que, em tese, uma volta ao passado seja capaz de “melhorar” o presente, eu não tenho convicção alguma de que gostaria de recomeçar do zero.

 

Não estou pregando aqui o refrão hipócrita do “não me arrependo de nada do que fiz”. Me arrependo, e muito, de inúmeras cagadas que aprontei. Deslizes diversos que trouxeram à minha vida adulta uma desnecessária montanha de aborrecimentos.

 

Por outro lado, aproveitei gostosamente a minha infância e demais fases despreocupadas da vida. O que, certamente, não implica em dizer que eu gostaria de reviver tudo de novo – assim como ter saudade de um lugar não significa que há vontade de morar lá.

 

Em resumo, pra terminar o raciocínio de uma maneira bem clichê, eu sou o resultado dos meus tropeços e de minhas gargalhadas. Não que eu seja um modelo de auto-satisfação (na realidade é o oposto disso), mas o fato é que não tenho certeza nenhuma de que eu seria uma pessoa melhor se fosse capaz de reescrever essa história.

 

Além disso, ao invés de me preocupar com experiências passadas, entendo que é muito mais interessante encarar o desafio de fazer do meu cotidiano algo que seja tão excitante quanto os bons momentos de minha juventude. Um pensamento reforçado quando percebi que mesmo depois de velho eu ainda podia ter um ataque incontrolável de risos provocado meramente pela euforia de ter realizado algo novo.



Escrito por Álvaro às 18h31
[] [envie esta mensagem] []



 
 

PERGUNTE AO PÓ – JOHN FANTE

Expectativas são realmente traiçoeiras.

 

O clássico de Fante foi uma leitura por mim adiada muitas e muitas vezes, sem uma razão única. No entanto, a cada vez que eu lia comentários sobre o livro, aumentava em mim a vontade de devorá-lo, esperando algo não menos que sublime, um verdadeiro divisor de águas em minha parca biblioteca. Cineastas, roteiristas e escritores diversos se derretendo em elogios ao autor e sua obra-prima, considerando-a como um dos grandes momentos da literatura do século XX.

 

Além disso, pessoas próximas a mim que haviam lido o romance sempre me transmitiam as melhores impressões. Um amigo que, confessadamente, detesta ler, abriu uma exceção para as aventuras de Arturo Bandini.

 

A ansiedade em lê-lo, no entanto, foi abortada quando vi o preço do dito-cujo. Vergonhosos trinta e poucos reais por um livro de cento-e-algumas páginas. Não queria comprar em sebos, pegar um exemplar na biblioteca ou mesmo pedir emprestado para algum amigo, pois entendia que um clássico de tal envergadura merecia o esforço de adquirir um volume novinho, pronto para ocupar um lugar de destaque em minha prateleira.

 

Havia, no entanto, uma opção para ler Fante: sua obra menos conhecida, “1933 Foi um Ano Ruim”, vendida em bancas de rua por algo em torno de R$ 10. A impressão foi a melhor possível. Logo na primeira página o livro se apossou da minha atenção de forma definitiva e li o romance de forma compulsiva, quase sem parar, celebrando a concisão do autor ao mesmo tempo que lamentava a duração tão pequena da leitura (terminei em 2 dias, só naquele esquema de ler durante o trajeto casa-trabalho-casa).

 

Já familiarizado com o universo de Fante, criei coragem (e vergonha na cara) e comprei “Pergunte ao Pó”. Novamente, sem motivos de grande relevância, acabei postergando o dia em que eu seria mais uma vez capturado pela sua prosa ágil e emocionante.

 

Daí que, semanas atrás, começo de ano, naquele momento de tentar recolocar as leituras em dia, pus “Pergunte ao Pó” debaixo do braço e parti rumo às suas páginas. Logo de cara, um prefácio matador de Bukowski, entoando vivas ao romance, praticamente afirmando que se tornou escritor por causa de Bandini e suas andanças.

 

Li do primeiro capítulo ao último tentando encontrar aquela fagulha, aquele insight de que tantos falaram. Não consegui achar o tal elã, muito embora veja, sim, méritos na obra. Mas destaco-a longe de outros clássicos do século XX, bem abaixo, até, do próprio Fante, com seu “1933...”.

 

Imagino que parte da “culpa” advém das minhas próprias expectativas – provavelmente infladas pela ansiedade em ler o romance.


Uma outra explicação possível é que o tipo de narrativa encontrado em “Pergunte ao Pó” tenha sido tão imitado e reciclado por outros autores (que eu havia lido antes, mas que escreveram depois de Fante) que, ao ter contato com a obra original, eu simplesmente já tivesse assimilado tudo aquilo que poderia me impactar.

 

Algo parecido me aconteceu quando li “Dom Casmurro”. Dá impressão que se comprou gato por lebre, mesmo com a certeza de que o vendedor te entregou o prometido. Pena...



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 18h36
[] [envie esta mensagem] []



 

Da arte da trollagem

 

    

 


Venho de uma família formada por professores. Muitos professores. Além de pai e mãe professores, tenho ainda mais de uma dezena de parentes próximos que se aventuram na nobre atividade docente.

 

Obviamente, não faltam pessoas que me perguntam se eu nunca quis me aventurar no magistério. Minha própria mãe era uma entusiasta da ideia, aliás.

Mas essa opção sempre me foi descartada, por três motivos básicos. Em primeiro lugar, não tenho didática alguma, sou péssimo pra reportar uma ideia a alguém de forma clara e direta – além de ser tímido a ponto de transmitir insegurança em minhas frases. Além disso, ser professor implica em, geralmente, trabalhar muito, ganhar pouco e, paradoxalmente, ser visto como preguiçoso por uma parcela inexplicavemnete grande da sociedade. Por fim, nunca tive vontade de lecionar porque perco facilmente a paciência ao ser confrontado com opiniões diversas ao meu raciocínio lógica e egoisticamente incontestável.

 

Na internet, descobri que compartilho essa última característica com um número razoável de pessoas. Tanto os trolls quanto suas vítimas mais frequentes podem ser caracterizados dessa maneira. Lógico que um troll genuíno, embora não tenha paciência para suportar opiniões contrárias, encara uma contestação como um desafio, motivando-se a lançar mão de todos os sofismas que dispuser, com o fim de “vencer” a discussão.

 

Já vai por aí mais de uma década, mas, confesso, já fui um troll. E dos mais ativos, numa época em que a internet no Brasil mal tinha chegado à classe média – antes mesmo do termo “troll” existir. As discussões furiosas em que me metia foram úteis no propósito de me distrair durante as tardes monótonas da faculdade, quando não tinha aula depois do almoço, nem um bom motivo pra voltar pra casa. Além do que, serviram pra melhorar, na marra, a minha digitação.

 

O hábito da trollagem rompeu a barreira da internet e passei a ser um sofista de carterinha, gabando-me da minha capacidade de desqualificar argumentos contrários às minhas convicções. Isso também teve alguma serventia durante rotina de estudos, já que conseguia “embasar” algumas de minhas hipóteses na base do convencimento – e algum cansaço – da pessoa que estava me avaliando.

 

O problema é que isso se tornou um vício. Qualquer contradição que eu lesse ou ouvisse perdurava na minha cabeça por meses (às vezes, anos) e eu ficava durante esse período ruminando mentalmente toda a contra-argumentação que eu jogaria na cara do interlocutor na primeira oportunidade que aparecesse.

 

Com o fim da faculdade, dei uma maneirada na minha compulsão retórica. Primeiro porque fiquei sem livre acesso à internet (teria que pagar pra tê-lo novamente) e depois porque permaneci desempregado por um tempo muito maior do que o tolerável, sepultando de maneira irreversível boa parte da arrogância que cultivei em todos os anos anteriores à vida adulta.

 

Ao conquistar um emprego decente e vir pra São Paulo, recobrei parte da auto-estima perdida nos tempos em que dependia de bicos e mesada pra me virar. Como efeito colateral, meu lado troll renasceu das cinzas e retomei as discussões infinitas mentais e virtuais.

 

A princípio, não me incomodava com esse retorno às batalhas retóricas, que, afinal, havia moldado parte das minhas convicções. Discutir interna e eternamente sobre um assunto torna-lhe um expert,  não no assunto, mas na arte de impor o seu ponto-de-vista sobre ele.

 

Os anos de abstinência, no entanto, me fizeram perder a mão e, ao invés de trollar, passei a ser trollado. Com frequência, via meus argumentos serem rebatidos – não por motivos lógicos, obviamente, mas pelas próprias armadilhas sofistas às quais eu recorria antes de enferrujar –, o que, além de me frustrar, fazia eu passar um tempo ainda maior do meu dia “enfrentando”, de forma retroativa, as falácias que deram a “vitória” ao interlocutor.

 

Dessa vez, no entanto, ao invés de um universitário razoavelmente ocioso, eu já não mais dispunha de tantas horas diárias para aperfeiçoar meu discurso. Além de trabalhar, passei a namorar e, logo depois, morar junto com minha então namorada. Todos os ônus e bônus que essa nova situação implica me ocupavam todo o tempo outrora livre, de modo que aquele jogo de argumento/contra-argumento passou a ser mentalizado durante o período onde, supostamente, eu deveria dar atenção às outras atividades que passei a ter que desempenhar.

 

O momento-chave ocorreu no ano retrasado, quando me percebi irritadíssimo com minha mulher, durante uma conversa banal, por conta das mentalizações que eu estava fazendo, simultaneamente, sobre discussões netais envolvendo cotas em universidades e leis anti-fumo. Ao me dar conta do despropósito em que aquilo estava se tornando, decidi por fim aos meus tempos de orgulhosa trollagem.

 

Uma sequela, no entanto, restou dessa fase: a mania de escrever quilometricamente, tentando abafar possíveis opiniões avessas às minhas. Isso, junto à minha natural inépcia em me expressar de forma mais simples e objetiva (ser didático, enfim, tal qual meus familiares), torna meu blog nisso: um amontoado de textos gigantescos e desanimadoramente cansativos. Minha retórica sabota-se a si própria e sou um troll de mim mesmo, enfim.

 



Escrito por Álvaro às 18h27
[] [envie esta mensagem] []



 
 

AMERICAN PSICHO – BRET EASTON ELLIS

É o segundo livro do Ellis que eu leio  já conhecia o "Glamourama".


A fórmula é a mesma: um playboy com sexualidade indecifrável toca sua vida flanando no Upper West Side, paquerando modelos e frequentando as baladas dos almofadinhas de Wall Street. Daí, de repente, o leitor se dá conta do labirinto psicótico em que o autor lhe enredou. E torna-se difícil largar o livro até conseguir decifrar todas as pistas falsas que você havia tomado por verdadeiras.

 

B.E.Ellis é do mal...



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 12h37
[] [envie esta mensagem] []



Oras, o amor

 

 

   

 

 

OK, reconheço que não é o tema mais fácil de se lidar. Mas uma hora eu teria que encarar, certo?

 

Como inspiração, leituras recentes e o prosaísmo da vida a dois.

 

Na última sexta-feira, no começo da tarde, minha mulher me telefonou, chorando de dor. Expliquei o caso à diretora do setor onde trabalho, ela permitiu que eu saísse naquela hora e me encontrei com a minha mulher para irmos a um hospital próximo ao seu serviço.

 

Diagnóstico: infecção urinária.

 

Enquanto minha mulher estava sendo medicada, corri até em casa pra pegar o carro, a fim de não termos que tomar o metrô, em pleno horário de pico, com ela naquele estado.

 

Durante esse trajeto de ida e volta, para me distrair um pouco, fui tentando imaginar um paralelo entre o último livro que eu havia terminado, a clássica “Odisseia”, de Homero, e aquele que estava (re)lendo até então, “O Animal Agonizante”, de Phillip Roth. O livro do americano faz uma referência direta ao épico da mitologia grega, mas o que une as duas histórias é o poder tremendo que a beleza feminina exerce no comportamento masculino. Homero escreve sobre a bravura de um marido que deseja reconquistar seu lar, que durante sua ausência fora maculado por antigos amigos, hipnotizados pela graciosidade de sua esposa. Já Roth nos mostra, de uma forma que resvala no tragicômico, o quão perturbado e avesso aos seus próprios princípios se torna um homem diante do fascínio exercido pela voluptuosidade feminina (um comportamento errático que se assemelha a outro clássico de Homero, a Ilíada, onde é narrada a famosa guerra de Tróia, basicamente causada por uma crise conjugal irrompida pela lendária formosura da esposa de um rei grego).

 

Chego de volta ao hospital mais ou menos às 7 da noite e reencontro minha mulher, já um pouco melhor. Entramos no carro, começamos a rodar, ela come o sanduíche que lhe preparei, troca a sandália pelo chinelinho que eu trouxe e, 15 minutos depois, começa a chover forte. O congestionamento ao longo do caminho é tão previsível quanto inevitável.

 

Eu nunca soube como se chama o músculo que fica na parte da perna anterior à panturrilha, bem na frente da canela. Mas, mesmo sem saber qual o seu nome, durante as 3 horas seguintes, preso ao engarrafamento, eu descobri que esse músculo pode ficar bastante dolorido após incontáveis repetições do esquema embreagem / 1ª marcha / acelerador / embreagem / 2ªmarcha / acelerador / freio / embreagem / ponto-morto.

 

Quando já tava com medo de sentir câimbras, o trânsito finalmente desafogou e chegamos em casa. Embora tarde da noite, mantivemos o ritual noturno de brincar/cuidar da cachorrinha, tomar banho e comer. Passada a dor na minha perna, seguimos para cama e conversamos um pouco antes de dormir.

 

Enquanto batemos papo, fica claro pra mim que a lembrança que ficará em nossas memórias, dessa tarde de sexta-feira chuvosa e atribulada, será das gargalhadas que demos dentro do carro parado, pela chuva e pelo trânsito, quando vimos um casal, dentro de outro carro, que, aproveitando os numerosos momentos em que o fluxo ficava inerte, começou a fazer sexo, com a mulher subindo no colo do motorista (que conseguia, espantosa e simultaneamente, dirigir o carro durante os breves períodos de movimentação do tráfego). Damos risada novamente ao relembrar o caso, ela toma os remédios receitados pelo médico e dormimos com a TV ligada, como sempre.

 

É gostoso ter ao lado alguém com humor tão compatível ao seu. Uma coisa que o casamento me ensinou foi que a qualidade da relação é determinada pelo tanto que você se sente à vontade com a pessoa ao seu lado. Se existem coisas a serem escondidas, é porque algum desconforto existe. E vice-versa.

 

Por exemplo, durante a saga de Odisseu, ele é confrontado por um dilema: ou ele permanece na companhia das deusas mitológicas que lhe oferecem amor e juventude eterna ou enfrentará toda sorte de provações e sofrimentos para conseguir retornar aos braços de sua adorada esposa. O herói de Homero prefere arriscar e voltar para a imprevisibilidade do lar doce lar do que enfrentar uma solidão monótona entre imortais com os quais ele não se identifica.

 

Já o protagonista de “O Animal Agonizante”, uma vez arrebatado pela formosura de uma conhecida, somente sente-se impelido a abandonar suas convenções porque se fascina com a possibilidade de poder compartilhar com ela um tema caro à sua própria existência.

 

Enfim, ao se apaixonar, o homem é arrebatado pela beleza feminina, mas somente deixa de lado o culto ao efêmero quando se sente ligado à personalidade da companheira. E essa afinidade só será cultivada se o ele enxergar na escolhida reflexos de sua própria alma. Qualquer coisa contrária a isso tornará a união um mero estorvo para ambos. Daí a importância de se sentir à vontade na companhia um do outro.

 

Em miúdos, amar é se sentir e casa.



Escrito por Álvaro às 17h41
[] [envie esta mensagem] []



Toca Raul!

 

 

 

 

Quando estava entre a infância e adolescência, naquela fase em que começamos a descobrir a música, digo, a música além daquela que ouvimos em casa, eu me sentia deslocado por conta das minhas preferências. Meus pais dispunham de um bom acervo de MPB, música clássica e jazz e era basicamente isso que eu tinha ouvido até então, somado a alguns clássicos infantis da época, como Saltimbancos e Balão Mágico. As pessoas que eu conhecia na escola, futebol, na igreja, no caratê, etc., não tinham a menor familiaridade com esses sons.

 

Morando no interior do Mato Grosso, eu sabia de cor inúmeras letras de música sertaneja, algo que se aprende por osmose, mesmo sendo indiferente a elas (ou até detestando algumas). Ou seja, eu conhecia o que meus vizinhos, colegas e professores escutavam. Mas a recíproca não era verdadeira, no caso. Voltando pra casa na perua que me levava e me buscava na escola, observava os colegas, mais o “tio da Kombi” e a “tia monitora” cantarolarem de forma emocionada “Pensa em Mim”, “É o Amor” e “Nuvem de Lágrimas” durante o trajeto. Eu gostava do clima propiciado pela cantoria naqueles 45 minutos de trânsito que, enfim, podiam ser mais aborrecidos, embora as canções em si não me dissessem nada. Muita dor-de-cotovelo, achava que era música de velho, enfim.

 

Em casa, lendo os jornais de São Paulo que meu pai assinava, quando eu procurava matérias sobre música para pessoas da minha idade, só via reportagens sobre jovens que gostavam de rock. Estes, basicamente, subdivididos em 2 grupos: os tietes das bandinhas da moda, que colecionavam pôsteres e camisetas pretas, e os “puristas”, que só gostavam de bandas antigas, com suas mil e uma formações espalhadas em discografias exageradamente complexas. Também não me inspiravam coisa alguma.

 

Meus amigos mais próximos, igualmente, eram divididos. Tinha aqueles que só gostavam da música eletrônica da época, o famoso “poperô”, e os que, na medida do possível, tentavam conhecer uma coisinha ou outra do caldeirão pop dos anos 90 – um processo muito difícil numa época sem internet e numa cidade com apenas 2 rádios, facilitado apenas quando a TV a cabo chegou na região, em meados daquela década. Transitava entre essas duas turmas com desembaraço, pois também gostava desses estilos, mas suas conversas, quando o assunto era som, sempre me pareceram insuficientes, já que eu continuava curtindo as coisas que meus pais ouviam.

 

Enfim, quando o assunto é música, eu sempre me sentia um estranho no ninho.

 

Os anos se passaram, eu saí do Mato Grosso pra fazer faculdade em minha cidade natal, no interior de São Paulo, pensando que encontraria no meio acadêmico pessoas com maior amplitude cultural e, portanto, com um gosto musical mais abrangente. Na verdade, aumentou somente o número de tribos que compunham o meu círculo social: tinha os nerds que gostavam de música erudita e rock progressivo, os descolados do jazz&blues, os bicho-grilos que curtiam rock sessentista e tropicalismo, moderninhos que ouviam black e brit-pop, punks/metaleiros de diversas estirpes e a turma do pagode. Claro que cada grupo não funcionava como um compartimento estanque, então vários amigos meus transitavam em duas ou mais dessas esferas com desembaraço. O problema, novamente, é que só eu conseguia comportar todas essas vertentes (e mais algumas) em meu walkman.

 

Saí do interior rumo à capital imaginando que, enfim, encontraria mais pessoas adeptas à essa filosofia quase no limits em relação a estilos musicais, mas, tal qual houve na faculdade, se ampliou o número de segmentações e estilos, mas não a quantidade de pessoas dispostas a fazer parte da maioria deles. Continuei sozinho na empreitada.

 

Notei, claro, que o “defeito” estava em mim. Pessoas que se denominam “ecléticas”, sempre gostam de estilos musicais aparentados, como rock, country e blues, ou então jazz, soul e bossa nova. Quem gosta simplesmente de barulho consegue chacoalhar a cabeça num show de trash metal ou de rap, talvez até numa rave, mas dificilmente chegará em casa e colocará, digamos, um disco do Jorge Ben pra tocar seguido de uma sonata de Beethoven. Por conta disso, passei a considerar que o conceito do ecletismo não se aplicava às minhas preferências. Sentia que eu estava além disso.

 

Pra começo de conversa, eu sempre encarei a música de uma forma muito, muito peculiar. Por exemplo, eu não reparo em letras – eu simplesmente não consigo notar, às vezes decoro frases, estrofes inteiras, mas não presto atenção no significado das palavras (herança, talvez, de uma formação musical realizada com doses generosas de música instrumental). Outra estranheza minha é a ausência de restrições temporais – comigo não tem essa de a música ser nova ou velha; se eu ouço pela primeira vez, é nova pra mim –, ainda que determinadas sonoridades me soem datadas, envelhecidas (a dupla Elvis&Beatles servem de exemplo).

 

E é aí que chego ao ponto. Considero a dupla acima indiscutivelmente boa. Elvis Presley tinha lá sua dose de canastrice, mas era um tremendo cantor, não alcançou um sucesso absurdo (inimaginável na época) à toa; revolucionou a indústria de entretenimento e marcou de maneira decisiva o comportamento de, pelo menos, 3 gerações. Os Beatles, igualmente marcantes, além de bons músicos foram compositores competentes, cujas canções influenciam de maneira confessa inúmeros artistas que nasceram décadas após a dissolução da banda.

 

Mas, como assim, achar o cara bom, mas não gostar da música dele? E o engraçado é que, nisso (até que enfim!), eu não sou diferente de ninguém. Todo mundo que conheço e que já conversou sobre isso comigo já confessou não gostar de um músico, grupo, conjunto, etc. que considera tecnicamente bom.

 

O mais engraçado é notar que isso não acontece com outros tipos de manifestação artística. Por acaso alguém já leu um livro e viu que história era OK, bem escrita, com personagens bacanas, mas não gostou? Ou, então, imagine o sujeito que assistiu um filme, curtiu as atuações, a direção segura, considerou boa a condução da narrativa, mas não achou graça em nada, do início ao fim. Não faz sentido mesmo, mas é algo que acontece direto quando o assunto são melodias e canções.

 

A única hipótese que consigo formular para ao menos tentar explicar esse fenômeno é que a música é uma forma de arte tão invasiva, que nos toca de maneira tão profunda que, mesmo quando não nos emociona, conseguimos assimilar pelo menos uma parte daquilo que está sendo transmitido pelo intérprete. A reunião de batidas e acordes ritmados de forma harmônica é decididamente a forma mais universal de comunicação criada pela humanidade e, mesmo em situações de indiferença, não se passa incólume pela experiência de escutá-la.



Escrito por Álvaro às 17h36
[] [envie esta mensagem] []



 

Sobre limites e limitados

 


 


Primeira semana do ano, todo mundo se ocupando em fazer planos, em tentar emagrecer, mudar de emprego, ganhar um salário melhor, praticar esportes, ler mais... tudo isso misturado com uma certa expectativa por termos, pela primeira vez, uma mulher ocupando o posto mais avançado da política nacional... e o assunto do dia é a mulher do vice-presidente.

 

Na internet, uma onda de revolta junto ao movimento feminista, que considerou fútil e machista a atitude da parte da opinião pública ter desviado o foco para Marcela, a bela esposa de Michel Temer, o vice da presidente Dilma Rousseff. O argumento das feministas é que o Brasil passa por um momento histórico, não apenas por ter empossado uma mulher no comando de toda a estrutura estatal do país, mas também pelo fato da presidente ser uma ex-guerrilheira, que lutou com todas as suas forças pela democracia e que, ao ser capturada pelos ditadores, foi torturada, humilhada e vilipendiada antes de militar na política, o que aumenta consideravelmente a amplitude da façanha de ter sido eleita. Ou seja, ao invés de estarmos celebrando um fato marcante na jovem democracia brasileira, preferimos investir nossa atenção em uma moça cujo único atributo perceptível, a princípio, é a sua beleza.

 

Pois bem, em primeiro lugar, é preciso reconhecer algumas verdades. Verdade nº 1: Dilma Rousseff foi eleita presidente da república. Verdade nº 2: Marcela Temer é uma mulher muito bonita.

 

Feitas essas constatações, vamos aos seus desdobramentos.

 

Dilma foi eleita presidente da república com votos de mulheres e homens que acreditaram em sua capacidade para tomar decisões que repercutem diretamente em suas vidas. Essas pessoas depositaram sua confiança na eleita, por entenderem que ela traria as melhores soluções para os problemas enfrentados por todos em seu dia-a-dia. Um dado curioso, pouco comentado após a vitória de Dilma no 2º turno, é que diversas pesquisas eleitorais feitas durante a fase de campanha apontavam a então candidata com maior preferência entre os eleitores homens, enquanto as eleitoras preferiam, em sua maioria, o candidato José Serra, que sairia derrotado das urnas por uma diferença expressiva. Ou seja, Dilma Rousseff teve a eleição decidida a seu favor por ter conseguido convencer a maioria do eleitorado masculino que era mais competente que seu adversário homem para resolver as grandes questões nacionais, sem conseguir, no entanto, o mesmo êxito junto à grande massa de eleitoras que preferiram o candidato da oposição.

 

Outro ponto a ser comentado é que Marcela Temer é bonita. É bonita, alta, tem um belo porte e um talhe de traços harmoniosamente curvilíneos. Uma beleza clássica, enfim. E homens são atraídos pela beleza; se apaixonam por ela. O homem, esse ser unifocal, ao notar a presença de uma mulher, distingue-a como feia ou bonita. Feita essa distinção, tenta visualizar seus demais atributos, sempre um por vez. Diante de uma mulher como Marcela, o homem repara em sua beleza e se põe a apreciá-la. E só.

 

A indignação expressada pelas feministas é que não se pode meramente contemplar a aparência da mulher do vice-presidente enquanto ao lado dela está uma personalidade muito mais complexa e vitoriosa, que representa, sob diversos aspectos, uma revolução nas estruturas da política brasileira – no caso, Dilma Rousseff.

 

Temos aí aquele caso clássico de confusão psicológica, quando uma pessoa projeta suas próprias características em outra pessoa. Mulheres são multitarefa; homens, não. Mulheres conseguem desfrutar das várias camadas da personalidade do interlocutor ao mesmo tempo; homens, não. Um homem vê uma mulher bonita e fica encantado por sua beleza; uma mulher vê uma pessoa inteligente, capaz, poderosa e com a história de vida de Dilma Rousseff e se encanta por ela. São perspectivas muito diferentes.

 

A dificuldade em enxergar essa diferença, inclusive, perturba a vida de muitas mulheres, principalmente em sua vida amorosa. O feminismo cai na mesma armadilha ao tentar "consertar" homens, chamando sua atenção para aquilo que transcende a figura estética da fêmea.

 

E não me entendam mal. Embora muitos insistam em caracterizar o século XX como um mero amontoado de guerras internacionais ou de inovações tecnológicas, pra mim, a maior revolução trazida pelos 1900s foi a ascensão das mulheres e de seus direitos. Metade da humanidade deixou de ser tratada como sub-espécie pela outra metade. Claro que perduram muitas e importantes dificuldades para mulheres de inúmeros países, mas esses problemas não bastam pra eclipsar o gigantesco avanço que o feminismo trouxe ao nosso cotidiano.

 

A grande prova de que esse avanço aconteceu, de fato, no Brasil, é que a vasta maioria dos brasileiros, homens, optou por entregar o poder a uma mulher cujos atributos estão longe da parte estética. No entanto, o que as militantes feministas precisam entender é que quando as câmeras se voltaram para o rosto da esposa do vice, não foi porque a público masculino desmereceu os méritos da presidente, mas porque essa plateia encontrou algo que chamou a sua atenção de uma maneira muito forte. A beleza feminina é uma força decisiva na trajetória de vida de qualquer homem e, diante de qualquer fonte que emane essa força, a contemplação ao seu poder se impõe. Votamos, sim, em Dilma pra presidente, quando nos foi colocado um confronto lógico entre as duas partes que decidiram a eleição, mas não nos peçam pra olhar pra ela enquanto uma jovem loira posa ao seu lado.

 

Mulheres cuja característica predominante seja a inteligência, a sensibilidade, a liderança, são aquelas que os homens querem ter como colegas, empregadas, diretoras e talvez até amigas. Mas nenhum homem se comove por uma mulher sem considerá-la bonita. Pelas competentes, nutrimos simpatia; pelas belas, nos apaixonamos. É simples.

 

As feministas podem ficar com raiva, talvez até se acharem superiores aos homens diante dessa limitação masculina. Admitir essa limitação, contudo, seria admitir os limites do próprio feminismo. E talvez esteja aí o motivo de toda indignação gerada pela presença singela de Marcela Temer naquela tarde chuvosa em Brasília.

 



Escrito por Álvaro às 12h50
[] [envie esta mensagem] []



 
 

Gostar de literatura não torna uma pessoa mais culta que a outra; elas apenas têm hobbies diferentes.



Categoria: Aforismos
Escrito por Álvaro às 22h13
[] [envie esta mensagem] []



Milf

 

 

 


Vejo um amigo dizer que grilou ao se dar conta de que sua atual namorada tem o dobro da idade da anterior.

 

Na mesma época, um colega me confidenciou que também estava mantendo um relacionamento nesses termos. Como sou casado com uma mulher de uma geração anterior à minha, ele quis ouvir minha opinião.

 

O que tenho a dizer em casos assim, é que a beleza da juventude feminina é uma força poderosa e evidente demais pra ser ignorada. Desse modo, relacionar-se com uma mulher que já não apresente esse esplendor estético só vale a pena se a relação for, de fato, gratificante em outros aspectos a se considerar na vida a dois. Do contrario, é melhor nem começar.

 

Numa analogia mais propícia ao universo masculino, ser mais novo que a companheira é o mesmo que torcer pra time pequeno: a paixão que lhe prende àquilo é muito mais baseada nas pequenas realizações do dia-a-dia do que na explosão catártica das grandes conquistas.

 

Não é melhor, nem pior. Apenas, não é pra todos.



Escrito por Álvaro às 12h21
[] [envie esta mensagem] []



 

Apertamento

 


 


Estou num momento da vida em que preciso me desfazer de muitas coisas do meu passado. Em resumo: meu apartamento tá pequeno demais para guardar minhas bugigangas dos tempos de solteirice.

 

Com muito pesar me desfiz da minha coleção de fitas VHS da série Anos Incríveis. É uma puta série, já que se propõe a debater de maneira digna e nem um pouco forçada os dilemas da adolescência. Ajuda muito o fato de ser escrita a quatro mãos, por um homem e uma mulher. Quando ainda era moleque, ao assistir aquilo, tive a impressão de que os roteiristas eram meus amigos de escola. Impressionante.

 

Claro que, apesar da inegável qualidade da série, certos clichês oitentistas se fizeram presentes. Um lugar-comum na dramaturgia juvenil daquela época é a presença de um adolescente cuja vida amorosa se resume a uma coleção de retumbantes fracassos, cujo efeito mais marcante é o complexo de inferioridade que o pobre coitado carrega consigo. Obviamente, existem exemplos mais recentes desse tipo de linha narrativa, mas acredito que esse estilo se consolidou nos anos 80 – o que, claro, serviu de inspiração para uma geração inteira de roteiristas da minha faixa etária e que são, hoje, os responsáveis pela redação de tais folhetins nas mais variadas mídias.

 

Enfim, dada essa circunstância, em que o protagonista se aproxima de um quadro de desilusão completa, a solução encontrada pelos autores é sempre a mesma: o sujeito procura de mil e uma maneiras se livrar de seus traumas (às vezes tentando conquistar a menina mais bonita da escola, às vezes batalhando por um simples beijo de quem quer que seja) e, no final, ele acaba se resolvendo com uma garota de beleza mediana que sempre esteve ao seu lado – e que, vejam só, sempre gostou dele em segredo. Apesar de um chavão dos mais batidos, OK, é uma saída digna para um roteirista que precisa escrever um happy ending para um personagem encurralado. O problema da falta de perspectivas do protagonista é resolvido, justamente, por uma mudança em sua própria... perspectiva. E todos viveram felizes para sempre.

 

Logicamente, isso não acontece na vida real. Quem é feio e loser não tem amigas; tampouco consegue atrair alguma simpatia platônica de uma menina, por mais sem-graça que seja a dita-cuja. Em geral, o pobre-coitado em questão, após um sem-número de aborrecimentos, ainda jovem, vê a sua auto-estima reduzida a pó. A tendência é que ele acabe se envolvendo com uma mulher que passou a vida acumulando as mesmas frustrações – um casal cuja coleção de problemas os aproxima de início, mas que não se satisfaz mutuamente por conta dos mesmos problemas que os levaram a essa situação: são feios e desinteressantes; e não é porque descobriram companhia que se tornam algo melhor do que eram antes. Passado algum tempo, se separam, têm de volta alguns lampejos das esperanças que possuíam na juventude, frustram-se novamente e terminam por encontrar, mais uma vez, pessoas tão aborrecidas quanto eles (isso quando eles próprios não voltam um pro outro, prolongando o ciclo), sem encontrar um alento satisfatório para seus dilemas.

 

Vida? Ninguém falou que seria fácil. Ainda sou obrigado a ouvir de um cretino que “a vida gosta de quem gosta dela”.

 

Voltando a Anos Incríveis, mesmo com os tais problemas roteirísticos, o grande lance da série, pra mim, foi descobrir que, enquanto houver um Kevin Arnold a servir de exemplo, sempre saberei que as minhas frustrações de adolescência não aconteciam só por que eu era preto. Apreendida a lição, jogo as fitas VHS no lixo. A apê é pequeno, mas dá pra desviar da arapuca numa boa.

 



Escrito por Álvaro às 12h34
[] [envie esta mensagem] []



 
 

PRIDE AND PREJUDICE – JANE AUSTEN

Por que li no original? Simplesmente porque o livro em inglês custava a bagatela de 6 reais, enquanto o traduzido sairia por 3 vezes esse valor  uma das ironias do mercado editorial brasileiro. Mas foi dureza encarar aquele accent arcaico e empolado.

 


O certo é que a autora é surpreendentemente espirituosa. O tal do humor britânico aparece logo na primeira frase do livro. E, embora seja um romance bastante sensível, o ritmo é leve e prazeroso, longe da água-com-açúcar.


Frase:

"I wonder who first discovered the efficacy of poetry in driving away love!"


Touché!



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 15h41
[] [envie esta mensagem] []



Auto-conhecimento

 

 

 

Budismo, ioga, artes marciais em geral e outras doutrinas prometem a felicidade (ou força ou nirvana, whatever) via auto-conhecimento. Ciente de seus limites e capacidades, o sujeito consegue tocar a vida de forma mais equilibrada.

 

Me pergunto se auto-conhecimento serviria como objeto de busca. Salvo aqueles com severa limitação mental (de ordem genética ou traumática), todo mundo sabe muito bem onde errou e onde acertou por aí; o sujeito pode até se recusar em admitir determinados aspectos de sua personalidade, mas daí a dizer que não os conhece vai um bocado de distância.

 

Embora eu seja cheio das manias que caracterizam um típico paciente dos consultórios de psicologia, nunca me vi fazendo terapia pelo simples motivo de saber que analista algum seria capaz de me revelar alguma novidade sobre minha própria maneira de raciocinar. Aliás, seria bizarro se fosse o contrário.

 

No entanto, as atividades propostas pelas doutrinas do auto-conhecimento não concorrem propriamente com os psicanalistas, já que aquelas sempre partem do princípio de que o desenvolvimento mental se dá de forma análoga ao aperfeiçoamento das capacidades corpóreas; o que, no fundo, não passa de um engodo para vender a ideia de que limites unicamente físicos seriam fruto de uma suposta limitação psíquica.

 

O pior é, parando pra pensar, conclui-se que não há serventia prática alguma na ideia de levar o corpo a limites extremos, só a título de descobri-los. Afinal, de que me serve saber se sou capaz de suportar determinada dor ou levantar tantos quilos com a "força da mente" se, para isso, terei que treinar tanto o meu próprio corpo até ser impossível distinguir um suposto progresso mental nesse sentido? Ilustrando: o sujeito faz aulas de kung-fu durante 3 anos, passa a conseguir plantar bananeira e conclui que isso se deve à sua capacidade de controlar a própria mente. Hein?

 

Enfim, essas práticas orientais funcionam bem como um exercício bacana, que te traz condicionamento físico, consciência corporal, vigor aeróbico e, eventualmente, alguma melhora na qualidade da vida. Prometer algo além disso é mera tapeação.



Escrito por Álvaro às 10h20
[] [envie esta mensagem] []



Fleuma histé(ó)rica

 

 

“Na Itália, por 30 anos sob os Bórgias, eles tiveram guerra, terror, assassinato e derramamento de sangue, mas produziram Michelângelo, Leonardo da Vinci e a Renascença. Na Suíça, eles tiveram amor fraternal, 500 anos de democracia e paz, e o que eles produziram? O relógio-cuco.”
Orson Welles, em O Terceiro Homem

 

 

Um conhecido foi, a serviço, passar uma temporada na Suíça e voltou, semana atrás. As impressões relatadas são as mais previsíveis: um país riquíssimo, onde tudo funciona de modo preciso e eficiente; as cidades são pacatas e o povo, cortês e educado.

 

Perguntei se as pessoas são realmente frias no trato social e a resposta que ouvi ilustra de forma precisa o observado: os suíços “importam” babás do Brasil e outras regiões tropicais e, até, de alguns países do sul da Europa, para cuidarem de suas crianças, já que os pais nativos, em geral, não fazem questão de construir laços afetivos com os filhos.

 

A conclusão disso é tão óbvia quanto desconcertante: Não há qualidade de vida na Suíça. Qual artista suíço você conhece? Existe um grande escritor que tenha nascido lá? Quais os maiores músicos daquele lugar? Além do Federer, existe sequer algum esportista relevante natural de lá? Que raio de lugar é esse em que todos marcham em uma existência irrelevante e nada inspiradora? Isso que eu chamo de “deitado eternamente em berço esplêndido”.

 

Leio, agora, que um grande banco suíço – expoente da ciência que o povo helvético melhor soube desenvolver, qual seja, especular com fortunas pouco confessáveis de estrangeiros endinheirados – pretende reger seus funcionários (funcionárias, em particular) através de um código estético que parece saído daquelas teocracias orientais que os europeus tanto se comprazem em condenar:

 

http://exame.abril.com.br/negocios/gestao/noticias/banco-ubs-proibe-saias-apertadas-e-lingerie-colorida

 

Tudo em nome de uma suposta “reputação” a ser preservada.

 

Além de terem inventado o relógio cuco, os suíços passarão a ser conhecidos também pela criação da lógica por trás do raciocínio onde uma mulher que tinge o cabelo não serve pra cuidar do dinheiro de um corrupto.


O futuro já chegou. Tá aí desde a idade média e ninguém percebeu.

 



Escrito por Álvaro às 15h48
[] [envie esta mensagem] []



 

Estereótipos 

 

 

 

 

 

 

Woody Allen nos diz que clichês são a forma mais exata de expressar algo. Bukowski lembra que o senso comum nada mais é que a dedução lógica obtida a partir experiência humana acumulada ao longo dos séculos.

 

Também acho que estereótipos, muito embora possam levar a discriminações simplistas se levados ao pé-da-letra, nos indicam uma visão geral sobre o comportamento coletivo. Indo à região da tríplice fronteira que separa Brasil, Argentina e Paraguai, um melting pot dos mais caóticos que se possa conceber, percebi isso acerca das diferentes espécies de latinos, europeus e asiáticos que compõem a paisagem local.

 

Uma cena pra ilustrar: três chineses aguardam o avião no saguão do aeroporto; tal qual numa cena de um filme do Jackie Chan, temos o chefão, sentado no centro da mesa, compenetrado em frente ao laptop, celular em mãos, calvo, com semblante fechado, vestido de forma impecavelmente elegante; dos lados, os acompanhantes direcionam seus rostos rumo à TV mais próxima; o da direita mira no vazio, com a boca levemente aberta, aparentando sonolência; o da esquerda acompanha, com um largo sorriso, a ação da telinha – no caso, um filminho de Sessão da Tarde, sobre um cachorro acrobata. Ou seja, rigorosamente como nos filmes – que, eu supunha, teriam uma visão estigmatizada.

 

Minhas impressões ao visitar o Paraguai, igualmente, apenas constataram a força dos estereótipos: ruas caóticas, abulantes desesperados para vender-lhe toda sorte de traquitanas inúteis, ar poeirento, carros esquisitos fazendo zigue-zague entre a multidão e as barraquinhas amontoadas uma em cima da outra, e por aí vai. Algo que me surpreendeu, no entanto, foi a facilidade com que os paraguaios lhe identificam e, imediatamente, passam a se expressar em português (com pronúncia muitas vezes melhor que brasileiros menos abastados), tentando estabelecer alguma simpatia durante o contato e, claro, vender. Não é à toa que paraguaios mais exaltados consideram o Brasil um “porco imperialista”, da mesma maneira que brasileiros revoltadinhos acusam os EUA.

 

Em contraponto, quando argentinos vêem você (ou qualquer um turista de outro país), só falam espanhol e boa. A menos que alguém peça, por exemplo, uma informação em inglês, eles sequer cogitam em abandonar sua língua pátria. Arrogância? Obviamente, não. Orgulho? Com certeza. Eis outro lugar-comum que fez todo sentido durante a viagem.

 

Por fim, a constatação, ao longo do passeio pela beleza monumental das cataratas, de que brasileiro ainda está cultural e socialmente distante dos prazeres do turismo. Mesmo no Parque Nacional do Iguaçu, o que menos se ouvia falar era português entre os visitantes. Inglês era a língua mais escutada, mas havia um bom ruído alemão, traços de francês e uma mistureba de dialetos nórdicos indistinguíveis, além do castelhano de diferentes matizes. Até paraguaios estavam em maior número em relação aos brasileiros.

 

Coletivamente, o ser humano é previsível. Mas, claro, é sempre mais divertido observar in loco.

 



Escrito por Álvaro às 17h37
[] [envie esta mensagem] []



 
 

NOTAS DO SUBSOLO – FIÓDOR DOSTOIÉVSKI

Livro pequenininho, daqueles que dá pra ler numa tacada só – apesar da densidade da primeira parte, “Subsolo”, que assusta um pouco no começo e dá a impressão de que não vai acabar mais.

Quanto à história em si, trata-se, no fim das contas, das memórias de um bunda-mole que nunca teve o ímpeto necessário para definir o que quer que fosse e, agora, já em seus últimos dias, relembra uma desventura amorosa que marcou a sua vida, dando vazão a rancores diversos. Na busca por convencer a si mesmo sobre seu valor, que, no fundo, sabe que não possui, pontua o relato com boa dose de auto-piedade – e alguns chiliques. 

 

Ao fim da leitura, me perguntei se essa novela não serviu de inspiração a Machado de Assis na composição de seu notório “Dom Casmurro”, igualmente narrado em primeira pessoa por um loser que, na velhice, especula sobre a culpa de terceiros pela inércia que permeou toda a sua existência.



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 12h12
[] [envie esta mensagem] []



 

Cotar ou não cotar, eis a questão

 

 

 

 

Sempre me incomodou muito a questão das cotas raciais nas nossas universidades por um princípio simples de que o mérito deve prevalecer em qualquer que seja a disputa. Porém, é difícil imaginar no Brasil o dia em que tenhamos qualquer esboço de uma classe média negra digna do nome e é exatamente nesse fato que os apologistas das cotas apóiam seus argumentos.

 

Não se vê pretos em restaurantes, escolas minimamente razoáveis ou lugares públicos cuja entrada seja paga ou culturalmente restrita. Isso me incomoda bastante, em especial quando noto que sou o único preto nesses lugares. Contudo, não acho que as cotas sejam a solução para isso por acreditar que esse sistema escancararia uma fragmentação social que, embora aconteça na prática, não é admitida. Rusgas interpessoais seriam fortalecidas, com motivos reais, chancelados pelo Estado, o que, ao meu ver, é justamente o oposto do que deve fazer um governo que aja como tal.

