Paulistânia 

Não são poucos os que decretam a cidade de São Paulo como uma monstruosidade. A paisagem é feia, há sujeira por todos os lados, pessoas abandonadas na rua, céu acinzentado, prédios degradados e a pressa do dia-a-dia parece que ainda piora a sensação de desagrado que a estética da cidade impõe às nossas vistas. 

Vou logo avisando, não faço parte desse time. Mesmo antes de morar aqui, sempre gostei muito do visual de São Paulo. O gigantismo das construções, as linhas retas, as luzes fortes da noite, tudo isso me fascina desde a minha tenra infância. Pode me chamar de maluco, mas me traz uma sensação agradável o horizonte formado por prédios. Praias desertas, campos floridos, o verde da montanha? Nunca me interessaram. As maneiras encontradas pelo homem para moldar a natureza sempre me encantaram muito mais.

Depois de me mudar pra esta cidade, passei a me interessar ainda mais pela sua arquitetura. E vi que um prestigiado escritor, Ignácio de Loyola Brandão, que, como eu, também é nascido em Araraquara, também emigrado para São Paulo, ao vir do interior paulista para a capital ficou igualmente fascinado com a beleza do centro e a elegância dos bairros antigos, sentimento que o fez redigir belas homenagens à Paulicéia, mesmo quando se preocupou, sabiamente, em apontar seus defeitos - cujo aparecimento se deveu exclusivamente por conta de um lamentável descaso de boa parte da população e, em conseqüência, a omissão dos políticos. De todo modo, tal qual meu nobre conterrâneo, as formas monumentais que caracterizam o Vale do Anhangabaú e todo o seu entorno, desde a Catedral da Sé até o Arouche, passando pelo Largo São Francisco, Edifício Itália, Viaduto do Chá, as musicalmente inesquecíveis Ipiranga e São João, o Teatro Municipal, Edifício Martinelli, Praça da República, Copan, Centro Cultural do Banco do Brasil, Biblioteca Mário de Andrade, Santa Ifigênia, Palácio da Justiça, São Bento, Pátio do Colégio, Mirante do Vale, etc., etc., etc., tudo isso me causou um agradável estarrecimento quando pude ver tudo isso ao vivo e pausadamente. E, exatamente igual ao Ignácio de Loyola, fiquei profundamente chateado por saber que essa cidade já teve tanto estilo e não soube utilizar, cultivar ou ao menos manter isso de forma eficiente.

O que dizer de um lugar bonito, repleto de belas obras de arte, praças e jardins públicos, de fácil acesso a todos os cantos da cidade, rodeado de edifícios com elegantes coberturas, escritórios e repartições públicas importantes e com diversos pontos de referência como o Mercado Municipal e o Palácio das Indústrias? E o que dizer de um lugar assim ter sido tristemente ignorado por praticamente toda a opinião pública, a ponto de ter sido infestado por lixões clandestinos, prostíbulos, pontos de venda e consumo de drogas, mendigos e toda sorte de meliantes? Ver um lugar como o Parque Dom Pedro II ser tão estupidamente degradado, muito mais do que me causar tristeza, repulsa ou revolta, me fixou na cabeça, simplesmente, a pergunta: por quê?

Mas nem só de seu centro antigo vive a capital paulista. Existe um sem-número de bairros confortáveis e bem-acabados na cidade. Nem sempre primam pela disponibilidade de transporte público confiável (o que torna seus moradores reféns do trânsito pavoroso que corrói o tempo do paulistano em geral), mas existem boas opções para quase todos os bolsos e gostos, basta procurar bastante.

Aliás, procurar bastante é algo recorrente em São Paulo. Aqui tem de tudo? Sim, tem de tudo. Onde? Bem... aí é que são elas. Mesmo morando aqui em plena era da internet, ainda apanho bastante pra achar tudo que eu quero. O que é facilmente encontrável em apenas uma ou duas ruas em uma cidade interiorana de porte médio, em São Paulo tudo fica, muitas vezes, em uma distância desanimadora. Precisa de eletrodomésticos? Vá à Santa Cecília. Material pra escritório? Vá até a região da Luz. Roupas? Brás, Bom Retiro, Oscar Freire, à escolha do cliente. Vamos relaxar e comer uma boa pizza tipicamente paulistana? Fácil, basta ir até o Bixiga ou à Mooca. Haja disposição e tempo livre... não é fácil se acostumar...

