Mulherzinha

No machismo contemporâneo existe uma máxima que diz: "Quem gosta de homem é viado, mulher gosta mesmo é de dinheiro". O que me espantou um pouco ao entrar na vida adulta foi ver que as próprias mulheres, mesmo quando munidas dos mais diversos eufemismos, compactuam firmemente com esse pensamento.

Durante a minha solteirice, eu jamais perdia a oportunidade de ler alguma revista feminina que caísse na minha mão. Ainda na adolescência, me lembro de ter visto uma matéria extensa na revista "Nova" que tentava (e conseguia, diga-se) destrinchar os dilemas que a mulher urbana enfrentava na virada do século XX para o XXI. Era uma matéria interessante, onde as diversas filiais da revista, que abrange uma porção de países, abordavam, sob o ponto de vista local, as aspirações da mulher moderna.

A editora da edição espanhola foi, dentre todas, a mais contundente. Segundo ela, a mulher contemporânea estava atrás de um companheiro que a estimulasse em sua carreira profissional ao mesmo tempo em que fosse viril, romântico, sedutor e bem sucedido financeiramente. O problema, nas palavras da editora, é que esse homem "não existe".

"Ah, mas isso é óbvio", dirão os mais apressados. Mas não é bem assim. O que posso dizer, com base nas minhas observações, é que na vida real, de verdade, essa assertiva não é nem um pouco óbvia para a grande maioria das mulheres.

Tanto é verdade que nas considerações feitas pelas demais editorias da revista ao redor do mundo o pensamento mais repetido é que as mulheres queriam um companheiro que lhes trouxesse "segurança", dando-lhes maior "liberdade" para suas escolhas. Como para bom entendedor, meia palavra basta, a sensação que eu tive é que as mulheres simplesmente se contentaram com a posição de esperar alguém que lhes banque, mesmo 40 anos após todo o esforço que o movimento feminista despendeu na luta pela conquista dos direitos civis a elas.

O alerta estava dado. Porém, eu, em toda a minha inocência, ainda via condições de superar essa barreira. Afinal, eu conhecia muitas garotas que, embora tivesses famílias ricas, namoravam sujeitos de classe média, e que esses caras eram bem aceitos nas casas de suas namoradas. Isso, ao meu ver, representaria uma nova era de relacionamentos humanos, onde um casal seria formado por uma soma de dois profissionais competentes, sem haver distinção entre o homem ou a mulher no que tange aos ganhos financeiros de cada um. Quem ganha mais? Poderia ser ele, poderia ser ela, tanto faz, não importaria mais, já que ambos teriam chances iguais no mercado de trabalho. Dito de outro modo, a renda somada dos dois seria a base financeira do casal.

Claro, eu não poderia estar mais enganado. O problema é que isso me fez perder muito tempo, na vã esperança de encontrar alguém que se adequasse a essa minha maneira de pensar. Afinal, eu assistia na TV "Friends", "Seinfeld", "Sex and the City", seriados cheios de novaiorquinas independentes e bem-sucedidas e jurei pra mim mesmo que bastava eu encontrar alguém com aquele espírito pras coisas darem certo pra mim.

Eu nunca curti muito as profissões mais tradicionais, naquelas onde não é exatamente fácil ganhar dinheiro, mas sabe-se que com algum empenho qualquer pessoa conquista um padrão de renda bastante significativo. Estou falando das clássicas áreas ligadas a engenharia, medicina e direito e também daquelas mais recentes, associadas às finanças, ao gerenciamento empresarial e às tecnologias de informação. Um profissional que tenha se dedicado aos estudos, com vistas a adentrar e concluir uma faculdade reconhecida nessas áreas, e que depois se comprometa a trabalhar várias dezenas de horas por semana fatalmente irá alcançar razoável prosperidade econômica.

Qualquer um sabe disso. O que ocorre é que nem todo mundo tem vontade ou se sente na obrigação de escolher uma dessas profissões. As pessoas que procuram outros ramos profissionais o fazem na busca de um preenchimento interior, querem uma carreira de acordo com aquilo que consideram que seja a sua vocação. O problema é que o mercado de trabalho, particularmente no Brasil, não comporta esse tipo de profissional - assunto já discorrido em outra ocasião (http://brancopreto.zip.net/arch2008-07-27_2008-08-02.html).