 

Isso, por outro lado, nos leva a refletir sobre o tipo de racismo que encontramos aqui no Brasil, onde é consensual definir que o preconceito racial de seus habitantes é mascarado por convenções sociais tácitas. Ainda, considerando isso como verdade, tal constatação nos leva a uma pergunta clássica: O racismo velado no Brasil é pior que nos EUA, por exemplo, onde o racismo é, ainda, mais ou menos aberto?

 

Minha resposta pra isso é não. Não consigo ver qualquer vantagem na assunção maciça da sociedade quanto aos seus preconceitos. Pessoas que são “obrigadas” a ser tolerantes acabam servindo involuntariamente de exemplo para outras. Assumir publicamente seus preconceitos não torna uma pessoa melhor nem para si mesma nem para aqueles que a ouvem. Sem contar que na África do Sul o racismo era aberto e também não trouxe qualquer vantagem à parte oprimida.

 

Mas, enfim, voltando ao mote do texto, o problema de se discutir cotas é que aqueles que são contra (como eu) não conseguem propor qualquer outra solução minimamente exequível a médio prazo. Dizer que universalizar a educação é a melhor saída é o mesmo que não propor nada. Conjeturar sobre o fracasso do ensino público no Brasil não resolve o problema dos negros e nem garante que se crie um mínimo de condições para que alguns pretos prosperem. Só jogar essa idéia no ar é insuficiente, portanto.

 

Seria preciso uma ampla movimentação pública de modo a garantir um mínimo de participação de negros em diversos segmentos da sociedade, englobando os aspectos econômicos e políticos que fazem parte da nossa civilização. Nisso, o Brasil está decididamente atrasado.

 

Países evidentemente hostis para negros como a França conseguem criar tenistas pretos a cada década. Ou seja, num esporte notadamente caro e pouco acessível, se existem atletas negros que conseguem se destacar, há que se imaginar que existam diversos negros praticando a modalidade naquele país – o que implica em dizer que lá deve existir, sim, uma classe média negra bastante razoável.

 

E por que não conseguimos isso no Brasil? Desde que o Milton Santos morreu não há qualquer intelectual negro digno de nota. Fora das esferas musicais e futebolísticas, há meia-dúzia de gatos-pingados que, embora respeitados, não formam um quórum suficiente para serem levados em conta em qualquer amostra estatística que se queira montar sobre negros-modelo. Um Milton Gonçalves, um Paulo Lins ou uma Zileide Silva são apenas as exceções que confirmam a regra.

 

Empresários negros? Esquece. Políticos pretos? Uma piada de mau-gosto.

 

Se compararmos com os EUA, então, é covardia. O casal presidencial de lá é formado por dois advogados negros bacharelados na melhor faculdade de Direito do planeta. Aqui, nosso maior expoente é um projeto de vereador cujo feito notável nos últimos anos foi ter saído da cena musical para ocupar o noticiário policial após enfrentar o ocaso como pagodeiro e agredir brutalmente a ex-esposa.

 

Cota na universidade é solução? Ainda acho que não. É um reducionismo medíocre apontar essa como a única diferença entre Brasil e Estados Unidos. O problema é que não sei até onde o fato de eu ser mestiço confunde ou não a minha cabeça nesse sentido. Talvez se eu fosse um negão puro-sangue, passasse a defender.

 

Não, nossos julgamentos não são objetivos. É óbvio que não são.

 

E hoje nós estamos aqui, “celebrando” o tal Dia da Consciência Negra ainda sem conseguir identificar qual a intenção da pessoa que inventou esse feriado estúpido ao colocar um nome tão abstrato – e que, por isso, passa a impressão de que não quer dizer nada; uma data tão vazia como todo o debate em torno do fato de que no Brasil a sua renda é inversamente proporcional à quantidade de melanina em sua pele.

 



Escrito por Álvaro às 14h44
[] [envie esta mensagem] []



Discussões & Relações

 

 

 


Passei 90% da minha vida sem companhia feminina digna de nota. Então, talvez eu esteja enganado, mas esse papo de namorada que te pega pra cristo pra "discutir relação" me cheira a lenda urbana.

 

Minha mulher nunca ficou me enchendo o saco do jeito que as pessoas descrevem o que seria uma DR típica: horas e horas de um bla-bla-bla enfadonho, sobre coisas que, em tese, dizem respeito à dinâmica da rotina desenvolvida pelo casal. Tampouco tive alguma discussão assim com as namoradinhas que tive na adolescência. Não me lembro sequer de ver minha mãe e meu pai fazendo isso antes de se divorciarem.

 

Todo relacionamento, claro, tem temas, digamos, sensíveis, que, quando abordados, provocam certo atrito entre o casal. Meu casamento, obviamente, não está imune a isso. Mas o que rola de vez em quando entre minha mulher e eu não é, nem de longe, “discutir relação” – é briga mesmo. Esta, em geral, dura poucos minutos, e cujo desfecho consiste em cada um se fechando em seu canto e passando algumas horas puto demais pra conseguir conversar com o outro.

 

Mas, afinal, de onde vem a celeuma em torno desse assunto? Do que tratariam as tais DRs? Supostas traições? Visita à casa da sogra? Nome de mulher no celular? Dinheiro? Eu não consigo imaginar.

 

Interações familiares, em geral, são decididas logo no começo da relação. Logo, não faz sentido imaginarmos que em toda ida à sogra termine em um bate-boca interminável.

 

Ciúmes do parceiro é algo que também não me parece muito frequente em relacionamentos mais sólidos. Quando um dá, de maneira recorrente, motivo para o outro sentir ciúme, os sentimentos se esfriam, inevitavelmente. A tendência é a separação e, portanto, ausência de motivos para longos debates (ou monólogos) entre os dois.

 

Dinheiro, de fato, é um item muito, muito sensível em qualquer relação que seja, não só entre casais (pode ser entre pais e filhos, entre irmãos e até entre amigos). Caso não haja uma definição de parte a parte sobre o que cabe a quem, o relacionamento também se desgasta de maneira rápida e irremediável, passado o ímpeto que os une inicialmente.

 

Desconsiderados esses clichês, passemos a outros aspectos que podem levar um casal a se desentender: falha de comunicação (homens que não ouvem as mulheres, principalmente) e ausência de compatibilidade.

 

Começo pelo último item que, em geral, é provocado por uma falta grave das mulheres na escolha de seus parceiros: a vontade de “melhorá-lo” com o passar do tempo. Como é sabido, ninguém muda ninguém, seja homem ou mulher, de modo que a decepção é tão inevitável quanto a brevidade da relação.

 

Já a falha na comunicação é causada por uma mistura confusa de machismo e preguiça por parte de homens que preferem se acomodar em uma relação infrutífera e insatisfatória, mas sempre dispostos a culpar a “histeria” da parceira pelos seus fracassos.

 

Pensando bem, esses aspectos, na verdade, são duas faces da mesma moeda. Uma moeda que serve para “comprar” relações vazias e pouco edificantes – que podem ter lá as suas DRs, mas onde a ausência de diálogo é o que dá o tom do dia-a-dia.



Escrito por Álvaro às 18h26
[] [envie esta mensagem] []



 
 

BUSÃO, 6:15

Ela entra dois pontos depois do meu. É o suficiente para eu conseguir lugar pra sentar e ela não.

Quando se aproxima pelo corredor, não tenho idéia do que fazer com meu rosto. Devo olhar pra ela? Como olhar pra ela?

Sorrir, obviamente, está fora de questão.

Queria tentar manter uma expressão séria, mas sem exageros. Mas só me lembro da minha cara de manhã, quando minha mãe me acorda, vou pro banheiro mijar e me olho no espelho. Putz.

Não, sem chance. Depois do copo de leite e de gel no cabelo, devo ter melhorado a fachada. Certeza.

O foda é que ainda não sei o que fazer. Cara de nada? Tipo aquela expressão apática e sem-graça que fazemos nas fotos 3x4, saca?

Melhor nem. Digamos que não pretendo transformar meu RG num pôster.

Essas meninas gostam daquele olhar “tô nem aí”, tipo o que rola em filmes. O sujeito tá lá, sossegado, aparentando desinteresse e elas se derretem em cima do fulano. Acho que é esse o lance. Desinteresse.

Mas, peraí. Se eu fingir desinteresse, como vou fazer pra puxar papo com ela? Ela passa pelo corredor, vai lá pra perto da porta e nem olha pra minha cara. Como posso fazer pra ela me olhar se eu ficar fazendo cara de paisagem?

Pois há, sim, interesse. Bancar o metido não vai me ajudar, acho.

Putz, olha só pra ela. Bonita pra caralho. Um olhar que...

Ei! Espere aí! É esse olhar que eu tô tentando descobrir.

E pensar que, depois de semanas (meses, se pá) olhando pra ela, me matando pra tentar descobrir como olhar pra ela sem parecer um idiota, vejo ela escutando música no fone de ouvido e com o mesmo tipo de expressão que eu tava procurando, tipo "sou gata mesmo, e daí?", mas parecendo ser simpática ao mesmo tempo.

Ela curte música. Talvez eu consiga conversar com ela, afinal. Mas como puxar papo? O foda é o começo. Sempre é o começo. Não sei o que dizer. Vou perguntar o que ela tá ouvindo? Nada seria mais idiota que isso.

Eita! O cara que tava sentado do meu lado se levantou antes do ônibus chegar no Centro. Que esquisito. Mas, carai... que é isso? Ela tá vindo sentar do meu lado? Nossa!

Ai, meu Deus. E agora? O que eu faço? Vou olhar pra janela, como se não tivesse nem percebido que o cara saiu e ela sentou no lugar.

Velho! Que perfume é esse? Meu Deus.

E se eu der uma espiadinha pra ela? Acho que não vou parecer bobo. Finjo que tô sacando o movimento. Tá ligado, mano?

Pff...  OK, vamos lá.

Corredor, cobrador duas fileiras na frente, janelas, uma sacola de supermercado, ela tá de brinco de argola e tem franja meio ruiva. Uma espinha... Caralho! O celular dela tá tocando.

Logo agora? Como será a voz dela? Não fala nada...

Acho que é só mensagem. Quem será que escreveu pra ela?

Será que consigo ler um pedaço?

Caramba, ela levantou a cabeça bem na hora que eu tava me virando. Quase que me pega.

Será que me viu?

Merda. E agora? Vou ter que ficar olhando pra janela no mínimo até chegar no ponto.

O braço dela roçou em mim. É o cotovelo mais macio que eu já senti na minha vida. Acho que guardou o celular na bolsa.

Tô de pau duro. Aquele cotovelo é demais. Meu, como deve ser bom poder pegar sempre nele. Será que ela deixa? Se eu fosse o namorado dela, poderia pegar. Podia pegar nela inteira, já pensou? Como será ela pelada? Nossa, imagina transar com ela. Mas, aí, será que meu pau ficaria duro só de encostar no cotovelo dela? Oras, claro que ficaria. Pô, sou homem! Tá tirando? Mano, certeza que eu ia pegar nela e ficar de pau duro o dia inteiro. Da hora!

Mas ela nem deve ter namorado. Imagina. Quem tem bala pra bancar ali? O cara tem que ser rico, dono da cidade inteira. E ter uma pica de um quilômetro. Ninguém come ela.

Ah, mas como assim? Um mulherão desses sem dar pra ninguém? Que desperdício! Não é possível. Deve ter uns doido que cata, sim. Aposto que o filho da puta tem carro. E um Nike Shox.

Desgraçado. Tem uma sorte. Como o cara consegue meter nela? Será que ele manda ela ficar pelada? Ou ele fica pelado primeiro? Nossa, o cara é foda mesmo. Será que vai casar com ela? Acho que sim. Ela vai continuar gostosa pra sempre. E a filha dela? Se pá, vai ser linda também. Se a filha dela for bonita, eu chego junto. Quantos anos eu vou ter? Uns trinta, trinta e poucos.

É, não dá. Eu vô tá velho. O namorado dela também vai ficar velho, mas ainda vai tá comendo ela. Filho da puta.

Como será que eu vou ficar? Será que fico careca? Acho que já vô tá casado. Dane-se se tiver careca. Se minha mulher for bonita, vou comer ela todo dia.

Mas e se ela não for?

Tá louco, meu? Se não for gata, eu não caso com ela, ué.

Mas e se eu não conseguir?

Putz, deve ser chato, hein? Já pensou, o cabra com trinta anos e sem ter pego uma mina assim? Mó frustrado, o coitado, hahaha.

Mas, afinal de contas, quem que pega uma menina assim? Uma puta duma cavala, já deve ter quinze ou dezesseis anos. Tem uns peitão. Ninguém consegue, não.

Bem feito que ela só anda de ônibus. Olha só pra ela. Tá com uma cara de comeu-e-não-gostou. Fresca. Deve ser chata. Deve ser metida pra caralho. “Ai, não gosto”. Não gosta de nada. Só deve tá ouvindo porcaria nesse rádio, aposto.

Ué? Porque ela tá pegando o celular? Não escutei barulho nenhum. Vou disfarçar. Dessa vez eu consigo ler o que mandaram pra ela. Ah, não. Ela só tá escrevendo.

Nossa, que da hora. Pra quem será que ela tá mandando mensagem? Meu ponto é o próximo, droga. Será que dá tempo? O farol tá fechado, beleza. Vai, minha filha, escreve logo nessa bagaça. Mas como que eu vou virar a cabeça pra conseguir enxergar a mensagem na tela? Já sei! Vou pegar meu celular e fingir que também tô usando. Vejamos: free-cel, cobrinha, paciência... uau, ela tá de saia hoje... tô conseguindo ler...

“Voltei a sentir aquela dorzinha chata na periquitinha. Culpa do seu ‘amigo’. Seu safadinho!”

Dorzinha?



Categoria: Contos
Escrito por Álvaro às 16h50
[] [envie esta mensagem] []



A bolsa e o bolso

 


Meses atrás, ainda no calor do debate pré-eleitoral, recebi uma mensagem proveniente de uma dessas correntes de e-mails que consistia em um manifesto de Cidadãos Brasileiros Indignados que alertava a população sobre uma pensão dada a famílias de presidiários. O texto relatava a existência de uma lei que concede, via INSS, um benefício aos dependentes de um presidiário durante sua permanência na reclusão. Um verdadeiro absurdo, já que as Pessoas Honestas & Trabalhadoras tinham que arder em suor na labuta para pagar os seus impostos que serviriam para financiar essa imoralidade. O e-mail vinha ainda com um link para o portal do INSS, direcionando direto para a página que descrevia o funcionamento da tal “bolsa-presídio”.

 

Dei uma olhada no site. Parecia simples a concessão do “auxílio-reclusão” (o nome oficial do benefício). A família do preso se cadastra na Previdência Social para ter direito a uma pensão de algo entre 500 e 800 reais, tendo que comprovar que o detento trabalhava com carteira assinada antes de cometer o delito.

 

Na época da circulação do tal e-mail, entrei em uma discussão com alguns amigos sobre a legitimidade do estado em conceder esse tipo de auxílio a esse segmento específico da sociedade.

 

Na ocasião, contei-lhes que tenho uma vizinha cujo marido está detido (Z/L tem dessas coisas) e que o auxílio-reclusão, somado à graninha que ela conseguia tirar fazendo bicos de limpeza e faxina, permitia-lhe cuidar do filho do casal, que tem paralisia cerebral. Adicionei ao bate-papo a conclusão óbvia de que, em poucos meses, caso essa mulher parasse de receber o auxílio do governo, o destino dela e da criança seria a parte debaixo de um viaduto.

 

Isso posto, argumentei que a concessão de benefícios como esse nos priva da visão de uma coitada arrastando um ser incapaz pelas ruas enquanto pede esmolas. Afinal, depois de alguns anos de São Paulo, esse tipo de imagem nos cansa, dá no saco; você simplesmente não quer mais ter que ver isso, não importa como.

 

Minha surpresa foi saber que um estudo publicado recentemente conclui que, acima de tudo, sai mais barato conceder benefícios dessa natureza do que cuidar de um sem-teto.

 

http://www.economist.com/node/17420321?story_id=17420321&fsrc=scn/tw/te/rss/pe

 

Em linhas gerais, segundo os pesquisadores, um mendigo jogado na rua custa 26 mil libras por ano ao estado, enquanto o mesmo mendigo, recebendo uma mesada de 800 libras, custa menos de 10 mil. Guardadas as proporções cambiais e o custo de vida em cada país, é mais ou menos o que paga o governo pela tal "bolsa-presídio". Ou seja, o governo, na verdade, tá poupando dinheiro ao agir assim, por menos que isso seja óbvio para a maioria das Pessoas Sérias.



Escrito por Álvaro às 16h32
[] [envie esta mensagem] []



Preto no branco

 

 

 


Minha mulher me conta que viu duas meninas perdidas no centro de São Paulo. Ela me diz que as duas eram estrangeiras e deveriam estar procurando alguma loja. Pergunto a ela como que ela concluiu que as raparigas eram estrangeiras. Ao que ela responde que, além do fato de ambas conversarem entre si através de um dialeto nórdico irreconhecível, as duas tinham a pele quase tão clara quanto a de um albino. E como sabe que elas procuravam uma loja? “Mulheres sempre estão procurando alguma loja”. Touché.

 

 

Dias depois, já deitados após o jantar, aparece um esportista africano na tela da TV. Ele é muito mais escuro do que eu, meu pai, meus tios, avós e primos, amigos ou qualquer outro negro que a minha mulher jamais tenha visto. “Nossa, que cara preto, coitado” – ela diz, por reflexo.

 

 

Sim, estamos no Brasil. Embora aqui haja uma mestiçagem pouco confessada (e menos ainda compreendida), basta um olhar repentino para um branco ou um negro “puro sangue” para que a gente se espante. Um fenômeno que não deixa de ser interessante, já que nos permite ver o tanto que as etnias se misturaram cá por estas bandas.

 

 

No entanto, por paradoxal que seja, como a miscigenação era até poucos anos encarada como tabu, apesar de a esmagadora maioria portar traços que entregam o “pé na cozinha”, ainda somos um país predominantemente formado por caucasianos.

 

 

As mídias visuais, naturalmente, exacerbam essa característica brasileira. Digo naturalmente porque na TV, nas revistas, em boa parte dos jornais, além de blogs e sites diversos, a linguagem mais usual é a hipérbole. Tudo é “imperdível”, “fantástico” ou ”inédito”. Logo, é compreensível que as características étnicas da população sejam também exageradas nas telas ou no papel impresso – e que portanto conta-se nos dedos os negros que aparecem diante de uma câmera.

 

 

Em consequência, nosso subconsciente é praticamente programado a visualizar o ser humano como sempre tendo uma cor só. Por exemplo, a gente acaba se acostumando com a ideia de, ao ler um livro, imaginar o personagem como sendo branco. Eu mesmo quando leio Otelo tenho alguma dificuldade em imaginar o príncipe mouro shakesperiano de tez morena. Ao escutarmos uma música que descreva uma pessoa o resultado é o mesmo. Eu sequer sonho com gente negra, salvo algum parente.

 

 

O resultado óbvio disso é que somos induzidos a achar pessoas brancas mais bonitas que as outras. É fácil constatar isso. Feche os olhos e tente mentalizar um modelo de beleza. Pele branca, certo? Olhos claros, provavelmente. Cabelos lisos, com certeza. Não dá pra escapar. Bom, ruim, isso não será discutido aqui. É apenas um fato.

 

 

Isso nos leva a outro fato, que também é fácil de se constatar: o tal fetiche-pela-cor-de-jambo, tão presente na dramaturgia brasileira de décadas atrás, não passa de uma imensa abobrinha. Se houve em algum tempo uma certa platonização da morenice em nossos romancistas, hoje em dia negros e mestiços só continuam em nossos folhetins por conta da correção política.

 

 

Correção política esta que, claro, trouxe avanços. Ninguém chama, jocosamente, uma pessoa de “neguinho” (ou “judeuzinho” ou “turquinho”) e fica impune. Além de poder sofrer retaliação na Justiça, quem usa esses termos de modo pejorativo passa a ser mal visto por muitos.

 

 

Porém, os efeitos negativos causados pelo politicamente correto também não são poucos. Conforme dito antes, as mídias nada mais são que uma janela exagerada da realidade e, por isso, são raros os negros a estampar alguma imagem eletrônica. Porem, os raros negros na TV e na publicidade são sempre pessoas com beleza bastante questionável, fazendo-se presentes nesses meios por conta de uma cota definida sabe-se lá com que critério. É constrangedor ver apresentadores sorrindo amarelo por se sentirem obrigados a tratar como beldade uma magricela sem-graça só porque ela é negra. Claro que esse constrangimento acontece com uma ou outra modelo branca também, mas o que me irrita é que todas as modelos negras são feias, parece que escolhem as mais feinhas de propósito. Ou alguém tem coragem de falar que a Naomi Campbell é a negra mais bonita que viu na vida? As que são bonitas de verdade ficam de fora, não dá pra entender. O que, adivinhe, ressalta o sentimento de que pessoas brancas são sempre mais bonitas.

 

 

Mas o que mais me atinge mesmo, já que é corriqueiro em meu dia-a-dia, é o fato de que as pessoas vivem com uma tensão constante na hora de me descrever ou se referir a mim em 3ª pessoa. Outro dia, uma famosíssima entrevistadora da nossa televisão, disse que se sentia perdida, sem saber como se dirigir a um negro. Ela tem razão. “Negro”, “preto”, “crioulo”, “moreno”, “mulato”, a infame “afrodescendente” e outras tantas palavras podem soar ofensivas ao interlocutor, mesmo que não seja essa a intenção de quem as fala. E isso ocorre fundamentalmente porque a tal correção política elevou à condição de tabu qualquer menção à etnia de quem quer que seja.

 

 

Meus amigos mais antigos, cujos laços de amizade foram forjados antes de todo o patrulhamento atual, se permitem me chamar de “negão” sem qualquer constrangimento. Porém, quando me relaciono com potenciais novos amigos, todo mundo fica com medo até de brincar comigo, sem saber como me chamar, tangenciando qualquer assunto que remeta à minha cor.

 

 

Algo especialmente triste no Brasil. Um país cuja indefinição fenotípica (ou confusão genotípica) é tamanha que reconhecemos um estrangeiro só de vê-lo passar na rua. E onde é possível que uma índia com sobrenome italiano barbarize na internet com frases xenófobas.



Escrito por Álvaro às 14h30
[] [envie esta mensagem] []



 

Ética

 

 

 

 


Enquanto olhávamos uma criança (ainda em sua primeira infância, possivelmente com menos de dois aninhos) comendo, eu e minha mãe ríamos bastante quanto à sua falta de jeito com os talheres e ela me contava como que eu me comportava diante do desafio de dar as minhas primeiras garfadas sozinho, sem a sua ajuda.

 

Mamãe me comparava ao bebê diante de nós, este já bastante sujinho, com vários grãos de arroz cobrindo suas bochechinhas salientes. Ela me contava que eu e minha irmã não ficávamos daquele jeito. Costumávamos terminar nossas refeições relativamente limpinhos, sem comida ao redor das nossas bocas. Minha mãe é coruja (mesmo! pra valer!), mas, tendo como parâmetro as lembranças que eu tenho relativas à infância da minha irmã, me permito sustentar a hipótese de que mamãe estava certa. Ela me dizia que achava estranho a criança, mesmo muito novinha ainda, não se incomodar com o arroz grudado no rosto. Disse também que minha irmã e eu tirávamos a comida (ou qualquer outra coisa) do rosto assim que percebíamos que estava grudada ou então pedíamos (ou até chorávamos, hahaha) para que alguém tirasse pra nós.

 

Porém, por mais razoáveis que sejam nossas atitudes, temos sempre que tomar o devido cuidado ao projetarmos os nossos comportamentos em outras pessoas.

 

Em época de eleições torna-se bastante comum envolvermos-nos em discussões a respeito dos candidatos em disputa. Por mais que a maioria dos eleitores esteja bem intencionada, nem sempre as suas decisões são tomadas levando-se em conta atributos básicos como o caráter dos pretendentes. E, uma vez eleitos, tais políticos assombram o eleitorado com um comportamento perverso e egoísta, mesmo diante de seguidas denúncias que, em tese, serviriam para constranger esse tipo de atitude.

 

O que se nota, no entanto, é uma postura de total indiferença aos problemas acarretados por essa prática. Não existem indícios de que haja arrependimento por parte de quem frustra o eleitor, mesmo diante de provas irrefutáveis de que tais ações comprometem sobremaneira a credibilidade da classe política.

 

Porém, deve-se partir do princípio de que não se pode esperar um padrão ético de alguém que foi posto no poder tendo como base um quinhão de eleitores desatentos com os princípios que norteiam a vida pública do candidato. Ainda que seja óbvia a necessidade de se avaliar os métodos empregados pelos postulantes aos cargos políticos, esse tipo de avaliação é renegado por boa parte dos eleitores. Isso decorre do hábito de projetarmos em outras pessoas o nosso próprio caráter.

 

É justamente essa projeção (ingênua, diga-se) que promove a ascensão política de pessoas que não possuem os escrúpulos que moldam a nossa personalidade. Os deterministas que me perdoem, mas todos nascemos, em maior ou menor grau, com uma certa propensão ética que, de certa forma, serve de freio aos nossos impulsos mais egoístas. Me recuso a acreditar que não descambamos para a barbárie somente por conta de leis, regras e mandamentos. Há, sim, um fator genético que impede o grosso da população de entrar no caos – algo tão singelo como um gene que determina que a maioria seja destra e com sangue tipo “O”. Tenho, inclusive, motivos pra crer que fomos darwinianamente selecionados para nos comportar desse jeito.

 

De todo modo, nada impede que continue a nascer pessoas que são plenamente indiferentes a algo que incomodaria outras. Seja um grão de arroz colado à bochecha, seja um viaduto superfaturado.

 

 



Escrito por Álvaro às 16h24
[] [envie esta mensagem] []



$exo

 


À medida que as profissões ligadas ao sexo deixam de ser um tabu nas conversas do dia-a-dia, as pessoas passam a tentar entendê-las melhor. Surgem, assim, biografias, depoimentos, reportagens diversas que abordam o cotidiano das pessoas que trabalham nesse mercado.

 

Com o advento desse repetino interesse por parte do público, começam a aparecer explicações sobre uma questão fundamental: para que servem, afinal, as prostitutas?

 

As histórias narradas pelas garotas de programa dão conta de que seus clientes geralmente namoram ou são casados, mas que gostam de contratar os serviços de uma profissional para exercitar seu lado dominador. São homens que se excitam com o fetiche da mulher-objeto, aquela relação entre pagamento e prazer, de modo que eles estão sempre no comando e sem dever qualquer satisfação à outra parte. Recorre-se, portanto, ao meretrício como uma forma de viabilizar fantasias que dificilmente seriam aceitas pela companheira “oficial”.

 

Longe de mim querer posar de autoridade no assunto, mas acho que essa versão é insuficiente para explicar o papel que a prostituição tem na mente masculina.

 

Homens como aqueles descritos no contexto fetichista são, de uma ou outra maneira, bem-sucedidos na arte do flerte. Passaram a vida toda tendo pouca ou nenhuma dificuldade pra arranjar companhia para suas noites. Eu nunca vi um genuíno cafajeste reclamando por não ter companhia – incluindo mulheres dispostas a satisfazer seus desejos menos ortodoxos. A busca desse tipo de homem pelos serviços de uma profissional pode ser explicada pelas barreiras morais que ele mesmo se impõe, tipo: “não faço isso com minha mulher, ela beija meus filhos” ou “mulher que faz isso aí não é pra casar”.

 

Agora, analisando a questão da prostituição pelo ângulo de um homem com poucos atributos, acho que a busca pelo prazer nos braços de uma garota de programa possa ser melhor explicada por um certo “Complexo de Groucho Marx” que existe dentro de nós: não quero fazer parte do clube que me aceita como sócio. Dito de outro modo, não sou suficientemente atraente para conquistar as mulheres que cobiço. Não consegui me tornar um adulto bonito e/ou rico e/ou engraçado e/ou charmoso, mas com 200 reais no bolso posso ter a minha Brigitte Bardot por 60 minutos.



Escrito por Álvaro às 14h20
[] [envie esta mensagem] []



Fobias

 

 


Hitchcock, em “Os Pássaros”, consegue deixar o espectador tenso diante de algo tão aparentemente inofensivo quanto as aves que circundam uma bucólica casa de veraneio.

 

Kafka, por sua vez, em “O Processo”, expõe de maneira perturbadora o quanto pode ser sinistro um ambiente presumivelmente banal como uma repartição pública qualquer. O hermetismo das instituições que regem os procedimentos – e, em última análise, a vida dos envolvidos – chega a sufocar, literalmente, o protagonista.

 

A impermeabilidade da burocracia estatal e sua interferência no cotidiano das pessoas são temas caros a todos funcionários públicos, categoria profissional da qual faço parte. Apesar de não estar insatisfeito com meu trabalho, confesso que me incomoda bastante constatar que o modus-operandi do estado continua tão kafkiano como aquele narrado pelo escritor tcheco há quase um século.

 

O termo “kafkiano”, aliás, é derivado da descrição de Kafka quanto à forma tortuosa de como certas abstrações (quase alucinações) hierárquicas chegam a influenciar até a arquitetura de determinadas construções, tendo em vista o posicionamento das pessoas que estão ligadas, de alguma maneira, às atividades ali desenvolvidas. Qualquer observador que tenha se dedicado em algum momento a analisar os corredores de alguma repartição pública já deve ter notado isso também. E, claro, quem trabalha diariamente nesses corredores igualmente percebe com clareza e efeito de certas instituições sobre a maneira como cada sala é projetada.

 

Quinta-feira passada, dia 28/10, comemorou-se o dia do funcionário público. Por coincidência, foi o dia em que tive oportunidade de refletir sobre as implicações dessa relação de dependência entre cidadão e estado. Fui, junto a alguns colegas do departamento financeiro, visitar as obras do Parque Belém, um projeto desenvolvido pelo governo do estado na zona leste da capital para implementar um grande centro de lazer e cultura num terreno que foi ocupado, por muitos anos, por uma unidade da famigerada Febem. Vários dos prédios que antes abrigavam os detentos foram demolidos ou reformados, dando lugar a instalações dedicadas à leitura de livros e jornais, além de acesso à internet.

 

Porém, uma edificação em especial me chamou demais a atenção. É um pequeno bloco de 3 andares, onde ficavam as celas destinadas aos detentos mais perigosos, as chamadas “solitárias”. A maior parte de sua estrutura original ainda não havia sido reformada, então dava pra ver as pichações nas paredes, as salas onde os meninos recebiam alguma orientação, as indicações e códigos que regiam o dia-a-dia dos que ali permaneciam, além, claro das instalações em si: quartos minúsculos, construídos de modo absolutamente espartano, com beliches feitos de cimento e pequenas prateleiras de tijolos, envoltos em paredes altíssimas de concreto gelado, com uma janelinha lá no alto, perto do telhado, inalcançável.

 

A visão desse cenário, aliada ao cheiro forte de urina impregnado nos cantos, trouxe-me algumas reflexões, das mais piegas (que bom que nasci em uma família que me deixou longe disso) às mais, digamos, existencialistas (o que aqueles caras ficavam fazendo aqui o dia inteiro? o que pensavam? conseguiam ouvir o barulho dos carros lá fora? não enlouqueciam de tédio/medo/saudade?).

 

Obviamente, ninguém passa incólume por uma experiência dessas. Eu nunca havia estado em uma prisão antes, então aquela visita me chocou bastante. E olha que o ambiente estava vazio, contando somente com a minha presença e de alguns colegas, igualmente incomodados pela sensação trazida por aquelas paredes frias. Não consigo imaginar como deveria funcionar aquilo quando ocupado por detentos e carcereiros. A angústia kafkiana se elevaria à enésima potência, provavelmente.

 

Passado o impacto após a visita das celas, e depois de curtir o restante das obras do futuro parque (que, ao que tudo indica, será um lugar muito legal quando estiver pronto) me veio à cabeça um outro modelo de estrutura kafkiana, também destinado a uma atribuição estatal: o hospital.

 

Eu sempre tive fobia de hospital. Só entro em algum quando estritamente necessário. Por trás de uma imagem de glamour, as profissões ligadas à área médica convivem em um ambiente que sempre me pareceu inóspito (pra dizer o mínimo): doentes caindo aos pedaços, pessoas em estado decrépito, familiares chorando pelos cantos devido à perda de um ente querido, tudo isso tendo como trilha sonora gemidos de dor de pobres-coitados agonizantes. Pode ganhar um salário bacana, ter status e o caramba; ser médico não é pra mim.

 

Se bem que um carcereiro nem salário legal tem... E o desconforto (pânico?), se não for igual, é ainda pior.

 

Realmente, meu serviço como burocrata do estado não é dos piores. Kafkiano, sim, mas bem distante de tais fobias.



Escrito por Álvaro às 12h05
[] [envie esta mensagem] []



 
 

O ANIMAL AGONIZANTE - PHILIP ROTH

Esse derruba a tese de que não se julga um livro pela capa. No caso, a contra-capa. Impossível lê-la e não querer devorar o livro na mesma hora.
 


Trechos (além da contra-capa):
 
"Por que é que fico elogiando-a quando falo com ela? Por que não paro de dizer que ela é perfeita? Por que sempre tenho a sensação de que estou dizendo a coisa errada pra essa garota? Não consigo imaginar como ela me vê, como ela vê coisa nenhuma, e minha confusão me faz dizer coisas que me parecem falsas ou exageradas..."
 
  
"... a maioria das pessoas leva para a cama o que há de pior em sua biografia..."
 


Roth, pra variar, pega na veia. E acerta no ângulo.



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 17h21
[] [envie esta mensagem] []



 

Clima seco


O escritor Ruy Castro, famoso pelas biografias que redigiu nas últimas décadas, disse em uma entrevista recente que só vale a pena ser biografado alguém que seja reconhecidamente impetuoso, que tenha vivido de modo intenso e experimentado a vida sob diversos ângulos. Um dos aspectos abordados por ele, inclusive, foi no tocante à vida amorosa do sujeito: a pessoa deve ter curtido sua solteirice, aproveitando todas as oportunidades para se envolver em relacionamentos os mais fugazes e variados possíveis; no caso do biografado ser casado, que ele tenha experimentado as sensações presentes em situações de traição conjugal, de preferência tendo vivido essa experiência tanto na condição de traído como no papel de traidor.

 

Eu concordo com essa visão do Ruy, em especial quando ele fala da necessidade de haver traição num casamento para que esse se torne interessante. Interessante não necessariamente aos cônjuges, mas para aqueles que posteriormente conhecerão a história.

 

Uma das experiências mais intensas com a qual o ser humano tem contato durante a vida é o sexo. E o sexo, no casamento, fica, de fato, comprometido por conta das demais contingências da vida a dois. E isso não é necessariamente um “defeito” do casal, tampouco tem relação com o grau de atratividade do parceiro.

 

Uma conhecida apresentadora de TV, incontestavelmente bonita e desejável, trouxe à tona essa discussão ao revelar em uma entrevista que pratica relações sexuais com o marido, com quem é casada há dez anos, uma vez por semana, em média. A plateia, inconformada, se chocou pela presumida "fraqueza" do esposo - que, diante de tal monumento, teria o dever de expressar sua virilidade com uma frequência dezenas de vezes maior - e com o aparente conformismo da declarante, como que indiferente à sua condição de sex simbol.

 

Exageros à parte, reitero que isso nada tem a ver com o comprometimento do casal em relação ao tema, mas sim com os esforços necessários para que a convivência marital seja prazerosa em diversos aspectos além do sexo. Uma viagem, a compra de um carro ou o conforto de se ter uma poupança são coisas menos gostosas do que sexo, mas são bem mais trabalhosas de se obter, além de ser igualmente importantes para o cultivo do relacionamento. Equilibrar tempo e energia de modo a encaixar todas essas demandas em nossas prioridades é o grande desafio matrimonial.

 

Além disso, claro, tem também o lance de enjoar. E não vejo nenhum demérito nisso. É aquela coisa: a música mais legal que você já ouviu na vida, na primeira semana você quer ouví-la 35 vezes por hora. Depois de um mês, já não aguenta mais; dá um tempo. Daí passa a ouvi-la só algumas vezes por ano e tá tudo certo.

 

Com o sexo marital não chegamos a esse ponto porque, afinal de contas, envolve outra pessoa, com todas as suas complexidades e metamorfoses, o que enriquece a relação entre “consumidor” e “produto” e torna a experiência menos efêmera e previsível. É repetido, mas diferente ao mesmo tempo.

 

Porém, é bastante lógico pensar que o fascínio pela descoberta de um novo corpo, com sensações e reações diferentes, torna a experiência mais intensa.

 

De modo que, sim, vejo mais pontos de interesse numa biografia onde constem algumas puladas de cerca, por todos os conflitos inter e intra-pessoais que esse tipo de experiência traz.

 

Minha vida, portanto, apesar de satisfatória e gratificante em diversos aspectos, não tem sido suficientemente dinâmica a ponto de gerar os tais conflitos que são, afinal de contas, o motor que nos impulsiona a desandar a escrever e contar histórias.

 

Tudo isso pra dizer que eu tô numa seca danada e não consigo mais atualizar esse blog nem no padrão árido de um post por mês.

 

Abri uma conta no Twitter agora há pouco pra tentar me impelir mais à escrita (link no lado direito do blog). Vejamos se dá certo.

 



Escrito por Álvaro às 16h11
[] [envie esta mensagem] []



Filho de peixe

Responda: pra que time seu pai torce(ia)?

 

Se respondeu “o mesmo que o meu”, parabenize-o. Aliás, não precisa chegar a tanto. Fazer o filho torcer para o mesmo time que o seu não é lá um grande mérito. O que não pode é deixá-lo torcer para o rival. Essa é a lógica. Pelo menos pra mim.

 

Mas não são raros os casos em que ocorre justamente o contrário. Todo mundo conhece algum caso pitoresco sobre famílias divididas entre gerações que torcem, cada uma, para um time diferente. No mínimo, já ouvimos falar de alguma história assim. Não só o sujeito deixa de estimular o filho a torcer para o seu clube como permite ao rebento adotar as cores do rival. É o cúmulo da incompetência.

 

O mais engraçado é que alguns jornalistas de esportes, de futebol em especial, gostam de declamar aos quatro ventos o seu amor por um determinado clube, dizendo que por causa de tal agremiação se apaixonou pelo ludopédio, passou a acompanhar as competições de perto, o hobby foi tomando uma parte cada vez maior da vida, culminando, enfim, na definição de sua carreira. Mas não são raros aqueles que, apesar da tão declamada paixão, têm filhos que torcem pra outros times. Só consigo imaginar que: ou eles foram pais muito ausentes, negligenciando totalmente a formação da prole; ou esse negócio de paixão clubística é conversa pra boi dormir, uma balela contada para garantir repercussão e audiência.



Escrito por Álvaro às 13h57
[] [envie esta mensagem] []



Passo a passo

 

 

Comprei um tênis outro dia. E, vejam só, adorei a minha compra.

 

“E o Quico?”

 

Bem, não sei com quantas pessoas isso acontece, mas é algo recorrente em minha vida adquirir tênis que não me satisfazem. E não é questão de ser consumista, de ser manipulado pela mídia e pela propaganda e ser alguém que está sempre renovando a sapateira para preencher um vazio existencial e blábláblábláblá. Ao contrário. Eu tive, se muito, uns 15 pares de tênis em meus breves 30 anos de vida. Uso-os até se desintegrarem no meu pé. E só daí vou a alguma loja procurar outro par.

 

Porém, sempre que eu saio em busca de um substituto pros meus tênis velhos é uma penúria encontrar algum modelo que me pareça minimamente aceitável. Vasculho shoppings inteiros, passo dias percorrendo as ruas de comércio, ando quilômetros a fio e, no fim das contas, sempre acabo comprando um tênis nada a ver. É sempre, no máximo, o menos feinho.

 

Eu ainda sofro com um problema adicional: tenho pés grandes, pelo menos uns 2 números maiores que a média. O roteiro é sempre o mesmo. Quando vejo algum tênis legalzinho na vitrine de uma determinada loja, entro pra saber se eles têm aquele modelo no meu tamanho. Logicamente, eles nunca têm. Daí eu peço algum que seja, ao menos, parecido com aquele da vitrine. Mas os vendedores sempre têm uma maneira bastante peculiar de definir a palavra “parecido” e empilham em sua frente um sem-número de caixas repletas de aberrações em forma de borracha e couro.

 

Aliás, os vendedores são um capítulo à parte nessas minhas epopeias em busca do tênis perfeito. Afora aqueles desesperados para cumprir suas metas de vendas, sempre tem algum vendedor que tenta fazer, ali, na hora, um perfil psicológico do comprador. Ao notarem a minha expressão fechada e meus problemas com a numeração dos calçados, os caras que me atendem sempre tentam de forma insistente me empurrar tênis grandalhões, pretensamente sóbrios, com visual entre o rústico e o militar, com aqueles estofados marrons e cadarços cor-de-burro-quando-foge presos em fivelas acobreadas, tudo combinando harmoniosamente com um solado que imita pneus de trator. Até explicar-lhes que não pretendo fazer parte do batalhão de alpinismo, em geral, já perdi a paciência e saí da loja sem querer ver o resto de suas sugestões “incríveis”.

 

O que me intriga nessa história é que eu sempre acho um monte de tênis legal por aí nos pés das outras pessoas e fico tentando imaginar onde posso encontrá-los para comprar. Porém, basta olhar as vitrines para desanimar com aquele amontoado de modelos que vão do insosso ao constrangedor.

 

Não é algo que me sirva de consolo, mas o problema se repete quando procuro um calçado para presentear a minha mulher. Nas ruas, vejo centenas de garotas com sandálias, sapatos, botas, etc. bonitinhos, bem feitos, com detalhes femininos e discretos. Daí, ao passar diante das lojas de calçados femininos, encontro aquele amontoado de solados pesadões, canos altíssimos, laços exagerados e motivos cafonas. Tem mesmo alguém idiota a ponto de comprar um tamanco violeta-fosforescente com uma enorme flor de cortiça dourada na ponta?

 

E, voltando aos tênis, há realmente mercado para aqueles monstrengos sem formato ou cor definidos, com molas envernizadas nos calcanhares? Bem, considerando-se que há gente que acha bonito cobrar R$ 600 por essa obra-prima, nota-se que não sou parâmetro pra nada.



Escrito por Álvaro às 10h09
[] [envie esta mensagem] []



 
 

CRIME E CASTIGO - FIÓDOR DOSTOIÉVSKI

O óbvio: Ninguém soube descrever melhor as agruras de um jovem ex-estudante desempregado.

 

O não tão óbvio: É possível escrever de forma bem humorada sobre um romance trágico entre um assassino e uma prostituta.

 

O nada óbvio: Só mesmo na Rússia poderia surgir o chamado "socialismo real" e todas as suas implicações.



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 21h44
[] [envie esta mensagem] []



Tevêsporte

 

Canal de esportes é o melhor companheiro do homem. Principalmente se você tá recebendo em sua casa alguém com quem você não tem nenhum papo. Daí é só sintonizar um desses qualquer-coisa-sports-network-channel e tá tudo certo.

 

Numa ocasião dessas, frente-a-frente no sofá com um quase desconhecido, a conversa não engrenou. Coloquei no canal esportivo. Estavam trasmitindo um campeonato de dança de salão. Não é o esporte mais viril do mundo, reconheço. Só que, independente do tipo de disputa em jogo, ao bater o olho na tela você reconhece um esportista de alto rendimento, sabe que aqueles movimentos só podem ser executados por um atleta de ponta. E, bem, no fim das contas, como era uma dança de caisais, tínhamos a desculpa de que a distração maior era ficar olhando para as belas dançarinas.