Foi exatamente esse aspecto que me desapontou muito em São Paulo. Tudo muito longe. Chega a me dar desespero perder duas ou três horas pra comprar um simples par de tênis. E nem sempre se pode dizer que o número maior de opções de modelos se reflete em um efetivo aumento no poder de escolha - afinal, um número maior de alternativas não significa necessariamente uma qualidade maior nas amostras disponíveis.

É por essas e por outras que já houve fanfarrões que chegaram a levantar propostas, seriamente, no sentido de transformar outros municípios, como Bauru, em capital do Estado. Nada contra Bauru, uma bela cidade. Mas um Estado com a pujança de São Paulo precisa de uma capital adequada à enormidade de seus números. Me parece mais razoável melhorarmos o que já temos, e não construir toda uma estrutura gigantesca a partir do zero.

De todo modo, cada vez mais entendo quem não gosta de São Paulo. Os morros apinhados de construções irregulares, com seu aspecto de caixas de sapato empilhadas umas sobre as outras, de fato causa aborrecimentos à vista. A imensa quantidade de sem-tetos, igualmente, aflige qualquer pessoa - seja pelo medo, pela ira ou pela compaixão que tal cena desperta. O ritmo apressado causado pelas distâncias enormes, certamente, traz como conseqüência imediata o stress. E a sensação constante de estar à deriva, em meio a um mar de caos, também não é das mais agradáveis.

A solidão? Ah, a solidão... uma moça, coincidentemente araraquarense e também refugiada na Paulicéia Desvairada - tal qual o escriba que rabisca toscamente essas linhas e o nosso caro Ignácio de Loyola Brandão, citado logo acima - com quem conversei por ocasião de minha mudança pra cá me disse que a solidão que se sente aqui por essas bandas é a pior que qualquer um jamais sentiu. Dou 100% de razão a ela.

Deve se levar em consideração, contudo, que a cidade de São Paulo não é só mazelas. Muito embora a capital paulista seja o oposto do restante do Brasil, uma característica que mostra São Paulo como uma cidade tipicamente brasileira é o fato de seus moradores serem exageradamente pessimistas em relação ao lugar onde vivem. Claro que uma dose razoável de auto-crítica é fundamental para que não nos tornemos um festival de bobos-alegres contemplativos e inoperantes. O problema é que ao darmos ênfase somente aos defeitos, acabamos por não criar raízes junto ao lugar onde moramos. Isso redunda em descaso e falta de compromisso. Acabamos por não nos sentirmos obrigados a preservar e melhorar a nossa cidade. Basta ver nossos rios, um baluarte da estupidez e cegueira paulistanas que já dura décadas.

Não é difícil citar exemplos de estrangeiros que sabem notar o valor inerente a uma cidade como São Paulo. Porém, ao invés de ficarmos lisonjeados por conta do reconhecimento, imediatamente encaramos o elogio de um forasteiro como uma mentirinha pra fazer média com o povão. Um exemplo perfeito do que estou falando se resume nessa entrevista concedida por um assessor do presidente dos Estados Unidos Barack Obama ao jornal "O Estado de S. Paulo", onde o repórter parece simplesmente não acreditar no entrevistado quando este lista as qualidades da Paulicéia, mesmo quando ele fundamenta toda a sua argumentação em qualidades inequivocamente presentes em nossa cidade.

(http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081117/not_imp278742,0.php)

Torço pelo futuro de São Paulo. Porém, é revelador o fato de que durante as últimas campanhas pela prefeitura da cidade nem sequer foram debatidos temas como o melhor aproveitamento do potencial turístico, habitacional e empreendedor de áreas da cidade que já foram nobres, vibrantes e inspiradoras e hoje padecem estéreis e degradadas (como boa parte da região da Bela Vista) num injustificável ostracismo. Isso me desanima um pouco.



Escrito por Álvaro às 14h05
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