Capacidade

 

Durante um ato tão banal quanto ler um jornal, me deparei com uma questão que persiste na cabeça de muita gente que já se aventurou a tentar compreender o Brasil e as relações sociais que forjaram a nossa identidade nacional: afinal de contas, por que raios se dá tanta atenção aos historiadores estrangeiros (americanos, em sua maioria) especializados em História do Brasil, os chamados brasilianistas?

 

A questão provoca reações apaixonadas junto ao público, em geral dividido em duas categorias. Tem aqueles que acham os brasilianistas o máximo, uma vez que os mesmos possuiriam uma aura mais profissional (ausente nos historiadores nativos), trazendo contribuições mais acuradas ao debate nacional do que os teóricos empolados que formam nosso corpo acadêmico. E tem aqueles que nutrem um indisfarçável ranço em relação aos pesquisadores forasteiros, uma vez que estes participariam de um mirabolante esquema doutrinário imposto pelos países capitalistas do Norte, o que, fatalmente, enviesaria todas as suas constatações acerca do cotidiano brasileiro.

 

Dificilmente eu tomo algum partido em questões tão estritamente polarizadas. Ainda não sei se isso decorre de minha tendência a ver tudo de cima, tentando observar científica e empiricamente tudo que envolve disputa de opiniões, com um olhar, ao mesmo tempo, filosófico e apolítico... ou se é porque eu não tenho personalidade mesmo. De todo modo, o fato é que eu não me vejo fazendo parte de nenhum desses compartimentos estanques, cujas adversidades se evidenciam quando é discutido o papel dos brasilianistas na literatura sobre a formação do Brasil. Porém, é inegável que, se for pra escolher um lado, fico com aqueles que detectam nos historiadores estrangeiros um profissionalismo maior em relação aos pesquisadores nativos.

 

Mas qual seria a causa disso, afinal? A explicação que me parece mais óbvia é a disponibilidade de recursos, que permite que esses pesquisadores anglo-saxões, ainda jovens, em início de carreira, já se dediquem integralmente a seus objetos de pesquisa, com vários incentivos financeiros para que o façam de maneira segura e tranqüila – enquanto, de outro lado, os historiadores brasileiros precisam dar aulas para se sustentar, relegando suas pesquisas a algumas horinhas semanais, espremidas entre uma aula e outra.

 

Isso é algo bem característico do mercado de trabalho brasileiro. Profissões que são consideradas normais em outros países recebem, aqui, a pecha de hobby, lazer, distração, algo a ser feito em horas vagas.

 

É isso que eu noto quando observo pessoas de minha idade se mandando para o exterior. Não é a escassez de postos de trabalho ou uma suposta defasagem entre a renda obtida aqui e lá fora que estão “expulsando” boa parte de nossa mão-de-obra, mas, sim, a oportunidade de desenvolver profissões menos tradicionais. A menos que se nasça razoavelmente rico ou leve um bom empurrão da sorte, é muito complicado conseguir se estabelecer no mercado brasileiro como designer ou gastrônomo, por exemplo.

 

Analisando o Brasil de hoje (até porque eu não vivi em outras épocas), o que eu noto é que abundam postos de trabalho em carreiras ortodoxas. O Brasil tem uma economia relativamente dinâmica, com muitas oportunidades para advogados, contabilistas, engenheiros, administradores e médicos. Os jornais estão forrados de anúncios feitos por empresários desesperados, à busca de gerentes comerciais, analistas de vendas, técnicos tributários, operadores mecânicos... Mas não se ouve falar em ofertas de empregos para filólogos, DJs ou cientistas políticos.

 

Sei que esse papo de “fazer só o que gosta” é conversa pra boi dormir. É utópico (no mínimo) acreditar que seja possível construir um país inteiro à base de profissionais apaixonados por suas carreiras – até porque não me ocorre nenhum exemplo de alguém que tenha tesão em passar o dia todo protocolando documentos ou empacotando macarrão. Porém, é um desperdício muito grande não aproveitar o potencial de tantas pessoas que gostariam de desenvolver suas vocações e contribuir para o crescimento do Nação de outras formas que não as mais “concretas”.

 

Infelizmente, existe uma cegueira que domina a classe política e o nosso empresariado que alimenta esse desperdício. E isso se revela a tal ponto de ouvirmos o ABSURDO de que não há mão-de-obra qualificada em nosso país.

É RIDÍCULO imaginar que não exista gente apta e capaz de enfrentar o mercado de trabalho (qualquer que seja a área), principalmente se formos levar em conta que somos um País em que milhares de jovens saem todos os anos de nossas faculdades sem que haja qualquer garantia de que poderão desenvolver suas habilidades. É uma estupidez sem tamanho exigir que alguém que acabou de conhecer Bergman se torne um mero vendedor de aplicações financeiras.

 

O que fazer com uma pessoa que se interessa por música, pintura, artes cênicas,literatura, alguém que saiba distinguir Lacan de Lukács, que seja sensível a ponto de se emocionar com Nick Hornby e com Spike Lee? Confesso que eu não sei, uma vez que eu jamais vivenciei uma sociedade que saiba aproveitar esse tipo de capacidade. A única certeza que eu tenho, é que é um despropósito colocar gente assim para passar o dia montando planilhas no Excel.

 

Daí, passa-se a ter a impressão que existe abundância de gente qualificada em certos setores da economia, dando início a um fenômeno recentemente constatado, que é a ocorrência da “overeducation” – termo usado para designar uma conjuntura onde o mercado não consegue empregar de maneira adequada pessoas que possuem habilidades muito além do que seria necessário para desempenhar determinado serviço – mas isso já é uma discussão pra outro dia.



Escrito por Álvaro às 11h12
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