 

Mas, enfim, à parte os detalhes, em termos genéricos, é cômica e prazerosa a sensação que você tem ao assistir um esporte qualquer que você nunca tenha visto e, 15 minutos depois, começar a debater calorosamente sobre as técnicas e regras como se você já estivesse habituado ao esporte tal qual um comentarista profissional.

 

 

“Se liga, aí vem a equipe da Rússia. O cara é frio demais. Não erra nada. Nunca vi isso.”

 

“Nossa, que louco! Como esse cubano conseguiu fazer esse troço? Caralho!

 

“Ah, não. Que juiz lazarento. Tá roubando na cara dura. Como assim?

 

“Tadjiquistão? Onde fica isso?”

 

“Hummmm. Essa doeu.”

 

“Olha lá! Tá vendo? Eu sempre digo: por isso que os Estados Unidos ganham tudo.”

 

“Hahahaha! Se fudeu, seu argentino de merda. Chupa!”

 

“Paisinho nada a ver que é o Canadá, hein? Não cheira nem fede.”

 

“É... tá bom, vai... eu só achei que o Japão foi melhor que os caras da Turquia, mas...”

 

“Putz, até a Costa Rica ficou na frente do Brasil. Que beleza!”

 

 

E por aí vai. Nunca falha.



Escrito por Álvaro às 09h33
[] [envie esta mensagem] []



Orgulho Paulistano

 

Não é de hoje que eu ouço falar que os paulistanos são prepotentes, arrogantes, orgulhosos de sua cidade. Mesmo antes de morar aqui, já havia ouvido menções nesse sentido.

 

Os “estrangeiros” que emitem essas opiniões se baseiam no fato de que os nativos de São Paulo desdenham as outras regiões do país, mantêm preconceitos baseados em estereótipos infames e não reconhecem valor algum ao que é produzido fora de suas fronteiras. Os paulistanos, por assim dizer, manifestam um claro e profundo desprezo ao “resto” do Brasil.

 

Eu concordo com a linha de raciocínio dos migrantes exceto pela palavra “resto”. Paulistano não despreza o “resto” do Brasil, paulistano despreza o Brasil – incluindo São Paulo.

 

É fácil verificar isso ao analisar a forma como o município foi ocupado e a maneira como seus habitantes se relacionam com a cidade.

 

Pra começo de conversa, um paulistano nunca se define como tal. Em sua cabeça, ele sempre será italiano, japonês, mineiro, judeu, etc, mesmo que a sua família tenha imigrado pra cá há mais de um século. O mesmo se aplica quando o paulistano se refere a terceiros: o português da padaria, o china da informática, o baiano da limpeza, o turco do armazém, e por aí vai. A impressão e que ninguém é daqui mesmo; todo mundo, sob determinado aspecto, é de fora.

 

Naturalmente, essa conjunção de fatores faz com que poucos realmente mantenham um vínculo afetivo com a cidade em que mora. As pessoas não se sentem arraigadas, de modo que agem como se estivessem apenas de passagem, usando São Paulo como uma espécie de trampolim para alcançar um outro ponto qualquer.

 

Ninguém se sente dono da cidade. Ao contrário, o paulistano não vê a hora de sair da metrópole. Qualquer feriado é pretexto para correr pra praia ou pro interior, nem que seja por algumas horas. Na primeira oportunidade, o nativo se muda de cidade, de estado ou de país.

 

As relações sociais mantêm o mesmo padrão. Um paulistano típico encara os vizinhos como seres estranhos, com pouco ou nada em comum com ele, e que em geral só prestam para lhe atrapalhar ou constranger de alguma forma. No caminho de casa para o trabalho, os concidadãos são inimigos declarados, seja no trânsito, seja na fila do metrô. Nos momentos de lazer, qualquer centímetro ou segundo a mais é disputado a tapa; poucos se divertem e muitos se estressam. Desconfiança, descortesia, desrespeito e outros “des” se acumulam no trato entre aqueles que dividem as mesmas ruas e avenidas.

 

As conseqüências óbvias desse tipo de relação entre a cidade e seus habitantes é a degradação de toda a estrutura urbana. Bairros inteiros são construídos de forma irregular e irracional; as ruas vivem imundas e superlotadas; os (poucos) parques e praças estão constantemente mal conservados; construções históricas sofrem com uma degradação permanente e muitos serviços públicos vivem à beira de um colapso.

 

Essas consequências, por sua vez, reforçam o desapego do paulistano junto à sua cidade. É de espantar a forma bovina com que a população aceita a ruína do Centro e dos rios da cidade – hoje em dia, tristes caricaturas do que foram há poucas décadas atrás.

 

Uma monstruosidade como a Marginal Tietê, essa aberração em que se transformou o Parque Dom Pedro, nada disso causa indignação. Os políticos se sentem à vontade para tratar de forma preguiçosa assuntos que deveriam ser prioridade, enquanto a população bota a culpa dos seus problemas “nos outros”. A cidade segue cada vez mais embrutecida, cansativa e desanimadora.

 

Agora, que raio de orgulho paulistano é esse que tanto falam? O problema de São Paulo é justamente a falta de orgulho próprio daqueles que a habitam!

 

 

PS: O tema já foi comentado por aqui, sob outro enfoque: (http://brancopreto.zip.net/arch2009-01-04_2009-01-10.html#2009_01-08_14_05_57-120112568-0)



Escrito por Álvaro às 16h05
[] [envie esta mensagem] []



 
 

A DOR DO OLHAR

Ela era bonita. Linda. Demais. A ponto de me constranger um pouco. Perto dela eu ficava sem reação. Mal conseguia olhar pros seus olhos ou respondê-la quando me perguntava algo. Num dia comum de trabalho eu evitaria puxar papo, certo de que ficaria travado a ponto de parecer grosseiro ou burraldo. Mas o final de tarde invernal estava excepcionalmente agradável, um ar fresco sem ser gelado. O salão estava cheio, mas acabamos sozinhos naquele sofá de canto. Depois de algumas taças de vinho, pedi ao garçom um chocolate quente, pra acalmar o hálito. Era a minha chance de conversar com alguma naturalidade.

 

Sempre quis perguntar o que uma mulher desse nível sentia ou pensava a respeito da sua beleza. Sentiam orgulho? Tinham ciência de que provocavam certo mal-estar, com tamanha disparidade em relação aos pobres mortais? Ou caíam na vala comum, com aquele pensamentozinho medíocre de “todos têm inveja de mim”?

 

Contei uma piadinha, ela riu. Chegou o momento de saciar a minha curiosidade.

 

– Você tem noção do quanto é bonita? – perguntei, sorrindo.

– Oras, como assim? – ela respondeu, após uma risadinha simpática.

– É sério. Você não é do tipo que a gente vê todo dia.

– Hum... não sei. O que espera que eu responda?

 

Não esperava por essa. Balbuciei alguma coisa, peguei a xícara na mão e procurei aparentar calma, sorrindo e falando delicadamente.

 

– Acho que eu gostaria que me dissesse que você tem ciência dos transtornos que a sua beleza traz a todos à sua volta.

– Minha beleza traz transtornos? Haha. Essa é boa. Que tipo de transtornos?

– Ah, você sabe. Tipo, o pessoal passa mal ao ver uma mulher tão bonita.

– “Tipo”, o pessoal tem inveja do meu jeito, isso sim – ela respondeu, fechando um pouco a cara, mas ainda simpática.

– Não. Não é inveja. É outra coisa. Todo mundo sabe que uma mulher como você vive em outro patamar, outro nível. Sua vida não é igual a de um reles mortal. Você é capaz de provocar reações diferentes daquelas provocadas por outras pessoas.

– Certo. Vamos supor que tudo isso seja verdade; em que isso pode causar desconforto dos outros?

– É mais ou menos... como eu posso explicar? É como se, por onde você passasse, todos soubessem que você está acima de todo o resto. Mais ou menos com se você tivesse outras oportunidades que nós nem sonhamos em ter.

– “Nós” quem? Do que você tá falando? Continuo achando que é apenas inveja – ela insistiu, já um pouco impaciente com meu palavrório.

– Não, não, não.

 

A essa altura eu já havia alterado a minha voz, a última coisa que eu queria fazer. Respirei, tomei um gole do chocolate e continuei, caprichando no sorriso e diminuindo o tom da fala:

 

– Eu quero dizer é que quando alguém olha pra você e se sente mal, não é porque sente inveja.  É mais ou menos como, sei lá, olhar pro Pelé e saber que nunca vai jogar como ele. Seria como olhar pra dentro de si e ver que não possui muitos atributos, é só uma pessoa comum, com sua vidinha simples, desinteressante, um cotidiano repleto de emoções menores. Você, não. Você chama a atenção. Tudo em você brilha, atrai olhares. Tudo que faz ou diz atinge proporções maiores, traz mais autoridade.

– “Autoridade”, é? Essa é nova – ela tornou a rir. – Enfim, continuo sem saber do que você está falando.

– Tô querendo dizer que você é bonita demais, muito além do que a grande maioria pode sonhar em ser ou ter pra si ao seu lado. Parece que só você tem direito a algo que não é permitido aos demais. Veja bem, esse tipo de sentimento nos deixa ressentidos, como se nos fosse privado uma parte importante da vida.

– Uau! Nunca pensei que pudesse causar tantos aborrecimentos nas pessoas.

– Não! Por favor. Não foi isso que eu quis dizer. Eu só quis te falar que o fato de você ser bonita traz à tona, em algumas pessoas, um certo complexo de inferioridade. Dá a impressão que a sua vida é mais interessante. Muitos gostariam de estar na sua pele pra experimentar a vida de uma outra forma.

– Então me responda: isso não é inveja?

– Mas eu não tô falando que as pessoas não sentem inveja de você. Porém... é... veja bem, não é apenas isso. O fato de ser tão bonita, de se destacar tanto, significa que você é muito acima da média. Você é uma em um milhão. Ou seja, a maioria das pessoas passará a vida inteira sem poder aproveitar a sua beleza. Constatar isso causa amargura.

– Aproveitar, né? Então, senhor “veja bem”, isso significa apenas invejar o outro.

– Oras, mas não é só inveja. Não é possível. Você não percebe o que causa nas outras pessoas? Não percebe o espanto que o seu rosto e o seu corpo provoca?

Todo mundo para pra te olhar, te escutar, te sentir. Você chega em um lugar e a reação é imediata. As pessoas se desconcentram, largam o que estavam fazendo e começam a reparar nos seus movimentos, nos seus gestos. Ficam tentando adivinhar o que você está pensando, tentando descobrir seus próximos passos. Todo mundo passa a imaginar como é a sua vida, o que você faz em seu dia-a-dia, se passa alguma dificuldade, se fica chateada de vez em quando, se chora, se fica com frio, se sente dor de cabeça. Tudo pra você deve ser fácil, deve ganhar presentes, ser galanteada o dia inteiro. Basta pedir com jeitinho e você tem o mundo aos seus pés. Sua vida deve ser fácil, tudo é simples, tranquilo. Não fica tendo esse monte de dilema existencial, nem se culpando por levar uma vida difícil, nem deve se sentir rejeitada ou constrangida diante de algo novo. Não consigo imaginar você nem tendo chulé ou TPM...

– Ei, ei. Espere aí – ela disse, me interrompendo. – Vamos com calma. Que tipo de idéia você faz da minha vida? O que você pensa que sabe sobre meus sentimentos?

– Foi isso que eu pensei em te perguntar.

– Nem lembro mais a sua pergunta. O que que foi mesmo?

– Eu queria saber se você tem idéia do quanto é bonita e se você se dá conta da reação que desperta nas pessoas.

– As pessoas têm inveja de mim. Pronto. Satisfeito?

 

Ela se preparou pra levantar. O salão já estava bem menos cheio do que quando começamos nossa conversa. Alcancei seu braço. Fiz uma última pergunta.

 

– Você não percebe o quanto é linda?

– E você não percebe que eu só quero ficar em paz?

– Você é tão bonita que chega a doer, sabia?

– Tô indo embora.

 

Dei tchau. Ela me olhou de canto de olho, pegou a bolsa e respondeu secamente. Queria ter pedido um beijo pra ela.



Categoria: Contos
Escrito por Álvaro às 18h40
[] [envie esta mensagem] []



Preferência Nacional

 

 

Desde a adolescência ela era meio metida a poeta, sempre gostou de escrever – tanto que mantém um blog até hoje. Cabelo chiaroscuro, combinando com os sapatos e o sorriso tímido. Tentou conciliar a faculdade com sua inquietude: se formou publicitária. Gosta de música. Amante dos pincéis, faz aula de pintura há 3 anos; tem uma ótima noção de espaço e luminosidade, persistindo, contudo, certa dificuldade pra imputar movimento aos seus traços. Ela não gostou muito de “Vestido de Noiva”, mas se emocionou pra valer naquela biografia teatralizada sobre o Tennessee Williams. Ela adora música. Eu só consigo adorar aquele brilho castanho dos seus olhos. Como se não bastasse, me deu de aniversário os 7 volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”, do Proust, e fez questão de ler comigo. Seu filme preferido é “Fargo”, me convenceu que o John Ford era um gênio e gostava de contar por que chorou com “O Rei Leão”. Passei a assistir “House” só por sua causa. Como ela gosta de música!

 

Essa mulher não existe. Joguei fora metade da minha vida na esperança de encontrá-la.

 

Postura ereta. Cabelo liso, brilhante. Sente-se o perfume de longe enquanto ela dá seus passos firmes e decididos. A tatuagem estratégica causa suadouro até numa estátua. O rosto parece uma escultura, nunca sabemos se o nariz é arrebitado ou empinado. Confiante ou metida? Gata desse jeito, natural que se ache mesmo. E daí? Quem que pega uma mulher dessa? É muito bonita. Demais. Não sei se as outras mulheres sentem inveja dela. Eu me sinto envergonhado, suspiro em silêncio e fico sem saber como me portar. Seus olhos parecem gritar pela nossa atenção. Reparar no contorno dos lábios dela me dá água na boca. A vontade de olhar para o decote derrota meus esforços em contrário, acentuando a minha vergonha. Que quadril é aquele?

 

Essas existem. E em razoável quantidade. Mas nunca me iludiram.

 

Não sou fetiche de ninguém. Sobraram poucas opções.



Escrito por Álvaro às 23h46
[] [envie esta mensagem] []



Tenho uma teoria

 

Não sou biólogo. Só metido a esperto. Por isso, ousei formular uma explicação para algo que me intriga há tempos: porque de uns tempos pra cá os gordos são pobres em sua maioria?

 

Minha família possui um recorte social interessante. No lado de minha mãe, quase todos são longelíneos e de classe média em sua maioria.

 

No lado paterno muda bastante coisa. Financeiramente, prosperaram pouco; por outro lado, boa parte revela uma indisfarçável tendência a engordar.

 

Andando pelas cidades, é fácil observar que isso não acontece só na minha família. Basta se locomover entre um extremo e outro.

 

Uso São Paulo como exemplo, pois é a cidade onde moro atualmente. Mas é algo facilmente observável nas demais cidades onde vivi.

 

Ao partirmos rumo ao um bairro de classe média baixa, como São Miguel Paulista, e visitarmos uma rua de comércio popular, observamos uma quantidade razoável de pessoas acima do peso andando pelas ruas. Homens, mulheres, crianças, todos andando de lá pra cá, disputando espaço nas conduções lotadas e nas calçadas apertadas, com suas roupas baratas e folgadas, cabelos desgrenhados e muitas, muitas dobrinhas em torno da cintura de pelo menos um terço da multidão.

 

Agora vamos partir em direção a um endereço mais valorizado, a Avenida Paulista, com suas calçadas largas repletas de prédios envidraçados e carros reluzentes deslizando de lá pra cá. Os transeuntes: homens esguios, com calças e camisas de corte reto e estreito; moças esbeltas, de cintura fina, com a silhueta alongada pelas roupas justas ao corpo.

 

À primeira vista, não faz sentido termos pobres gordos e ricos magros, uma vez que os primeiros precisariam dispender um grande percentual de seus rendimentos para comprar os seus suprimentos diários. Porém, na prática, é o que acontece.

 

Existem algumas teorias sobre isso. A maioria menciona os aspectos educacionais/culturais para explicar essa discrepância. Todas elas podem ser resumidas da seguinte maneira: os pobres, por serem pouco instruídos, comem alimentos excessivamente calóricos e não se dão conta de que isso os faz engordar, enquanto os ricos fazem uma dieta balanceada, formada por nutrientes com baixo teor de gordura.

 

Essa explicação não me convence, por dois motivos. Em primeiro lugar, que os pobres e os ricos, em seu dia-a-dia, fazem refeições semelhantes. Arroz com feijão (ou alguma massa), salada e um tipo de carne. Não foge muito disso, seja num bistrô sofisticado, seja num Prato Feito do boteco da esquina.

 

Em segundo lugar, mesmo que consideremos que os pobres fazem refeições mais gordurosas, isso não bastaria para fazê-los ganhar peso, uma vez que o tipo de profissão destinado a eles requer um esforço físico muito mais intenso em relação às carreiras mais afortunadas. Isso sem contar que os pobres, para chegar ao local de trabalho, em geral percorrem grandes distâncias a pé ou em pé, gastando boa parte dessa diferença calórica ainda no trajeto entre casa e emprego.

 

Daí você me pergunta: “Tá bom, ô espertão. Então o que explica os rechonchudos da Vila Nhocuné?”.

 

Vejamos.

 

Pobres descendem de famílias pobres. Ricos descendem de ricos – ou de pobres que subiram na vida e se casaram com ricos.

 

Se puxarmos pela árvore genealógica de um pobre, haverá diversos antepassados escravos, servos, lacaios e toda a sorte de trabalhadores braçais, todos precisando enfrentar serviços pesados, que exigiam um severo esforço muscular, e que, por serem menos nobres, remuneravam pouco ou quase nada, garantindo no máximo a subsistência da mão-de-obra. Essas pessoas, portanto, precisavam contar com um tipo físico que melhor se adequasse às suas rotinas, resistindo somente aqueles que suportavam horas e horas de um trabalho terrivelmente desgastante, mesmo com uma quantidade baixa de calorias à sua disposição. Isso obviamente forçou uma “seleção natural” entre as classes baixas, já que só sobreviviam pessoas com genes adaptáveis a essas situações extremas. Ou seja, a genética pendeu na balança pro lado daqueles que conseguiam aliar um grande gasto energético com uma dieta rarefeita em calorias.

 

Nas famílias ricas essa seleção não houve, já que sempre desempenhavam profissões com menos desgaste físico, além de terem à disposição fartura de alimentos.

 

Daí veio o século XX, trazendo com ele os direitos humanos, a revolução do agribusiness com suas supersafras de alimentos e as transformações industriais proporcionadas pela mecanização e pela robótica.

 

Consequências: Todos se conscientizaram quanto à necessidade de remunerar os funcionários de maneira minimamente digna, além da mera subsistência, mesmo aqueles dos escalões inferiores. Além disso, tais serviços passaram a ser mais mecanizados e menos desgastantes. De forma paralela, os alimentos se tornaram mais baratos e acessíveis.

 

E o que aconteceu com aquelas pessoas cujos genes, durante séculos, foram selecionados para fazer o melhor uso possível das calorias ingeridas? Agora que os serviços, embora ainda duros, já não demandam tanto gasto energético quanto outrora e a oferta de comida é muito maior, como o corpo delas reage?

 

Elementar, meu caro Watson.



Escrito por Álvaro às 18h00
[] [envie esta mensagem] []



Respeitável público

 

Eis que chega o grande dia. Nosso time irá enfim estrear. Após uma espera interminavelmente longa, finalmente teremos o prazer de acompanhar o time do coração em sua primeira partida na competição.

 

Nossos jogadores se prepararam bem, é verdade. Os atletas que formam o elenco não são uma unanimidade, o que também é verdade. O técnico, apesar de experiente e vitorioso, cometeu algumas injustiças, escalando cabeças-de-bagre em detrimento de craques que, inexplicavelmente, ficaram de fora. De qualquer jeito, o que nos consola é que todos nos transmitem tranquilidade e auto-confiança, com aquele semblante próprio dos campeões.

 

O adversário? Conhecemos pouco. Não sabemos como foi a sua preparação, nem conhecemos o planejamento feito pra essa disputa. Dizem que tem um atacante perigoso, um meio-campista jovem e hábil, além de uma zaga bem armada, capaz de aliar força e catimba. Nunca ouvimos falar deles, mas não se deve subestimá-los, pois se chegaram até aqui é porque têm seus méritos. Além disso esses caras são frios, calculistas, não são passionais como nós outros.

 

Nosso time é acostumado às grandes decisões, todos têm uma força de vontade de ferro quando estão diante de um desafio dessas proporções.

 

Mas os jogadores do outro time também ostentam tais atributos. Parecem ser capazes de comer grama atrás da bola.

 

O problema é que os atletas que carregam as nossas cores não passam de mercenários, sem amor à camisa. Tudo não passa de uma grande vitrine, na visão deles. Só pensam em grana e na maldita Europa.

 

Os do outro time, não. Tá na cara que eles irão suar sangue pra nos vencer. É óbvio que no primeiro contra-ataque irão articular a bola com maestria, direto ao fundo do nosso gol. Eles não ficam só pensando em carrões e loiras como os nossos atletas. Ao contrário, os adversários são devotos fiéis do símbolo que carregam no peito.

 

E é esse o espírito da competição. Tem que ter garra. Correr, bater, lutar! Sem raça não se chega a lugar algum. E esses caras são bons nisso.

 

Estamos fadados à derrota. Temos a técnica, mas a força de vontade deles é inesgotável. Ainda é o primeiro jogo, teremos tempo pra nos recuperar, mas tudo pode ficar complicado demais lá na frente.

 

O problema é esse negócio de estreia. Nossos atletas ainda estão pesados, molengas, despreparados. Estaremos prontos só no meio da competição, após algumas partidas.

 

Mas aí pode ser tarde demais...

 

O outro time, não. São fortes, magros, rijos. Não parecem ter problemas de peso nem contusões.

 

Além do que, o técnico deles tem um ar mais grave e severo do que o nosso. Conhece seus atletas, sabe bem do que cada um é capaz. A cada substituição, haverá sempre um reserva veloz como um relâmpago, com músculos de aço e com a mente serena. Aplicado no jogo, mudará a maneira do outro time jogar, enganando a nossa zaga e estrangulando o nosso ataque. Será um nó tático daqueles.

 

E tem a pressão da torcida, da imprensa, da mídia; os olhos do mundo inteiro estarão sobre os nossos atletas. É o primeiro jogo. Dizem que somos os favoritos para levar a taça. Teremos a obrigação de vencer hoje, amanhã e sempre. Será um peso insuportável.

 

Pra esses caras não. Eles se comportam como se fosse só mais um jogo. Não têm tanta cobrança lá por aquelas bandas. Seus nervos jamais fogem ao controle.

 

Estaremos sempre em desvantagem, não importa a situação.

 

Pensando bem...

 

E aí? É isso mesmo?

 

Pode ser, pode não ser.

 

Sempre que o time para o qual a gente torce está para estrear em uma competição, parece que encontrará obstáculos inexpugnáveis. Claro que sempre tendemos a pensar nos nossos problemas e imaginar um adversário livre de qualquer empecilho, pronto para nos aniquilar ao mínimo descuido da nossa defesa. Porém, não deixa de ser engraçado ver como o jogo de estréia, em particular, potencializa essa dramatização.



Escrito por Álvaro às 18h01
[] [envie esta mensagem] []



 
 

SÁBADO, 3 DA MANHÃ

– Chega, vamos embora.

 

Alguns minutos depois de entrarmos no carro, ela me perguntou, ainda um pouco transtornada:

 

– Por que você quis ir embora daquele jeito? Nunca te vi assim.

 

– Porque eu tava de saco cheio, não aguentava mais – respondi, quase gritando.

 

– Não aguentava mais o quê? Do que você tá falando?

 

– Não aguentava mais aquela babaquice de dança, aquele monte de gente rodopiando ao som daquela música idiota.

 

– Como assim? Você adora dançar.

 

– Eu odeio dançar!

 

– ... Quê? – ela realmente ficou surpresa.

 

– Não gosto de dança, não gosto de forró, não gosto de toda essa merda.

 

– Mas você que escolheu essa balada.

 

– Escolhi porque eu sou um bosta. Escolhi porque sou um loser. Se eu fosse homem de verdade, tinha te levado pra uma balada que eu gosto e pronto!

 

– Não tô te entendendo. Que negócio é esse de balada que você gosta?

 

– Te levei pro forró porque você gosta de dançar, porque queria te agradar.

 

– Mas eu sempre pensei que você ia lá no forró porque gostava também. Eu te conheci numa balada de dança, aliás.

 

– Pois saiba que eu não gosto de nada daquilo. Pra mim é um suplício ficar horas e horas ouvindo aquela música chata, com um monte de gente sem assunto. Um bando de idiotas se exibindo, cada um tentando impressionar o outro com seus passinhos ensaiados.

 

– Acontece que você era um desses idiotas até dez minutos atrás e foi assim que eu te conheci.

 

– Ótimo. A dança serviu pra eu te conhecer e pra te convencer a sair comigo. Era hora de dar o próximo passo. Mas eu sou um pateta e continuo sem pensar em mim mesmo, só penso nos outros.

 

– Ainda não tô te entendendo, sabia? Que história é essa de só pensar nos outros?

 

Essa pergunta dela me acalmou, por incrível que pareça. Senti que finalmente poderia explicar meu ponto de vista para alguém que valesse a pena.

 

– OK. É o seguinte: homens não gostam de dançar. Pra nós é um verdadeiro suplício passar a noite num ambiente como o Varanda’s.

 

– Por quê? O Varanda’s é tão legal. Cheio de gente bonita e divertida.

 

Perdi totalmente o encanto por ela naquele momento. Mesmo sendo uma tremenda gata, ela não podia ter dito aquela última frase. Continuei mesmo assim, apesar de tudo.

 

– O Varanda’s pode ser legal pra você, pras suas amigas e pros seus colegas gays da faculdade de arquitetura. Pra mim é só um lugar onde dá pra encontrar garotas bonitas que podem se interessar por pobretões como eu, desde que eu leve algum jeito pra dançar.

 

– Tá dizendo que você vai pro Varanda’s só pra pegar mulher?

 

Eu quase desisti nesse momento. Se ela fosse um pouquinho menos bonita, tinha mandado descer do carro. Respirei fundo e tentei encerrar a conversa.

 

– Não. Tô dizendo que o forró é um mal necessário.

 

– Como, um mal necessário? Tá querendo dizer que se você não dançasse não pegaria ninguém?

 

– OK. Pra mim chega – eu respondi, já rangendo os dentes.

 

– Tá bom, calma. Eu entendi. Em qual balada você queria me levar, sem ser o Varanda’s?

 

– Não sei.

 

Ela não me perguntou mais nada. Era inteligente, no fim das contas. Depois disso só abri a boca pra me despedir dela, quando chegamos à sua casa.



Categoria: Contos
Escrito por Álvaro às 23h22
[] [envie esta mensagem] []



Hello, stranger

 

De manhã, minutos antes das 8, estou subindo até o 14º andar no prédio em que trabalho.

 

“Até mais.”

 

Com um simpático sorriso um cara que eu nunca vi na minha vida me cumprimenta após ter dividido comigo uma cabine de elevador por não mais que 30 segundos.

 

Existem pessoas que não sabem adentrar ou sair de um ambiente sem se comunicar os demais presentes. Não ficam à vontade para “entrar mudo e sair calado”, em bom português. Se sentiriam mal fazendo isso.

 

Quem me conhece sabe que sou o extremo oposto. Somente as convenções sociais da vida profissional me obrigaram a interagir com pessoas que dividem uma sala, gabinete ou escritório comigo. Quando era mais jovem, relutava até mesmo em cumprimentar meus parentes e amigos mais próximos, nem que fosse apenas com um singelo apertar de mãos. Abraços e beijinhos no rosto (quando a interlocutora era uma mulher), então... era quase um tabu pra mim.

 

Aliás, quem costumava assistir à sitcom “Seinfeld” deve se lembrar de um episódio em que ele decidia, por si próprio, parar de cumprimentar as mulheres (vizinhas, colegas, amigas, esposas/namoradas de conhecidos) com os tais beijinhos, alegando que esse tipo de contato é invasivo demais, quase uma agressão. Porém, acabou abrindo mão de suas convicções ao perceber o quanto as pessoas se sentiam ofendidas diante da recusa de um gesto que, ao ver delas, é somente um ato gentil e amigável. Até pelo tipo de identificação imediata, esse capítulo acabou sendo o meu favorito.

 

Porém eu não concordava de todo com o Seinfeld. Na época em que assistia o seriado, eu ainda era só um adolescente. Minhas obrigações sociais se limitavam às aulas do colegial, de modo que havia poucos contatos com mulheres, não acontecendo lá muitas ocasiões em que essa maneira de cumprimentá-las se fizesse necessária. Ao contrário do comediante, eu não chegava a achar que os beijinhos fossem uma invasão de privacidade, apenas considerava que esse ou qualquer outro tipo de cumprimento era tão somente uma formalidade tola e dispensável. Ainda mais que nesse época da vida tinha o lance do “deixa eu te apresentar fulana”, o que tornava o ato de iniciar uma conversa com uma menina um verdadeiro acontecimento, cheio de protocolos a serem rigorosamente cumpridos. Tinha cada vez mais certeza do quanto essa prática de “Oi, tudo bem? – ‘Smack’” não passava de um preciosismo bobo.

 

Continuei com minhas convicções até os tempos de faculdade, evitando o máximo que podia cumprimentos mais calorosos, seja com homens ou mulheres. Mas o fato de se estar longe da casa dos pais faz com que os amigos passem a ser, de certo modo, a sua segunda família. E toda família tem suas regras e acordos de boa convivência. Desse modo, passei a encarar de forma normal os cumprimentos advindos dessas amizades, já que ainda estava fresco na memória o tal episódio do Seinfeld e com ele as lembranças das confusões em que eu podia me meter ao não cumprir o ritual de se aproximar de forma artificialmente íntima, com um sorriso largamente amarelo, e beijar a face de uma namorada ou casinho de algum amigo de faculdade.

 

Na mesma época e faculdade ainda, um grande amigo, talvez aquele com que eu mais conversei durante aqueles bons 4 anos, era um cara que simplesmente não sabia adentrar um ambiente, seja qual fosse, e não cumprimentar a todos, um por um, com um forte aperto de mão (os homens) e um caloroso abraço seguido de um selinho na bochecha (as mulheres). Ninguém é perfeito... Mas, enfim, ele era meu amigo, um grande amigo, e eu suportava essa característica dele que, ao meu ver, era um tanto excêntrica. O engraçado é que sempre que me lembro de seus trejeitos dou algumas risadas, pois ele me faz lembrar de outro episódio clássico de Seinfeld, onde o protagonista é obrigado a aturar um chatíssimo vendedor que toda hora que o encontra vem com um “gimme five”, repetindo o mesmo gesto a cada 5 minutos.

 

Dizem que a universidade nos prepara pra vida. Com certa dose de boa vontade, dá pra levar a sério essa afirmação. Prefiro a frase que ouvi de um colega durante o intervalo das aulas: mesmo que a vida acadêmica não lhe forneça o nível de instrução que você deseja, pode ter certeza de que ao menos você sai daqui como um bom relações públicas. Bingo!

 

E foi assim que aprendi a conviver com o mundo das convenções e dos bons costumes. Já não reluto tanto em cumprimentar alguém de forma mais calorosa, mesmo que não seja uma pessoa que me desperte algum interesse.

 

Porém, ainda acho engraçado ver pessoas que se importam de ser simpáticas mesmo com aqueles que provavelmente não verão mais, ou com as quais jamais manterão qualquer tipo de relação. Lá no interior, quanto menor a cidade, mas comum (e pitoresco) as pessoas darem bom dia, boa tarde e boa noite umas às outras, em especial os mais idosos. Mesmo eu morando numa cidade de tamanho médio, no ônibus que eu pegava pra ir à escola eu encontrava de vez em quando um cobrador que respondia um jovial “obrigado” a todos os passageiros que giravam a catraca à sua frente. Eu respondia um sorridente “de nada”, quase por reflexo.

 

Mesmo aqui em São Paulo a gente ainda encontra essas figuras. Quando eu ia ao trabalho de ônibus fretado, uma senhora sempre fazia questão de cumprimentar todos os passageiros, tanto na hora de subir no ônibus, quando na hora de desembarcar. Fazia isso de manhã e à noite também. 4 cumprimentos por dia. 20 por semana. 80 por mês. Quase mil por ano. Pra um monte de gente que ela nem sabe o nome.

 

E pensar que eu tinha achado curioso o cara me cumprimentar no elevador, de manhã.



Escrito por Álvaro às 16h14
[] [envie esta mensagem] []



 
 

A solução pra Zona Leste é sair dela.



Categoria: Aforismos
Escrito por Álvaro às 16h43
[] [envie esta mensagem] []



TV e você. Tudo a ver

 

Eu gosto de televisão. Bastante. É um passatempo e tanto.

 

Ultimamente eu tenho assistido pouco. Trabalho, estudos, trânsito, casamento. São muitos os fatores que tomaram de assalto as minhas horas livres de uns anos pra cá.

 

Sou um telespectador exigente. Programas bons, acima de tudo, se fazem com ideias inteligentes. Se elas reproduzem fórmulas antigas, pouco importa. O importante é que funcione e que a televisão seja uma distração agradável.

 

Novelas, esportes, seriados, programas de auditório, entrevistas, debates, filmes, shows, telejornais, programas de variedades, culinária, documentários e, a grande (e polêmica) inovação da última década, os reality shows.

 

Reality shows não é, nem de longe, um tema que priorizo em minhas conversas ou pensamentos. No entanto, como esse tipo de programa se propõe a ser um laboratório que reproduz em pequena escala atos e fatos da nossa sociedade, volta e meia acontece de vermos em seus participantes (e espectadores) exemplos claros dos infortúnios da condição humana.

 

Tomo como exemplo um caso que está na boca do povo. A bola da vez é uma garota que, uma vez dentro de um desses realities, cujo mote é dividir a mesma casa com pouco mais de uma dúzia de participantes, passou a namorar um de seus companheiros de confinamento. Até aí, nada demais, certo?

 

Só que o dito-cujo tinha deixado uma noiva em stand by fora da casa, o que, na visão dos demais moradores da casa e da digníssima plateia, tornava o romance entre os dois participantes algo moralmente questionável. E depois, ainda pior: o casal, não satisfeito em trocar beijos e afagos mútuos, resolveu – horror dos horrores – passar às carícias mais íntimas debaixo de um edredom. De modo que a garota diretamente envolvida na situação, além de uma oportunista que ousou se aventurar com um rapaz comprometido, passou a ser vista como uma depravada, uma pistoleira que lançou mão da luxúria para corromper o bom moço.

 

Carrego nas tintas aqui porque é exatamente como eu percebo as reações de indignação que o caso inspirou. Telespectadores condenaram a moça, declarando que ela seduziu o pobre rapaz, que se viu sem meios de oferecer resistência diante da impulsividade da garota. Repercutem a toda velocidade na internet fotos e vídeos contendo a silhueta dos dois corpos sob uma tecido espesso, dentro de um quarto escuro, com ruídos pouco identificáveis, para a alegria dos voyeurs assumidos e indignação dos não-assumidos. Os defensores da ordem e dos bons costumes expressam seu descontentamento com a lascívia provocada pelo programa. Sites de humor exploram as imagens que, mesmo sem qualquer traço de erotismo, permitem (com boa dose de imaginação) especular sobre as posições em que os corpos se encontram embaixo da coberta. Outros formulam teorias sobre reais motivos que levaram a garota a aliciar o rapagão – que seria oriundo de uma família judia com respeitável posição econômica.

 

Obviamente, há doses cavalares de machismo envolvendo todo esse episódio. É o velho caso de dois pesos e duas medidas. Um solteirão que, uma vez dentro da tal casa, conseguisse se envolver com uma moça que estivesse comprometida aqui fora, não só levaria a fama de conquistador competente como atrairia para si a simpatia do público – algo que de fato aconteceu em uma das edições passadas (o dito-cujo foi inclusive o grande campeão do jogo). Já a moça solteira que teve a petulância de compartilhar seus lençóis com um rapagão compromissado é uma depravada, a ser enxotada do jogo tão logo houver uma brecha para tanto.

 

Porém, o que me incomoda não é nem tanto esse tipo de mesquinhez, algo com o qual a gente se acostuma com o passar dos anos. Inveja e provincianismo fazem parte do nosso dia-a-dia. É o arroz com feijão de qualquer observador mais ou menos atento. O que me chamou a atenção foi o fato de que, não importa muito o contexto, os homens são tratados como crianças incapazes, frágeis diante de uma mulher provocante. Não passamos de uns imbecis sem condição alguma de repelir o ataque de uma sedutora mais impetuosa. Não podemos ainda nos esquecer de que nascemos pra procriar, não podemos correr o risco de desperdiçar uma oportunidade sequer para espalhar nossos genes. Quanta abobrinha...

 

Semanas atrás, o rapaz tinha feito em rede nacional votos de amor eterno à sua então noiva, nas vésperas de adentrar no jogo. Ninguém senão ele mesmo poderia saber que tipo de intenção havia em sua cabeça no momento em que resolveu encarar o desafio proposto pelo programa, mas o fato é que uma vez lá dentro ele achou por bem se evolver com uma das garotas que encontrou por ali. Digo que ele achou por bem se envolver com ela porque uma coisa pra mim é certa: se ele não a quisesse, não haveria nada a convencê-lo de que seria bacana ficar com ela. Se um homem não gosta de algo em uma mulher, não gosta e ponto final. Não passar a curtir a mina só porque ela é legal com ele. Nenhum cara passa a desejar uma amiguinha só pelo fato dela ter um papo legal. A mulher sempre tem a palavra final? Certamente que sim. O “sim” ou o “não” são sempre proferidos por ela, no fim das contas? Com certeza. Mas a pergunta final, aquela que vale (“Quer?”), quem formula é o homem. E foi esse o papel ao qual o rapaz em questão se prestou, a despeito das consequências ocorridas com o seu (ex-)noivado.

 

Mas isso ninguém quer ver. Preferem acreditar que a mulher pode exercer algum tipo de influência sobre a mente de um rapaz. O que, óbvio, é uma tremenda balela, caso contrário não haveria mal-comidas no mundo.

 

Além do que, esse tipo de raciocínio descamba no argumento machista de que um homem não pode se privar de algum desejo momentâneo – mais um boa maneira de fingir que os homens podem passar a vida se comportando como crianças mimadas.

 

O engraçado é que, nesse ínterim, durante o desenrolar desse affair televisivo e seu triste desfecho, pudemos assistir na “novela das 8” (imediatamente antes do tal reality) uma moça, de boa família, com carreira promissora, trocando flertes com o irmão do próprio namorado. Em outro núcleo da mesma novela acompanhamos o desenrolar de um romance entre uma jovem recém-casada e um solteirão aventureiro. Enquanto isso, o marido dessa mesma jovem se envolve com uma mãe solteira que conheceu durante um passeio pelo litoral. Detalhe: a audiência torce, ansiosa, pelo enlace de todas essas pessoas e que as mesmas consolidem seus casos extra-oficiais.

 

Realmente curiosa essa diferença das maneiras de se encarar um adultério (ou quase isso), tanto num reality show como numa novela.

 

Inexplicável? Nem tanto. Pode-se argumentar que ficção e realidade possuem escalas de valor diferentes. Além disso, teledramaturgia é fantasia pura, um espaço dedicado a sonhos irrealizáveis e inconfessáveis; enquanto os reality shows nos servem mais de catarse, um modo de extravasar nossos conflitos mais íntimos.

 

Sim. É hipócrita. Basta olhar na telinha. Plim-plim.



Escrito por Álvaro às 16h11
[] [envie esta mensagem] []



 
 

ESTAGIANDO

“Vai fazer Direito”, disse meu pai. E cá estou eu, encostado nesse balcão, esperando a moça do protocolo cadastrar todos os documentos que eu trouxe do escritório para deixar aqui no fórum.

 

900 reais. “Um bom começo”, pensei há dois anos atrás, quando fiz a entrevista pra conquistar esse estágio. 900 reais. A gente sempre pensa que vale alguma coisa. Pro meu chefe, valho isso.

 

Se bem que esse fórum aqui não é de todo mal. Tem uma ruiva alta que trabalha lá atrás dos caixas. É gostoso ficar olhando para ela. Ela tem belos peitos. O rosto é bacana também. Pernas compridas, esguias, longelíneas. American way, eu diria. Pra completar o look tem até a pintinha no canto da boca, tal qual uma Marilyn. Se bem que ela é mais enxuta que a Marylin. Tá mais pra Débora Secco, talvez. Mas dizem que a Débora é baixinha... a minha ruiva deve ter pelo menos um metro e oitenta. Um e setenta e cinto no mínimo. Ah, não importa! Uma moça bonita desse jeito não tinha que ficar aqui, enfurnada no meio dessa repartição pública poeirenta. Sou grato a ela por enfeitar a minha visão, enquanto eu disfarço, fingindo que presto atenção no que essa japonesa sem-graça do protocolo está fazendo com os documentos do meu chefe. Até porque se eu não pudesse olhar para a ruiva, teria que ficar olhando praquele sujeito boçal que me atendeu na semana passada.

 

Cara ridículo. Grisalho e começando a ficar calvo sobre a testa, tá sempre com a manga da camiseta dobrada pra cima, na vã tentativa de impressionar com seu bíceps de 30 centímetros. Um coitado. O pior que o sacana tá sempre com alguma camiseta vermelha, com estampa chamativa. Uma droga isso. Li não sei onde que nossos olhos são atraídos pela cor vermelha, por causa de um instinto qualquer dos nossos antepassados. Esse cara deve ter lido a mesma coisa. Deve ter pensado “usando vermelho, todos vão me olhar e se admirar com o meu porte”. À merda com os nossos antepassados. Não podiam ter deixado herança melhor? Ficar vendo esse cara com sua camisetinha vermelha tamanho P andando de um lado pro outro faz o meu trabalho ser ainda pior do que ele já é. Eu devia ser indenizado por ter que aturá-lo. E se eu pedisse pro meu chefe um abono por insalubridade a cada vez que eu venho aqui? Tem semana que eu venho quase todos os dias pro fórum. Talvez eu passasse a ganhar até uns mil reais por mês, já pensou?

 

Mas e nos dias, como hoje, em que a ruiva está aqui? Será que eu deveria indenizar o meu chefe? Afinal, só a visão daquele decote já seria uma remuneração justa pra esse servicinho de peão que eu venho fazer nesse lugar. Coitada da ruiva. Perdendo tempo nesse trampo chato, escondida atrás de um balcão de fórum de periferia.

 

Balcão. Meu chefe gosta de um balcão. “Advogado só aprende o que é ser advogado quando encosta o umbigo no balcão do cartório”. Sempre com suas frases prontas, provavelmente saídas do manual de auto-ajuda que ele ganhou junto com as meias marrons no último natal. Mas meu chefe é um cara bacana, apesar de tudo. Nascido em um casebre minúsculo no litoral, veio pra capital adolescente, ainda semi-analfabeto. Fez um curso supletivo por correspondência e se formou em Direito ainda antes de completar 30 anos. Árabe é foda. Os caras são pobres só lá no Oriente Médio. Árabe que sai da terrinha sempre fica rico. Até parece que aquele narigão deles fareja dinheiro. Povo do caralho esses árabes. Os caras são bons. Eu queria ser árabe também, igual meu chefe. Daí, talvez, ele me dava um aumento. Ou eu conseguiria farejar dinheiro em outras bandas e parava de me preocupar por causa do meu estágio de 900 reais. Muito louco ser árabe. Eu podia tentar aprender a ser árabe. Será que eu também devo ler algum manual de auto-ajuda?

