Western
Nasci no século XX e foi nele que me acostumei a viver e ainda o tenho como referência. Sou daquelas pessoas que, ao se defrontar com a frase “século passado”, têm, de imediato, a imagem de alguma paisagem de 1800 e alguma coisa ilustrando a mente. No entanto, as minhas referências quanto ao século XX são recordações, em sua maior parte, dos meus tempos de criança. Nasci em 1980, de modo que o século XX perdura em minha memória mais pelas lembranças advindas das minhas descobertas infanto-juvenis do que pelas “grandes decisões” – estas, sim, meditadas com maior profundidade durante os últimos anos, já com os pés enfiados no outrora temido e instigante século XXI.
Uma coisa que eu acho é que quando se é criança (ou mesmo adolescente), fica mais fácil você estabelecer certos critérios de análise quando se parte de uma perspectiva de uma outra criança. Através do olhar de outras pessoas (ou personagens) com a mesma faixa etária, a assimilação dos mais variados conceitos se torna mais fluída e permanente.
O aspecto que quero expor nesse momento se refere ao ideário do herói. Aquele que todo menino tem bem claro em sua mente, em quem ele se espelha e tenta ser o mais parecido possível; aquele que todo garoto, ao se deparar com algum dilema, se pergunta: “o que ele faria se estivesse em meu lugar?”.
Pelo que percebia, lendo gibis, assistindo TV e vendo filmes, os garotos ocidentais das gerações imediatamente anteriores à minha tinham como seus heróis os cavaleiros do oeste bravio norte-americano. Sempre achei engraçado, inclusive, notar que diversos países, desde a Itália até o Brasil, produziram um contingente razoável de obras com essa temática, mesmo sem possuir em suas respectivas Histórias Oficiais uma dinâmica que sequer se assemelhava ao legendário “go west” yankee.
Porém, esse sucesso do popular bangue-bangue, tão evidente nos anos 60, já não encontrava respaldo em minha geração. O que houve de concreto no sentido de formar toda uma mítica de heróis viris e que serviam de exemplo aos garotos da minha faixa etária foi a redenção da televisão brasileira aos seriados (animados ou live-action) japoneses. De Jaspion a Naruto, o que temos assistido é uma série quase infindável de personagens que sempre têm algum nível de complexidade que lhes garante o carisma necessário junto ao público infanto-juvenil, como também tramas com a dose certa de maniqueísmo – não muito, para não aparentar inocente demais, mas também um pouco, para não se tornar hermética. Logicamente, antes da década de 80 já tinha havido incursões nessa área por parte da TV tupiniquim. Os Nacional Kid e Spectroman da vida estão aí para não me deixar mentir. Porém, só houve, de fato, um mergulho de cabeça no universo das sagas nipônicas a partir do investimento maciço feito pela extinta TV Manchete durante os anos 80 e 90.
Hoje em dia, observando tudo isso a certa distância, vejo o quanto há em comum entre a cultura western e a figura mítica do samurai. Ambos os cenários dão espaço ao “herói vagabundo” (vagabundo herói) – os bandoleiros do velho oeste, de um lado, e os “ronins”, de outro. Estes nada mais são do que símbolos extremos da eterna busca existencial humana, onde se procura imagens externas que saciem nossos conflitos internos. E não houve obra que melhor retratasse esse diálogo cultural do que o lendário seriado “Kung Fu”, estrelado por David Carradine no papel de “Gafanhoto”, um ronin que desbrava o oeste bravio norte-americano tentando aperfeiçoar sua ética samurai e sua técnica nas artes marciais em meio a saloons, fazendas, xerifes e ladrões de gado. Carradine, aliás, décadas mais tarde, participou, como personagem-título, de Kill Bill, um filme que também se aventurou a contar uma história de valentia e busca incessante pela verdade, onde a protagonista desbrava as estradas poeirentas que separam o Texas de Okinawa.
E ambos os cenários também permitem alianças entre os personagens, tanto entre os heróis entre si (cada qual com sua personalidade e seus conflitos íntimos), como entre heróis e vilões, afim de combater um mal maior – no caso das alianças entre bandidos e heróis (não gosto do termo “mocinho”), em geral estas assumem um caráter moral bastante importante, em que os facínoras se arrependem de seus atos e buscam a redenção através da cooperação amistosa com seus algozes.
Finalmente, as duas abordagens aqui tratadas (caubóis e samurais) permitem também o espaço para o confronto entre homens que, a despeito de todo contexto que possa cercá-los (e cerceá-los), simplesmente desejam duelar entre si pra ver, no final das contas, quem é o melhor.
Nenhuma imagem me parece mais apropriada para sintetizar todo esse post do que o duelo final entre Change Dragon, líder do Esquadrão Relâmpago Changeman, e o Pirata Espacial Buuba.
http://br.youtube.com/watch?v=Y-HP9dRmqao&feature=related
Aos mais pacientes, que quiserem se interar do contexto e saber exatamente do que estou falando, segue o capítulo inteiro:
http://br.youtube.com/watch?v=8-yVrNwPKNE&feature=related (Parte 1) http://br.youtube.com/watch?v=Lu6wtJXUMlA&feature=related (Parte 2) http://br.youtube.com/watch?v=I3fq5dgEUSQ&feature=related (Parte 3)
Escrito por Álvaro às 21h21
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