E pra mim não tem conversa! Salvo aquele glamour que acomete os médicos, com aquela coisa de zanzar por aí vestido de branco e cuidar das pessoas, fazer o bem, salvar vidas, etc., o resto das carreiras onde se quer ganhar dinheiro é tudo trampo chato. Ninguém me convence que um corretor da bolsa morra de amores por ficar das 7 da manhã até as 10 da noite analisando mil e um balancetes, fazendo contas e lendo contratos. Ou que um juiz tenha tesão em emitir despachos, assinar milhões de documentos e seguir todo aqueles trâmites burocráticos para efetuar uma simples análise processual. São carreiras desgastantes e nada apaixonantes, a começar pelos cursos universitários necessários para ingressar em alguma delas. A única coisa legal é que se recebe uma bolada por mês - algo que implica na pouca ou nenhuma dificuldade em atrair pretendentes.

Muitos homens, ao contrário do que aconteceu comigo, têm esse discernimento ainda na adolescência e já partem logo para alguma carreira que lhes garanta uma consistente ascensão social. Existem também aqueles que foram direcionados pelos pais a seguir uma área que seja considerada mais nobre e aceitam essa imposição por mera conveniência familiar. E, claro, há os que norteiam as suas vidas nesse rumo por possuírem vocação ou uma vontade genuína de seguir a carreira de médico, jurista, engenheiro, financista, executivo, tecnólogo, etc.

Dois pontos. Em primeiro lugar, à exceção da área médica, esses ramos mais lucrativos e elitizados são esmagadoramente dominados por homens. Em segundo lugar, profissionais desse tipo são muito requisitados, o que reflete imediatamente na condição de obterem ganhos muito acima da média da população.

Voltando à idéia inicial, de que mulheres contemporâneas dão prioridade a homens que lhes proporcione "segurança" e "liberdade" (dois belos eufemismos para os conceitos de riqueza e conforto material), eu noto que continua a haver uma delimitação muito séria no nosso mercado de trabalho, exatamente como no século passado. Há o "serviço de mulherzinha" e o "trampo pra macho".

De um lado, as mulheres se sentem mais à vontade para seguir carreira em áreas mais prescindíveis (psicologia, nutrição, fisioterapia, decoração, farmacologia, recursos humanos, pedagogia, serviço social, letras, terapia ocupacional, paisagismo, etc.) em busca de uma realização subjetiva, sem que haja comprometimento em busca de uma melhor condição financeira, visto que sempre haverá alguém (o pai ou o marido) bancando a parte principal de seus gastos. De outro lado, os homens  são veementemente empurrados para aquelas carreiras áridas, mas que permitem sua evolução financeira, e seguem tendo como único objetivo levar dinheiro pra casa, afim de garantir as tais "segurança" e "liberdade" à sua família.

Essas condições mais duras trazem à personalidade masculina certa aspereza e algum egoísmo. Fica difícil exigir que seja afável e afetuosa uma pessoa que é programada a dedicar a maior parte da sua vida a fazer algo aborrecido com o único intuito de patrocinar os sonhos de outrem. E foi por isso que aquela editora espanhola foi tão enfática ao dizer àquelas mulheres que esperam um companheiro másculo, rico, bonito e carinhoso para que estas tirassem o cavalinho da chuva, porque isso simplesmente não é factível.

Ainda que envolto em contornos modernos, o velho sonho do príncipe encantado que vem em busca de sua donzela galopando sobre um cavalo branco continua em voga. Em vez de um castelo, as mulheres atuais desejam uma carreira apaixonante, independente de sua rentabilidade, algo possível somente com alguém a sustentando desde o início. A propósito, não é à toa que dentre as carreiras mais "sérias" a medicina seja a única com um percentual relevante de mulheres ocupando um número significativo de postos de trabalho, já que é a única também a contar com um notável grau de empatia.

Torço muito para que as mulheres tenham consciência de que precisam dar um passo para que superem essa barreira, sob pena de jamais virem a ocupar postos de efetiva relevância em nossa sociedade, salvo algumas poucas exceções. E clamo para chegue logo o dia em que homens e mulheres possam desenvolver carreiras que não sejam nem tão chatas para os homens e nem tão irrisórias, em termos monetários, para as mulheres.

A propósito, só consegui ter alguém do meu lado quando parei de esperar por esse dia. Recomendo que façam o mesmo.



Escrito por Álvaro às 16h28
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