 

Meu pai não gosta de auto-ajuda. Diz que é coisa de fracote, de gente que não encara a vida como ela deve ser. “Vai fazer Direito”, ele me disse em casa, anos atrás, quando, de brincadeira, perguntei pra minha irmã que faculdade ela achava que eu deveria fazer. Eu disse que não gosto de ler. Meu negócio é matemática. Números. Sim, números. A beleza da sua exatidão, sem dilemas, sem existencialismo, dúvidas ou hesitações. Reta é reta; curva é curva. Um mais um é dois e ponto final. Simples assim.

 

– Mas nem tudo é feito de números – ele argumentou. Como você convenceria um cara que bateu no seu carro a pagar pelos estragos somente com a matemática? Recitaria pra ele a tabuada do um ao nove?

– Posso ser engenheiro – eu falei.

– E vai trabalhar onde?

– Na indústria, claro – eu disse, confiante.

– Mas na indústria também haverão advogados.

– Como assim?

– Oras, todo mundo precisa de advogados, seja pra andar dentro da lei, seja pra se livrar dela – ele falou.

 

Um baita argumento, pensei. Já quase entregando os pontos, ainda tentei rebater, dizendo que num eventual corte de funcionários os advogados seriam os primeiros dispensados.

 

– Engenheiros são os responsáveis diretos pela produção. Terão sempre prioridade dentre os demais empregados. Já pensou, eu e meu diploma de advocacia no olho da rua? – arrisquei.

– Sem os advogados a empresa corre o risco de ser processada. Sendo processada, pode vir a falir. Daí tanto engenheiros quanto advogados são dispensados.

– Qual a vantagem da faculdade de Direito, então?

– Você pode prestar concursos públicos e não se preocupar mais em ser demitido. Delegado, procurador, fiscal. O leque é amplo.

 

Merda. Detesto admitir que os outros estão certos. Não sou bom em discussões. Acabo sempre tendo que concordar com os outros. Nem me imagino num tribunal tentando convencer a todos que o réu é inocente. O júri me engoliria vivo. Podia ter usado esse argumento contra meu pai, mas ele já tinha ido lá pra fora dar um jeito no jardim. Minhas respostas boas sempre me vêm quando a oportunidade de usá-las já passou. Sou lerdo, penso atrasado. Eu sou um burro, isso sim. Meu pai até que é um cara inteligente. Meio fracassado, claro, mas inteligente. Mas teve um filho burro e não soube torná-lo esperto. Pensando melhor, será que eu sou burro mesmo? Afinal, se eu fosse um completo idiota, não saberia reconhecer a inteligência em alguém. Nem mesmo em meu pai. Mas que droga! Não consigo convencer nem a mim mesmo em uma discussão.

 

Minha irmã ainda tentou me consolar, perguntando se além de matemática eu gostava da outra matéria na escola. “Genética”, eu respondi. “Você poderia ser médico, então, não é?”. Respondi um “de repente” lacônico. De onde eu tiraria a grana pra faculdade? Medicina é um curso caro. E o consultório, então? Quem montaria um pra mim? Meu pai? Nem se ele vendesse aquela porcaria de Palio 2003 dele.

 

E cá estou eu no fórum. “Você faz Direito?” a japonesa me perguntou certa vez. Não, faço Veterinária. Tô aqui nesse fórum caindo aos pedaços, suando dentro dessa camisa quente de micro-fibra (“estilosa”, segundo minha vizinha), tentando encontrar um jumento disfarçado de funcionário público. Quer ser a minha cobaia? “Faço Direito, sim”, respondi, tentando caprichar no sorriso. “Eu queria fazer também, mas tá difícil. Faculdade é tão caro, né?” Oras, se você pega o seu salariozinho de atendente de repartição e gasta tudo em quadrinhos, máscaras, fantasias e DVDs com seus sobrinhos japa-nerds, o que eu tenho a ver com o galho? Ainda bem que ela não me perguntou nada hoje. Não fui obrigado a ver aqueles dentes acinzentados de fumante viciada.



Categoria: Contos
Escrito por Álvaro às 13h11
[] [envie esta mensagem] []



 
 

ESTAGIANDO (continuação)

E a ruiva? Será que fuma? Nunca fui muito com a cara do cigarro. Dei uns tragos uma vez no cigarro de uma menina que beijei no carnaval do ano passado, mas não me deu barato nenhum. Só bafo. Ainda bem que lá em casa ninguém fuma. Acho que a ruiva não fuma não. Aqueles lábios fininhos mal devem ser capazes de envolver um fio de cabelo, que dirá um cigarro. Ela nem abre a boca enquanto eu fico aqui no caixa do protocolo. Ta sempre de cabeça baixa, analisando os papéis em sua mesa. Nunca vi seus dentes. Será que são branquinhos? Às vezes ela é banguela e eu nem sei. A boquinha dela é tão pequena que não deve caber aquele arsenal de molares, caninos e incisivos que fazer parte do nosso repertório mandibular. Já pensou? Eu aqui num fórum empoeirado pagando pau pra uma banguela, ha ha. E na bolsa dela, será que tem um maço de cigarros escondido atrás do estojo de maquiagem? Ou uma dentadura? Opa! O que é isso? Ela tá conversando com alguém. Putz, justo o panaca das camisetinhas agarradas. Deve estar dando em cima dela, o sacana. Talvez contando que foi na “acadimia” ontem malhar depois do expediente. E que veio com a camiseta dessa cor pra combinar com os cabelos dela. Ufa! Já saiu de perto da ruiva. Ainda bem. Foi uma conversa rápida. Talvez só rotina de trabalho mesmo. Não deu pra ver direito a boca dela aberta. Só vi que tinha dentes.

 

Esse fórum tá paradão hoje, meio vazio. Além da ruiva, não tem mais nada pra ver, nenhum movimento a acompanhar.

 

Bem que lá no escritório podiam ter casos maiores de clientes poderosos e grande repercussão. Assim eu poderia ir entregar petições lá no fórum do centro da cidade. Aquilo sim que é fórum. Um monte de estagiária gata zanzando pelos corredores. Nossa, o que é aquilo? Coisa de cinema, parece. Uma sucessão interminável de gostosas, todas de óculos, cabelinho liso e preso, com terninhos, tailleurs ou jaquetinhas, imponentes e inalcançáveis do alto de seus saltos. Uma vez eu senti o perfume de uma delas. Passei a semana seguinte homenageando-a durante o banho. Só tem gata naquele fórum. Estagiária de Direito é a raça mais tesuda do mundo.

 

Se bem que na minha classe o mulherio não é tão legal assim. Tem lá uma ou outra patricinha mais ajeitada, mas a média geral não passa de três e meio. E ainda por cima tem aquela gorda ridícula que fez colegial comigo e que, por conta disso, se vê à vontade para puxar papo e me oferecer lanches durante os intervalos das aulas.

 

Lá no escritório também não é grande coisa. Tem só uma estagiária realmente bonita. O pior é que ela senta bem na mesa ao lado, então não me sinto à vontade pra ficar olhando pro seu rosto ou aquelas pernas incríveis. Sinto um verdadeiro pânico só de imaginar que ela pode estar pensando que eu arrasto um bonde por ela. Mulher que se acha é a pior coisa que existe. Se for colega de trabalho, então... Por isso evito ao máximo conversar com ela. Cumprimento-a de cabeça baixa. Nunca olho diretamente em seu rosto. Só depois de alguns meses trabalhando a menos de dois metros de distância dela é que eu percebi que seus olhos são castanhos claros, como os da minha mãe. O máximo que eu reparo é na cor do esmalte que ela usa, pois quando preciso conversar com ela sobre algo relativo ao trabalho eu disfarço olhando para os papéis que ela segura em suas mãos. Teve até uma vez, no dia do aniversário dela, que eu inventei uma desculpa e passei a tarde inteira no fórum da ruiva, só pra não ter que abraçá-la.

 

Por isso que lá no fórum do centro é legal. As gatinhas vão e vêm, fazendo toc-toc com seus sapatos pretos e elegantes. Passam tão rápido por mim, com rostos tensos e apressados, que nem reparam que eu estou babando por elas. Tem aquela droga de fila lenta e interminável na hora de entregar os documentos, os pés chegam a ficar ardendo dentro dessa porcaria de sapato que minha vó deu de presente quando entrei na faculdade. Mas naquele fórum o tempo voa enquanto se viaja no eterno toc-toc das estagiárias.

 

O tempo voa. Aqui nesse fórum de merda o tempo também voa. Mais uma tarde inteira perdida, em pé na frente do balcão olhando pra essa japonesa magricela de cabelo curto protocolando os processos. Se eu fosse o juiz presidente desse fórum, só colocaria mulheres bonitas pra atender os estagiários. Seria a minha parcela de contribuição para um mundo melhor. Eu posso ser juiz. Sou um bom aluno. E mando bem no estágio. Outro dia eu ouvi o chefe explicando pro estagiário novo o que era prazo prescricional. Eu sei o que é prazo prescricional. Já sabia antes mesmo de entrar no estágio. E sei também o que é tutela antecipada, interpelação extrajudicial e agravo de instrumento. Malditas aulas de Direito Administrativo. Até que aprender esse monte de palavrão me ajudou, afinal de contas. Já consigo fazer uma pré-correção dos ofícios que os outros estagiários redigem. Eles escrevem, eu passo o pente fino e meu chefe dá seus últimos pitacos. Bem que eu podia ser promovido a estagiário-chefe. E ganhar mais de 900 reais.

 

A ruiva tá com uma cara abatida. Parece cansada. A japonesa também tá cansada. Chego a ter pena dela. O dia inteiro só nisso, protocolando, cadastrando, separando documentos. Milhões de nomes de pessoas que ela nunca viu na vida, não tem idéia de quem sejam. Que lixo esse serviço. Eu também ficaria abatido. Ainda mais se eu fosse uma ruiva gostosa. Só o coroa metido a bombado que continua de lá pra cá, desfilando seu baby look vermelho berrante, todo sorrisos e gestos pretensamente másculos. Parece até que ele tá numa balada ou vendendo coco na praia, tentando a todo custo chamar a atenção daquelas pobres colegas, imaginando que ao agir assim alguma irá dar bola pra ele.

 

Que que eu tô fazendo aqui?



Categoria: Contos
Escrito por Álvaro às 13h03
[] [envie esta mensagem] []



 
 

1933 FOI UM ANO RUIM – JOHN FANTE

Estava procurando o clássico "Pergunte ao Pó", do próprio Fante, na prateleira da livraria. Não consegui encontrar e, confesso, comprei esse "1933..." meio ressabiado. Bastam algumas linhas pra ter a certeza de que é um baita livro – a despeito de ser um livro tremendamente enxuto, contando com cento e poucas páginas.

 

Não importa que a história se passe na década de 30. Todo homem se reconhece imediatamente na pele do adolescente baixote com orelhas de abano que possui uma fé inabalável em um talento que só ele é capaz de levar a sério. É isso que faz o texto ser bom.


Trecho:

 

– Quantos anos você tem? – ela perguntou.

– O bastante. Idade não é importante.

– Dezessete é importante. Você tem dezessete, não tem?

– Quase dezoito. 

 

Ela estacionou ao lado do meio-fio no Elks Club. 

 

– Visto que estamos fazendo perguntas, quantos anos você tem?

– Vinte e três.

– Não é velha demais.

– Velha demais para quê?

– Quer dizer, você não é uma mulher velha. 

 

Ela sorriu. 

 

– Velha demais para você. 

 

Não falei nada, mas não concordei. Ela poderia ter setenta anos e não teria importância. Quando ela tivesse oitenta, eu teria setenta e quatro, e quando ela chegasse aos cem eu teria noventa e quatro, então que droga de diferença a idade fazia? 

 

Desci do carro, minha virilha guinchando por socorro enquanto eu ficava ereto e sentia um aperto nas ferramentas. Mas o casaco de lã do meu irmão me cobria até os joelhos enquanto eu percorria sem vacilar os degraus cobertos de neve até o ginásio. 

 

(...) 

 

Ela foi até o fogão, sinuosa como uma cobra dourada; eu cravei os olhos nela como um esfomeado e senti um demônio insurgindo-se em mim, uma onda de urgência súbita, quem não arrisca não petisca, agora ou nunca, tudo ou nada. 

 

– Eu te amo – falei. 

 

Ela baixou o bule de café  e virou-se pensativa, achando e não achando engraçado, sem acreditar bem.

 

– Não seja bobo – ela disse, sorrindo.

– Eu te amo. 

 

Agora ou nunca. Me pus de pé  e me vi puxando na direção dela, caindo de joelhos à sua frente, meus braços em volta de seus quadris, meu rosto nas profundezas de seu vestido, e o demônio tentando-me totalmente sob seu poder. 

 

– Eu ter amo, eu te amo!

– Pare com isso! 

 

Ela se contorcia e lutava para se libertar. 

 

– Me solte seu idiota! 

 

Mas o demônio me dava forças, e eu beijei a sua barriga e as suas coxas enquanto ela lutava para escapar. Então os pés dela escorregaram nos ladrilhos brilhantes, ela caiu em cima de mim, e eu encha-a de beijos, inspirado, (...) e beijava agora o seu pescoço, depois seu joelho, a sua perna, o seu cotovelo, qualquer coisa ao alcance dos meus lábios (...).



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 12h28
[] [envie esta mensagem] []



 Porrada!

 

Faz parte da formação masculina a troca de socos e pontapés entre dois ou mais interlocutores em algum momento qualquer da nossa vida. Seja na escola, na academia, na rua ou no campinho de futebol da esquina, não há que se falar em um garoto que não tenha dado e tomado algumas boas bordoadas durante a sua infância/puberdade.

 

Algumas mulheres ignoram solenemente essa parte do processo de formação do indivíduo masculino. Tanto que algumas mães simplesmente não aceitam e chegam a se escandalizar quando o seu menininho chega em casa com alguns hematomas e arranhões.

 

No entanto, a energia que se tem quando é garoto é algo completamente incontrolável e beira a infinitude. É preciso descarregá-la de alguma forma. Por isso, as lutas ocorrem muitas vezes sem um motivo aparente, bastando somente a vontade dos antagonistas. Cito um exemplo pessoal.

 

Eu devia ter algo entre 7 e 8 anos quando me mudei pra uma casa localizada em uma vila tranquila, arborizada, com poucos carros nas ruas e famílias repletas de crianças. Uma das lembranças mais fortes que eu tenho daquela época é que todos os dias, ao entardecer, após as aulas de Inglês ou Ed. Física, eu pegava minha bicicleta (uma BMX amarela) e dava uma volta entre os diversos quarteirões da vila. E sempre eu parava na frente de uma casa que era diferente de todas as outras – já que tinha um acabamento mais simples que as demais e não possuía calçada na frente, somente uma árvore imensa, cuja sombra parecia cobrir toda a casa, deixando-a com um aspecto envelhecido. Na frente dessa casa, apoiado por sobre um dos seus galhos enormes, sempre estava um moleque descalço, de cabelo pixaim meio aloirado, posicionado de um modo que me dava a entender que ele estava lá apenas me esperando. Não precisávamos conversar, já sabíamos que estávamos ali só pra lutar. Eu apoiava a minha BMX na guia, ele descia da árvore e começávamos a desferir murros e chutes, sem muita coordenação ou pontaria. Nunca nos machucamos muito, já que ele era somente um menino magricela, muito pouco mais alto que eu; e eu, por minha vez, sempre tive bastante força nas pernas, mas quando precisava da ajuda dos meus braços não passava de um fracote. Desse modo, nossos melhores socos, mesmo aqueles que pegavam em cheio no rosto do adversário, não chegavam a quebrar algum nariz, nem deixar marcas roxas. Minutos depois, exaustos, nos despedíamos com algum grunhido, deixávamos o cenário sombreado por aquela árvore tão incrivelmente grande e cada um voltava pra sua casa.

 

Na escola, embora minhas encrencas sérias tenham sido poucas, tive meus momentos de medo (quando me estranhava com algum grandalhão mais velho) e fanfarronice (quando, no caso, eu era o grandalhão mais velho). Apanhei, bati, nada além do trivial. A pancadaria rotineira era fornecida somente por aquilo que na minha época era conhecida como “lutinha” – na prática, um linchamento periódico, em que a cada rodada um era o “eleito” pra ser o saco de pancadas do restante da turma.

 

O que passou a me chamar a atenção, já durante o 2º grau (nada mais feio do que essa nomenclatura atual; “ensino médio” é meu pau de óculos), é que com o passar dos anos as “lutinhas” mudavam um pouco a sua configuração. Os golpes, antes atabalhoados, desferidos em grande quantidade, mas sem qualquer padrão, passaram a ser menos frequentes, porém mais certeiros e definitivos. Não demorou muito para que colegas, professores e pais começassem a notar que todos nós estávamos, volta e meia, machucados, com a pele esfolada, repletos de hematomas, voltando para nossas casas com as roupas encardidas ou até mesmo rasgadas. Tudo acabou quando uma das mães viu o filho saindo do banho, somente com a toalha enrolada ao redor da cintura, e notou que seu pimpolho estava coberto dos pés à cabeça de manchas arroxeadas, conseqüência natural dos sopapos que não conseguia evitar quando era a vítima da vez. Logicamente, ela foi tomada pela histeria natural das mães, entrou na sala da diretora, fez um escândalo que foi o assunto da escola durante toda a semana seguinte e nós fomos proibidos de continuar com o nosso pugilato matinal.

 

Já na pós-adolescência, passados longos anos sem cerrar os punhos, vi-me envolto em uma briga de alguns amigos contra um trio de desconhecidos. Um dos caras do outro lado era alto, forte, e partiu pra cima de nós com o ímpeto que a sua compleição física permitia. Seus dois parceiros eram menores, mas também estavam dispostos a lutar. Como estávamos em maior número, levamos alguma vantagem, principalmente quando conseguimos controlar o marmanjo. Essa briga serviu pra me mostrar o quanto os anos de inatividade me prejudicaram, uma vez que, além de eu pouco ter colaborado com meus amigos, pude perceber claramente que, mesmo utilizando toda a força que ainda (achava que) dispunha, os golpes que eu desferira mal foram sentidos pelos oponentes.

 

Me senti mal com isso e voltei a, pelo menos, fazer exercícios físicos diários, para calibrar os músculos, mesmo sem ter a menor disposição para me envolver numa briga daquelas proporções novamente.

 

Eu sei, claro, que a vida adulta pouco me reservará de surpresas nesse sentido. Afinal, é difícil imaginar alguma situação em que eu possa me envolver numa troca de... que que é, hein? Tá me estranhando? Te cubro de porrada, hein, rapá...



Escrito por Álvaro às 13h32
[] [envie esta mensagem] []



Mulher bonita é legal?

 

Eis aí um mistério que me atormenta há décadas. Quem seriam as mais simpáticas e agradáveis para um bom papo, as feias ou as gatinhas?

 

Um dado interessante é que a maioria das mulheres que podem ser chamadas de bonitas em geral estão sorrindo. São sorridentes porque são bonitas ou são bonitas porque são sorridentes? A auto-ajuda nos diz que uma pessoa que “esteja de bem consigo mesma e que se aceite como é”, seja lá o que isso queira dizer, estará sempre atraindo olhares de admiração para si – logo, alguém que demonstre felicidade em sua expressão facial, automaticamente, se torna um exemplo de beleza. Mas, para uma pessoa se aceitar e se admirar como tal, ela deve ser, pelo menos, bonitinha, será que não? O paradoxo do ovo e da galinha... Bem, de todo modo, sorriso não quer dizer simpatia, pelo menos na maioria das vezes.

 

Então, como saber se aquela beldade será minimamente agradável, caso você queira ou precise falar com ela?

 

Eu, particularmente, sempre fiquei muito reticente com mulheres bonitas em geral. Desde a infância, nunca notei muita receptividade por parte delas – ao contrário, sentia o deboche e o desprezo estalando em minhas costas quando passava diante de alguma. Era natural, portanto, que eu desenvolvesse alguma forma de defesa em relação às gatinhas – por exemplo, sendo prepotente e tentando desqualificar qualquer manifestação delas, antes mesmo de conhecê-las. Foi a maneira que eu encontrei de não me sentir rejeitado, afinal, eu a havia “rejeitado” antes. (Sim, claro, imaturidade, insegurança, boa dose de babaquice, etc.)

 

Enfim, eu me portava dessa maneira diante de uma mulher bonita tentando me convencer de que a minha vida seria melhor enquanto eu pudesse esquecê-las. Mas daí vinha um outro problema: as feinhas seriam suficientes para preencher esse vazio? Dediquei minha adolescência na procura por essa resposta.

 

Por um lado, eu achava que uma mulher feia, já que não possui muitos dotes físicos, deveria sempre se empenhar em acumular outras qualidades, como sensibilidade, cultura, conhecimento, boas doses de senso de humor, amabilidade... se tornando um pouco mais interessante, enfim. Por outro lado, tornou-se patente para mim que um moleque jamais se satisfaz com uma garota feia ao seu lado, mesmo ela sendo a menina mais legal da escola, do prédio ou da vila. Primeiro porque dá vergonha andar com uma menina muito feia ao seu lado (adolescência é isso: nada é mais importante do que a opinião de outrem); segundo porque cansa olhar durante muito tempo pra um rosto mal feito – o que era engraçadinho se torna enjoativo. E o mais grave: nem sempre as feinhas têm lá algum atrativo interno – muitas vezes não passam de umas escrotas, essa que á verdade.

 

De todo modo, segui por um tempo tendo a firme convicção de que, apesar dos pesares, as feias era as mais legais, já que deveriam possuir todo o interesse do mundo em serem inteligentes, cultas e divertidas.

 

Vieram o cursinho, o vestibular, a mudança de cidade e a minha entrada em um mundo completamente distinto do que e conhecia até então. Por isso dei um tempo em minhas teorias.

 

Já na faculdade, conheci um cara que viria a ser um grande amigo e que possuía uma visão muito diferente da minha. Segundo ele, as feinhas, exatamente por serem assim, teriam tendências à depressão, à inveja e à irritabilidade, de modo que são sempre muito chatas, repulsivas e anti-sociais. Já as gatas, por serem constantemente cortejadas, possuem certa auto-estima, estão sempre de bom humor, gostam de se divertir e se demonstram receptivas a um bate-papo bacana.

 

Não pude contestá-lo muito, já que eu mal havia conversado com meninas bonitas até então, conforme eu disse lá no 3º parágrafo. E eu não havia conversado com elas, basicamente, porque eu sempre fui feio e chato. Portanto, sendo esta figura que vos tecla um flagrante exemplo de feiúra inata misturada com chatice crônica, talvez meu amigo estivesse com razão, afinal de contas

 

Porém, havia ainda algo que não se encaixava. Tudo bem, eu era mesmo muito chato. Mas, e se eu passasse a ser legal? Será que as coisas fluiriam melhor?

 

Pois bem, passei a ser o legalzão sempre que me encontrava no mesmo ambiente em que houvessem mulheres. Sempre esbanjando sorrisos, voz suave, fala tranquila, procurando ser receptivo e engraçado. No entanto, segui tendo os mesmos problemas quando procurava falar com alguma menina mais bonitinha. Ou ela se irritava ou me ignorava. Eu tava certo desde o início, então? Sim e não.

 

O grande problema aí é que eu procurava fazer com que tanto as feias quanto as bonitas fossem legais comigo. Mas eu não tinha, digamos, o perfil adequado para que alguém fosse bacana comigo (preto, tímido, feio e pobre... não podia nada dar muito certo mesmo, ha ha).

 

Logo, para tentar desvendar o mistério, passei a observar o comportamento das gatas quando são abordadas por outros caras.

 

Uma coisa óbvia: quando se é muito bonita, não dá pra ser simpática o tempo todo – afinal, chega uma hora que deve encher o saco ficar com um caminhão de Zé-ruela pagando pau onde quer que se esteja. Ou seja, se a mina é gata demais, o mais provável é que ela trate as pessoas de maneira fria e distante. E essa beleza não precisa ser em termos absolutos; basta ser relativa ao ambiente – uma mulher mais ou menos que seja a rainha da cocada na empresa em que trabalha já se torna uma antipática em potencial.

 

Outra obviedade é que o fulano em questão, ao abordar uma gatinha, também não pode ser muito estragado. Ela pode, sim, ser legal e tratar o rapaz de modo amável e cortês, mas se o dito cujo for feio pode esquecer – o papo será seco e rápido.

 

E o contrário? Se o cara for boa-pinta e a menina for feia? Sim, a recíproca é verdadeira. Mas, no caso, não será somente o bonitão que fará questão de ser lacônico com a baranga; ela também fará de tudo para que a conversa acabe o mais depressa possível.

 

Por fim, se o cara, assim como a mina, for bem judiado, ambos não se animam muito a tentar puxar papo um com o outro e o diálogo não se desenvolve. Ninguém se abraça, nem se xinga.

 

Na média, o que sobra desse palavrório todo? Que, em geral, contrastes são difíceis de se lidar. Causam desconforto, embaraço e, no limite, algum grau de estupidez de parte a parte.

 

E quem é mais legal? As barangas ou as gatinhas? Mulheres bonitas podem, sim, ser bastante simpáticas e acessíveis, a depender da sua estampa. Com as feias, a probabilidade de rolar um clima agradável é sempre menor.

 

Ah, sim! E a única menina que eu vi lendo um gibi de samurai na minha frente era feinha.



Escrito por Álvaro às 11h25
[] [envie esta mensagem] []



 
 

Homens se apaixonam por mulheres, mulheres se apaixonam por situações.



Categoria: Aforismos
Escrito por Álvaro às 17h16
[] [envie esta mensagem] []



Cine Brasilis

 

Fui assistir ontem ao filme “Besouro”, um épico passado no começo do século XX que romantiza a história da luta dos negros, ainda recém-alforriados, contra os coronéis que dominavam o Recôncavo Baiano. É uma superprodução (guardadas todas as devidas proporções que se deve levar em conta quando se trata de um filme nacional) que foca, em especial, na forma como a capoeira era vista e usada sob aquele contexto, com direito a cenas de ação bem feitas e uma boa dose de pancadaria ao som de atabaques e berimbaus.

 

A película me lembrou muito alguns filmes que são verdadeiros clássicos da porrada, como as produções da década de 70, rodadas em Hong Kong, protagonizadas por mestres como Bruce Lee e Jackie Chan – também, evidentemente, guardadas as proporções, tendo em vista o gigantesco know how que os chineses têm em produções desse tipo. “Besouro”, em muitas passagens, me lembrou, em especial, um filme definitivo em se tratando de épicos da pancadaria: “Tai Chi”, estrelado pelo fenomenal Jet Li – o mote de ambas as histórias gira em torno de dois garotos, treinados pelo mesmo mestre em artes marciais, onde um se corrompe por se aproximar do poder político local, acaba traindo suas origens e por fim ocorre o inevitável enfrentamento contra seu ex-colega de treinamento, e por aí vai.

 

Durante a projeção do nosso “Besouro”, fiquei me perguntando por que, raios, o cinema nacional não se desenvolve pra valer e fica nesse eterno compasso de espera, dependendo de verba governamental a todo custo, sem que haja autonomia pra que qualquer roteiro possa sair do papel e ser devidamente rodado diante das câmeras. Minha dúvida maior se prende no fato de que o Brasil é um país cujo mercado interno consome, basicamente, produtos feitos por e para brasileiros, inclusive no que diz respeito a manifestações artísticas.

 

Embora alguns analistas sociais (um tanto afoitos, é verdade) se preocupem com uma suposta dominação cultural vinda de fora (em especial dos Estados Unidos), qualquer observador atento nota facilmente que o público brasileiro consome, basicamente, arte brasileira.

 

Sem entrar no mérito da questão, mas a forma de teledramaturgia esmagadoramente consumida pelas massas desse país se chama novela. E novela brasileira, escrita por brasileiros, encenada e dirigida por brasileiros, 100% falada em português.

 

No mercado editorial, qualquer que seja o setor que se deseja analisar, encontra-se pesos-pesados genuinamente brasileiros, sempre no topo das listas de best-sellers. No campo da ficção, temos o imbatível Paulo Coelho. No segmento da auto-ajuda, podemos encontrar sempre os mais diversos lançamentos de Roberto Shinyashiki, Lair Ribeiro e seus seguidores. No campo da religião, enxurradas de romances espíritas, escritos pelo eterno Chico Xavier e pela infatigável Zíbia Gasparetto e seus mais diversos clones.

 

No ramo musical, encontramos a mesma coisa: quando música ainda era um artigo de compra e venda, os campeões de venda eram, de forma alternada, ou sertanejos, ou pagodeiros, eventualmente ultrapassados por alguma bandinha de pop-rock ou algum modernete da MPB. Se formos observar o que as nossas rádios tocam, deslizando pelo dial encontramos diversas rádios que tocam, sim, música estrangeira. Mas as emissoras decididamente populares (e não utilizo o termo “popular” somente no sentido de “popularesco”) tocam música nacional durante a maior parte do tempo. E isso nas rádios FM. Na AM, então, a predominância do idioma português é absoluta. Aliás, basta uma caminhada pela cidade (qualquer cidade) para notar que se ouve música brasileira (em suas inúmeras vertentes) em 90% das casas e estabelecimentos comerciais, os mais diversos.

 

As demais manifestações artísticas, como dança, teatro, pintura, etc., não me atrevo a comentar, pois, infelizmente, a grande massa não tem qualquer contato significativo com elas.

 

Mas, por fim, voltando ao tal do cinema brasileiro, qual seria o motivo para que a produção nacional de filmes não desembuchasse de vez e passasse a criar um mercado sólido, de modo que a população que consome esse tipo de arte não fique eternamente à mercê dos blockbusters enlatados em Hollywood? O palpite que eu tenho é que o cinema é uma arte destinada a mostrar, da forma mais grandiloquente possível, os conflitos internos da psique humana, enquanto os autores nacionais ainda não entenderam isso muito bem, preferindo retratar os conflitos sociais. Dificilmente alguém que paga 50 reais pra levar a namorada no cinema (ou gasta 2 mil pra comprar uma TV de tela grande) tá interessado em saber que há um mendigo na frente do shopping que não come há 3 dias. Existem outras formas de se passar esse tipo de mensagem e o cinema, definitivamente, não é a mais adequada. Não à toa, os poucos filmes que obtém algum retorno financeiro são justamente aqueles mais interessados nas contradições humanas (mesmo que de forma pasteurizada, como na comédia romântica “Se Eu Fosse Você”, ou no sempre citado “Dona Flor e seus Dois Maridos”), por mais que os nossos “vanguardistas” esperneiem.

 

Há público para um cinema mais, digamos, contestador? Sim, é preciso reconhecer que existe. Os casos de “O Pagador de Promessas” e “Cidade de Deus” estão aí pra quem quiser ver. Mas a abordagem tem que ser em tom de empatia, nunca em tom de denúncia. Quando o telespectador se reconhece retratado na tela, despertamos o seu interesse pela história que decidimos contar. Mas esse é um resultado difícil de se obter, já que o cinema, por juntar texto, movimento, closes, sons e música, amplifica e dramatiza demais qualquer mensagem que se deseja levar ao espectador. Desse modo, sem haver algum tipo de cumplicidade entre protagonista e espectador, passa-se a ter a sensação de que você sentou pra assistir a um filme e, ao longo da película, está sendo julgado e condenado pelo protagonista, como se o diretor do filme estivesse de dedo em riste, lhe culpando pelos erros do mundo. Infelizmente, dentre os cineastas brasileiros, poucos entenderam essas nuances.



Escrito por Álvaro às 12h07
[] [envie esta mensagem] []



“Eu comi a Feiticeira”

 

É verdade. Conheço um cara que pegou a Feiticeira. A própria, da TV. Antes, claro, dela virar uma dona-de-casa rechonchuda que vez por outra aparece em programas vespertinos para, com lágrimas nos olhos, aconselhar as jovens moças de agora a não repetirem a sua trajetória de exibicionismo televisivo, revistas masculinas, e fetichismo  adolescente.

 

Tomei contato com essa história ainda na faculdade, logo nas primeiras semanas. Tudo muito novo, os calouros procurando se conhecer e fazer amizade, cada um tentando contar algum “causo” mais curioso que o outro, para chamar a atenção de si e atrair a simpatia da maioria. Foi  quando um dos caras mais engraçados da minha classe soltou esse papo de “comi a Feiticeira” no meio de uma turma de colegas. Obviamente, ninguém levou muito a sério e todos caímos na gargalhada. Ele tentou insistir, dizendo que, não bastasse a mina ser gostosa daquele tanto, ainda por cima adorava sexo anal. As gargalhadas simplesmente se avolumaram. Diante do ataque de risos, o sujeito tentou argumentar, dizendo que na época ela ainda não tinha silicone nos seios e nem mesmo fazia o papel de Feiticeira na televisão, era simplesmente a Joana, assistente de palco do programa do Luciano Huck, não era ainda um sex symbol nacional, enfim. Mas não tinha mais remédio, a cada palavra pronunciada a turma ria ainda mais e por fim o cara já virou motivo de piada entre os colegas.

 

Assim sendo, toda vez que ele tocava no assunto ou alguém se lembrava da tal façanha, todos ao redor explodiam de dar risada, de tal forma que o sujeito desencanou totalmente de emitir uma palavra que fosse a esse respeito. Passou a ficar complicado falar disso, já que (óbvio) ninguém acreditava em nada do que ele dizia, o que por sua vez, com o correr do tempo, deixou o cara meio grilado toda vez que alguém tocava nesse assunto.

 

Daí, certa vez, eu conversei na real com ele e pedi pra ele ser sincero comigo e me contar direito como que surgiu toda essa história, se era só papo furado mesmo ou se tinha alguma verdade ali, essas coisas. E ele falou que era verdade, sim, contou detalhes, disse que foi num daqueles programas "H de Verão", que era itinerante pelas praias brasileiras, e calhou dele estar  uma praia do litoral norte (que não me lembro qual) bem no dia de gravação desse programa, que ele ficou na platéia, só olhando a menina de longe, flertando, e depois das gravações conseguiu se aproximar, conversou, combinaram de se encontrar numa balada naquela noite, etc. Também me disse que nunca mais falava aquilo em público, pois, pela lógica, realmente seria inconcebível aos olhos de qualquer pessoa que um moleque normal de 19 anos tivesse passado a noite ao lado de uma deusa desejada em todo o território nacional, fazendo barba, cabelo e bigode, ainda por cima. No final, até ele mesmo acabou admitindo que se tivesse ouvido a sua própria história da boca de outro, não teria botado fé. Soube rir de si mesmo, enfim.

 

Ouvindo o cara me contar todo esse rolo, até me lembrei de uma piada velha que um tio me contou: um sujeito qualquer estava viajando em um avião sobrevoando o mar, viu que entre os demais passageiros estava a Sharon Stone (eu falei que a piada era velha) e ficou imaginando como seria ir pra cama com ela. Lá pelas tantas, o avião explode no ar e somente ele e a Sharon escapam com vida, salvos em uma ilha deserta no meio do oceano. Algumas semanas depois, sem conseguir qualquer sinal de que poderiam ser resgatados, a Sharon estranha que o cara jamais tentou qualquer coisa com ela durante esse tempo todo. Intrigada, ela pergunta: "Faz tanto tempo que estamos aqui, sem fazer sexo, você não quer transar comigo?". O cara responde, na lata: "Eu não! De que me adianta comer a Sharon Stone e depois não ter ninguém pra quem contar?".



Escrito por Álvaro às 14h59
[] [envie esta mensagem] []



 
 

ECCE HOMO – FRIEDRICH NIETZSCHE

Nietzsche foi um escritor ignorado durante a vida e sua obra atingiu maior repercussão quando da publicação do provocativo texto “O Anticristo”, mais ou menos na época em que o autor contraiu uma severa enfermidade em seu sistema nervoso que o tornou incapaz.

Eu, sinceramente, tenho lá alguma dificuldade com Nietzsche, já que não consigo saber exatamente quando ele está bancando o irônico ou simplesmente querendo chamar a atenção. Por exemplo:

 

“Para mim, o ‘amor ao próximo’ é nada mais do que uma fraqueza, um caso isolado que demonstra a incapacidade de opor resistência a um estímulo – a piedade é uma virtude apenas entre os décadents. Eu acuso os piedosos de se perderem em sua vergonha, em sua reverência, em seu instinto delicado para as distâncias; a piedade, por sua vez, acuso-a de feder a povo num simples piscar de olhos, e de ser mito parecida com as más maneiras, com as quais facilmente pode ser confundida, aliás – olhos piedosos podem, conforme as circunstâncias, interferir de modo destruidor em um destino grandioso, em um isolamento entre feridas, em um privilégio para as grandes culpas. A superação da piedade, eu coloco entre as virtudes nobres...” [grifos no original]

 

E também não compro a idéia de um cara que chama o cristianismo de manipulação social (cometendo o erro crasso de confundir o uso político da religião com a religião sem si) ao mesmo tempo que baba ovo pro budismo. Fica pior ainda quando tenta justificar o lado “psicológico” da coisa. Acaba saindo coisas como: Cristo prega o perdão – coisa de débil mental; Buda aconselha a responder a ofensa com um abraço – sabedoria oriental. Muito esperto. A velha história da grama do vizinho...

De todo modo, reconheço que a escrita do alemão é bastante curiosa. Cada parágrafo é um convite à pausa pra pensar sobre o que foi dito e sobre o modo como foi dito. É uma leitura lenta, reflexiva. Requer certo esforço. Um bom exercício de retórica.



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 22h32
[] [envie esta mensagem] []



Desejo proibido

 

Recentemente foi publicada uma pesquisa nos Estados Unidos onde foi confirmada uma tese bastante aceita pelo senso comum: muitas e muitas das mulheres solteiras se sentem mais atraídas por homens casados.

 

Vamos analisar isso de perto.

 

Em primeiro lugar, há uma possibilidade real de que os referidos homens casados sejam mais atraentes simplesmente por estarem mais amadurecidos do que os solteiros, um assunto que já foi discutido por aqui.

 

Em segundo lugar, é bom ver até que ponto esse tipo de constatação não é efeito de uma idealização que o ser humano faz, em especial quando se quer esconder algum grau de covardia. Um exemplo clássico disso é quando o sujeito está querendo bancar o corajoso, partindo pra cima de outro, simulando que irá agredí-lo, quando, na verdade, tudo o que ele quer é ser impedido por alguém – o famoso “me segura senão quebro a cara dele”, entende? Com as mulheres que alegam preferir se envolver com homens casados, é mesma coisa. Como não há coragem suficiente para se envolver numa relação de verdade com um homem desimpedido, encarando ônus e bônus, resta essa romantização, meio platônica, meio dramaticida, de ser um eterno mártir, ou estando sozinha ou mantendo encontros fugazes com um cara compromissado, fingindo pra si mesma que só não é feliz porque tem o azar de gostar de caras casados. Ao invés do “me segura”, ficam no “ai, que pena que não me apaixonei por um solteiro”.

 

Por último, tem ainda o tal do “proibido é mais gostoso”. Mas esse é fácil de derrubar. Afinal, se o presidente promulgasse uma lei instaurando a proibição de se consumir picolé de jiló com cobertura de rabanete ao vinagrete, ninguém iria sair correndo para devorar tal iguaria.

 

Em resumo: homens casados podem se tornar mais atraentes pelo simples fato de seguirem o fluxo natural da vida e progredirem, evoluírem, prosperarem, etc. E algumas mulheres, ao invés de escolherem um felizardo para repartir essa jornada, preferem simplesmente idealizar que um cara “pronto” já caia do céu. Como na maioria das vezes esses já estão casados com alguém, resta a impressão de que os homens comprometidos são os melhores – ou seja, elas não se dão conta de que eles simplesmente tiveram o tempo e as condições necessárias para se desenvolver. Mas o que eu acho mesmo é que mulheres assim querem de verdade é ficar sozinhas, nesse eterno joguinho de namorico às escondidas, beijos relâmpago, sem compromisso, onde não há espaço para incômodos, tampouco é preciso efetuar concessões de parte a parte.

 

Tem cara que ainda topa encarar uma dessas, lhe servindo de massagem ao ego.

 

Fetiche idiota.

 



Escrito por Álvaro às 22h14
[] [envie esta mensagem] []



 
 

O CÓDIGO DA VINCI – DAN BROWN

Romance policial competente, repleto de curiosidades, escrito com linguagem ágil e instigante. Em algumas passagens, muito embora o autor se esmere por encavalar um mistério dentro do outro, o fio condutor da história acaba por se tornar previsível demais. Mas essa mistura de ação frenética, simbologia e uma levíssima pitada de erotismo faz do livro um verdadeiro page turner. Não fez tanto sucesso à toa.

 

Trecho:

 O protagonista reflete acerca da fala de um parisiense, que exalta a visão da Torre Eiffel.

“ (...) a França, um país famoso pelo seu machismo, mania de conquistar mulheres e líderes minúsculos e inseguros como Napoleão e Pepino o Breve, não podia ter escolhido um símbolo nacional mais adequado do que um falo de 300 metros de altura.”

 

Hahaha! Boa! Que foi que disse que os best-sellers não têm nada a dizer?



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 23h02
[] [envie esta mensagem] []



Tateando

 

Mudei de cidade algumas vezes na vida. Sempre foi uma experiência razoavelmente traumática. Afora as saudades iniciais, resta ainda, por um bom tempo, a irritação por se sentir constantemente perdido, sem os velhos parâmetros e pontos de referência. E a sensação de estar tateando no escuro não se resume apenas ao fator geográfico.

 

Da infância à idade adulta residi em cidades médias, com pouco menos de 200 mil habitantes. É um tamanho de população suficiente para que você preserve um razoável anonimato quando transita em vizinhanças diferentes da sua. Porém, cidades desse porte também lhe permitem ter uma boa noção sobre o dia-a-dia do bairro ou região em que mora, sempre vendo, convivendo e se encontrando com as mesmas pessoas, ainda que estas não se tornem, nem remotamente, íntimas.

 

Eu gostava (ou me acostumei, sei lá) dessa ambivalência entre ser “o filho da Margarida” no meu bairro e ser só um neguinho qualquer quando me afastava a três quilômetros de casa. Sempre achei legal ter como referência o comportamento de pessoas as quais eu já conhecia a rotina (muito embora eu sequer soubesse o nome). Por exemplo, se eu estivesse entrando no ônibus de manhã e já estivesse lá dentro uma mulher de quadris enormes e cabelos curtos, que sempre estava vestida de regata branca, esse era o sinal de que eu estava atrasado pra primeira aula e teria que, literalmente, correr desde o supermercado até a minha escola quando o ônibus me deixasse no ponto. Ou, então, durante uma tarde de sábado, enquanto eu tava jogando bola no campinho de terra batida da esquina de casa, se o senhor de bigode dono de uma Fiorino verde caindo aos pedaços a colocasse na rua e começasse a lavá-la, isso significava que a gente só teria tempo pra mais uma partida antes do pôr-do-sol.

 

Mudar de cidade quando se tem esse nível de controle sobre a própria rotina, como se pode deduzir, é um choque. E quando passei a morar em São Paulo, logicamente, o desconforto foi muito maior.

 

Pra começar, aqui a gente mal sabe quem mora em nosso prédio. À exceção do casal que tem o apartamento no mesmo corredor e da vizinha do térreo que vive no playground correndo atrás dos três (quatro?) filhos menores, não há rostos conhecidos no condomínio. Mesmos os guardas que se revezam na guarita são substituídos com tamanha frequência que muitos se vão antes mesmo de nos acostumarmos com suas fisionomias.

 

Antes de vir definitivamente pra cá, obviamente eu já sabia que isso iria acontecer. Mesmo quando morava no interior, vim diversas vezes pra São Paulo (visitar parentes, na maioria dos casos) e ficava sempre imaginando como seria ver uma pessoa numa esquina qualquer e saber que jamais a encontraria depois. Me dei conta disso mais formalmente quando, certa vez, hospedado na casa de uma tia, ao voltar, sozinho, de um passeio, me surpreendi flertando com uma garota de longos cabelos ruivos durante o trajeto do ônibus que nos transportava. Ao chegar ao meu destino, refleti sobre o fato de que jamais, sob hipótese alguma, tornaria a vê-la.

 

Quando, finalmente, me mudei pra São Paulo, além de toda a estranheza causada pela mudança, havia ainda essa sensação de ser um rosto aleatório na multidão, de uma forma que isso jamais irá se reverter. Feições, cabelos, expressões, cores, vozes, sotaques, gestos, tudo que torna uma pessoa única se traduz numa experiência que dura o tempo que o metrô demora a percorrer entre uma estação e outra.

 

Há, evidentemente, um grande barato nessa invisibilidade causada por essa gigantesca aglomeração de seres humanos. Por exemplo, já li que alguns artistas se utilizam disso para compor personagens (seja de um livro, ou de uma peça de teatro), bastando entrar em algum vagão qualquer de metrô e ficar espiando, como quem não quer nada, o comportamento dos demais passageiros. Isso, claro, não é só um recurso disponível aos artistas, mas aos observadores em geral.

 

O metrô é o exemplo paulistano mais clássico de posto avançado de voyerismo, mas essa prática é adotada amplamente em bares, restaurantes, ônibus e até na rua. Só não vejo esse comportamento curioso nos trens suburbanos, já que esse é um tipo de transporte muito duro, difícil, que torna as pessoas meio embrutecidas, sem muita paciência ou interesse para esse tipo de atitude contemplativa – não por acaso, o trem é um meio de locomoção majoritariamente masculino (um vagão de trem às 7 da manhã ou da noite nos traz a sensação de que São Paulo possui uma população 90% constituída de homens morenos com idade entre 20 e 40 anos).

 

Mas, voltando ao ponto, durante uma simples viagem de metrô no trajeto entre casa e trabalho, é engraçado poder observar atentamente todos os traços e movimentos de uma pessoa enquanto ela displicentemente ouve música ou lê atentamente algum livro da faculdade ou simplesmente está esperando, impaciente, batendo nervosamente o pé enquanto olha pela janela, que o metrô chegue logo na sua estação.

 

Porém, o que é ainda mais curioso é justamente olhar para alguém que esteja observando uma terceira pessoa, notar os seus olhos fixos em algum transeunte que lhe pareça interessante, a ausência de constrangimento em fitá-lo, a total atenção dispensada ao outro, distraindo-se de todo o resto, buscando, talvez, criar ou encontrar alguma empatia em feições estranhas.

 

Um tipo de busca que nada mais é que o sintoma desse vazio provocado pela eterna ausência de familiaridade nos rostos que vêm e que vão, sem obedecer a qualquer padrão, lógica ou rotina. Estamos nos surpreendendo sempre, pro mal e pro bem. É como se, dia após dia, estivéssemos eternamente entrando em uma cidade diferente. Mesmo que estejamos transitando pelos mesmos lugares.



Escrito por Álvaro às 14h21
[] [envie esta mensagem] []



 
 

Amar é se sentir em casa



Categoria: Aforismos
Escrito por Álvaro às 11h34
[] [envie esta mensagem] []



 

Efeito cascata

 

Durante um relacionamento qualquer, é bastante recorrente a idéia de que só porque estamos “presos” a alguém estamos constantemente perdendo oportunidades de mantermos relações com outras mulheres interessantes. Aliás, a impressão que se tem é que, exatamente por estar comprometido com alguma menina, as demais fêmeas da espécie (talvez motivadas por algum instinto primitivo de competição) ficam atiçadas, se atirando na frente dos rapazes que já estão amarrados a uma delas. Pergunte a qualquer homem e as histórias serão basicamente as mesmas: durante a solteirice, era preciso matar dois leões por dia para ter alguma chance de levar uma pequena na conversa; no entanto, bastou se enlaçar com uma fulana e pronto, todas as mulheres do trabalho, da academia, da faculdade e, principalmente, da noite, parecem mais disponíveis e interessadas do que jamais foram. “Bastou colocar a aliança no dedo e começou a chover mulher”, é o que sentenciam.

 

Mas é preciso tomar muito cuidado com esse tipo de idéia. Pra começo de conversa, existe, sim, boas possibilidades de um sujeito qualquer ficar algo mais atraente após o início de seu envolvimento com uma mulher. Mas isso ocorre devido a razões prosaicas. Por exemplo, o cara passa a cortar o cabelo e fazer a barba com maior frequência por sugestão da companheira. Podemos imaginar também que ela o presenteie com roupas que ela julga mais adequadas do que as que ele tinha antigamente – o que tem como efeito colateral o fato dele ficar mais bem arrumado aos olhos de outras mulheres também. Deve-se considerar ainda que com o passar do tempo o homem vai evoluindo em determinados aspectos: fica maior, mais forte, obtém uma renda melhor, passa a saber e conhecer mais coisas, aumenta o seu repertório de idéias e se torna mais experiente e menos ansioso. Não é preciso ser nenhum gênio para descobrir que esse acréscimo na atratividade do sujeito não adveio pura e simplesmente do fato dele ter se enamorado por alguém. Ao contrário, é somente o ciclo normal da vida.

 

Lembro ainda que o ser humano é um ser nostálgico por natureza. Afinal, basta o cara se engraçar com uma moça e enfrentar a primeira dificuldade da relação que aflorará em sua alma uma irresistível saudade dos tempos em que podia farrear madrugada adentro, xavecando todas as meninas da balada, jogando conversa fora com os amigos e caprichando na pose a cada loirinha que se aproximasse. Logicamente que essa nostalgia é seletiva, deixando pra trás as lembranças das incontáveis noites em que ele terminava de mãos abanando ou daquela vez em que ele só conseguiu catar aquela gorduchinha com cara de sonsa que todos os losers do mundo já haviam pego.

 

Resta ainda o fato de todos nós sabermos muito bem como proceder para ficarmos inacessíveis, caso isso seja realmente desejável. Numa situação hipotética em que, de fato, o assédio feminino se manifeste de forma mais evidente, a ponto de ficar inconveniente, qualquer homem sabe transmitir sua indiferença à interlocutora. Aliás, somos mestres nisso, chegando, por vezes, a sermos estúpidos. De modo que, num caso em que o cara tá tranqüilo com sua mulher, por mais que ele esteja em processo de evolução profissional, física, cultural, etc., não encontrará grandes dificuldades para se manter afastado de eventuais provações.

 

No fundo, no fundo, tudo isso de “mulher atrai mulher” não passa de um fetiche, algo destinado a massagear o ego do homem. É gostoso pensar que atraímos olhares e cobiça por parte de mulheres que, em outras circunstâncias, poderiam vir a se tornar boas companhias. E, exatamente por ser pouco provável que uma das partes tome alguma iniciativa mais definitiva, uma vez que já estamos comprometidos, a mente se ocupa de idealizar essa fantasia.

 



Escrito por Álvaro às 23h00
[] [envie esta mensagem] []



 
 

HOLLYWOOD - CHARLES BUKOWSKI

 

 

Mais de uma pesoa me falou que "Hollywood" seria a obra-prima de Bukowski. É um belo e divertido livro, não há a menor dúvida disso. Mas já li momentos mais inspirados do Velho Safado.

 

Cena 1:

Um rapaz todo nervosinho sai aos berros de uma sala onde alguns homens conversam alegremente. O ambiente, outrora descontraído, fica pesado.

 

– Tenha calma, Hank – Sarah me diz. Ele está sóbrio, enquanto vocês já estão bêbados há horas. Você nunca esteve sóbrio em um lugar onde todos os demais estavam  bêbados?

 

– Não.

 


Cena 2:

 “Chegamos um pouco atrasados para a festa, mas ainda não havia muita gente. (...) Depois que Sarah e eu nos sentamos, aparece o garçom com o nosso vinho. Vinho branco. Bem, era de graça.”

 

 



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 14h01
[] [envie esta mensagem] []



Comédia Nerd

 

Quem era (pré) adolescente na primeira metade da década de 90 irá entender melhor.

 

Estávamos no auge da briga entre Mega Drive e Super Nintendo (SNES). Nas escolas, a molecada se reunia nos intervalos entre as aulas, no pátio, nos corredores, na cantina, perto do portão, na quadra de futebol, onde fosse, o assunto era um só: a polêmica causada pelo lançamento do jogo Street Fighter II para o Mega Drive.

 

Street Fighter II, como “todos” sabem, foi um jogo absolutamente revolucionário, que alterou definitiva e substancialmente todo e qualquer parâmetro no que se refere a games de porrada após seu lançamento, invadindo os fliperamas de todo o planeta. O primeiro vídeo-game doméstico a receber uma versão do jogo foi justamente o SNES. Porém, depois de cerca de um ano de atraso, enfim, os proprietários do Mega Drive também puderam descer a porrada em seus amigos através de uma boa sessão de pancadaria gamística com a turma formada por Ryu, Ken e cia.

 

No entanto, uma vez distantes de seus vídeo-games domésticos, a fim de cumprir com seus deveres escolares, sobrava aos moleques de então discutirem, durante cada segundo livre, qual versão de Street Fighter era melhor, quais gráficos seriam mais bem feitos, onde o som era mais nítido, em qual plataforma a jogabilidade se aproximava mais da versão do fliperama, etc.

 

Aqueles que acompanharam essa luta de perto sabem bem que a disputa Mega Drive X SNES era comparável à mais ferrenha rivalidade futebolística que podia existir entre cada grupo de moleques. Ocasionalmente, as discussões partiam para os finalmentes – como os briguentos em questão sempre eram nerds (magricelas ou gordinhos), as trocas de sopapos apenas causavam danos superficiais, como era de se supor.


Enfim... Delimitado o contexto histórico, vamos aos fatos.

 

O ano era 1994, mais precisamente no mês de abril. Um belo dia, um moleque da minha escola pediu pra mãe dele, como presente de aniversário, um SNES. Ou seja, decidiu ir pra turma dos bobos (quem tinha SNES era bobo e não tem conversa, hahahaha... Mega Drive forever!!!). O moleque era meio riquinho, metido a besta, então armou uma baita festança na ocasião, chamando o povo de diversas classes da escola em que estudávamos, só pra se exibir. E fazia questão de anunciar aos quatro ventos que iria ganhar um SNES de aniversário, vindo direto da loja de brinquedos mais careira da cidade, embrulhado junto a um cartucho da versão mais recente de Street Fighter de então, mais dois controles completos e alguns jogos extras.

 

Chegado o grande dia, na hora de abrir os presentes, com todos os colegas de escola perto de si, todos curiosíssimos para ver o tal vídeo-game, eis que ele rasga o embrulho, cuidadosamente elaborado pela sua carinhosa mamãe, e vê um formidável "Phantom System" embalado com uma fita das Tartarugas Ninja, uma fita do Rambo, uma pistola e dois controles. (O parêntese se faz necessário para explicar que, lançado no final dos anos 80, em 1994 o Phantom System já era um vídeo-game defasadíssimo, com jogos ultrapassados, alguns deles risíveis, como esse das Tartarugas Ninja, por exemplo).

 

Diante de tal mico, o colega aniversariante, a grande estrela da noite, começa a gaguejar, soluçar e lacrimejar, diante do já incontível e estridente riso dos colegas. Quanto maior o estardalhaço causado pelas gargalhadas dos convidados, mais o moleque contém as lágrimas e, quando parecia que o mesmo já tava prestes a dar um chilique daqueles, ele cria forças, sai do meio da multidão e vai em direção à sua mãe, para justamente lhe perguntar o porquê daquela troca absurda. Afinal de contas, ele já havia dito a ela exatamente o aparelho que ele queria, já tinham visto o preço na loja, escolhido os jogos que seriam entrariam no pacote, tudo direitinho.

 

E a mãe, calma e sorridentemente, sem entender muito bem a reação risonha dos colegas de seu pimpolho diante do presente que escolheu com tanto carinho, responde: "Ah, filhinho, aquele vídeo-game branco era feio, esquisito. Esse daí eu achei mais bonitinho, a fita dele é maior, o controle é grandão, vem com arminha de brinquedo junto, deve ser muito mais legal".

O moleque, óbvio, saiu da escola ao fim do semestre.



Escrito por Álvaro às 16h21
[] [envie esta mensagem] []



 
 

Ecologia

Quando o Brasil tiver uma renda per capita de U$ 30.000, a gente pode sentar e conversar sobre mico-leão dourado e boto rosa e ver o que pode ser feito.



Categoria: Aforismos
Escrito por Álvaro às 18h06
[] [envie esta mensagem] []



Escrito nas estrelas

 

Não acredito em destino. Não acho que “o futuro está escrito” ou que sejamos meras marionetes de um porvir já estabelecido. Mas creio piamente que certas coisas não nos acontecem por acaso.

 

Tomo como exemplo experiências ruins que tive nos últimos meses. Calma! Nada drástico, hehe. Me refiro ao contato que tive com a discografia do Faith no More e ao livro “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar. Em comum está o fato de eu nunca ter me interessado pelos dois ou de eu nunca tê-los encontrado a seu devido tempo, na época em que estiveram em evidência. Fui guiado a eles por conta de recomendações de amigos que os veneravam.

 

Faith no More é uma banda que teve uma reconhecida importância durante a segunda metade de década de 80 e que estendeu sua influência no pop realizado no início dos anos 90. Tinha como principais características um bandleader bastante criativo e versátil, bons guitarristas e um baterista fraco tecnicamente, mas que possuía um estilo totalmente peculiar, que dava uma cara ímpar ao som do conjunto. Ouvi atrasado demais, talvez, mas achei as músicas muito datadas. Escolhi ouvir a discografia da banda em ordem cronológica e encontrei desde os beats eletrônicos dos 80’s nos primeiros discos até o grunge (com pitadas de acid-jazz!) dos 90’s nos álbuns mais recentes, tudo lá, no som dos caras. Você ouve uma música de cada vez e pensa consigo: “putz, isso é bem anos 80 mesmo” ou “nossa, olha esse teclado... já ouvi isso 15 anos atrás”. Cada álbum representando fielmente a sonoridade de sua época. Isso não chega a ser um demérito, mas torna qualquer forma de expressão restrita ao seu tempo, sem chance de alcançar a posteridade. Passada uma década após o último disco da banda, suas músicas já não têm nada a dizer.

 

Quanto ao escritos Raduan Nassar, muito embora jamais tenha ouvido falar dele até questão de meses atrás, após ter lido seu nome pela primeira vez, passei a prestar atenção no que a crítica literária como um todo falava a seu respeito e notei que se tratava de um autor com poucas e marcantes obras. Em seu livro “Lavoura Arcaica”, me causou espanto a linguagem poética e a ausência de qualquer concessão, por parte do autor, em facilitar a leitura. Não há sequer indicações sobre o que os personagens querem dizer. Apenas um emaranhado de frases soltas e pensamentos aleatórios, tudo carregado de sentimentalismo camponês barato. Ao que parece, Nassar quis transmitir alguns de seus insights, mas não se preocupou em contar uma estória que fosse capaz de dar coesão a eles. Um menino obcecado por pés que resolve ir embora da casa dos pais não é um mote digno de uma romance que pretenda ser minimamente interessante. Podem até chamar isso de experimentalismo de linguagem. Pra mim, é simplesmente preguiça autoral. Sem contar que a renúncia a pontos e parágrafos me parece birra infantil, algo, no mínimo, desnecessário.

Essas experiências me levaram a crer que as obras de arte que até agora não vieram até mim de maneira natural não têm nada a me acrescentar.

 

Exemplifico. Eu gosto de músicos de quem eu, inesperadamente, ouço alguma música (às vezes apenas um trecho). Daí eu corro atrás e vejo o restante do seu trabalho. Em geral, me surpreendo com músicas ainda melhores e passo a querer ouvir tudo que já foi gravado pelo artista. Corro atrás, inclusive, de suas influências musicais e seus parceiros habituais. Não me lembro de ter me decepcionado com esse método.

 

Com os livros é a mesma coisa. Um trecho, uma citação, um ensaio, uma resenha, uma adaptação cinematográfica, enfim, qualquer contato inicial que eu tenha com a obra me trará interesse por ela. Sem indicações “no escuro” ou artificialismos diversos. O livro deve chegar até mim, e não o contrário.

 

Se uma obra de arte qualquer não me chamou a atenção antes, por si só, não foi à toa. É porque, de fato, não havia por que me interessar. Nenhuma recomendação pode ser melhor do que uma amostra.

 

E quando essa amostra chega até mim, a partir da emoção que me desperta, corro atrás, para sentir aquilo de novo. Isso acaba nos dando a sensação de que o universo ou alguma força superior nos guia em direção às coisas com as quais nos identificamos. Estamos sempre rumando ao nosso “destino”, enfim. Porém, o que ocorre é que nosso próprio inconsciente nos guia àquilo que mais gostamos. Estamos fazendo escolhas o tempo todo, muitas delas sem nos darmos conta. Nós mesmos estamos sempre atraindo o nosso destino e não o contrário.

 

Talvez o segredo esteja aí. O meu próprio interesse é que deve motivar o contato com uma obra qualquer. O feeling que dá o tom da escolha só pode ser o meu, isso jamais deve ser delegado a outrem. O que é interessante pra alguém ou em determinada época pode não ter nada a me dizer em meu atual momento.

 

Egocêntrico, eu? Não, pragmático. Até porque o que caracteriza melhor a grande obra é o fato de ser atemporal, universal. É isso que torna o seu autor um gênio da espécie. Se determinado autor não alcança isso, não merece minha atenção. Já existe muita coisa boa composta e escrita, esperando por meus olhos e ouvidos. E é pra essa direção que eu vou. Rumo ao meu destino.



Escrito por Álvaro às 08h44
[] [envie esta mensagem] []



Pais confusos, filhos incompreendidos

 

Não foram poucas as vezes que ouvi nas últimas duas décadas pais, médicos e educadores aflitos comentarem sobre a “banalização do sexo”, algo que supostamente estaria acometendo a juventude de nossos dias. Nos debates que abordam esse tema, em geral promovidos por meios de comunicação destinados aos próprios jovens, vozes adultas apontam o dedo em direção aos mais novos e decretam que, ultimamente, tudo que envolve uma relação entre duas pessoas tornou-se fácil demais, pouco desafiador. Segundo essa linha de pensamento, a libertinagem teria sobrepujado o mistério, a promiscuidade teria engolido o galanteio e a perversão teria atropelado o flerte.  “O romantismo acabou” é a frase-feita preferida nessas ocasiões.

 

Me incomoda saber que essas mesmas pessoas, ao comentarem sobre as formas de lazer mais praticadas pela juventude contemporânea, discursam que as pessoas, “hoje em dia”, estão mais distantes umas das outras. Afinal, a televisão substituiu a pipa, o peão e as bolinhas de gude, o vídeo-game substituiu a pelada de rua e a internet substituiu os gibis e os livros infanto-juvenis (e o Orkut substituiu a pracinha da esquina). Ou seja, os mesmos pais, médicos e educadores compactuam da idéia de que os jovens nascidos em uma era de acesso relativamente livre às telecomunicações estão usando seus recursos com o objetivo de se isolarem cada vez mais em seus respectivos quartos.

 

São idéias difíceis de se complementarem porque, oras bolas, são diametralmente opostas! O pior: ninguém se dá conta disso; são conceitos que, em geral, estão presentes simultaneamente nos mesmos cérebros.

 

Ou seja, a neurose contemporânea que tanto aflige a turma da meia-idade é formada por uma combinação de diagnósticos antagônicos com relação ao dia-a-dia dos mais jovens. É uma concepção esquisita de que um adolescente é capaz de ir pra cama com 3 meninas diferentes em uma semana ao mesmo tempo em que é um anti-social enclausurado ciberneticamente em um quarto. Os mesmos jovens que têm uma vida social super ativa, repleta de beijos fugazes e sexo sem compromisso, são também pessoas solitárias que passam a maior parte do tempo diante de um monitor. Será que é preciso ser tão inteligente e perspicaz pra descobrir que isso é um baita contrasenso?

 

Na verdade tudo é mais simples do que parece. Os atualmente jovens, quando se vêem numa situação em que não são mais crianças, têm os mesmos medos e dúvidas que seus pais tiveram décadas antes. A sensação de se tornar livre das amarras da infância é descoberta de forma simultânea à percepção de que seus pensamentos, palavras e atos acarretam consequências nem sempre previsíveis (ou desejáveis). A partir daí, cada um tenta lidar com isso da maneira que acha melhor e tenta aprender alguma coisa entre um tropeço e outro. A presença ou não de internet e a profusão de acessos à pornografia (que, de fato, está mais acessível a cada dia) não determina a vida social de ninguém, muito menos molda o caráter das pessoas. Além disso, a presença de dançarinas rebolativas na TV não implica na maior facilidade de um adolescente em obter sexo. E o fato de gostar de vídeo-game não impede ninguém de ir bater uma bola com os amigos da escola aos fins-de-semana.

 

Um rapazinho que tem acesso 24 horas a milhões de fotos e vídeos com mulheres nuas garante apenas uma boa dose de masturbação diária via TV a cabo, internet e revistas especializadas. O solavanco que ele sente no peito ao dar o seu primeiro beijo e a dificuldade que encontra, mais tarde, ao tentar convencer uma garota a se deitar com ele é que forjarão a sua vida afetiva, da mesma maneira que seus antepassados. Litros de esperma ejaculados na solidão do lar não garantem, em absoluto, o poder de persuasão que é exigido pelas garotas.

 

Além disso, características humanas como a socialização, a identificação com o outro, auto-afirmação e a capacidade de se relacionar com as pessoas são, mais do que necessárias, exigidas em todos os ambientes coletivos (casa, trabalho, escola, clube, etc.). Para entrar num mero grupo de trabalhos escolares ou mesmo participar de uma tribo urbana qualquer é fundamental que as pessoas saibam se comunicar e interagir umas com as outras.

 

Ninguém quer saber se você gosta de livros, pescaria ou seriados da Fox quando se está procurando um emprego, por exemplo. O que o seu futuro chefe quer é conhecer a sua capacidade de se expressar diante dos demais. E seria muita presunção achar que os jovens não sabem disso.

 

Claro que existem algumas diferenças, mas elas são apenas simbólicas. Se antes o legal era colecionar selos, hoje é bacana baixar músicas na internet. Se antes o lance era jogar futebol de botão com a rapaziada, hoje o que pega é reunir uma cambada pra algumas horas de Winning Eleven. Se antes era preciso passear pela vizinhança e ter boa dose de charme e cara-de-pau para bater um papo com a garota mais bonita da rua, hoje ela está ao alcance o mouse – em compensação, a concorrência pela mesma beldade cresceu em dose exponencial, com gaviões de toda a cidade adicionados no MSN dela.

 

Ou seja, a rotina de um jovem típico dos anos 2000 inclui doses de desafios, adrenalina, alegrias e frustrações em igual proporção em relação à rotina dos que foram jovens nos anos 60 ou 70.

 

Os adultos do amanhã fazem e desfazem amizades, se sentem fortes e inseguros, trocam idéias e divergências, cooperam e competem um com os outros, enfrentam conflitos externos e internos e alcançam a sua maturidade a partir do que conseguem assimilar de tudo isso, da mesma forma que os jovens de outrora faziam. No entanto, essa incompreensão persiste entre as gerações (como houve também entre nossos pais e nossos avós), mesmo que as diferenças, volto a dizer, sejam apenas superficiais. É bastante simples chegar a essa conclusão. Só que deduções simples não lotam palestras, nem formam filas em consultórios e tampouco alimentam a indústria da auto-ajuda.



Escrito por Álvaro às 17h32
[] [envie esta mensagem] []



Preparadas

 

Esses dias saiu uma daquelas pesquisas destinadas a ratificar “cientificamente” certos padrões comportamentais humanos que qualquer observador com um mínimo de bom senso descobre ainda na infância. Desta vez os tais “cientistas” procuravam descobrir qual a cor de lingerie que mais despertaria desejos junto à libido masculina. Bateram o martelo no vermelho. Ainda bem que eles descobriram...

 

Duas garotas de vinte e poucos anos lêem a notícia e comentam.

 

– É verdade. Quando se quer provocar um homem, uma lingerie vermelha é uma boa pedida.

– É mesmo, né? Mas, tipo, é preciso uma certa liberdade com o guri para se vestir dessa forma.

– É, se for ver bem, precisa de uma certa intimidade entre os dois, né?

– Claro, tipo, se a menina for logo de cara, no primeiro encontro, já com uma calcinha vermelha, vai parecer que, tipo, ela tá muito “preparadona”, né?

– Sim, sim.

 

São nesses momentos que eu me pergunto até que ponto a revolução feminista foi relevante para a sociedade brasileira. Será mesmo que as mulheres atingiram um ponto em que podem pensar, dizer e fazer o que querem? E outra: que raios de liberdade sexual é essa, tão proclamada aqui pelos trópicos, mas num discurso sem qualquer paralelo com a realidade?

 

Questões assim, além de provocarem alguma reflexão, podem confundir os incautos. Em primeiro lugar, vivemos em uma cultura que estimula (praticamente obriga) a mulher a se insinuar de forma mais ou menos libidinosa, a depender do contexto, mas que não sabe lidar bem com o flerte quando este parte do lado feminino. Isso por si só já seria uma fonte inesgotável de sentimentos contraditórios, porém os desvios de valores são ainda piores quando a mulher demonstra algum tipo de vontade em ultrapassar o terreno do flerte. Imediatamente ela se torna vulgar, segundo a ótica vigente.

 

Em segundo lugar, devemos ter a consciência de que estamos em um meio em que o homem, além de trabalhador, provedor e protetor de sua família, é festeiro, desportista de fim-de-semana, bebe como ninguém, é gozador com os amigos e arranca suspiros das moçoilas com sua personalidade supostamente forte. É o grande ideal do brasileiro: trabalha a semana toda (se for como peão de obra, melhor ainda), encara uma pelada com os camaradas no sábado de manhã, à tarde pula no carnaval fora de época, troca alguns sopapos ao entardecer e termina a noite se aventurando no motel com mais uma de suas conquistas. No domingo, churrasco com a família na hora do almoço (ele pilotando o braseiro, lógico), tonéis de cerveja durante o resto do dia e ainda dá duas sem tirar na patroa, “pra comparecer lá em casa” e encerrar a semana com chave de ouro.

 

Onde está o papel da mulher nessa história toda? Pois é...

 

Me recordo agora de um exemplo bastante ilustrativo sobre tudo isso. Muitos devem se lembrar da Maria Mariana, uma jovem atriz e escritora, autora de um best-seller dos anos 90, o livro “Confissões de Adolescente”, que deu origem a uma famosa peça de teatro (que, infelizmente, nunca vi) e uma bem-sucedida série de TV, ambas protagonizadas pela própria Maria Mariana. Ela é da mesma faixa etária que eu, ambos pertencemos à mesma geração, geração esta responsável pela introdução de um novo conceito, o “ficar”, algo que confundia tanto os adolescentes de então como seus respectivos pais.

 

O livro de Mariana tem o mérito de descrever em linguagem ágil e informal o cotidiano de uma menina de 15 anos em meio a essas descobertas, tendo que conviver com seus dilemas e conflitos ao mesmo tempo em que precisa dar alguma satisfação para pais e amigas sobre aquilo que ela mesma não consegue decifrar por inteiro. Naturalmente, foi um estouro de vendas, inclusive sob os aplausos de pais e professores que lidavam diretamente com adolescentes.

 

A série de TV, por sua vez, além de ser um primor técnico e artístico (a começar pela trilha sonora de reconhecido bom gosto, encabeçada pela canção de abertura cantada docemente por Gilberto Gil), prima também pela forma com que retrata as diferentes etapas que compõem aquele vácuo entre a infância e a fase adulta, com 4 irmãs com idades entre 12 e 19 anos que se complementam nessa tarefa. A Maria Mariana cabe o papel de irmã mais velha, a garota mais centrada e determinada da casa, que entre namoros, brigas e conselhos às irmãs mais novas (todas órfãs de mãe) faz um curso de Comunicação em uma universidade da elite carioca, batalha por estágios, elabora um jornal estudantil e lê Clarice Lispector em suas horas vagas.

 

Um dia desses me deparo com uma reportagem ao estilo “que fim levou” com ela, a própria Maria Mariana. Comentando sobre o tempo em que se manteve longe dos holofotes, ela conta que aos vinte e poucos anos se casou, resolveu se mudar para o interior, teve filhos e abandonou a(s) carreira(s), pois descobriu que seria mais importante cuidar dos filhos em tempo integral. Ela diz ainda que está divulgando seu livro mais recente, “Confissões de uma Mãe”, onde descreve essa nova fase em sua vida.

 

Deixe-me ver se entendi. A adolescente perspicaz, a jovem independente, artista de reconhecido talento e sucesso, que levou a milhões de pessoas a mensagem de despojamento, desembaraço e modernidade, decidiu copiar a avó e ser uma dona-de-casa. A menina que soube descrever como ninguém a juventude cosmopolita dos anos 90, livre das amarras normalmente impostas ao sexo feminino, toda a cultura juvenil da “new world order” da época, com todo o frescor ideológico dos anos seguintes à queda do muro de Berlim, chegou à conclusão que o bom da vida é se tornar uma matrona interiorana bancada pelo marido.

 

Tudo isso exposto, só me resta perguntar: preparadona pra que, cara pálida?



Escrito por Álvaro às 23h00
[] [envie esta mensagem] []



Rewind

 

Já não é de hoje. Em qualquer lugar que a gente vá tem câmeras espalhadas por todos os lados. Todos.

 

Mas, ao contrário de George Orwell, o que me intriga não é o “grande irmão” à espreita, focando suas lentes sobre o cotidiano das pessoas com o fim de manipulá-las. Me chama a atenção as câmeras portáteis manuseadas por gente comum. Desde os anos 90 as filmadoras vêm ficando cada vez mais e mais baratas, principalmente nos países mais desenvolvidos, chegando a virar artigo de consumo de massa. Mesmo no Brasil chegou a ser um produto adquirido por parcelas importantes de nossa classe média baixa.

 

No entanto, as filmadoras antigas, com fitas VHS (ou mesmo as populares “palm-cams”), não chegavam a ser utilizadas com tanta freqüência por seus possuidores. Era mais algo destinado a filmar festinhas familiares (aqueles casamentos em que o vestido da noiva fica roxo no vídeo e os aniversários onde todo mundo sai com o rosto verde), reuniões com amigos, takes eventuais de alguma viagem, partos dos filhos (bleargh), uma ou outra peripécia da criançada, teatrinho da escola... situações prosaicas, enfim, mas já programadas e predeterminadas. Sempre devidamente registradas por algum abnegado que se propunha a zanzar com a câmera de lá pra cá enquanto os demais se divertiam, comiam, bebiam, batiam papo, brincavam, se emocionavam, etc.

 

Hoje em dia, noto um fenômeno bastante diferente em relação ao uso das filmadoras atuais que, de tão práticas, pequenas e leves, nos acompanham o tempo inteiro (acopladas aos nossos celulares, máquinas fotográficas e até mesmo MP3 players).

 

Decerto o que me intriga não é a conveniência desses aparelhos, mas sim a maneira como as pessoas os utilizam. Qualquer ocorrência inesperada ou incomum que desperte a nossa atenção já parece digna de registro. Uma briga na rua, carros batendo, fogos de artifício estourando no céu, uma mulher bonita passando pela calçada, alguma (sub)celebridade fazendo compras... tudo é motivo para que as pessoas saquem as suas câmaras do(a) bolso(a) e registrem, ansiosas, esses eventos. É curioso notar que preferem ver o ocorrido através do olhar digital da câmera e assistir aos detalhes no monitor, quando estes já fizerem parte do passado, ao invés de acompanhar tudo in loco, ao vivo, e registrar tudo “apenas” com as cores, sons e emoções que suas retinas e ouvidos emitem aos seus cérebros.

 

O que seria melhor? Acompanharmos atentamente algum acontecimento, com olhos, ouvidos e mente bem abertos e contarmos apenas com a boa vontade da nossa memória para reviver os detalhes do ocorrido? Ou será que valeria mais a pena, em nome da posteridade, abrirmos mão da emoção momentânea, concentrando-nos em filmar certos trechos, tentando acompanhar com a inevitável imperfeição da câmera e abrindo mão de alguns detalhes que passam desapercebidos pelo vídeo?

 

Tanto o foco da câmera quanto a memória humana tornam esses registros incompletos. Resta saber qual deles transmite melhor para o futuro aquilo que veio a despertar o seu interesse naquele determinado momento em que tudo aconteceu.

 

Não é preciso ser muito esperto pra se obter essa resposta.



Escrito por Álvaro às 09h36
[] [envie esta mensagem] []



 

O melhor da festa é esperar por ela

Será?

Domingo agora, dia 03/05/2009, será a grande final do Campeonato Paulista desse ano. São vários os atrativos: Corinthians em campo, enfrentando um adversário tradicional (Santos), com o Timão tendo a chance de se tornar campeão de forma invicta, Ronaldo jogando em grande fase e, como se não bastasse, meu aniversário.

Estava duro, pra variar. Um amigo me empresta o dinheiro e eu me proponho a me arriscar na fila e tentar comprar os ingressos pra nós dois.

Cheguei ao Pacaembu umas 7 e meia da manhã, no dia em que as vendas iriam começar. Nem fui trabalhar, tudo na esperança de comprar os ingressos.

Pergunto a um funcionário do Pacaembu onde seria a fila pras numeradas. Ele me aponta um lugar e fico lá, lendo meu livro calmamente.

Uma hora depois de chegar, uma repórter da CBN que dava plantão no local me entrevista, perguntando se havia alguma informação que os funcionários do Pacaembu tinham passado pra nós e me pergunta também se eu gostava de assistir jogos no tobogã. Falei que não importava muito aonde eu me localizaria no estádio, pois o importante era estar presente no jogo da final, mas que eu tava na fila pra comprar numeradas. Ela pergunta se eu tenho certeza de que a fila era aquela, pois a "organização" havia contado a ela que ali só seriam vendidos ingressos pro tobogã. Falei: "é... nesses eventos, muitas informações são desencontradas, né?". Ela concorda e vai embora. Alguns minutos depois, já perto das 9 da manhã (o horário marcado para que se iniciasse a venda de ingresso), um funcionário do Pacaembu (outro) grita avisando que a fila onde eu estava era só pro tobogã e que, dada a extensão da fila, naquele ponto onde eu me encontrava, até me aproximar das bilheterias os ingressos já teriam se esgotado.

Legal!

Pergunto pra ele onde é a fila pras numeradas. "Do outro lado lá, amigo."

Muy amigo.

Dou a volta no estádio e entro na fila paras as numeradas. A fila tá menor. "Se pá eu ainda consigo comprar antes das 10", penso.

Enfim, 9 horas. Lógico (óbvio, claro, evidente) que as vendas não começam às 9 em ponto. Uma hora é confusão entre policiais e torcedores, outra hora é o sistema que cai, depois começam a vender e, lá pras 10 horas, 15 mil ingressos são "milagrosamente" vendidos em menos de 20 minutos. Eu e todo mundo lá esperamos, incrédulos, que a notícia seja desmentida.

Todos ligam os rádios, celulares, palms, TVs portáteis, etc., procurando alguma notícia "oficial". "Segue a venda normal de ingressos no Pacembu, para a decisão de domingo", era a principal manchete dos meios de comunicação consultados.

A polícia e os funcionários do Pacaembu insistem que os ingressos acabaram. Como ninguém acredita, os mesmos nos informam que o sistema caiu e que as vendas seria retomadas em instantes. Mais algum tempo de espera, ardendo ao sol. Os vendedores ambulantes das imediações fazem a festa.

Após o meio-dia surge o boato de que liberariam mais uma carga extra de ingressos e que só estariam aguardando o retorno do sistema. O tempo passa, começam os programas esportivos do rádio e da TV, todos tentam se inteirar das últimas notícias do jeito que pode. Por fim, surge a notícia de que a "organização" avisou à imprensa, conclusivamente, que já não havia mais ingressos pra vender desde as 10 da manhã.

Isso, como poderia se supor, gerou mais indignação. Um enorme contingente de pessoas que estava lá no Pacaembu dormindo desde terça-feira não conseguiu ingresso. Todos os presentes eram testemunhas de que poucas dezenas de pessoas apenas haviam sido atendidas nas bilheterias. A revolta era certa.

Um pessoal da Gaviões viu alguns cambistas oferecendo ingressos por 200 reais pra uns garotos ricos, trajando tênis caros e uniformes do Colégio Dante Alighieri (provavelmente haviam matado aula para tentar comprar os ingressos). Tumulto, confusão, ocorre um princípio de linchamento nos cambistas, a Tropa de Choque da PM intervém, joga spray de pimenta e bomba no meio da turba enfurecida. E eu a uns 20m de distância, de gravata, fazendo cara de paisagem, quietinho na fila, encostado no muro, fingindo que tava lendo ainda meu livro (uma vez que, àquela hora, já não havia mais disposição ou estado emocional que me permitisse alguma concentração para ler).

Acaba a correria. A Tropa de Choque fica montada, na frente dos guichês, como precaução. Eu já estava a poucos metros da bilheteria, ainda com esperança. A essa altura, já estava enturmado com os torcedores à minha volta, sempre trocando idéias e impressões sobre as partidas do Timão nesse ano. Vários já com experiência de filas e longas esperas, acostumados com informações desencontradas. “Pra que a polícia ficaria aqui montada desse jeito se já não houvesse mais ingresso pra vender? Se tivesse acabado mesmo, eles simplesmente dispersariam todo mundo.” O raciocínio me pareceu lógico.

Meia-hora mais tarde, a Tropa de Choque se retira. Ninguém sabe interpretar o que seria aquilo. Uma recompensa pelo nosso bom comportamento? Ou um sinal de que, de fato, não havia mais ingressos? Na minha opinião, simplesmente se encheram de ficar derretendo naquele sol.

Um cara me oferece um gole d’água. Recuso. “Vai desmaiar embaixo desse sol, hein? Cuidado.” O negócio é que eu tava muito apertado. Desde umas 8 da manhã eu já tava com vontade de fazer xixi. Acho que nunca em minha vida eu segurei tanto tempo. Por isso era o único por ali que não comprava nada dos vendedores.

Chega uma hora da tarde. Não aguentava mais esperar. Precisava mijar. Pedi pros caras guardarem meu lugar e ficar de olho em uma nova informação.

Haviam policiais e torcedores desorientados a vários quarteirões de distância do estádio. Tava difícil encontrar alguma privacidade ali na vizinhança. Enfim, vejo um muro imenso, sombreado por uma frondosa e robusta árvore. Nada me pareceu mais convidativo naquele momento.

Uma vez aliviado, no caminho de volta ao estádio, reparo melhor nas casas. Puta bairro que é o Pacaembu. Casarões imensos, ruas tranquilas e arborizadas, tudo isso a 5 minutos da Av. Paulista, 15 minutos do Centro, com metrô pertinho e ao lado da casa do Corinthians. Deve ser caro. Oras, e daí que é caro? Sou muito mais morar aqui do que nesses condomínios para milionários malucos, distantes dezenas de quilômetros de tudo que interessa em São Paulo. Enfim, eu já tinha circulados por aquelas bandas, mas nunca fui tão a fundo no bairro como naquele dia. Que sorte de quem mora lá...

Por fim, logo depois que eu volto ao meu lugar na fila, ficamos sabendo através do Globo Esporte que saiu um comunicado oficial, dado pelo próprio Presidente do Corinthians, falando que os ingressos acabaram mais cedo do que imaginavam, que a culpa era mesmo dos cambistas, que pedia desculpas à Fiel, blá-blá-blá... Mais confusão, mais corre-corre, uma verdadeira caça às bruxas. Qualquer tiozinho de barba desgrenhada e boné vira imediatamente um suspeito e a turba sai revistando esses tiozinhos, querendo arrebentar com qualquer cambista (ou qualquer um que se parecesse com um). Dessa vez a polícia só conversa. A TV ainda chega a tempo de filmar um cambista levando um direto no queixo e outro sendo chutado no chão por dezenas de corinthianos. Não sinto mais vontade de fazer xixi. Decido comprar uma cerveja.

Duas horas. Já havia atingido meu limite. Fui almoçar no bar/restaurante ao lado do Museu do Futebol, ali pertinho. Que caro! 11 reais por um sanduíche “natural”. Um grupo de chorinho entretia os clientes. Estava um belo dia. Ao longe, ainda se ouvia gritos de torcida, mulher chorando pedindo ingresso, essas coisas.

 Depois de comer, ainda passei perto do muro onde eu fiquei, inutilmente, escorado durante mais de 5 horas naquele dia. Dentre os torcedores que havia conhecido,  ainda restavam uns corajosos acreditando (o sonho não acabou).

 Fiquei quase o dia inteiro lá, em pé, embaixo de sol, à toa. Eu e mais 8 mil pessoas tivemos uma boa lição.

Daqui 5 anos a gente tem uma Copa do Mundo aqui.

 



Escrito por Álvaro às 17h30
[] [envie esta mensagem] []



Coisa pra Macho

 

Um relacionamento só dura enquanto o homem quer.

 

Não estou falando de longos processos de divórcio que se arrastam por anos que, em geral, são as mulheres que solicitam.

 

Também não estou me referindo àqueles relacionamentos que se prolongam desmedidamente, sem que nenhum dos dois esteja satisfeito. Estes também são interrompidos, na maioria das vezes, pelas mulheres. Sem contar que o vínculo propriamente dito já se perdeu em algum tempo lá atrás, ou seja, a separação dos corpos não coincide com o término do romance.

 

Penso que sempre será a vontade do homem que determinará o futuro de um casal. E isso já ocorre desde o momento em que ambos estão solteiros. Se ele não correr atrás, não acontece nada.

 

Mulheres são cortejadas. Homens cortejam. Isso é da natureza do ser humano. Se o cara tá afim de conquistar determinada mulher, irá batalhar por ela, fará de tudo pra chamar sua atenção. À mulher, resta avaliar e decidir se vale a pena. Nenhum dos lados é melhor nem pior que o outro, apenas funcionam assim.

 

Mesmo uma mulher que, de início, se demonstre desinteressada, pode acabar se interessando por um cara que demonstre empenho em sua conquista. Ele foi à luta, enviou flores, mandou torpedos, escreveu e-mails, alguns poéticos, outros cômicos. Quando saíram, ele foi simpático, engraçado e prestativo, na medida certa. Teve até uma vez que ele deu pra ela um MP3 player, com uma só música, aquela que seria “a nossa música”.

 

Mas isso é só a fase da conquista. Para que o romance perdure, é preciso que o cara insista. Uma palavra mais exaltada, um ataque de ciúmes, uma manha, isso é natural e recorrente. Basta ter jogo de cintura e uma caixa de bombons à mão para contornar esses problemas. Porém, as responsabilidades aumentam e as diferenças se evidenciam com o decorrer do tempo; a vontade de permanecer junto deve crescer na mesma proporção.

 

Logo, logo, ela estará sonhando com mais atenção, mais segurança, estabilidade, um cachorro e um apartamento de 3 quartos. Com sacada, closet e uma suíte.

 

Ele não precisa dar tudo a ela. Mas tem que demonstrar que está disposto a fazer de tudo para que um dia ela tenha tudo que merece. Não deu pra conhecer Cancún, mas aquela pousada na Serra Gaúcha foi muito legal. A idéia é essa.

 

No começo, ela podia não estar muito afim, achou ele meio nada a ver, mas se sensibilizou com o empenho daquele sujeito para lhe conquistar. Ao longo dos anos, foi descobrindo suas forças, sua aplicação, seu jeito obstinado de fazer o melhor, a dedicação às coisas que importavam e o desapego àquilo que não faria diferença. Chorou assistindo “Marley & Eu”, mas é um homem confiável e seguro. Viril, no fim das contas. Passou anos ao seu lado sem morrer de amores por ele, mas já não saberia mais como deixá-lo. Se apaixonou profundamente sem ter se dado conta.

 

Vejamos agora a situação inversa. Precisamos voltar lá atrás. Ambos estão solteiros. A mulher se interessa e o cidadão mal nota que ela existe. O que a mulher pode fazer pro cara?

 

Já na hora da conquista, existem poucas armas. Ela irá fazer o quê? Talvez colocar um belo vestido, com um decote mais ousado, mais um perfume gostoso.

 

Se ele não gostou do que viu antes (um sorriso torto, uma pinta fora do lugar, mãos grandes, qualquer coisa), nada disso irá adiantar.

 

Suponha que ele tenha gostado. Namoram.

 

Passou algum tempo. Ele não tá mais naquela fissura. Nunca esteve, na verdade.

 

Houve desgaste. Ficou cansado, com todas aquelas responsabilidades. Agora, é casar ou se separar. Gosta dela? Gosta, mas... tá de saco cheio.

 

O que ela pode fazer? Nada.

 

E o vestido? O decote? Nada.

 

E se ela for super legal, deixá-lo sair com os amigos, comprar o DVD do Batman (que ele não conseguiu ver no cinema) pra assistir no domingo? E se ela comprar cerveja, costurar o meião que ele usa quando joga bola e preparar um bolo de chocolate? Gratidão é diferente de amor.

 

E se, além de tudo isso, ela ainda espera ele com um bom pernil no forno e sintoniza  a TV da sala no Super Bowl? Amizade é diferente de amor.

 

E se ela veste aquele baby-doll que ele adora, faz francesinha nas unhas e coloca o perfume que ele lhe deu no último aniversário? Tesão é diferente de amor.

 

Pelo que dizem, esses sentimentos (tesão, amor, gratidão, amizade) são indissociáveis para as mulheres quando o assunto é seu par romântico. Mesmo que não haja o ímpeto inicial da paixão, constrói-se uma relação com uma mulher adquirindo-se a sua confiança. Passo-a-passo estabelecem-se os demais sentimentos no casal, o coração da mulher é arrebatado de vez, o homem cultiva esse amor e o relacionamento perdura.

 

Os homens, por sua vez, lidam bem com tais emoções de forma separada. Não é porque um homem aprecia a companhia de uma mulher que ele irá se apaixonar por ela. Tampouco o enlouquecerá de paixão aquela que lhe faz maravilhas na cama, não necessariamente. E nada garante que ela sendo super boazinha irá despertar sentimentos mais nobres em seu peito.

 

A afeição nasce no coração dos homens logo no contato inicial. Ele pode não saber de cara de quem ele gosta, mas sempre terá absoluta certeza daquilo que não gosta já no primeiro olhar. Se isso irá se desenvolver ou não, dependerá de eventual aproximação que porventura tiverem.

 

O amor puro, original, é um sentimento genuinamente masculino, portanto. Logo, o desenvolvimento da afetividade entre homem e mulher dependerá do equilíbrio sentimental dele. Isso o faz ser bastante egoísta. Ou seja, a responsabilidade sempre cairá em suas costas. Isso não é um fardo, nem um privilégio, apenas uma constatação.

 

Em resumo, uma mulher pode ser conquistada. Um homem, não. A mulher associa ao amor diversos sentimentos que nutre em relação ao seu companheiro. Um homem encara cada um deles por vez.

 

Seria essa a razão de tantos desencontros?



Escrito por Álvaro às 17h38
[] [envie esta mensagem] []



Acabou a brincadeira

 

Suponha um jovem casal, formado por duas pessoas que estejam lá pelos 20 e poucos anos, ambos recém-formados, ou já na reta final da faculdade, vivendo aquela fase de não querer mais morar com os pais, mas ainda sem grana suficiente para bancar uma casa.

 

Ambos estão em início de carreira, ainda desempenhando atividades de baixa ou nenhuma remuneração. Um estágio, um treinamento, uma bolsa de estudos, às vezes nem isso.

 

O caminho óbvio para o casal é juntar forças para ajeitar um cantinho próprio e conquistar a tão sonhada liberdade. Procuram alugar um apartamento de dimensões modestas, preços módicos, de preferência em algum lugar pertinho do trabalho e/ou da faculdade, com alguma oferta de compras e diversão na vizinhança.


 

O prédio é velhinho, meio zoado, mas o zelador é gente boa e, olha!, a padaria da esquina entrega leite na portaria. A casa é pequena, o dinheiro é curto, perde-se pouco tempo entre os locais de serviço, lazer e moradia, quase não há o que administrar além do amor que cada um nutre pelo outro.

 

 

Ela cozinha, ele lava, eventualmente trocam de tarefas e se divertem ensinando ao outro as suas especialidades. A grande diversão, aliás, é o convívio mútuo, o aprendizado que cada um tem ao dividir o espaço com o outro, passeios no shopping e shows de rock tornam-se secundários. E, mesmo que fossem prioritários, não há dinheiro mesmo... o jeito é se adaptar.

 

Adaptação! Eis a palavra-chave.

 

 

Aos 20 e poucos anos é fácil se adaptar. Você já vem de um longo processo de adaptação, que se iniciou lá nos seus 12-13 anos, quando seu corpo passou por transformações tão profundas, capazes de assustar até você mesmo, sendo que durante esse meio-tempo, ainda teve as equações de 1º e 2º graus, o primeiro beijo, a prova de Genética, o encontro com a vida noturna, a tabela periódica, a descoberta da ressaca, o vestibular, novos amigos, novas normas, novas regras, novos conceitos, novas concepções de vida, enfim. Logo após a faculdade, a característica mais notável em qualquer pessoa é a sua adaptabilidade e a maneira como ela foi desenvolvida.

 

No entanto, a vida coloca essa capacidade a toda prova logo depois dessa fase de inúmeras e impactantes transformações. Será quando você tiver que se conformar com a volta à rotina, à permanência dos compromissos e à imutabilidade das responsabilidades – tal qual verificava-se durante a infância, ainda na casa dos pais.

 

O ponto de inflexão ocorre quando o casal ultrapassa os primeiros obstáculos, satisfaz seus desejos iniciais e começa a cultivar novos sonhos. Um carro novo, um apartamento maior, um jantar refinado, uma viagem ao exterior, um filho. O tempo ainda não é escasso, mas já não abunda quanto antes. Os dois já estão cumprindo jornada integral fora de casa, chegam em casa exaustos à noite, as risadas começam a rarear, passam a se curtir só nos finais de semana – isso quando não precisam visitar os parentes ou amigos que os intimaram para um churrasco de domingo à tarde.

 

“A conta de luz subiu. O cartão de crédito estourou quando você comprou aqueles sapatos novos. Quem mandou querer trocar o carro? Aumente o limite do cheque especial, então. E meu curso, quem que paga? Eu sabia que era pra ter comprado aquela caixa de CDs quando eu tive oportunidade.”

 

Os dias se tornam mais longos. O trabalho, além de cansativo, lhes obriga a conviver com pessoas medíocres.

 

“Chegando em casa, quero tomar banho, tomar uma aspirina e ir direto pra cama.”

 

Dão duro o mês inteiro, pagam as contas. Sobrou pouco.

 

“Nossa, faz tempo que não vamos ao cinema. Eu deveria ter investido em ações”.

 

Acabou a graça. A paciência se esgotou. Ambos têm quase 30 anos agora, possuem dois carros, uma poodle e financiaram um apartamento de 100 m² por 15 anos. Adaptabilidade, tolerância, serenidade, imaginação, criatividade. Tudo se esgotou no transcorrer de meia década, apenas. A tendência é piorar. Um projeto em comum é capaz de uni-los novamente. Um filho, talvez.

 

Ele pediu demissão. Não suportava mais o cara da contabilidade que ganhava o dobro, mas que não sabia pronunciar “Shakespeare”.

 

Ela quase bate nele, se contém, mas dorme aquela noite no sofá, com a poodle no colo. Ele não quer acordá-la. Tá com saudade. E remorso. Mas pensa: “por hoje chega”.

 

Uma semana depois, e ela ainda é lacônica com ele. “Voltarei a estudar”, ele fala.

 

No primeiro mês vendem o carro novo. Depois as bicicletas e o anel que o pai dela lhe deu na formatura. Por fim, até aquele casaco horrível comprado numa noite gelada em Curitiba foi parar no brechó.

 

No mês em que  o condomínio atrasou, ele foi convocado pro novo emprego. “Agora vai”, ele pensou.

 

Os empréstimos contraídos para pagar os livros e apostilas corroem ainda boa parte do salário. Mas já não pesam tanto. E o melhor de tudo: acabam em setembro.

 

 

Mesmo assim, ela ainda acha ele pouco responsável. Não se sente plenamente segura ao seu lado. Antigamente, havia até um quê de engraçado o fato deles não poderem ter ido naquela festa de música eletrônica, pois os ingresssos custavam 80 reais, e eles acabaram passando o sábado assistindo "Lost" e fritando bolinhos de chuva - ela contava isso às amigas solteiras e dava risada. Mas agora ela vê no extrato que só tem 200 reais até o fim do mês, acha pouco, tem medo de acontecer alguma coisa e precisar de mais. E se arrepende de não ter comprado aquela blusinha em oferta. Não tem mais graça nenhuma. Acabou a brincadeira.

 

 

O que os faz permanecerem juntos? Adivinhe.

 

Ao invés do jovem casal, imagine agora um cara de quase 30 anos recém-casado com uma mulher mais velha, divorciada e com duas filhas. Eleve tudo ao cubo.



Escrito por Álvaro às 17h37
[] [envie esta mensagem] []



Solta o som

 

Que me perdoem as outras formas de arte, mas a música é, sem dúvida, a mais tocante criação humana.

 

Confesso que ainda não explorei devidamente a arte em todos os seus gêneros e subdivisões. Artes plásticas, por exemplo, é algo que eu ignoro solenemente. Embora eu já tenha visto algumas mostras sensacionais de artes visuais, ainda me falta um bom caminho a percorrer nesse campo.

 

Porém, é fato que, de todas as manifestações artísticas com as quais eu tive contato, a música é a que vai mais além. E, pelo jeito, não sou o único a ter essa impressão. Vi certa vez uma frase bastante precisa a esse respeito, algo como “a música é a única forma de arte que não lhe pede licença para tocar a alma”. Brilhante. Não quer ver um quadro? Feche ou desvie os olhos. Agora, evitar que uma música chegue ao seu cérebro é mais complicado, gostando ou não.

 

Eu sou um curioso pela arte, com todas as suas manifestações e formas, tanto as mais antigas quanto as que surgiram e se consolidaram com o passar do fantástico século XX. Sempre que tenho alguma oportunidade de experimentar uma nova sensação propiciada pela arte, me jogo de cabeça sem o menor receio e tento curtir ao máximo as diferentes sensações. Durante alguma peça teatral, por exemplo, me arrepio diante de uma boa atuação, conjugada a um texto forte e uma encenação bem feita. Por outro lado, uma bela apresentação de dança facilmente me leva às lágrimas. Um livro emocionante e inteligente, por sua vez, pode me deixar em estado de choque durante e após a leitura. Filmes me fazem viver e sonhar com sensações que me são distantes, muitas vezes inalcançáveis. Já um vídeo-game me hipnotiza por horas, me faz esquecer o mundo lá fora. Por fim, os quadrinhos, que me entretiveram, educaram e forjaram a minha personalidade. Daí, vem a música, uma arte capaz de aglutinar todas essas emoções ao mesmo tempo, em uma breve execução de 4 a 6 minutos.

 

Um déja vu bastante atual: pessoas que, ao se descreverem, dizem que “vivem por música”. O mais curioso disso é que ninguém aparenta ser fake por dizer isso, pois, de fato, por mais clichê que tal afirmação possa ser, é a mais pura verdade. Todos amam música. As vertentes admiradas são as mais diversas, mas todo mundo gosta de passar momentos de seu dia-a-dia ouvindo música, de modo a tornar esses períodos, por menores e exíguos que sejam, mais agradáveis.

 

As facilidades trazidas pela popularização e constante aperfeiçoamento dos aparelhos sonoros portáteis foi um catalisador desse consumo voraz de música nas últimas décadas. Embora na década de 80 ainda causasse alguma estranheza ver pessoas, principalmente de meia-idade, usufruindo seus walkmen, nos anos 90 esse desconforto foi se dissipando e os discmen foram se multiplicando junto à população. Passado o ano 2000, com a massificação do MP3, ver gente portando fones de ouvido se tornou tão banal quanto ver pessoas de óculos.

 

A música chegou a ocupar um espaço tamanho que hoje em dia eu já acho esquisito entrar em um carro e notar que não há um aparelho de som ou se este encontra-se desligado.

 

Não consigo conceber como seria viver em outras épocas, quando o acesso à música era mais escasso ou mesmo inexistente. Sim, a música é uma arte recente e a tecnologia necessária para armazená-la (discos, fitas, CDs, MP3, nada disso existia há menos de um século) é mais recente ainda. Imagino que as pessoas conseguiam (conseguiam?) tocar as suas vidas sem toda essa necessidade de escutar um sonzinho durante as tarefas diárias ou seus momentos de lazer.

 

Voltando ao início do raciocínio, quando foi dito que a música é uma arte tocante, profunda e até inevitável. Essa relação do homem com a música se revelou uma força-motriz capaz de trazer à tona uma completa inversão do que se entendia até pouco tempo no que diz respeito ao contato da humanidade com as artes em geral. Se nas demais formas de arte os artistas são seres venerados e a apreciação das artes se confunde com uma espécie de ritual, a música, por sua vez, aproxima artista e público de uma forma a confundir, muitas vezes, a razão e os sentimentos da platéia.

 

Existem casos e mais casos de fãs que estabelecem um vínculo com seus músicos favoritos que beira o doentio. Isso foi algo inerente ao surgimento da música pop e perdura até hoje. É algo que jamais outra forma de arte qualquer chegou perto de alcançar. Por mais que existam fãs alucinadas pelos galãs do cinema norte-americano, Hollywood nunca foi capaz de provocar uma comoção social tão grande quanto os Beatles (que chegaram ao ponto de não poder mais fazer shows em estádios, pois os gritos histéricos de suas fãs abafavam o som dos instrumentos), só para ficar no exemplo mais óbvio.

 

Há ainda a questão de parte do público simplesmente se apropriar do produto do artista. Há poucos anos atrás começaram a proliferar sites que compartilhavam músicas em formato digital. No início, a indústria musical tentou vetar a difusão dos programas de compartilhamento de arquivos musicais na rede. Dada a pulverização e a capilaridade de tais ferramentas, constatou-se a impossibilidade de conter tal movimento. Muitos músicos contemporâneos, já forjados nesse ambiente de franca disponibilidade de músicas na internet, procuram conviver de forma pacífica com esse fenômeno. Porém, o modo como irão tirar o seu sustento através de sua arte permanece uma incógnita.

 

Enfim, a compulsão do ser humano pela música vem se mostrando tão curiosa quanto violenta e transformadora. Me pergunto se algum dia a humanidade se desencantará, perderá esse fascínio que mantém em relação à música. Aliás, melhor nem tentar imaginar como será esse dia. Prefiro curtir uma bela canção da melhor maneira possível: num quarto escuro, com as portas fechadas e o aparelho de som no volume mais alto possível antes de atingir o limite do insuportável.

 

 

Aliás, curioso isso: mesmo ouvindo música o dia inteiro, enquanto desempenhamos as nossas tarefa do dia-a-dia, o momento de maior prazer com a música é justamente quando ela nos permite sair da rotina - pode ser num mega-show ou em casa, curtindo cada acorde, prestando atenção no arranjos e descobrindo novos instrumentos, "escondidos" na melodia, da maneira mais prosaica possível.



Escrito por Álvaro às 23h33
[] [envie esta mensagem] []



Juventude Transviada

 

Nas duas décadas anteriores à minha (nasci em 1980), houveram numerosas transformações de comportamento que forjaram a sociedade ocidental tal qual conhecemos.

 

No Brasil, em particular, as mudanças no visual foram as mais impactantes, chegando até mesmo a confundir os incautos. Onde faltava pudor na estética, sobrava provincianismo no trato entre as pessoas. Algo bastante perceptível na relação do brasileiro com o sexo, onde insinua-se muito, mas realiza-se pouco.

 

Embora as alterações no modo de se apresentar tenham sido chocantes, a liberdade no que se refere ao agir e fazer é bem menos empolgante. A timidez, o sentimento de culpa e o medo do julgamento de outrem ainda fazem parte da rotina – guardadas as devidas proporções, segue-se o mesmo padrão de meados do século XX.

 

No último sábado teve uma festinha adolescente em um sobrado perto de casa. As meninas estavam dançando ao som de um desses “pancadões” provenientes dos morros cariocas, sempre repletos de palavras maliciosas e provocantes. Pois bem, estavam todas lá, na calçada, de frente pro sobrado, com seus 15 aninhos, já trajando calças de cintura baixíssima, saltos altos, tops curtinhos e cabelos esvoaçantes, cada uma tentando caprichar na dança e nos movimentos sensuais mais do que a colega ao lado.

 

Os meninos, por sua vez, também na faixa dos 15 anos recém-completos, concentravam-se na parte de cima da residência, todos se esforçando pra parecerem másculos, bebendo bastante, alguns fumando, empostando a voz e tentando gesticular da forma mais expansiva possível sem desmunhecar. Não é muito fácil. Digo por experiência própria.

 

Meninos de um lado. Meninas de outro. Eles no primeiro andar, elas no térreo. Cada um tentando parecer mais do que é, querendo chamar a atenção de todos para se destacar de seus pares e, quem sabe, atrair o sexo oposto.

 

Salvo algumas exceções, meninas cansadas, com os pés em frangalhos, e meninos bêbados, sem a consciência quanto à ressaca que os aguarda, terminam a noite ainda mais separados do que no início da festa. O sono, a cerveja e o cansaço passam a confundir o raciocínio. A probabilidade de rolar alguma coisa já não parece tão alta quanto parecia no começo da noite.

 

 Saí da adolescência há mais de uma década. Pouca coisa mudou de lá pra cá.



Escrito por Álvaro às 13h00
[] [envie esta mensagem] []



Não gosto, não quero gostar e tenho raiva de quem gosta

 

Não entendi esse bafafá todo em cima do filme “Sete Vidas”, estrelado por Will Smith e Rosario Dawson. A crítica se derreteu toda, falando que é um filme ultra-sensível, emocionante, comovente. “Pode levar o lencinho pro cinema”, alertava a “Veja”. Alguém que já tinha visto me avisou que, de fato, todo mundo saía do cinema chorando ao final da película. A mim, o filme só deu sono. Muito sono. Não me tomem como um monstro gélido com coração de pedra. Um filme bacaninha como “Marley e Eu”, por exemplo, foi capaz de me levar às lágrimas sem muito esforço. Agora, “Sete Vidas”... francamente... Eu achei esquisito. Interpretações forçadas do casal protagonista. Um ritmo lerdo demais. Nada pode ser mais clichê que a cena inicial, mostrando o personagem principal nadando, com a câmera lhe focalizando por baixo, à contra-luz, e a narração levemente embargada, reflexiva, falando coisas sobre aproveitar cada segundo e as pequenas coisas da vida, sons de pássaros e das ondas do mar ao fundo. A sensação de déja vu é inevitável e se repete ao longo do filme por várias vezes, além do tolerável. Enfim, não sei que graça viram nesse filme.

 

Esse episódio me lembrou de outra coisa que, à época que surgiu, também foi considerado um tremendo fenômeno, adquiriu uma aura cult e tudo mais. Me refiro à banda britânica Radiohead: guitarrinhas ardidas, gemidos de um vocalista desafinado posando de depressivo e letras que hoje em dia seriam facilmente rotuladas como emo. Bem chatinho mesmo.

 

Pensando bem, não são poucas as coisas que me desagradam, mas que fazem a alegria da esmagadora maioria (ou que pelo menos são apreciadas por parcelas importantes do meu círculo social, como o caso do Radiohead). Me lembro que, quando adolescente, dizia à minha mãe: “não sou brasileiro; não gosto de loira, nem de verão, nem de praia, não ligo muito pra carnaval, detesto ficar no campo e não suporto calor”.

 

Aliás, outra coisa que atesta essa minha inépcia à brasilidade é minha relação com o café. Tipo, eu até tomo café. Pra espantar o sono. Só. Já ouvi dizer que brasileiro, ao contrário do que pensa, não sabe tomar café, que além de contar com um produto de qualidade inferior em seus supermercados, não sabe prepará-lo de maneira adequada. Bem, não sei que raios possa ser tão diferente assim em outros países, mas me lembro de uma passagem do lendário mangá “Dragon Ball”, escrito por um japonês (ah! jura??), em que o protagonista, o garoto Goku, toma café pela primeira vez, já com 12 anos de idade, e suas impressões se resumem à frase “essa sopa tá quente e amarga, blearght”. Ou seja, mesmo em outras paradas, a impressão causada pelo café é a mesma. Minha conclusão disso é que as pessoas, a maior parte delas pelo menos, se acostumam com o amargor do café desde a tenra infância e, desse modo, conseguem apreciar outras sensações que a bebida desperta em seus paladares. Por outro lado, isso não obscurece o fato de que o café é um troço ruim pra danar. Vê-lo sendo consumido tão vorazmente continua sendo um mistério pra mim; bebem por inércia, talvez. A propósito, o cheiro do café sendo preparado é delicioso – opinião compartilhada por outras pessoas que, como eu, não gostam do sabor café (sim, descobri que não sou o único).

 

Toda essa conversa sobre cheiros e paladares me deu fome. Supondo que eu esteja em um shopping, dou uma olhada na praça de alimentação e vejo o que tem pra comer. Indeciso? Observo o que a maioria das pessoas pedem. Tirando os mais óbvios fast foods, me surpreendo ao ver que um contingente considerável se aglomera diante de uma lanchonete especializada em batatas recheadas. Olha, vou contar um segredo: nunca compre batata recheada; não existe na face da terra engodo maior do que aquilo. Tentei comer esse troço duas vezes e me arrependi amargamente (pois é, fui suficientemente burro a ponto de não ter aprendido com a primeira vez, ou seja, fui ludibriado em duas ocasiões). É ridículo. E todos (todos!) os lugares que vendem batatas recheadas seguem o mesmo padrão. A tal batata vem sempre servida entreaberta, coberta por um molho espesso, terrível e desumanamente quente, que parece que não esfriará antes da próxima era glacial. Diante da fome, ninguém quer ficar esperando muito o bendito molho esfriar e vai lá e saca uma garfada. O sujeito, lógico, queima a boca e toma um gole de refrigerante pra aliviar a dor. Convencido de que o negócio está, de fato, muito quente, o cristão se põe a assoprar a parte de cima da batata. E assopra e assopra e assopra e assopra. E assopra. Já cansado de tanto assoprar, dá mais uma garfada junto ao molho e leva à boca. Se queima de novo e toma outro gole do refrigerante. Nesse momento, a pessoa tem duas opções: se levantar e ir embora (a mais certa) ou continuar brigando com a batata e tentar devorá-la na marra. Após alguns minutos assoprando, se queimando e engolindo às pressas, óbvio que a pessoa já nem tá sentindo gosto algum – no máximo sente o sabor do refrigerante aliviando as queimaduras bucais. A partir desse ponto, o sujeito percebe que a batata, tão esplendorosamente recheada no cartaz da lanchonete, na verdade, contem só alguns gramas de molho escaldante em sua cobertura e que depois de tentar comer o tal molho com alguns milímetros de batata (já com a boca devidamente queimada e as papilas gustativas dormentes), já não resta mais nada a não ser uma batata com aspecto de velha, sem gosto de nada, meio crua por dentro. O que mais me chamou a atenção nessa cruzada toda foi reparar que um sem-número de casais formavam a grande maioria das filas presentes diante dessa lanchonete. Como assim? O sujeito leva a mulher dele pra um lugar desses? Não é possível que todos ali estejam indo pela primeira vez experimentar batata recheada. Muitos devem estar lá pela segunda, terceira, quarta vez, de modo que resta a pergunta: quem é o sádico e quem é o masoquista nessa história? Bem, acho que já me fiz entender: se nunca comeu batata recheada, caia fora; se já caiu nessa arapuca, bem-vindo ao clube dos trouxas; você gosta de batata recheada? mantenha distância, tenho medo de loucos.



Escrito por Álvaro às 13h39
[] [envie esta mensagem] []



Paulistânia 

Não são poucos os que decretam a cidade de São Paulo como uma monstruosidade. A paisagem é feia, há sujeira por todos os lados, pessoas abandonadas na rua, céu acinzentado, prédios degradados e a pressa do dia-a-dia parece que ainda piora a sensação de desagrado que a estética da cidade impõe às nossas vistas. 

Vou logo avisando, não faço parte desse time. Mesmo antes de morar aqui, sempre gostei muito do visual de São Paulo. O gigantismo das construções, as linhas retas, as luzes fortes da noite, tudo isso me fascina desde a minha tenra infância. Pode me chamar de maluco, mas me traz uma sensação agradável o horizonte formado por prédios. Praias desertas, campos floridos, o verde da montanha? Nunca me interessaram. As maneiras encontradas pelo homem para moldar a natureza sempre me encantaram muito mais.

Depois de me mudar pra esta cidade, passei a me interessar ainda mais pela sua arquitetura. E vi que um prestigiado escritor, Ignácio de Loyola Brandão, que, como eu, também é nascido em Araraquara, também emigrado para São Paulo, ao vir do interior paulista para a capital ficou igualmente fascinado com a beleza do centro e a elegância dos bairros antigos, sentimento que o fez redigir belas homenagens à Paulicéia, mesmo quando se preocupou, sabiamente, em apontar seus defeitos - cujo aparecimento se deveu exclusivamente por conta de um lamentável descaso de boa parte da população e, em conseqüência, a omissão dos políticos. De todo modo, tal qual meu nobre conterrâneo, as formas monumentais que caracterizam o Vale do Anhangabaú e todo o seu entorno, desde a Catedral da Sé até o Arouche, passando pelo Largo São Francisco, Edifício Itália, Viaduto do Chá, as musicalmente inesquecíveis Ipiranga e São João, o Teatro Municipal, Edifício Martinelli, Praça da República, Copan, Centro Cultural do Banco do Brasil, Biblioteca Mário de Andrade, Santa Ifigênia, Palácio da Justiça, São Bento, Pátio do Colégio, Mirante do Vale, etc., etc., etc., tudo isso me causou um agradável estarrecimento quando pude ver tudo isso ao vivo e pausadamente. E, exatamente igual ao Ignácio de Loyola, fiquei profundamente chateado por saber que essa cidade já teve tanto estilo e não soube utilizar, cultivar ou ao menos manter isso de forma eficiente.

O que dizer de um lugar bonito, repleto de belas obras de arte, praças e jardins públicos, de fácil acesso a todos os cantos da cidade, rodeado de edifícios com elegantes coberturas, escritórios e repartições públicas importantes e com diversos pontos de referência como o Mercado Municipal e o Palácio das Indústrias? E o que dizer de um lugar assim ter sido tristemente ignorado por praticamente toda a opinião pública, a ponto de ter sido infestado por lixões clandestinos, prostíbulos, pontos de venda e consumo de drogas, mendigos e toda sorte de meliantes? Ver um lugar como o Parque Dom Pedro II ser tão estupidamente degradado, muito mais do que me causar tristeza, repulsa ou revolta, me fixou na cabeça, simplesmente, a pergunta: por quê?

Mas nem só de seu centro antigo vive a capital paulista. Existe um sem-número de bairros confortáveis e bem-acabados na cidade. Nem sempre primam pela disponibilidade de transporte público confiável (o que torna seus moradores reféns do trânsito pavoroso que corrói o tempo do paulistano em geral), mas existem boas opções para quase todos os bolsos e gostos, basta procurar bastante.

Aliás, procurar bastante é algo recorrente em São Paulo. Aqui tem de tudo? Sim, tem de tudo. Onde? Bem... aí é que são elas. Mesmo morando aqui em plena era da internet, ainda apanho bastante pra achar tudo que eu quero. O que é facilmente encontrável em apenas uma ou duas ruas em uma cidade interiorana de porte médio, em São Paulo tudo fica, muitas vezes, em uma distância desanimadora. Precisa de eletrodomésticos? Vá à Santa Cecília. Material pra escritório? Vá até a região da Luz. Roupas? Brás, Bom Retiro, Oscar Freire, à escolha do cliente. Vamos relaxar e comer uma boa pizza tipicamente paulistana? Fácil, basta ir até o Bixiga ou à Mooca. Haja disposição e tempo livre... não é fácil se acostumar...

Foi exatamente esse aspecto que me desapontou muito em São Paulo. Tudo muito longe. Chega a me dar desespero perder duas ou três horas pra comprar um simples par de tênis. E nem sempre se pode dizer que o número maior de opções de modelos se reflete em um efetivo aumento no poder de escolha - afinal, um número maior de alternativas não significa necessariamente uma qualidade maior nas amostras disponíveis.

É por essas e por outras que já houve fanfarrões que chegaram a levantar propostas, seriamente, no sentido de transformar outros municípios, como Bauru, em capital do Estado. Nada contra Bauru, uma bela cidade. Mas um Estado com a pujança de São Paulo precisa de uma capital adequada à enormidade de seus números. Me parece mais razoável melhorarmos o que já temos, e não construir toda uma estrutura gigantesca a partir do zero.

De todo modo, cada vez mais entendo quem não gosta de São Paulo. Os morros apinhados de construções irregulares, com seu aspecto de caixas de sapato empilhadas umas sobre as outras, de fato causa aborrecimentos à vista. A imensa quantidade de sem-tetos, igualmente, aflige qualquer pessoa - seja pelo medo, pela ira ou pela compaixão que tal cena desperta. O ritmo apressado causado pelas distâncias enormes, certamente, traz como conseqüência imediata o stress. E a sensação constante de estar à deriva, em meio a um mar de caos, também não é das mais agradáveis.

A solidão? Ah, a solidão... uma moça, coincidentemente araraquarense e também refugiada na Paulicéia Desvairada - tal qual o escriba que rabisca toscamente essas linhas e o nosso caro Ignácio de Loyola Brandão, citado logo acima - com quem conversei por ocasião de minha mudança pra cá me disse que a solidão que se sente aqui por essas bandas é a pior que qualquer um jamais sentiu. Dou 100% de razão a ela.

Deve se levar em consideração, contudo, que a cidade de São Paulo não é só mazelas. Muito embora a capital paulista seja o oposto do restante do Brasil, uma característica que mostra São Paulo como uma cidade tipicamente brasileira é o fato de seus moradores serem exageradamente pessimistas em relação ao lugar onde vivem. Claro que uma dose razoável de auto-crítica é fundamental para que não nos tornemos um festival de bobos-alegres contemplativos e inoperantes. O problema é que ao darmos ênfase somente aos defeitos, acabamos por não criar raízes junto ao lugar onde moramos. Isso redunda em descaso e falta de compromisso. Acabamos por não nos sentirmos obrigados a preservar e melhorar a nossa cidade. Basta ver nossos rios, um baluarte da estupidez e cegueira paulistanas que já dura décadas.

Não é difícil citar exemplos de estrangeiros que sabem notar o valor inerente a uma cidade como São Paulo. Porém, ao invés de ficarmos lisonjeados por conta do reconhecimento, imediatamente encaramos o elogio de um forasteiro como uma mentirinha pra fazer média com o povão. Um exemplo perfeito do que estou falando se resume nessa entrevista concedida por um assessor do presidente dos Estados Unidos Barack Obama ao jornal "O Estado de S. Paulo", onde o repórter parece simplesmente não acreditar no entrevistado quando este lista as qualidades da Paulicéia, mesmo quando ele fundamenta toda a sua argumentação em qualidades inequivocamente presentes em nossa cidade.

(http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081117/not_imp278742,0.php)

Torço pelo futuro de São Paulo. Porém, é revelador o fato de que durante as últimas campanhas pela prefeitura da cidade nem sequer foram debatidos temas como o melhor aproveitamento do potencial turístico, habitacional e empreendedor de áreas da cidade que já foram nobres, vibrantes e inspiradoras e hoje padecem estéreis e degradadas (como boa parte da região da Bela Vista) num injustificável ostracismo. Isso me desanima um pouco.



Escrito por Álvaro às 14h05
[] [envie esta mensagem] []



Mulherzinha

No machismo contemporâneo existe uma máxima que diz: "Quem gosta de homem é viado, mulher gosta mesmo é de dinheiro". O que me espantou um pouco ao entrar na vida adulta foi ver que as próprias mulheres, mesmo quando munidas dos mais diversos eufemismos, compactuam firmemente com esse pensamento.

Durante a minha solteirice, eu jamais perdia a oportunidade de ler alguma revista feminina que caísse na minha mão. Ainda na adolescência, me lembro de ter visto uma matéria extensa na revista "Nova" que tentava (e conseguia, diga-se) destrinchar os dilemas que a mulher urbana enfrentava na virada do século XX para o XXI. Era uma matéria interessante, onde as diversas filiais da revista, que abrange uma porção de países, abordavam, sob o ponto de vista local, as aspirações da mulher moderna.

A editora da edição espanhola foi, dentre todas, a mais contundente. Segundo ela, a mulher contemporânea estava atrás de um companheiro que a estimulasse em sua carreira profissional ao mesmo tempo em que fosse viril, romântico, sedutor e bem sucedido financeiramente. O problema, nas palavras da editora, é que esse homem "não existe".

"Ah, mas isso é óbvio", dirão os mais apressados. Mas não é bem assim. O que posso dizer, com base nas minhas observações, é que na vida real, de verdade, essa assertiva não é nem um pouco óbvia para a grande maioria das mulheres.

Tanto é verdade que nas considerações feitas pelas demais editorias da revista ao redor do mundo o pensamento mais repetido é que as mulheres queriam um companheiro que lhes trouxesse "segurança", dando-lhes maior "liberdade" para suas escolhas. Como para bom entendedor, meia palavra basta, a sensação que eu tive é que as mulheres simplesmente se contentaram com a posição de esperar alguém que lhes banque, mesmo 40 anos após todo o esforço que o movimento feminista despendeu na luta pela conquista dos direitos civis a elas.

O alerta estava dado. Porém, eu, em toda a minha inocência, ainda via condições de superar essa barreira. Afinal, eu conhecia muitas garotas que, embora tivesses famílias ricas, namoravam sujeitos de classe média, e que esses caras eram bem aceitos nas casas de suas namoradas. Isso, ao meu ver, representaria uma nova era de relacionamentos humanos, onde um casal seria formado por uma soma de dois profissionais competentes, sem haver distinção entre o homem ou a mulher no que tange aos ganhos financeiros de cada um. Quem ganha mais? Poderia ser ele, poderia ser ela, tanto faz, não importaria mais, já que ambos teriam chances iguais no mercado de trabalho. Dito de outro modo, a renda somada dos dois seria a base financeira do casal.

Claro, eu não poderia estar mais enganado. O problema é que isso me fez perder muito tempo, na vã esperança de encontrar alguém que se adequasse a essa minha maneira de pensar. Afinal, eu assistia na TV "Friends", "Seinfeld", "Sex and the City", seriados cheios de novaiorquinas independentes e bem-sucedidas e jurei pra mim mesmo que bastava eu encontrar alguém com aquele espírito pras coisas darem certo pra mim.

Eu nunca curti muito as profissões mais tradicionais, naquelas onde não é exatamente fácil ganhar dinheiro, mas sabe-se que com algum empenho qualquer pessoa conquista um padrão de renda bastante significativo. Estou falando das clássicas áreas ligadas a engenharia, medicina e direito e também daquelas mais recentes, associadas às finanças, ao gerenciamento empresarial e às tecnologias de informação. Um profissional que tenha se dedicado aos estudos, com vistas a adentrar e concluir uma faculdade reconhecida nessas áreas, e que depois se comprometa a trabalhar várias dezenas de horas por semana fatalmente irá alcançar razoável prosperidade econômica.

Qualquer um sabe disso. O que ocorre é que nem todo mundo tem vontade ou se sente na obrigação de escolher uma dessas profissões. As pessoas que procuram outros ramos profissionais o fazem na busca de um preenchimento interior, querem uma carreira de acordo com aquilo que consideram que seja a sua vocação. O problema é que o mercado de trabalho, particularmente no Brasil, não comporta esse tipo de profissional - assunto já discorrido em outra ocasião (http://brancopreto.zip.net/arch2008-07-27_2008-08-02.html).

E pra mim não tem conversa! Salvo aquele glamour que acomete os médicos, com aquela coisa de zanzar por aí vestido de branco e cuidar das pessoas, fazer o bem, salvar vidas, etc., o resto das carreiras onde se quer ganhar dinheiro é tudo trampo chato. Ninguém me convence que um corretor da bolsa morra de amores por ficar das 7 da manhã até as 10 da noite analisando mil e um balancetes, fazendo contas e lendo contratos. Ou que um juiz tenha tesão em emitir despachos, assinar milhões de documentos e seguir todo aqueles trâmites burocráticos para efetuar uma simples análise processual. São carreiras desgastantes e nada apaixonantes, a começar pelos cursos universitários necessários para ingressar em alguma delas. A única coisa legal é que se recebe uma bolada por mês - algo que implica na pouca ou nenhuma dificuldade em atrair pretendentes.

Muitos homens, ao contrário do que aconteceu comigo, têm esse discernimento ainda na adolescência e já partem logo para alguma carreira que lhes garanta uma consistente ascensão social. Existem também aqueles que foram direcionados pelos pais a seguir uma área que seja considerada mais nobre e aceitam essa imposição por mera conveniência familiar. E, claro, há os que norteiam as suas vidas nesse rumo por possuírem vocação ou uma vontade genuína de seguir a carreira de médico, jurista, engenheiro, financista, executivo, tecnólogo, etc.

Dois pontos. Em primeiro lugar, à exceção da área médica, esses ramos mais lucrativos e elitizados são esmagadoramente dominados por homens. Em segundo lugar, profissionais desse tipo são muito requisitados, o que reflete imediatamente na condição de obterem ganhos muito acima da média da população.

Voltando à idéia inicial, de que mulheres contemporâneas dão prioridade a homens que lhes proporcione "segurança" e "liberdade" (dois belos eufemismos para os conceitos de riqueza e conforto material), eu noto que continua a haver uma delimitação muito séria no nosso mercado de trabalho, exatamente como no século passado. Há o "serviço de mulherzinha" e o "trampo pra macho".

De um lado, as mulheres se sentem mais à vontade para seguir carreira em áreas mais prescindíveis (psicologia, nutrição, fisioterapia, decoração, farmacologia, recursos humanos, pedagogia, serviço social, letras, terapia ocupacional, paisagismo, etc.) em busca de uma realização subjetiva, sem que haja comprometimento em busca de uma melhor condição financeira, visto que sempre haverá alguém (o pai ou o marido) bancando a parte principal de seus gastos. De outro lado, os homens  são veementemente empurrados para aquelas carreiras áridas, mas que permitem sua evolução financeira, e seguem tendo como único objetivo levar dinheiro pra casa, afim de garantir as tais "segurança" e "liberdade" à sua família.

Essas condições mais duras trazem à personalidade masculina certa aspereza e algum egoísmo. Fica difícil exigir que seja afável e afetuosa uma pessoa que é programada a dedicar a maior parte da sua vida a fazer algo aborrecido com o único intuito de patrocinar os sonhos de outrem. E foi por isso que aquela editora espanhola foi tão enfática ao dizer àquelas mulheres que esperam um companheiro másculo, rico, bonito e carinhoso para que estas tirassem o cavalinho da chuva, porque isso simplesmente não é factível.

Ainda que envolto em contornos modernos, o velho sonho do príncipe encantado que vem em busca de sua donzela galopando sobre um cavalo branco continua em voga. Em vez de um castelo, as mulheres atuais desejam uma carreira apaixonante, independente de sua rentabilidade, algo possível somente com alguém a sustentando desde o início. A propósito, não é à toa que dentre as carreiras mais "sérias" a medicina seja a única com um percentual relevante de mulheres ocupando um número significativo de postos de trabalho, já que é a única também a contar com um notável grau de empatia.

Torço muito para que as mulheres tenham consciência de que precisam dar um passo para que superem essa barreira, sob pena de jamais virem a ocupar postos de efetiva relevância em nossa sociedade, salvo algumas poucas exceções. E clamo para chegue logo o dia em que homens e mulheres possam desenvolver carreiras que não sejam nem tão chatas para os homens e nem tão irrisórias, em termos monetários, para as mulheres.

A propósito, só consegui ter alguém do meu lado quando parei de esperar por esse dia. Recomendo que façam o mesmo.



Escrito por Álvaro às 16h28
[] [envie esta mensagem] []



Western

Nasci no século XX e foi nele que me acostumei a viver e ainda o tenho como referência. Sou daquelas pessoas que, ao se defrontar com a frase “século passado”, têm, de imediato, a imagem de alguma paisagem de 1800 e alguma coisa ilustrando a mente. No entanto, as minhas referências quanto ao século XX são recordações, em sua maior parte, dos meus tempos de criança. Nasci em 1980, de modo que o século XX perdura em minha memória mais pelas lembranças advindas das minhas descobertas infanto-juvenis do que pelas “grandes decisões” – estas, sim, meditadas com maior profundidade durante os últimos anos, já com os pés enfiados no outrora temido e instigante século XXI.

Uma coisa que eu acho é que quando se é criança (ou mesmo adolescente), fica mais fácil você estabelecer certos critérios de análise quando se parte de uma perspectiva de uma outra criança. Através do olhar de outras pessoas (ou personagens) com a mesma faixa etária, a assimilação dos mais variados conceitos se torna mais fluída e permanente.

O aspecto que quero expor nesse momento se refere ao ideário do herói. Aquele que todo menino tem bem claro em sua mente, em quem ele se espelha e tenta ser o mais parecido possível; aquele que todo garoto, ao se deparar com algum dilema, se pergunta: “o que ele faria se estivesse em meu lugar?”.

Pelo que percebia, lendo gibis, assistindo TV e vendo filmes, os garotos ocidentais das gerações imediatamente anteriores à minha tinham como seus heróis os cavaleiros do oeste bravio norte-americano. Sempre achei engraçado, inclusive, notar que diversos países, desde a Itália até o Brasil, produziram um contingente razoável de obras com essa temática, mesmo sem possuir em suas respectivas Histórias Oficiais uma dinâmica que sequer se assemelhava ao legendário “go west” yankee.

Porém, esse sucesso do popular bangue-bangue, tão evidente nos anos 60, já não encontrava respaldo em minha geração. O que houve de concreto no sentido de formar toda uma mítica de heróis viris e que serviam de exemplo aos garotos da minha faixa etária foi a redenção da televisão brasileira aos seriados (animados ou live-action) japoneses. De Jaspion a Naruto, o que temos assistido é uma série quase infindável de personagens que sempre têm algum nível de complexidade que lhes garante o carisma necessário junto ao público infanto-juvenil, como também tramas com a dose certa de maniqueísmo – não muito, para não aparentar inocente demais, mas também um pouco, para não se tornar hermética. Logicamente, antes da década de 80 já tinha havido incursões nessa área por parte da TV tupiniquim. Os Nacional Kid e Spectroman da vida estão aí para não me deixar mentir. Porém, só houve, de fato, um mergulho de cabeça no universo das sagas nipônicas a partir do investimento maciço feito pela extinta TV Manchete durante os anos 80 e 90.

Hoje em dia, observando tudo isso a certa distância, vejo o quanto há em comum entre a cultura western e a figura mítica do samurai. Ambos os cenários dão espaço ao “herói vagabundo” (vagabundo herói) – os bandoleiros do velho oeste, de um lado, e os “ronins”, de outro. Estes nada mais são do que símbolos extremos da eterna busca existencial humana, onde se procura imagens externas que saciem nossos conflitos internos. E não houve obra que melhor retratasse esse diálogo cultural do que o lendário seriado “Kung Fu”, estrelado por David Carradine no papel de “Gafanhoto”, um ronin que desbrava o oeste bravio norte-americano tentando aperfeiçoar sua ética samurai e sua técnica nas artes marciais em meio a saloons, fazendas, xerifes e ladrões de gado. Carradine, aliás, décadas mais tarde, participou, como personagem-título, de Kill Bill, um filme que também se aventurou a contar uma história de valentia e busca incessante pela verdade, onde a protagonista desbrava as estradas poeirentas que separam o Texas de Okinawa.

E ambos os cenários também permitem alianças entre os personagens, tanto entre os heróis entre si (cada qual com sua personalidade e seus conflitos íntimos), como entre heróis e vilões, afim de combater um mal maior – no caso das alianças entre bandidos e heróis (não gosto do termo “mocinho”), em geral estas assumem um caráter moral bastante importante, em que os facínoras se arrependem de seus atos e buscam a redenção através da cooperação amistosa com seus algozes.

Finalmente, as duas abordagens aqui tratadas (caubóis e samurais) permitem também o espaço para o confronto entre homens que, a despeito de todo contexto que possa cercá-los (e cerceá-los), simplesmente desejam duelar entre si pra ver, no final das contas, quem é o melhor.

Nenhuma imagem me parece mais apropriada para sintetizar todo esse post do que o duelo final entre Change Dragon, líder do Esquadrão Relâmpago Changeman, e o Pirata Espacial Buuba.

http://br.youtube.com/watch?v=Y-HP9dRmqao&feature=related

Aos mais pacientes, que quiserem se interar do contexto e saber exatamente do que estou falando, segue o capítulo inteiro:

http://br.youtube.com/watch?v=8-yVrNwPKNE&feature=related (Parte 1)
http://br.youtube.com/watch?v=Lu6wtJXUMlA&feature=related (Parte 2)
http://br.youtube.com/watch?v=I3fq5dgEUSQ&feature=related (Parte 3)



Escrito por Álvaro às 21h21
[] [envie esta mensagem] []



Sexo Forte

 

A impressão que se tem, ao analisar a literatura, é que os homens são muito mais afeitos à sensibilidade e às emoções dramáticas do que as mulheres. São muitos os casos de livros magníficos, feito por e para homens, explorando todos os labirintos da psique masculina, principalmente quando envolvendo a relação homem/mulher. Todo e qualquer tipo de reação diante da mulher amada já foi devidamente registrado na literatura universal. São vários os perfis abordados, de modo que os autores nos mostram as diferentes maneiras encontradas pelos homens de fazerem valer seus sentimentos, gostos e vontades referentes ao seu objeto de desejo.

 

Temos o fraco, em “Dom Casmurro”; sendo que Machado de Assis também nos apresentou homem patético, representado por “Quincas Borba” no romance homônimo. Temos o romântico/porra-louca/batalhador, em “Mulheres”, de Charles Bukowski. Temos ainda o enérgico “Othelo”, de William Shakespeare. E até mesmo aquele que é narcisista, mas não deixa de se sentir culpado por isso e pelos efeitos que esse sentimento causa em sua vida amorosa – estou me referindo ao “Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde. Temos ainda o conquistador, de “A Insustentável Leveza do Ser”, magnificamente escrito por Milan Kundera. E o indeciso, em “A Idade da Razão”, de Jean-Paul Sartre.

 

Do lado das mulheres,são pouco os livros que se aventuram a descrever as suas perspectivas. E, mesmo assim, são escritos por homens, o que não deixa de ser incômodo. O primeiro exemplo que me vem à cabeça é “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, que, embora o texto seja bastante verossímil, contém alguns clichês acerca do universo feminino que me incomodam.

 

Gostaria mesmo de ler algum livro que dissesse, de modo claro e preciso, pela perspectiva feminina mesmo, o que se passa, afinal de contas, com uma mulher durante o turbilhão emocional em que ela se encontra quando está diante da pessoa à qual dedica a sua existência – se é que ela experimenta essa sensação. Dizem que Clarice Lispector nos traz algo muito bom nesse sentido. Concordo com essa opinião. Li pouco de sua obra, infelizmente, mas o pouco que li, de fato, credencia a autora a me trazer luzes sobre essa questão.

 

Mas quero encontrar ainda mais exemplos. Afinal, a parte masculina tem vários representantes e cada um deles pintou a cabeça do homem à sua maneira. E, embora a escritora ucraniana-brasileira citada  tenha um estilo pra lá de adequado para contar histórias que versem sobre esse mesmo tema, gostaria de me aventurar através de outros pontos-de-vista.

 

Sugestões?



Escrito por Álvaro às 13h31
[] [envie esta mensagem] []



Atração Fatal

 

É recorrente ouvir mulheres dizendo que existem poucos homens capazes de preencher uma lista mínima de requisitos básicos à convivência. Um cara que seja interessante, bonitinho, tenha uma cabeça legal e alguma responsabilidade diante da vida, dizem, é raríssimo.

 

Na verdade, não há mais tantas mulheres que dizem isso hoje em dia. Tornou-se clichê. Quase todo mundo sabe ou concorda com isso.

 

Porém, não estou certo de que existam muitas pessoas cientes de que as mulheres que valem a pena também são escassas. Bonita e inteligente, é o que os homens pedem (os menos capazes contentam-se se for apenas bonita). Difícil encontrar algum satisfeito nesses dois quesitos com relação à companheira.

 

Quando se encontra, resta o medo de perdê-la. O medo nos torna agressivos. A agressividade nos torna impulsivos. Alguns impulsos podem ser violentos. E existe gente disposta a matar por causa disso.

 

Não é raro encontrar homens que chegam a esse patamar através do desespero em não encontrar substituta à mulher que o dispensou. Um caso triste, contando com todos esses ingredientes, permeia o noticiário brasileiro corrente – mais um, aliás, entre muitos e muitos casos que, por alguma razão não se tornam tão dramáticos e públicos

 

Talvez alguém mais perturbado dissesse que esses casos de assassinos passionais têm mais a ver com pessoas frívolas e mimadas, que não conhecem frustrações ou privações graves e que, quanto têm algo, não sabem dividir. Ou o raciocínio pode partir do princípio de que talvez essas pessoas não saibam dividir o que têm exatamente porque nunca tiveram nada. Não importa. A exacerbação do sentimento de posse é sempre o maior responsável, em ambos os raciocínios.

 

Porém, o que eu sinto mesmo é que a humanidade ainda não se acostumou a ser livre para selecionar aquilo que bem quer para sua vida. Ao terem liberdade de escolha para procurar os seus parceiros, as pessoas acabaram ficando com uma difícil decisão nas mãos e nem todas elas são capazes de lidar com uma dificuldade desse porte. Afinal, quando se tem liberdade de escolha, você é o responsável direto pelos caminhos que optou em trilhar ao longo da vida. E, caso algo dê errado, você talvez não seja o único, mas sempre será o maior responsável.

 

As possibilidades são muitas. Mas deve-se levar em conta que as chances de acertar são bastante pequenas. Mesmo assim, quando o resultado deixa de ser espetacular – sendo “apenas” satisfatório – o ser humano não deixa de ficar frustrado. E isso é algo com o que ninguém é capaz de lidar, em maior ou menor grau. Ao menos por enquanto.



Escrito por Álvaro às 14h20
[] [envie esta mensagem] []



Mudernos

 

Nem eu sei bem como, mas vou te falar que eu tô curtindo Cansei de Ser Sexy.

 

Outro dia eu fiquei sabendo que o site da Trama disponibiliza durante alguns dias, gratuitamente, todos os CDs que eles lançam, logo nas primeiras semanas de lançamento. Daí, semanas atrás li no jornal que o Ed Motta lançou um CD novo (Chapter 9) e eu fui conferir. Além do Ed, tinha também diponível para download o novo do CSS e o CD mais recente do Mombojó.

 

Eu tenho medo dessas bandas nordestinas pós-Chico Science, então nem quis saber do tal Mombojó.

 

Baixei o Ed Motta... e fiquei um pouco decepcionado. O gordão errou a mão, achei. Quis tocar tudo, e, embora toque muito bem diversos instrumentos, faltou pegada, por exemplo, na bateria. Um disco estranho, parece que quis atirar pra tudo quanto é lado. Uniu psicodelia com eletrônica, funk e umas pitadas de rock. O Ed tem o talento dele, onde se consagra. Mas pra esses tipos de misturas, existe gente muito mais competente que ele. Salvo umas duas ou três músicas, bem chatinho o tal “Chapter 9”.

 

Já o álbum do CSS (no caso, Donkey, o segundo da banda) eu ouvi já meio desencanado, desiludido por causa do "Chapter "... E achei legal pra caramba! Aquelas meninas malucas são muito mais criativas do que eu poderia imaginar. E o pessoal da Trama, como sempre, arrebenta na produção do disco e no desenvolvimento dos arranjos. E vou te falar que a baixista até que sabe das coisas, viu?

 

Enfim... Não ouvi o primeiro CD das meninas, não sei se é legal. Só ouvi umas duas vezes aquela musiquinha para a qual elas fizeram um clip em cima do Minhocão (outro dia me disseram que o Maluf deveria cobrar royalties sobre o uso da imagem do Minhocão. Hahahaha. Mas, pô, realmente, tudo quanto é filme/videoclipe/curta-metragem etc. que é feito em São Paulo ultimamente faz algum take em cima daquela anaconda de concreto e asfalto) e achei legalzinha. Legalzinha e só. Esse "Donkey" (a contar pelo nome) eu achei bem mais da hora.

 

PS: Não vou a um show do CSS nem se for de graça e no campinho de futebol do lado da minha casa. :P



Escrito por Álvaro às 14h37
[] [envie esta mensagem] []



O que você vai ser quando crescer?

 

Entra ano, sai ano, e sempre nessa época muitos e muitos jovens, Brasil a fora, partem para os processos seletivos promovidos pelas universidades do país sonhando em buscar uma profissão que lhes realize naquilo que cada um quer para si.

 

Outro dia li um renomado analista do mercado de trabalho intrigado com  fato de existir, em relação ao passado, pouca procura pelos cursos de engenharia.

 

Confesso que foi um tremendo susto pra mim me deparar com tal sentença. Baixa demanda por faculdades de engenharia, pra mim, é novidade. E das mais curiosas.

 

A menos que as coisas tenham mudado MUITO nos últimos 10 anos, quando eu estava fazendo cursinho pré-vestibular (no longínquo 1998), dentre os estudantes secundaristas (homens, principalmente) os cursos “clássicos”, Medicina, Engenharia e Direito, somados às áreas afins, correspondiam a pelo menos uns 70% dos anseios dos jovens vestibulandos. Mesmo durante a minha graduação eu sempre notei uma robusta demanda por esses carreiras. E, ainda que muitas instituições tenham se esforçado bastante em criar novos cursos, aqueles mais antigos sempre são considerados mais “sérios” e capazes de formar bons profissionais em relação a outrem, conforme a visão corrente – compartilhada tanto por jovens como pelos seus pais e avós.

 

Nem mesmo a necessidade existente em áreas ligadas à tecnologia e informática são capazes de distanciar a universidade desses três cursos básicos. Ao contrário, a biotecnologia, a computação e o ainda inóspito terreno da legislação sobre internet requer cada vez mais profissionais aptos a desenvolver técnicas ligadas à medicina, à engenharia e ao direito em fronteiras que permanecem inexploradas. O mesmo pode ser dito em a respeito das mais recentes preocupações humanas ligadas à sustentabilidade ambiental. E noto que os jovens têm plena consciência disso ao enfrentarem o disputado processo de seleção para o ingresso nos ensino superior.

 

No entanto, a análise citada no início deste texto, cita um fato inconteste: a ascensão dos cursos voltados à área da comunicação. Porém, o autor (como a maioria dos analistas que abordam o tema) discorre de maneira pejorativa, tachando tais cursos como um “modismo” bastante descartável e que os mesmos não seriam capazes de fornecer uma efetiva contribuição à sociedade – em contraposição aos cursos de engenharia, muito mais preciosos na visão do analista.

 

Na minha modesta visão, análise merece ser revisada por dois motivos: tem um vício de origem ao apontar um suposto arrefecimento no número de postulantes a engenheiros (algo que simplesmente não existe) e perde o foco ao comentar que essa queda seria decorrente de uma espécie de paranóia coletiva, onde os futuros formandos não seriam capazes de selecionar profissões que fossem, de fato, mais adequadas ao pleno desenvolvimento da economia nacional.

 

Nem vou entrar no mérito da questão e ficar aqui discutindo se despejar bons e eficientes comunicadores no mercado de trabalho é bom ou ruim para o desenvolvimento do Brasil. Penso que já existem provas suficientes pra considerarmos o setor de serviços dinâmico o bastante para aproveitar e valorizar esse tipo de profissional com muita eficiência e propriedade.

 

O que me ocorreu, de fato, ao me deparar com uma opinião tão negativa em relação aos cursos de comunicação, foi a total ausência de preparo em lidar com essa nova realidade. Nem mesmo um sofisticado analista, pago pra escrever em um respeitável jornal de grande circulação é capaz de compreender que a geração atual procura se comunicar melhor e, principalmente, entender aquilo que lhe é comunicado simplesmente porque não tem escolha.

 

O acesso à informação é muito fácil, as fontes de conhecimento se acumulam dentro de nossas próprias casas. Se há poucas décadas atrás havia limitações severas na busca pelo conhecimento (o que, de uma maneira ou de outra, bem ou mal, acabava filtrando as informações que cada um recebia), isso já não corresponde mais à realidade corrente. Se antes, para um indivíduo que procurasse ter uma visão ampla das coisas, era preciso acessar uma informação qualquer e depois, com muito custo, procurar algum contraponto (às vezes em vão), hoje em dia já se tem ao alcance dos dedos tudo o que já foi dito, discutido e revisto acerca de qualquer grande questão.

 

Não sei precisar até que ponto isso pode ser delineado como causa ou efeito da ascensão dos estudantes e profissionais voltados à área da comunicação. Mas penso que o espaço que esse fluxo de informações tomou na vida das pessoas não pode ser considerado uma simples “mania” passageira. São transformações profundas no modo de agir e de pensar e precisamos de gente que saiba lidar melhor com esse novo paradigma. Insistir na criação de mais faculdades de engenharia e declarar cursos humanísticos como dispensáveis não são a melhor maneira de se lidar com todas essas mudanças.



Escrito por Álvaro às 13h26
[] [envie esta mensagem] []



Good Morning

 

Rapaiz... essa manhã tá sendo animada.

 

Quando saí de casa tava chovendo. São Paulo + chuva = trânsito. Logo na primeira avenida que meu ônibus pega, já tá um congestionamento daqueles. Pra melhorar, a droga do teto do busão tava com goteira, bem em cima da poltrona da minha mulher. Por sorte, o ônibus tava meio vazio hoje e a gente conseguiu outro lugar pra sentar.

 

A poltrona tava do outro lado do ônibus... não consegui me “encaixar” direito nela e, em conseqüência, não consegui dormir durante todo o trajeto. Aproveitei pra ficar ouvindo o 3º disco do Living Colour que eu tinha baixado no celular.

 

É chato. Pela primeira vez na vida, encarei uma banda com vocalista afinado, voz potente, instrumentistas sofisticados, competentíssimos, virtuosos, até... mas sem talento algum para compor. Me decepcionei bastante.

 

Enfim. Cheguei no trabalho e tava até dentro do horário que eu costumo chegar, a chuva não me atrapalhou tanto quanto eu havia imaginado.

 

Chegando à minha sessão, guardei minhas coisas na gaveta da minha mesa e liguei o computador. Tava com sede. Fui até o bebedouro e percebo que só descem algumas gotas pela torneira. O galão de água mineral estava vazio.

 

Fui até a outra sala pegar o galão quando sou surpreendido com os chamados de duas colegas para que eu me dirija até a mesa delas. Elas me contam que eu fui promovido, que meu nome está no Diário Oficial do Estado e que, nos próximos dias, eu me tornarei definitivamente um “Controlador de Pagamento de Pessoal nível II”. (Ooohhhhh!!!) O que representa, em termos práticos, uns 15 merréis a mais no contra-cheque (isso mesmo, 15 reais; não 15 mil). Fingi estar feliz diante de todos.

 

Após os cumprimentos e as falsidades de praxe, fui trocar o bendito do galão d’água. Limpo o bicho com  álcool, pego um estilete para romper o lacre do dito-cujo e enfio o trambolho no bebedouro (já com a garganta seca e sem muita paciência a essa altura do campeonato).

 

Na hora de fechar o estilete, abro um rombo no meu dedão esquerdo. O sangue jorra. Corro até o banheiro. Está fechado. O tiozinho da limpeza ainda está lá dentro, dando o último trato. O sangue da minha mão está gotejando no chão nesse momento.

 

O tiozinho, bastante simpático, abre a porta pra mim, se admira com o tamanho do rasgo que eu mesmo me provoquei no meu dedo e fala pra eu ir pro ambulatório daqui do prédio. Ainda não deu 8 horas... imagino que ainda esteja fechado, sem ninguém pra atender. Fico com a mão embaixo de água corrente durante alguns minutos, com o sangue se recusando a parar de jorrar da ponta do dedão. Ouço o sino da catedral daqui de perto badalar 8 horas.

 

Sigo o conselho do tiozinho da limpeza e vou ao ambulatório. Chegando lá às 8 em ponto, e, como seria razoável supor, (é óbvio, claro, lógico, imagina se não) não tem ninguém lá. Aliás, tem o médico (clínico-geral é médico?) que atende lá. Meio rabugento ainda, talvez por causa do sono matinal e do clima chuvoso que foi obrigado a enfrentar após sair de sua cama quente, o médico disse pra eu apertar o dedo contra um lenço de papel, pra estancar um pouco o sangramento enquanto eu esperava a enfermeira chegar (afinal, o “dotô” não ia se sujeitar a fazer um curativo, né? Isso é trabalho de enfermeira).

 

Fico aguardando num sofá. Depois de alguns minutos, escuto passos. Enfim, a tal enfermeira.

 

Nada. Era só recepcionista do ambulatório.

 

Passo a ela meu nome completo e a sessão onde trabalho. Ela diz que a enfermeira “já tá chegando”.

 

Exatos 40 minutos após eu ter chegado lá no ambulatório, finalmente a enfermeira chega, me faz um curativo e eu subo de volta à minha sessão.

 

E o pior de tudo isso é que eu fiquei esse tempo todo, desde que eu saí de casa, com uma vontade danada de fazer cocô...



Escrito por Álvaro às 10h10
[] [envie esta mensagem] []



Epílogo

Outro dia ouvi um analista social sentenciando (corretamente) que a emigração de brasileiros rumo à Europa e aos Estados Unidos não pode ser estudada da mesma maneira que se analisa o caso de um retirante advindo do semi-árido nordestino que se refugia em São Paulo. Afinal, aventurar-se nesses países é algo feito por pessoas razoavelmente abastadas; não se trata de gente fugindo da fome, perseguindo sua subsistência... nada disso. O sonho de mudar-se do Brasil é algo que acomete, principalmente, a nossa classe média.

Afora as razões apontadas no post anterior ("Capacidade"), deve se considerar que em algumas cidades muito, muito ricas (em especial nas grandes metópoles do Atlântico Norte) é possível viver de maneira tranqüila e digna exercendo funções consideradas pouco nobres. Dá para viver numa boa trabalhando como bartender em Londres ou fritando hambúrguer em Madrid. Eis mais uma boa explicação a ser observada ao analisar o êxodo de muitos jovens brasileiros que, embora bem formados, não aceitam a aridez imposta pelo rigoroso mercado de trabalho formal do Brasil.

Vejo amigos meus que foram pra lá para trabalharem em lanchonetes, depósitos de roupas, asilos, etc. desempenhando tarefas absolutamente incompatíveis com sua formação. São filhos de empresários e de profissionais bem-sucedidos e, mesmo assim, preferem se empenhar em funções medíocres, tudo em busca do sonho de viver em outra sociedade, que não a brasileira.

Um amigo (exceção à regra, pois conseguiu uma boa carreira no exterior) me contou que é preciso ser muito macho pra vencer no Brasil. Quem não suporta esse padrão de exigência, tende a querer ir embora mesmo. Ele próprio admitiu sua fraqueza ao dizer que aproveitou a única oportunidade que teve pra sair do País, pois não se enxergava tendo que abrir mão de todas as suas convicções com o único objetivo de angariar um bom salário. Ele está certo.

Sou patriota e gostaria muito de contribuir significativamente com o crescimento do meu país. Mas aqui impera uma visão muito restrita quanto ao que representa e o que pode representar essa parcela de contribuição. Não me encaixo nessa forma de ver as coisas. E não há mais como eu sair do Brasil. Ainda não me conformei com isso.



Escrito por Álvaro às 15h31
[] [envie esta mensagem] []



Capacidade

 

Durante um ato tão banal quanto ler um jornal, me deparei com uma questão que persiste na cabeça de muita gente que já se aventurou a tentar compreender o Brasil e as relações sociais que forjaram a nossa identidade nacional: afinal de contas, por que raios se dá tanta atenção aos historiadores estrangeiros (americanos, em sua maioria) especializados em História do Brasil, os chamados brasilianistas?

 

A questão provoca reações apaixonadas junto ao público, em geral dividido em duas categorias. Tem aqueles que acham os brasilianistas o máximo, uma vez que os mesmos possuiriam uma aura mais profissional (ausente nos historiadores nativos), trazendo contribuições mais acuradas ao debate nacional do que os teóricos empolados que formam nosso corpo acadêmico. E tem aqueles que nutrem um indisfarçável ranço em relação aos pesquisadores forasteiros, uma vez que estes participariam de um mirabolante esquema doutrinário imposto pelos países capitalistas do Norte, o que, fatalmente, enviesaria todas as suas constatações acerca do cotidiano brasileiro.

 

Dificilmente eu tomo algum partido em questões tão estritamente polarizadas. Ainda não sei se isso decorre de minha tendência a ver tudo de cima, tentando observar científica e empiricamente tudo que envolve disputa de opiniões, com um olhar, ao mesmo tempo, filosófico e apolítico... ou se é porque eu não tenho personalidade mesmo. De todo modo, o fato é que eu não me vejo fazendo parte de nenhum desses compartimentos estanques, cujas adversidades se evidenciam quando é discutido o papel dos brasilianistas na literatura sobre a formação do Brasil. Porém, é inegável que, se for pra escolher um lado, fico com aqueles que detectam nos historiadores estrangeiros um profissionalismo maior em relação aos pesquisadores nativos.

 

Mas qual seria a causa disso, afinal? A explicação que me parece mais óbvia é a disponibilidade de recursos, que permite que esses pesquisadores anglo-saxões, ainda jovens, em início de carreira, já se dediquem integralmente a seus objetos de pesquisa, com vários incentivos financeiros para que o façam de maneira segura e tranqüila – enquanto, de outro lado, os historiadores brasileiros precisam dar aulas para se sustentar, relegando suas pesquisas a algumas horinhas semanais, espremidas entre uma aula e outra.

 

Isso é algo bem característico do mercado de trabalho brasileiro. Profissões que são consideradas normais em outros países recebem, aqui, a pecha de hobby, lazer, distração, algo a ser feito em horas vagas.

 

É isso que eu noto quando observo pessoas de minha idade se mandando para o exterior. Não é a escassez de postos de trabalho ou uma suposta defasagem entre a renda obtida aqui e lá fora que estão “expulsando” boa parte de nossa mão-de-obra, mas, sim, a oportunidade de desenvolver profissões menos tradicionais. A menos que se nasça razoavelmente rico ou leve um bom empurrão da sorte, é muito complicado conseguir se estabelecer no mercado brasileiro como designer ou gastrônomo, por exemplo.

 

Analisando o Brasil de hoje (até porque eu não vivi em outras épocas), o que eu noto é que abundam postos de trabalho em carreiras ortodoxas. O Brasil tem uma economia relativamente dinâmica, com muitas oportunidades para advogados, contabilistas, engenheiros, administradores e médicos. Os jornais estão forrados de anúncios feitos por empresários desesperados, à busca de gerentes comerciais, analistas de vendas, técnicos tributários, operadores mecânicos... Mas não se ouve falar em ofertas de empregos para filólogos, DJs ou cientistas políticos.

 

Sei que esse papo de “fazer só o que gosta” é conversa pra boi dormir. É utópico (no mínimo) acreditar que seja possível construir um país inteiro à base de profissionais apaixonados por suas carreiras – até porque não me ocorre nenhum exemplo de alguém que tenha tesão em passar o dia todo protocolando documentos ou empacotando macarrão. Porém, é um desperdício muito grande não aproveitar o potencial de tantas pessoas que gostariam de desenvolver suas vocações e contribuir para o crescimento do Nação de outras formas que não as mais “concretas”.

 

Infelizmente, existe uma cegueira que domina a classe política e o nosso empresariado que alimenta esse desperdício. E isso se revela a tal ponto de ouvirmos o ABSURDO de que não há mão-de-obra qualificada em nosso país.

É RIDÍCULO imaginar que não exista gente apta e capaz de enfrentar o mercado de trabalho (qualquer que seja a área), principalmente se formos levar em conta que somos um País em que milhares de jovens saem todos os anos de nossas faculdades sem que haja qualquer garantia de que poderão desenvolver suas habilidades. É uma estupidez sem tamanho exigir que alguém que acabou de conhecer Bergman se torne um mero vendedor de aplicações financeiras.

 

O que fazer com uma pessoa que se interessa por música, pintura, artes cênicas,literatura, alguém que saiba distinguir Lacan de Lukács, que seja sensível a ponto de se emocionar com Nick Hornby e com Spike Lee? Confesso que eu não sei, uma vez que eu jamais vivenciei uma sociedade que saiba aproveitar esse tipo de capacidade. A única certeza que eu tenho, é que é um despropósito colocar gente assim para passar o dia montando planilhas no Excel.

 

Daí, passa-se a ter a impressão que existe abundância de gente qualificada em certos setores da economia, dando início a um fenômeno recentemente constatado, que é a ocorrência da “overeducation” – termo usado para designar uma conjuntura onde o mercado não consegue empregar de maneira adequada pessoas que possuem habilidades muito além do que seria necessário para desempenhar determinado serviço – mas isso já é uma discussão pra outro dia.



Escrito por Álvaro às 11h12
[] [envie esta mensagem] []



Em nome do pai

 

Durante um dia normal e rotineiro de trabalho, vi um negócio que me deixou encasquetado. Eu sou a favor da abolição de alguns nomes. Em particular aqueles que são inescapáveis de alguma gozação, tipo Jacinto ou Rêgo, Pinto, Aquino, e outros que tais.

 

Lógico que sempre existirão engraçadinhos dispostos a tripudiar em cima de qualquer coisa que lhe pertença, e mesmo pessoas que possuam nomes comuns e sem significado óbvio (como Silva e Souza, por exemplo) são passíveis de alguma gozação. Principalmente durante a época escolar.

 

Eu mesmo passei lá pelas minhas penúrias com meus sobrenomes, digamos, peculiarmente associativos. Meu nome completo é Álvaro Leite Domingos. O trocadilho vem de imediato à cabeça: “Álvaro toma leite todos os domingos”. Não escapei da gozação sequer por parte da minha esposa, quando ainda estávamos nos conhecendo e cultivando uma agradável amizade.

 

Bem, voltando àquele dia de trabalho a que me refiro no início. Me apareceu na mão um processo em nome de Marina Sugawara. Pensei cá com meus botões: a menos que essa mulher tenha passado a vida inteira numa redoma de vidro, acho que é impossível ela não ter escutado uma risadinha em, pelo menos, 90% das vezes que ela mencionou ou escreveu seu sobrenome a alguém.


Tá bom que envolve tradição familiar e o caralho-a-quatro. Mas acho que, numa situação dessa, pouparia meus filhos de tamanho constrangimento e deixaria de transmití-los tal sobrenome, hehe.



Escrito por Álvaro às 09h35
[] [envie esta mensagem] []



Cacildis!

 

Estou achando bem curioso esse atual frissom em torno na figura do Mussum. Nos últimos anos, o personagem foi alçado à condição de ícone pop.

 

O que é o Mussum, senão um negro ultra-esteriotipado, na condição de favelado, sambista, trambiqueiro, alcoólatra, com deficiências severas na educação, que refletem, inclusive, em sua dicção e linguajar?

 

Talvez esse sucesso seja um reflexo, portanto, de sua atitude (ou imagem) politicamente incorreta, algo que hoje em dia causa um tremendo senso de nostalgia nas pessoas.

 

Ou, quem sabe, o sucesso todo do personagem Mussum decorra do absoluto fracasso dos programas-solo dos seus ex-colegas Trapalhões. Renato Aragão prosseguiu sua carreira com o chatérrimo “Programa do Didi”. Dedé Santana, por sua vez, trilhou uma trajetória ainda menos brilhante, participando de inúmeros programas humorísticos fraquíssimos, muitas vezes na condição de mero coadjuvante, percorrendo todo o limbo da programação trash da TV brasileira. Ultimamente, ouvi dizer que ambos estão ensaiando uma nova reaproximação.

 

O fato é que hoje em dia o Mussum é idolatrado na internet, tem sua imagem estampando camisetas, banners e acessórios diversos e citações de suas frases (sempre com sua gramática peculiar) vêm assumindo o papel de sentenças definidoras de personalidades. “Cacildis” se tornou uma máxima, sob qualquer contexto. E o que mais me surpreende é ver no meio desse batalhão pessoas que nem bem tinham nascido quando o Trapalhão negro já tinha partido desta para uma melhor.

 

Enfim, não sei até que ponto é possível estabelecer esse tipo de paralelo, mas talvez a figura do Mussum esteja se tornando (ou já se tornou) parte da mesma simbologia que fez do “Seu Madruga” um fenômeno midiático: estou falando da tal busca pela inocência perdida, que tanto comentam por aí.

 

Mas vou um pouco mais fundo nessa questão. O que eu acho mesmo é que sentimos uma saudade inconsciente desses tempos onde o fato de todos se julgarem (ou se sentirem) inocentes trazia uma maior sensação de liberdade para fazer ou dizer aquilo que quisesse. Não estou falando de direitos civis ou políticos (que, como se sabe, eram ainda mais escassos, em particular na América Latina, durante a década de 80). Me refiro a uma maior liberdade para expressar padrões comportamentais singelos, íntimos, inocentes mesmo, sem que para isso fosse necessário passar pelo crivo da correção política. A época retratada pelos ícones aqui citados é farta em exemplos. Elenco aqui três, para refrescar a memória do leitor e para expressar de maneira bem clara e ilustrativa o que estou dizendo: 1) ouvia-se no rádio livremente uma música em que um sujeito bradava sua total falta de disposição para se enquadrar no rigor formal do mercado de trabalho convencional (“Sossego”, do Tim Maia); 2) em uma caixinha de confeitos destinados a crianças, exibia-se a foto de dois garotinhos (um em cada lado da caixa) empunhando um cigarrinho feito de chocolate; e 3) a TV exibia um humorístico com 4 integrantes fixos, dentre eles um negão bonachão, com uma pronúncia bastante peculiar, que jamais aparecia exercendo algum ofício, porque, acima de tudo, gostava mesmo era de beber e farrear com seus amigos igualmente hedonistas, curtindo um bom sambinha nas horas vagas. Inocência é isso aí.

 

Atualmente, a única razão de ser e de viver do ser humano é integrar o mercado e ser “competitivo”. Os fumantes foram reduzidos à posição de escória, parias da sociedade, e não devem, sob qualquer circunstância, chegarem perto de qualquer criança (ou de qualquer outro ser humano que seja). A TV, por sua vez, se esmera em criar passatempos politicamente corretos; as tramas novelísticas incorporam os elementos insossos do cotidiano (alardeando isso como se fosse revolucionário), espremidas entre os noticiários que ocupam o restante da grade, reportando temas igualmente estéreis – como se vestir no trabalho, entrevistas com nutricionistas que repetem os mesmo mantras de sempre (mastigue verduras e esqueça tudo que comia na casa da sua mãe), “escândalos” políticos, paisagismo doméstico, os percalços da vida dos “famosos” e congestionamentos em ruas e aeroportos são as grandes vedetes do “jornalismo” corrente –, não há mudanças, independentemente do canal ou da linha editorial; não por acaso, as reprises (seja do que for) e “releituras” sem mantêm com força total.

 

Entre William Bonner, Nelson Rubens, Roberto Justus ou Mussum, a escolha é "evidentis".



Escrito por Álvaro às 08h27
[] [envie esta mensagem] []



Sideral

Nunca entendi algo que é tão característico à indústria fonográfica brasileira: a existência (e permanência) de “músicos” que, simplesmente, não possuem público. Confesso que não faço a menor idéia se há a ocorrência desse fenômeno em outros países, mas o fato é que jamais ouvi falar de pessoas que adquiriram um CD ou foram ao show, digamos, do Wilson Sideral (também conhecido como “o irmão do Rogério Flausino, vocalista do Jota Quest”). Vou além: nunca vi qualquer pessoa manifestar qualquer tipo de interesse pelo trabalho desse cidadão.

 

Não se trata de um caso isolado. Alguém já ouviu falar de uma pessoa que se aventurou a ir em algum show da Beth Guzzo? Ou da dupla Cídia e Dan? Ou mesmo do João Suplicy?

 

Fico me perguntando como é possível existirem pessoas, com amplo espaço na mídia, que não conseguem desenvolver um trabalho artístico com certa popularidade, mesmo tendo seus produtos amplamente divulgados. Mas minha dúvida maior é com relação ao acesso que essas pessoas têm aos meios de comunicação. Como isso é possível?

 

É fato inconteste que existem numerosos meios de se obter algum espaço na imprensa e que é possível, inclusive, forjar tendências a partir de textos pseudo jornalísticos e mensagens publicitárias ou subliminares. Na indústria cultural, em particular, é razoavelmente banal a comercialização dos espaços de divulgação, sejam estes radiofônicos ou televisivos, sob a carapaça do “entretenimento” de auditório (quando não, em respeitáveis veículos noticiosos). Nesse ambiente florescem, em muitos e muitos casos, artistas cuja capacidade é extremamente questionável, mas que atingem certo prestígio junto a determinados segmentos do grande público; mesmo que essa popularidade se dê em detrimento de outras faixas de público – segmentando (e até polarizando, às vezes) o mercado cultural em inúmeras vertentes, dando margem a subcategorizações,como “alta cultura” (ou “erudita”) e “baixa cultura” (ou “popular”).

 

Porém, é inegável que, de Carlos Gomes a Zezé di Camargo, passando por Chico Buarque, Amado Batista e Charlie Brown Jr., todos obtiveram certo êxito, em maior ou menor grau, junto a uma ampla faixa de público. Dito de outro modo, são artistas que se tornaram economicamente viáveis, garantindo seu espaço no mercado. Assim sendo, é natural que haja toda uma negociação evolvida quando surgem referências aos seus nomes, quando estão prestes a lançar algum novo trabalho ou se empenhando na divulgação de um produto já finalizado.

 

Agora, quem estaria interessado nos projetos futuros do Wilson Sideral? A troco de que alguém se propõe a divulgar os discos desse sujeito? Com base em que as portas de inúmeros canais de comunicação se abrem tão facilmente para ele expor seus lançamentos e discorrer sobre sua carreira? Será que há alguém no mundo que saiba cantarolar alguma de suas músicas?

 

Mas, enfim... se é possível existir um fenômeno como o Cauby Peixoto, que não passa de um canastrão associado a uma única música e que,  ainda assim, é constantemente alçado ao patamar de supra-sumo da MPB, então é factível que o simpático compositor mineiro, tema desta crônica, esteja sempre por aí, distribuindo seu sorriso e discorrendo sobre algum “novo trabalho”.



Escrito por Álvaro às 08h35
[] [envie esta mensagem] []



Establishment

 

Existe, até certo ponto, uma discussão sobre o que deve de fato ser considerado preconceito, pré-julgamento ou mesmo senso comum.

 

Meu intuito não é debater (ao menos, não por ora) as razões semânticas ou pseudo-científicas que existem por trás dessas palavras. Na verdade, acho muito mais interessante me perguntar qual é a origem de certos fundamentos incutidos na população em geral.

 

Ultimamente percebi que existem mais pessoas pensando nisso, ou, pelo menos, levando isso em consideração ao expor suas idéias. Porém, eu só tive contato com esse tipo de insight ao ler “o velho safado”. Bukowski, em seu romance “Mulheres”, lá pelas tantas, pondera que o senso comum não deve ser desprezado (como ocorre hoje em dia de maneira ainda mais corriqueira que nos anos 60, quando o autor redigia sua obra). Certos preconceitos, apesar de não se sustentarem em alguma base sólida, e não terem sido concebidos com qualquer rigor  científico ou filosófico, têm sua origem nas experiências humanas, através das constatações advindas do nosso cotidiano.

 

Um fato inconteste: casar engorda. Ainda não sou casado, mas divido um apartamento com a minha noiva desde o ano passado e, no ínterim desse breve período, contato mudanças indisfarçáveis em minha silhueta. Ao longo da vida, recebi diversas explicações para esse fenômeno. Uma que achei realmente curiosa (mas totalmente lógica) foi dada por um colega de faculdade que, poucos meses depois do matrimônio, já ostentava uma generosa protuberância abdominal: ao fazer uma refeição pra dois, sempre sobra um pouco, mas quase nunca o suficiente para ambos repetirem a dose mais tarde; de modo que uma das partes do casal deve se comprometer com o sacrifício de exterminar toda a comida ainda restante, afim de facilitar a limpeza das panelas e desocupar os recipientes de uma vez por todas.

 

Meu pai, um homem sábio, me trouxe uma explicação mais pragmática sobre os quilos pós-nupiciais: as prioridades de um homem comprometido com a construção de um lar são essencialmente diferentes daquelas perseguidas durante a solteirice; não há mais a obsessão irrefletida em se manter esbelto, graças ao surgimento de novas responsabilidades.

 

A explicação que eu colhi através da minha própria experiência é relacionada ao tempo (tema caro a este blog nos últimos meses). Numa relação adulta a dois, é preciso conciliar carreira, estudos, afazeres domésticos, etc. com espaços no dia-a-dia para cultivar a intimidade do casal e outros para cada um, tanto o homem quanto a mulher, desempenhar atividades essencialmente solitárias (como ler, escrever, costurar, assistir filmes do Bruce Lee, e por aí vai). No meio disso tudo, há a questão da alimentação. Não há hipocrisia aqui: é preciso economizar tempo, seja comendo, seja no preparo dos alimentos. E não há papo de nutricionista que me convença que é viável se alimentar várias e várias vezes por dia, em todos os dias da semana, sempre com alimentos frescos e preparados artesanalmente. Isso não existe!

 

Tem também o fato da redução do tempo dedicado a atividades físicas. Dentre as atividades solitárias expostas acima, deveria haver também a prática de algum esporte. Mas fica complicado manter esse hábito em um dia de apenas 24 horas (considerando-se o que deveria ser prioritário pra cada um). Acabamos nos tornando esportistas de fim-de-semana (o que acaba tornando o exercício em um mero lazer, sem conseqüências práticas nos depósitos de tecido adiposo).

 

Enfim, de um jeito ou de outro, seja qual for a explicação adotada, a sabedoria popular acaba por ser empiricamente confirmada. E, no que se refere aos clichês (todos eles) aventados quando o assunto é casamento (uma das partes deve estabilizar-se financeiramente antes de dividir uma casa com o cônjuge, um casal onde o homem é mais velho tende a ser mais tranqüilo, contato em excesso desgasta a relação, casar engorda, deve-se fugir da rotina a todo custo, etc.), acreditem, são testados e aprovados com louvor durante o cotidiano de qualquer casal. Por isso eu sempre achei natural que alguns preconceitos persistam mesmo durante uma época em que o politicamente correto subjuga a porretadas toda e qualquer manifestação contrária.

 

Agora, por que raios que hoje, sexta-feira 13, é o dia do azar, eu já não sei... hehe.



Escrito por Álvaro às 12h58
[] [envie esta mensagem] []



Faz tempo já...

 

O tempo é um tema recorrente no pensamento humano. Li recentemente em um blog de um amigo (http://bufonada.tipos.com.br) que diversos pensadores já se debruçaram sobre esse assunto e dedicaram páginas especiais de suas obras a essa abstração tão concreta com a qual temos que lidar. Mesmo sem saber disso, em 1º de julho do ano passado, cheguei a postar um texto neste espaço tratando sobre a relatividade do tempo sob o ponto de vista que me era alcançável à época.

Passado quase um ano, o tempo que estive sem postar absolutamente nada neste blog (que um dia cheguei a pensar que pudesse me trazer algum tipo de perspectiva financeira – hahahaha!), a linha temporal me parece mais estapafúrdia do que nunca.

Einstein nos ensinou que o tempo passa mais rápido para corpos em movimento do que para corpos parados. Sempre me perguntei como a gente faria pra explicar isso para alguém leigo em física (como eu). Hoje em dia, quase um ano depois de tudo isso, compreendo perfeitamente.

A explicação é perturbadoramente simples: para que a vida (e o tempo) passe rápido, basta... viver! Sempre fui um homem de sonhos, projeções, teorias. A concretude do meu ser se resumia ao que eu comia e evacuava. Superado o grande fantasma da minha vida (a solteirice involuntária), os sonhos se tornaram metas, as projeções viraram objetivos e as teorias, ações. Tudo se torna palpável. Ação e reação se intercalam com uma velocidade que chega a ser difícil distinguir qual que é qual. E as conseqüências são sempre (sempre!) imediatas, estejamos preparados ou não.

Descobri nesse meio-tempo que o tempo (veja só!) é muito mais cruel para as mulheres.
Principalmente para a cabeça delas. A eterna condição feminina, da luta constante entre menina e adulta, tende a se acirrar e a distância entre um estado de espírito e o outro se acentua com o passar dos anos. Um lado exige cada vez mais do outro e os períodos de trégua/armistício ficam mais escassos dia após dia.

E, enquanto a mulher enfrenta em seu cotidiano essa dualidade entre passado e futuro, o homem procura assegura-la de sua disposição em domar o presente, na ânsia por aliviá-la dessa angústia, cuja exacerbação tende a ser crônica.

Não é fácil... Os desafios são tantos que esgota a ambos. O tempo passa a ser pequeno, escasso, precioso. O que se pode fazer em uma hora? Isso é pouco ou muito? Já pensou?
Já sabe a resposta? Cuidado para não perder nem um instante! Exite um segundo e já terá se passado três.

Ler, ultimamente, está difícil. Pensar, só deitado e com sono. Escrever, impraticável.

Preciso estudar. São leis idiotas que serão cobradas em uma prova idiota, em mais um concurso idiota, para concorrer a um cargo idiota, em uma repartição pública idiota, provavelmente forrada de pessoas idiotas, com suas diretrizes idiotas, que reproduzem seus padrões comportamentais igualmente idiotas. Mas o idiota aqui, depois de um curso frustrado de Economia (e a ausência de pais suficientemente idiotas a ponto de impedir que o filho se dedique aos estudos, sem dar preferência a algum empreendimento profissional), sem pé-de-meia e com um soldo mensal que beira o risível, precisa correr contra o tempo perdido.

No entanto, viver é adaptar-se. Não que seja fácil moldar a rotina (cada vez mais hermética) ao meu bel-prazer. Mas o tempo possui brechas. E, por mais paradoxal que pareça, elas só são visíveis quando aceleramos o nosso passo e o caminho se torna mais estreito.

Ultimamente tenho encontrado algumas brechas. E tenho encontrado falhas em meu cotidiano. E é exatamente sobre essas falhas que eu preciso escrever. Mesmo que eu não tenha mais tempo pra isso...



Escrito por Álvaro às 22h56
[] [envie esta mensagem] []



Beleza é fundamental

 

Me intriga o fato de jamais ter encontrado algum homem que consiga admitir que seu poder de sedução advenha da sua beleza. Jamais.

 

O engraçado é que, em proporção menor, isso também ocorre com aqueles que se tornam atraentes pelo sucesso financeiro. O que diferencia os dois grupos de homens é que dentre os últimos há uma porção razoável que admite que, uma vez despossuídos de seus recursos orçamentários, ficariam virtualmente impossibilitados de conquistarem as mesmas mulheres com as quais se relacionam.

 

Não é difícil descobrir o porquê de tal relutância em admitir essa vantagem competitiva. Homens gostam de ter a sensação de que conquistaram suas posses. Em se tratando de mulheres, eles preferem imaginar que prendem a atenção delas devido ao seu magnífico poder de persuasão, seu singular modo de conversar, seus trejeitos excepcionais e seu estilo de vida único.

 

É óbvio que ser uma pessoa instigante, saber levar um bom papo, ter assuntos que despertem interesse e ter o dom de convencer aqueles ao seu redor de que possui uma personalidade que lhe destaca positivamente dos demais (ou seja, ser carismático) ajuda, e muito, na hora da paquera. Porém, não há poder de convencimento no mundo que seja mais atraente do que a beleza.

 

Alguma dúvida? Pense bem a respeito das mulheres mais bonitas que conhece e dos homens mais belos com quem já conviveu. Uma quantidade razoável dentre essas mulheres bonitas já formou par com um conjunto de homens um tanto quanto sem-graça, certo? No lado masculino, a situação não se repete; homens bonitos, em sua esmagadora maioria, sempre conseguem pra si mulheres interessantíssimas. E eles jamais deixarão de se vangloriar, não pela sua beleza, mas pelo seu charme irresistível.

 

Como eu disse acima, homens gostam de ter pra si o sentimento de conquista, de batalha, de disputa. Atrair os olhares da mulher desejada, de bandeja, só porque ela se fascinou pelos seus traços físicos não é mérito algum.

 

Somos todos educados a treinar e aperfeiçoar, sempre que possível, nossas técnicas de conquista. Crescemos tendo em mente que um sujeito conquistador é aquele que mantém determinada postura diante de tais situações, que deve se posicionar de um jeito certo, ter um olhar adequado, exibir seu porte, saber sempre o que deve dizer... enfim, ele deve demonstrar “atitude”.  Quando se nasce bonito, as coisas acontecem na sua vida de uma maneira mais, digamos, fluida. E é difícil perceber até que ponto esse sucesso se deve à sua aplicação em ter aprendido bem a “lição” ou se há algum outro fator externo operando a seu favor. A tendência é que os homens nessa situação acreditem que desenvolveram um poder de sedução acima da média (afinal, se as coisas estão rolando, é porque fizeram a lição de casa direitinho).

 

Conversando a respeito com um primo, quando eu expus a ele que apenas por andar no meio de um grupo de meninas ele já atraía seus olhares (ou seja, que é óbvio que sua relativa facilidade em atrair parceiras não depende somente de suas habilidades retóricas), ele me olhou espantado e me disse: “Eu nunca pensei nisso antes”. Confesso que me espantei com essa resposta. Eu também nunca tinha imaginado que ele não tivesse cogitado isso. Dito de outra forma, ele jamais pensou que seu “sex-appeal” derivasse de seus dotes físicos; e eu, em nenhum momento até então, havia levantado a hipótese de ele não admitir isso simplesmente porque não conseguia enxergar essas situações da maneira que eu sempre enxerguei.

 

A explicação que eu encontrei tem a ver com essa necessidade que o homem tem de dar uma espécie de satisfação pra si mesmo por tudo aquilo que possui. Muitos homens ricos ainda conseguem admitir que sua condição os coloca num patamar acima dos demais porque vêem mérito em seu afinco para acumularem a fortuna que possuem – sua riqueza é produto de suas habilidades, sua inteligência, seu empenho e seu enorme senso de preservação. Agora, que mérito tem um homem que, simplesmente, nasceu privilegiado pela natureza? A resposta a essa questão é tão óbvia que, após breve reflexão, não me admira que ele não seja capaz de sequer formular essa pergunta a si mesmo.



Escrito por Álvaro às 11h41
[] [envie esta mensagem] []



Amélia

 

Conheci uma mulher que estava enfrentando certas dificuldades em seu relacionamento porque o marido lhe impunha uma rotina de afazeres domésticos que a estava deixando esgotada. Deixo claro, logo de início, que se trata de uma profissional, que passa cerca de 12 horas por dia fora de seu lar, com inúmeras situações a administrar em seu ambiente de trabalho, e não uma dona-de-casa em tempo integral.

 

Me espanta um pouco ver esse tipo de ocorrência em pleno século XXI. Mas o que eu acho ainda mais curioso é constatar a freqüência absurda com que isso acontece.

 

A situação-limite desses casos é quando o marido exige que sua esposa não trabalhe fora de casa, para se dedicar inteiramente ao lar. Mas isso já é algo significativamente raro – é fácil encontrar esse tipo de situação nas periferias das grandes cidades ou mesmo em cidades muito provincianas do interior, mas é   mais algo residual, e não o padrão comumente estabelecido em outros tempos.

 

Há, claro, um importante componente em nosso tecido social que se chama machismo. Muitos e muitos homens de meia-idade simplesmente se recusam a sequer conhecer a rotina doméstica de onde moram. E, paralelo a isso, há também a forte crença no mito de que o serviço que as mulher presta fora de casa é sempre mais leve e suave, justificando, assim, o cansaço masculino em contraste com a disposição feminina. Aliás, não são poucas as mulheres que perpetuam esse tipo de comportamento ao estimularem suas filhas a lhes acompanharem nos afazeres da casa enquanto permitem que os filhos só colham os benefícios do lar arrumadinho e da mesa farta.

 

Minha família é peculiar, minha criação é diferente demais de qualquer parâmetro minimamente comum. Cresci vendo meus pais dividindo as tarefas de casa – e notando que em diversas delas meu pai era até muito mais apto do que a minha mãe para desempenhá-las. Mas, enfim, isso não é a regra, então, mesmo que eu venha a casar um dia e venha a tomar a dianteira em uma série de situações tipicamente "do lar", não posso exigir que meus congêneres adotem a mesma posição.

No entanto, algo que eu acho muito curioso é ver que boa parte dos meus amigos simplesmente não tem a menor inclinação para desempenhar qualquer função doméstica. E isso não ocorre devido a um eventual comportamento machista por parte deles, mas por que eles simplesmente são acostumados demais com o comodismo advindo da presença de empregadas domésticas em seus lares. Eu acho tão engraçado ver que homens que, mesmo solteiros e morando sozinhos, ou com amigos e irmãos (ou seja, longe de suas mães), têm uma dificuldade tremenda para lavar talheres ou preparar refeições básicas.

  

O paralelo que ocorre a isso por parte de um grupo (felizmente, reduzido) de mulheres é a renúncia ao lar e suas atribuições. Algumas não querem casar (ou assim querem ser reconhecidas), outras se proíbem de aprender a desempenhar qualquer tarefa doméstica que seja. "Forçar" um feminismo idiota, se recusando a ajudar em casa, também não e a solução. O ideal é que todos ajudem, até porque a existência de empregadas domésticas a torto e a direito só é explicada no Brasil pela abismal desigualdade social que existe em nosso País. Logo, ao torcermos para que o Brasil se livre de uma de suas piores características, devemos nos conformar também com a perda de certas comodidades contemporâneas.

 

A vaidade é um dos principais atributos da personalidade feminina. (Pelo menos o é nas mulheres interessantes.) Mas se formos considerar essa vaidade tola descrita acima, onde algumas mulheres acham que é motivo de orgulho chutar pra cima todas as tarefas do lar a título de "atitude" ou de "independência", daí (e somente nesse caso) passa a fazer todo o sentido do mundo a letra do samba antigo, tão lindamente interpretada pelo cantor paulista Noite Ilustrada, que declamava:

 

Amélia não tinha nenhuma vaidade

Amélia é que era mulher de verdade



Escrito por Álvaro às 11h29
[] [envie esta mensagem] []



Tempo

Fiquei vários anos com a sensação de que os eventos que fazem parte da minha vida não se desenrolam com a mesma velocidade encontrada na vida das outras pessoas. Volta e meia eu parodiava a música do Cazuza e cantarolava: “O tempo não passa”.

 

Me desconcertava um pouco ouvir os mais velhos dizerem que a vida passa rápido, que devemos aproveitar a nossa juventude e coisas do tipo. O que me deixava sempre muito intrigado é a constatação de que “aproveitar” a vida não é algo que dependa somente de minha vontade...

 

De uns meses pra cá eu tenho percebido que, sim, a minha vida é pautada pela cadência, as coisas simplesmente demoram muito (muito!) pra acontecer pra mim, mas que, de um jeito ou de outro, tudo (ou quase tudo) vai se acertando – e me ajudou um pouco também constatar que outras pessoas próximas a mim sofrem com esse mesmo problema. Só que essa demora toda me faz agir e pensar como alguém que tem uma idade muito inferior à minha. Às vezes eu me surpreendo quando eu penso em alguém que tenha, digamos, 25 anos, e atribua a ele uma gigantesca experiência e maturidade, para, segundos depois, eu pensar melhor e ver que EU tenho 27 anos!

 

É terrível pensar que um moleque de 16 anos saiba muito mais sobre uma porção de coisas do que eu. É pesaroso constatar que a minha irmã de 15 anos tem uma vivência mais frutífera do que a minha em áreas importantíssimas da vida. É complicado notar que eu me faço as mesmas perguntas que eu fazia quando tinha a metade da minha idade atual. E é muito duro perceber que, exatamente por não ter adquirido esse conhecimento, a minha vida é marcada por uma imprevisibilidade que só faz sentido (e tem até certa graça) quando se é bem mais novo do que eu.

 

Isso me remete ao dilema do jovem desempregado, que é desempregado por não ter experiência e não tem como desenvolver experiência nenhuma por não conseguir se empregar – situação essa que cabe como uma luva em minha vida e, como não poderia deixar de ser, não houve como eu escapar dessa sina por longos e intermináveis 4 anos.

 

Uma vez que tudo na minha vida se desenvolve de maneira muito vagarosa, me é recorrente a sensação de que eu estou sempre atrasado nas situações que são postas diante de mim.

Eu gosto de um tipo de mulher que é muito cobiçado. Talvez o mais cobiçado de todos. Eu gosto de mulheres femininas, delicadinhas, caprichosas, que curtam coisas simples e sejam um pouco idealistas. Em questão de semanas de convívio meu coração já começa a dar cambalhotas de alegria diante da presença de uma mulher com essas características. Depressa demais? Que nada...  Esse tipo de mulher, como eu disse, é muito cobiçado. Em primeiro lugar, é dificílimo encontrar moças assim solteiras. Em segundo lugar, quando eu encontro uma que esteja solteira, mesmo que eu desenvolva em um tempo razoavelmente curto algum sentimento mais forte por ela, sempre eu encontro em meu caminho algum homem que foi ainda mais rápido e foi bem-sucedido ao expor suas considerações a ela.

 

Exemplo emblemático: Entrei na faculdade. Calouro, tudo novo, muita gente pra conhecer, etc. As aulas começaram na primeira semana de março. Em meados de abril eu me aproximo de uma menina da minha classe e digo pra ela que estava gostando dela. Ela me responde que estava de rolo com um cara (que viria a ser o namorado dela pelos 3 anos seguintes). Detalhe: esse sujeito entrou na faculdade na lista de espera, só pôde começar a freqüentar as aulas na segunda metade de março; ou seja, se eu demorei “só” 6 semanas pra me apaixonar por ela, esse colega levou a metade disso.

 

Passei por diversos casos semelhantes. Daí a sensação de sempre estar atrasado.

 

Pessoas próximas me dizem que eu sou ansioso. Me aconselham a não ter pressa, a esperar mais, ser mais paciente. Nunca entendi como. Esperei a vida inteira. Sempre estive à espera de algum milagre que possa me salvar dessa inércia idiota que marca essa minha existência tão tola e inoperante. Ninguém esperou mais do que eu. Ninguém espera mais do que eu.

 

Tenho andado muito mal. Não me emociono mais diante dos meus entes queridos. Há tempos não sinto compaixão por pessoas necessitadas. Me tornei estúpido e egoísta. Eu mesmo não me reconheço. Uma frase bíblica explica a situação: “A esperança que se adia adoece o coração”.

 

Agora eu consigo perceber que, sim, o tempo passa. As conseqüências da sua passagem estão bem marcadas em minha personalidade.

 

Problema diagnosticado. Continuo sem saber o que fazer. O tempo está passando. Vamos aproveitar a vida? Claro! Só me resta descobrir como. Terei tempo pra isso? 27 anos... Isso é pouco ou muito?



Escrito por Álvaro às 21h13
[] [envie esta mensagem] []



Eu sou tudo que você sempre quis

 

Nunca me conformei com aquele verso da famigerada canção “Ana Júlia” (dos talentosos, esforçados e cultuados rapazes da banda Los Hermanos), onde um sujeito em total desespero, em virtude de uma paixão platônica adolescente, declama à sua amada a seguinte sentença: “Sei que eu não sou quem você sempre sonhou”. Escutando rádio outro dia eu me deparo com uma música do grupo NX Zero (Razões e Emoções), em que a letra também simula um diálogo entre um casal, onde o homem diz algo parecido: “Às vezes acho que não seria o melhor pra você”.

 

Há dois anos atrás eu estava envolvido com uma garota que freqüentemente se depreciava, reclamando da sua aparência quando eu estava presente. Sempre pensei que eu não era exatamente a pessoa com quem ela deveria desabafar esse tipo de coisa – além de ser desagradável ouvir isso, ela deveria se tocar que eu não a admiraria mais por ela me alertar o tempo todo sobre o quanto era feia.

 

Vivendo e aprendendo... Ainda que eu tenha problemas seriíssimos na minha relação pessoal com os meus dotes físicos, jamais tive vontade nenhuma de partilhar esses sentimentos com as minhas parceiras; porém, eu as incomodava com algo igualmente grave quando expunha a elas certos dilemas existenciais e complicações familiares. Toda vez que eu via aquela menina se humilhando e expondo pra mim o quão débil era a sua auto-estima, me sentia profundamente incomodado por saber que eu agia da mesma maneira com outras pessoas.

 

Porém, é inegável que eu sempre tentei, muito mais, transmitir os aspectos positivos da minha personalidade. Logo, não havia tanto o que corrigir em minha conversa quanto aos assuntos abordados (talvez haja, e bastante, lapidações a serem feitas no modo de expor as minhas idéias, mas isso é assunto pra outro dia).

 

O fato é que eu nunca consegui ver qualquer vantagem ao se humilhar diante de alguém (principalmente ao levarmos em conta que essa pessoa é o seu objeto de desejo), escancarando seus defeitos e declarando, em alto e bom som, que está aquém daquilo que a outra parte anseia. Se estou afim de uma mulher, eu só consigo pensar em lhe dizer as minhas particularidades elogiáveis – ou pelo menos aquilo que eu considero de seu interesse. Além do que, eu sou suficientemente pedante pra me considerar, de fato, o que de melhor pode acontecer na vida daquela mulher, hehe.

 

Porém, o engraçado mesmo nisso tudo é ver o quanto é fácil ser ridículo quando se sente a necessidade de declarar o amor que sente a alguém e tentar despertar algum tipo de interesse naquela pessoa.



Escrito por Álvaro às 11h18
[] [envie esta mensagem] []



Compromisso

Sempre me incomodou um pouco essa idéia, tão disseminada, de que homens não querem compromisso. Volta e meia ouvimos alguma mulher dizer que “hoje em dia, os homens sempre fogem dos relacionamentos sérios”. 

Duas perguntas me vêm à cabeça: Os homens têm mesmo esse medo todo de assumirem uma mulher como sua companheira? Houve época em que isso fosse menos ou mais evidente do que atualmente? 


A resposta à segunda pergunta é um simples não. Jamais tive alguma razão para acreditar que os homens de outrora se comportavam em relação às suas mulheres de maneira diferente do que fazemos no século XXI. Talvez os casais encarassem certos desvios comportamentais de maneira diversa e tudo que saísse fora daquilo que fosse socialmente aceito permanecia restrito a seus assuntos internos. Havia uma menor exposição sentimental e não se comentava tanto a respeito de relações alheias. 


A primeira pergunta já demanda uma explicação mais complexa. É um fato que homens “fogem” de relacionamentos “sérios” com as mulheres. Assim como também é um fato que as mulheres igualmente o fazem. Casais sólidos se formam quando há empatia mútua e não só por mera conveniência. Nem tudo que se oferece é aceito de imediato. A diferença principal entre homens e mulheres, nesse caso, se dá na maneira como é feita essa “fuga”. 


Em linhas gerais, os homens cortejam as mulheres. Existem, claro, situações cotidianas diversas em que as mulheres tomam a dianteira e deixam bem claro aquilo que sentem, mas o que ocorre com uma freqüência muito maior é a exposição masculina de seus desejos. E não se trata aqui, obviamente, de ambientes ligados única e exclusivamente à paquera, mas pequenas ocorrências rotineiras que preenchem o nosso dia-a-dia. Para se ter uma idéia do que eu digo, pensemos nos seguintes termos: quantas vezes por dia uma mulher é elogiada e quantas vezes um homem tece elogios; quantas vezes por dia um homem lança propostas afetivas e quantas vezes uma mulher as recebe; quantas vezes por dia uma mulher é desejada ardentemente pelos homens que estão por onde passa e quantas vezes por dia um homem deseja ardentemente as mulheres que desfilam em suas vistas. Ou seja, em um sentido amplo, descontextualizado, os homens tendem a tomar a dianteira em relação às mulheres no campo do flerte. 


E os homens tomam a dianteira no sentido de se mostrarem, de serem percebidos, de chamarem a atenção. Isso se dá graças às diferenças (fisiológicas, culturais, psíquicas e sociais) entre os gêneros. Homens cortejam e mulheres são cortejadas. O que implica em dizer que, no fundo, pensando bem, mulheres selecionam e homens são selecionados. O que nos leva à seguinte pergunta: Quem é o ativo e quem é o passivo nessa história? 


Essa pergunta, embora capciosa, contudo, é meramente retórica. Retórica porque é feita para atestar uma teoria um tanto frágil: a de que são as mulheres as maiores responsáveis pela dificuldade em se manter relacionamentos duradouros, visto que a incumbência pela formação do casal decorre de seu poder de escolha. 


Essa teoria, no entanto, embora repleta de fraquezas, me ajuda a entender o porquê de tantas reclamações femininas quando o assunto é compromisso (ou falta dele) na manutenção das relações. Como? Vejamos. 


Jamais conheci algum homem que, uma vez encontrada uma mulher que realmente chame a sua atenção, tenha vontade de se relacionar com ela de maneira esporádica, fugaz e despretensiosa. Jamais! Em contrapartida, praticamente todos os homens que eu conheço têm ou já tiveram relacionamentos com mulheres que não são minimamente admiradas por eles, mas que mantêm ao seu lado por mera conveniência (sexual, social ou as duas coisas). Vistos de fora, esses relacionamentos artificiais apresentam algumas características em comum: casais infelizes, ressentimentos de ambos os lados e traições pouco veladas. O fato dessas traições quase sempre serem feitas pelos homens não tem nada a ver com alguma predisposição genética exclusivamente masculina – embora exista, claramente, um número maior de homens do que de mulheres que, simplesmente, não foram feitos para ser monogâmicos, não é da natureza deles (mas isso já é uma questão que foge ao âmbito do que está sendo tratado aqui). O que faz esses relacionamentos serem tão marcados pelo descompromisso masculino é o fato, difícil de ser admitido, de que os homens simplesmente não gostam das mulheres que estão ao seu lado. Não gostam. Simples assim. Se alguma vez houve encanto, já passou; e é a coisa mais rara do mundo este voltar. 


Para entendermos a razão de tanto sofrimento continuado, voltemos à tal teoria exposta acima, a de que as mulheres são as responsáveis diretas pelo sucesso (ou fracasso) dos relacionamentos, dado o poder de escolha restrito às suas mãos. A crença, inconsciente, nessa teoria, impõe a muitas mulheres um fardo enorme: são elas as únicas a arcar com a responsabilidade da relação dar certo. Quando ocorre a tal seleção, o medo de, mais adiante, constatar que errou de opção, faz essas mesmas mulheres persistirem no que eu considero o maior dos equívocos a serem feitos por uma das partes do casal: querer moldar o companheiro e estruturá-lo de modo a corresponder aos seus anseios. Mudanças de personalidade são virtualmente inexistentes e todos sabemos disso; mas sabemos também que é muito difícil admitirmos (até pra nós mesmos) que falhamos ao eleger a pessoa para compartilhar os momentos mais importantes da nossa vida (principalmente quando temos tantas opções à nossa volta). 


Outro dia eu ouvi uma moça (linda!!!) resignada dizendo que não sabe mais por que continua com seu namorado infiel. Na verdade, ela sabe muito bem: o receio de não conseguir encontrar ninguém melhor do que ele a faz suportar tais agruras. O que eu achei curioso nesse caso é que esse receio atingiu uma proporção tal que não a deixa perceber que possui tantas qualidades (ela não é só bonita, mas também muito inteligente, simpaticíssima e esforçada) de modo a tornar absolutamente improvável uma eventual solidão. 


Voltando ao mote inicial, de que as pessoas “fogem” dos relacionamentos “sérios”, o que eu tenho a dizer, após essa longa exposição, é que as mulheres tendem a fugir destes tanto quanto os homens. Homens se oferecem a muitas mulheres que não lhes interessam. Em contrapartida, mulheres não se atentam a muitos homens que, no meio de tantos que se apresentam, estão realmente dispostos a se comprometer por elas. Homens fogem das mulheres que eles conquistam, mas não os cativam (mesmo sendo elas repletas de qualidades). Mulheres fogem dos homens que procuram atraí-las, mas não conseguem fasciná-las (mesmo que eles possuam excelentes intenções). 


As mulheres não sabem eleger os parceiros adequados aos seus anseios. Os homens são incapazes chamar a atenção das mulheres certas, aquelas que realmente lhes trará alguma felicidade de modo mais perene. De quem é a culpa?



Escrito por Álvaro às 21h37
[] [envie esta mensagem] []



Ora, o olhar

 
Sempre achei curiosa a idéia de se seduzir alguém pelo olhar. Até porque é algo que eu jamais consegui fazer – o que, com certeza, me fez permanecer terrivelmente cético a respeito dessa possibilidade.
 
De uns tempos pra cá, eu até admito que a tal sedução pela via ocular seja recorrente em diversos relacionamentos. Mas, claro, tenho minhas restrições quanto à probabilidade disso vir a acontecer.
 
Pra começo de conversa, sedução via olhar é algo que só pode atingir pessoas que nutram certa atração sensorial pela fonte. Em outras palavras, considero ínfimas as chances de um sujeito feio fazer uma mulher se aproximar dele graças à maneira que este pousa sua visão em seu objeto de desejo.
 
Ao serem indagadas quanto ao que lhe despertam a atenção para um homem, ouço moças dizerem “o olhar”. Daí perguntam: “como assim?”, ao que é respondido “ai, tipo aquele do Brad Pitt”. Então, tá... hehe...
 
Logicamente, nem todas as mulheres são tão obtusas em suas respostas. E várias discorrem sobre as suas razões quanto ao que, de fato, chama a atenção em um homem cuja arma de sedução principal é o olhar. Às vezes um olhar pode demonstrar sobriedade e retidão de caráter. Outras vezes pode revelar inteligência, vastidão intelectual e bom nível de cultura. Pode ser também um sinal de excelente situação financeira. E, ainda, maturidade no sexo, controle sentimental e bom domínio de corpo e mente.
 
Tudo isso é, de fato, revelado pelo olhar – e outros componentes da estampa da pessoa em questão, tais como postura, gestual, tom de voz, etc. Mas a questão na qual me debato sempre em relação a esse assunto tem a ver com a seguinte constatação: para que o olhar de uma pessoa lhe transmita todos esses tipos de informação, é necessário que você mire seu campo de visão no rosto dessa tal pessoa durante um certo período; e, para que você sinta a vontade (ou mesmo a necessidade) de realizá-lo, esse rosto em questão deve ter um aspecto, no mínimo, agradável. É gostoso olhar para um rosto bonito. Eu mesmo, quando vejo uma mulher bonita, a minha vontade é de apreciar a sua beleza sem me dar conta do tempo gasto nessa atividade (se segundos, dias ou décadas).
 
Agora, um rosto feio não interessa a ninguém. Jamais se analisa um rosto esquisito, com traços grosseiros e feições medíocres. Logo, não possuo nenhum motivo pra acreditar que o olhar de um feioso desperte o interesse de alguém à sua volta, dado que ninguém o fita durante tempo o suficiente para tecer análises profundas quanto ao que ele tem a oferecer. Desviamos o nosso foco do que não nos agrada. Natural.
 
Hoje em dia, aceito pacificamente que uma mulher me diga que gosta daqueles que se insinuam através do olhar. Essa é uma forma de sedução, de fato, mais sutil, profunda, delicada. O que ocorre nesse tipo de situação é a revelação, passo-a-passo, da personalidade da pessoa; seus segredos vão sendo descobertos pausadamente, sem pressa nem desespero; tudo vai se encaixando de forma lenta, harmoniosa; a conquista se dá por completa quando já se tem uma boa noção quanto ao que pode ser oferecido pela outra parte. É o que a maioria das pessoas deseja.
 
Jogo em outro time. Sou daqueles que têm paixões arrebatadoras, furiosas. Quando quero me aproximar de uma mulher, desejo isso ardentemente. Não tenho tempo para divagações quanto ao que ela possa estar pensando; jamais tive vontade de caminhar dois passos e voltar um, esperar a reação do outro lado. Tenho pressa de viver!
 
Me ocorre agora um paradoxo. Para que eu seja capaz de despertar um desejo tão fulminante e imediato assim em uma mulher, não bastaria a mim ter uma feição “agradável”, como eu disse acima. Eu precisaria, sim, ter um rosto incontestavelmente lindo!
 
Humm... E agora?



Escrito por Álvaro às 12h15
[] [envie esta mensagem] []



100%
 
Na hora do almoço, um rapaz chega e me fala: “O que você acharia se visse um cara vestindo uma camiseta escrita ‘100% Branco’?”. Embora eu tenha lá as minhas opiniões a respeito de afirmação racial e esteja ciente acerca de todas as asneiras que são envolvidas no debate quanto a ações pró-étnicas, suponho que não é bem o momento sagrado de minha refeição o mais apropriado para responder a tais questionamentos. Em todo caso, disfarço o meu engasgo e passo a declamar as minhas considerações a respeito do tema ao meu desatento interlocutor. Digo-lhe que, a princípio, esse tipo de atitude é, no mínimo, equivocada e, no máximo, uma provocação sarcástica. O rapaz é inteligente e, ao invés de me cobrar explicações pormenorizadas, passa a refletir sobre o que eu disse.
 
Ao relembrar esse fato, já no conforto do lar, me pego fazendo as devidas meditações quanto ao que me levou a decretar tais considerações ao meu colega de almoço curioso. Um garoto que leve escrita ao seu peito uma frase como “100% branco”, logicamente não o faz com o mesmo propósito de algum outro jovem que carregue consigo a sentença “100% negro”. Isso é óbvio e claro; não há discussão quanto a isso. Alguém que chegue ao ponto de vestir-se de uma maneira assim, declarando aos 4 ventos sua condição de negro, está somente tentando dizer que é negro, mas é gente. Uma atitude pra lá de exagerada, tola, infantil, pretensiosa e inocente – e isso também não é algo passível de discussão. Não existem motivos para acreditar que um negro que se apresente de maneira adequada ao ambiente e seja bem articulado precise lançar mão de tais artifícios para obter aceitação da maioria à sua volta. Não existem.
 
Quanto ao rapaz branco que traz anexo à sua estampa a situação genética que o caracteriza, provavelmente estaria apenas tentando provar a si mesmo que pode fazer algo do tipo, que é possível, que há liberdade para que isso seja feito. Seus objetivos podem ser variados. Pode ser por protesto, por deboche, por sarro, por fanfarronice, por racismo puro e simples ou por mera contraposição de idéias. De qualquer jeito, será sempre uma atitude intencionalmente (ou pretensamente) provocante.
 
O raciocínio feito por trás disso é simples: a condição do branco não está e nem jamais esteve em cheque na civilização ocidental. Logo, não há sentido algum em afirmar-se enquanto branco, visto que não há qualquer indício de que isso venha a ser, de fato, uma manifestação de clamor pelo respeito à condição alheia. O que, talvez, não seja tão simples é a razão (ou as razões) que formataram a sociedade a agir dessa maneira. Isso tem a ver com a cultura e o modo de pensar herdados das populações européias pós-idade-média. Com a imposição de certos valores políticos, sociais, econômicos, religiosos e filosóficos, as civilizações ocidentais prosperaram de maneira incontestável durante os últimos séculos, a ponto de assistirmos suas línguas, sua produção cultural, suas moedas e seus valores morais invadirem todas as fronteiras do globo. O motivo é axiomático: a qualidade que tais representações agregam à vida de seus reprodutores deixa pouco ou nenhum espaço para alternativas.
 
E isso é bom! Um historiador japonês disse certa vez: “Democratizar é ocidentalizar”. Claro! Modelos sociais que hoje parecem inacreditavelmente óbvios e são o que permitiram ao mundo sair da barbárie e das tolices que envolviam a monarquia e suas respectivas superstições absurdas foram criados no Ocidente durante a Idade Moderna. É lógico pensar que as sociedades que mais se modernizaram, humanisticamente e economicamente, foram justamente aquelas que melhor souberam se aproximar desses modelos.
 
Pessoas mais contestadoras afirmam que esse processo, no entanto, embora agregue valores sociais importantes, sufocam as mentes que possam propor alternativas a tal modelo. Quando ouço esse discurso, imediatamente me vêm à cabeça duas singelas perguntas. Primeira: Há alternativa? Ninguém anda me convenceu de nenhuma; algo que seja viável, justo e que traga prosperidade aos cidadãos... confesso que gostaria de conhecer alguma. Segunda pergunta: Sufoca o quê, cara pálida? Produção cultural, ações sociais, liberdade de expressão, fluxo de idéias e manifestações filosófico-ideológicas são sempre bem-vindas em qualquer sistema que seja conduzido pelas regras da cultura político-democrática advinda dos povos euro-ocidentais.
 
Exemplos simples quando se mora no Brasil: Diz-se muito que a importação de música pop anglófona estaria reprimindo a  produção de música local. Oras, como? Os artistas que batem recordes seguidos, tanto de vendas de discos quanto de audiência em shows não são as boys bands norte-americanas nem os grupos de rock do norte da Europa, mas sim duplas sertanejas, conjuntos de pagode e cantoras baianas. Ainda que seja discutível a qualidade de tais manifestações musicais, um fato é inegável: São produtos feitos por e para brasileiros, sem intermediários, gerando empregos e renda entre brasileiros. Outro tipo de contestação que se ouve muito é quanto ao suposto bloqueio que há à teledramaturgia nacional decorrente do fluxo constante de filmes e seriados norte-americanos que se dá em direção às nossas mídias. Me pergunto como... As obtusas “revistas de celebridades” locais não se vendem estampando atores de Holywood em suas capas, mas os atores das novelas noturnas e vespertinas, bem como exibem reportagens acerca de apresentadores brasileiros, diretores nacionais e os responsáveis por toda a produção dramática (televisiva ou não) feita por e para brasileiros, com o uso do português em todas essas representações.
 
Não há muito mais a se dizer mais quanto a essa questão do suposto cerceamento ao livre pensar que o predomínio dos valores ocidentais “impõe” aos que convivem em sua redoma. O que há, sim, é uma seleção natural entre o que é bom e o que é descartável; entre o que é interessante e o que é irrelevante; entre o que agrega e o que só enche lingüiça. Toda e qualquer manifestação idealística que se sustente por si só – ou seja, que atraia a atenção das pessoas, que se demonstre valorosa, que tenha virtudes facilmente perceptíveis – obterá facilmente o seu espaço. Assim, uma pessoa que traje vestes onde se lê “100% negro”, na verdade, está confessando a total inaptidão que a sua condição tem de chamar a atenção por si só. O “movimento negro” e outras aglomerações sociais do tipo são completamente dispensáveis na medida que a cultura que eles julgam necessitar de preservação seja auto-suficiente. Em outras palavras, que essa ideologia, essa consciência conjunta seja atraente por si só, sem a necessidade de clamores de outrem para chamar a atenção das pessoas.
 
Quando eu vejo alguém com uma camisa “100% negro”, a minha vontade (sincera), é me colocar diante dessa pessoa e perguntar: “E daí?”. Se é que há algum tipo de vantagem em ser 100% negro, isso deve ser evidente; evidente de tal modo que não haja necessidade alguma de declamar isso a quem quer que seja. O “100% branco” também não faz sentido sob essa ótica, visto que sua condição é axiomática – daí a razão pela qual eu interpreto que esse tipo de atitude é mais uma provocação (inocente ou não).
 
O que, talvez, seria melhor aos negros que sentem essa necessidade de auto-afirmação é deixar que sua condição fale por si só, sem que seja preciso “explicar” as suas qualidades. Afinal, jamais negro algum teve que “convencer” um branco a gostar de samba. Por que não encararmos as demais contribuições que os negros tem a oferecer à sociedade como encaramos o samba? Samba é bom, atingiu um ponto de sofisticação altíssimo, foram inventadas vertentes pra inúmeros os gostos e atingiu todos os setores da sociedade brasileira. Se os negros têm alguma coisa a mais a contribuir para o Brasil, que isso seja absorvido naturalmente, sem berrar aos 4 ventos para que os outros “aceitem” isso. O mesmo vale para outras etnias, que deveriam, em tese, ser "protegidas", e suas respectivas culturas, "preservadas".
 
O que é bom permanece.


Escrito por Álvaro às 17h30
[] [envie esta mensagem] []



Íris

 

Conversa entre dois sujeitos:

 

– Dá pra ver que você ama mesmo ela.

– Como assim?

– Você olha ela na íris do olho dela.

 

Achei curioso. Pensei a respeito.

 

Quando estamos interessados em alguém, de que maneira nós lançamos o nosso olhar a essa pessoa quando estamos diante dela? Tem gente que não consegue fitá-la nos olhos – por timidez, receio de se expor demais, embaraço, medo de envergonhá-la. Outros lançam suas vistas no fundo dos olhos do seu objeto de desejo (independentemente das conseqüências vindouras ou dos sentimentos envolvidos na relação), visto que há um certo consenso universal quanto à importância desse ato.

 

Uma amiga me disse certa vez que se sentia confortável quando determinado rapaz a mirava diretamente no olho. Já ouvi relatos de mulheres que sentem essa necessidade de terem consigo a idéia de que estão em posse de todas as atenções de seu parceiro.

 

Há quem use esse subterfúgio de olhar diretamente nos olhos de seus interlocutores como uma maneira de se impor; uma forma de sedução mascarada; um jeito de adquirir respeito; ou mesmo para demonstrar hombridade (em todos os sentidos advindos desse conceito). Existem pessoas que conseguem emular esse ato, fingem um interesse que, de repente, pode nem existir, mas o fazem para conquistar a confiança das pessoas à sua volta. Outras não conseguem representar dessa forma – e, em muitos casos, se demonstram fracos por conta disso.

 

O que eu tenho percebido é que, à medida em que cresce o sentimento de desejo da pessoa, quando este é sincero, deixa de ser um artifício. Passa a ser algo natural. Você se interessa por aquela pessoa, encara-a de frente, sem jamais desviar seu olhar, visto que não tem mais essa opção. Você se convence de que o único temor que resta é o de perder, por um segundo que seja, a visão daquela pessoa diante de sua presença. Você a fita diretamente em seus olhos, não porque deseja que ela se envaideça por sua capacidade de atrair a atenção de outrem, mas porque deseja saber como suas expressões reagem a cada palavra pronunciada, a cada gesto cometido, a cada sensação experimentada. A curiosidade em conhecer as reações dela diante de você o torna suficientemente interessado, de modo que não perceba mais o quanto está sendo atencioso.

 

Enfim, voltando ao mote inicial, olhar nos olhos da mulher que se ama significa que o torpor causado pela sua companhia o despe de toda forma de auto-defesa que se é obrigado a construir durante a vida social. Não se percebe mais que a troca de olhares é uma via de mão dupla – e, mesmo que haja tal percepção, isso já não importa mais.

 

Não me lembro em qual filme eu ouvi essa frase, mas ela jamais saiu da minha cabeça: “Vencedores estão sempre correndo, mesmo sem se dar conta de que o fazem”. Dizendo de outro modo, pessoas bem sucedidas sempre estão à frente dos demais, ainda que acreditem piamente que seu ritmo não difere da maioria.

 

Seguindo o mesmo raciocínio, mirar a mulher amada diretamente em seus olhos não é algo planejado, mas um sentimento de entrega, troca e confiança... mesmo sem a gente se dar conta disso. Exatamente o aspecto que melhor caracteriza o amor – a falta da necessidade de analisar a situação em que se encontra. Afinal, como diria o poeta, quando se justifica, nada é além de admiração.

 

Não foi uma dedução brilhante do rapaz citado no início do texto, mas foi uma tremenda verdade, na qual eu ainda não havia pensado...



Escrito por Álvaro às 15h50
[] [envie esta mensagem] []



Eu, evangélico

 

Outro dia, em um salão de cabeleireiros, a mulher com a qual eu estou passando a cortar as minhas madeixas com certa freqüência me fez uma pergunta que me intrigou. Ela disse: “Você é evangélico?”. Fazia apenas um mês que eu a tinha conhecido. Era a segunda vez que ela cortava o meu cabelo. Eu mal falo com ela toda vez que vou lá. Como assim, ela já tava por dentro de um traço da minha personalidade que, embora jamais esconda, não faço questão de escancarar pra todos à minha volta? (Diga-se de passagem, tem amigo meu que passou anos e anos sem saber que eu sou evangélico, mesmo convivendo comigo quase que diariamente).

 

Não foi a primeira vez que isso me aconteceu. Quando assumi o meu emprego atual, logo no segundo dia de expediente o rapaz que faz a limpeza do banheiro masculino no andar onde trabalho me fez a mesma pergunta: “Você é evangélico, né?”; ao que respondi com um cortez e sorridente “Sim!”; seguido de uma fala dele que me intrigou ainda mais: “Por isso você tem essa luz”.

 

Eu sempre ouvi dizer que evangélicos reconhecem uns aos outros. Eu mesmo cheguei a acreditar por um tempo que possuo esse dom ao enxergar luzes fortes, estando de olhos fechados, diante de um crente – experiência que, infelizmente, não experimento mais desde que desisti de freqüentar igrejas. Hoje em dia eu consigo, em geral, detectar protestantes em meio ao meu círculo social, mas essa percepção se dá a partir do momento em que eu tenho certa noção quanto ao comportamento das pessoas que estão à minha volta – ou seja, embora não seja algo demorado, não tenho essa capacidade de notar a natureza cristã dos meus interlocutores apenas de olhá-los diante de mim por brevíssimos momentos e trocar meia-dúzia de palavras.

 

Semana passada, conversando com um amigo, comentei a respeito de uma colega. Ela é dessas meninas que, embora tão solitárias, não têm a menor idéia do que fazer para reverter essa situação a não ser esperar por um milagre. Ela não é exatamente uma mulher feia; apenas não é especialmente bonita; tem suas qualidades: conversa bem, é razoavelmente culta e sabe cuidar da aparência (corpo esbelto, unhas bem-feitas, dentes bonitos, roupas finas e bom gosto com os acessórios, enfim, alguém bem feminina). Porém, seu comportamento demonstra claramente que não tem disposição nenhuma para se afastar de certos vícios sociais que restringem tão fortemente as suas chances de conseguir conquistar uma pessoa. Existe a possibilidade (muitíssimo provável, aliás), de que ela não saiba disso, mas o fato é que ela não está preparada para aceitar que seu padrão de exigência não condiz com o que ela tem a oferecer em troca para o seu parceiro.

 

Esse mesmo amigo se espantou com a minha análise. Perguntou como eu sabia disso. Respondi: “Feeling”. Ele se contentou com a resposta, embora tenha permanecido um tanto estupefato. Não acho que seja o caso de se embasbacar com esse tipo de dedução (um tanto lógica, diga-se de passagem...), afinal de contas, pessoas observadoras (e outras nem tanto) conseguem sacar esse tipo de padrão de comportamento –  até porque solteiros são, em geral, pessoas muito mais previsíveis; menos densas e complexas; um tanto infantis, até (mas isso é um papo pra outro dia). Ainda assim, meu amigo se surpreendeu, visto que ele já havia convivido durante longos anos com essa moça, enquanto eu a tinha visto, se muito, umas 4 ou 5 vezes (conversado, então... talvez em uma ocasião) e, mesmo assim, havíamos chegado à mesma conclusão.

 

De todo modo, o que importa, nesse caso, é que, muito embora eu seja um sujeito capaz de captar certas sutilezas comportamentais nas pessoas, muito me espantou a análise feita, tanto pela cabeleireira quanto pelo faxineiro, no que diz respeito a algo tão íntimo quanto a minha religiosidade. Por quê? Bem, talvez por eu ter me tocado que sou tão pouco perspicaz no tocante a questões menos materiais e mais subjetivas. Eu tenho lá certa facilidade de julgar pessoas pelo tipo de sapato que usam, mas não possuo a menor noção sobre o que, de fato, as faz se emocionarem.

 

Utilizando o exemplo da colega citada acima, o que eu vejo ao olhar pra ela é uma menina cheia de sonhos, ansiosa por realizá-los, mas com grandes dificuldades de suplantar as barreiras que os afastam dela. Vejo que os empecilhos existem, porém não sei identificar exatamente quais. Sei que ela tem desejos inalcançáveis, mas quais seriam exatamente esses sentimentos? Seria ela uma hipócrita leviana ou uma pobre alma que sequer sabe o que realmente a torna emotiva? Noto em seu olhar angústia, frustração, esperança, quase desespero, ao mesmo tempo em que sou totalmente incapaz de caracterizar a sua sensibilidade.

 

Uma cabeleireira e um faxineiro, duas pessoas que me deram uma lição e tanto sobre argúcia e sagacidade. Sou um arrogante cínico cronicamente compulsivo, mas nessas horas eu entendo bem o que significa ser humilde e saber admirar pessoas que possuem capacidades que vão muito além das minhas.



Escrito por Álvaro às 14h12
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]





Meu perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, JOSE BONIFACIO, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, English, Livros, Informática e Internet, casado
MSN - bozzomail@hotmail.com



Histórico
Categorias
Todas as mensagens
Aforismos
Resenhas
Contos


Votação
Dê uma nota para meu blog


Outros sites
Nomo Inside
Japão com Legenda
Ópera-Bufa
República "Pão com Barata"
Galeria PCB