Não gosto, não quero gostar e tenho raiva de quem gosta

 

Não entendi esse bafafá todo em cima do filme “Sete Vidas”, estrelado por Will Smith e Rosario Dawson. A crítica se derreteu toda, falando que é um filme ultra-sensível, emocionante, comovente. “Pode levar o lencinho pro cinema”, alertava a “Veja”. Alguém que já tinha visto me avisou que, de fato, todo mundo saía do cinema chorando ao final da película. A mim, o filme só deu sono. Muito sono. Não me tomem como um monstro gélido com coração de pedra. Um filme bacaninha como “Marley e Eu”, por exemplo, foi capaz de me levar às lágrimas sem muito esforço. Agora, “Sete Vidas”... francamente... Eu achei esquisito. Interpretações forçadas do casal protagonista. Um ritmo lerdo demais. Nada pode ser mais clichê que a cena inicial, mostrando o personagem principal nadando, com a câmera lhe focalizando por baixo, à contra-luz, e a narração levemente embargada, reflexiva, falando coisas sobre aproveitar cada segundo e as pequenas coisas da vida, sons de pássaros e das ondas do mar ao fundo. A sensação de déja vu é inevitável e se repete ao longo do filme por várias vezes, além do tolerável. Enfim, não sei que graça viram nesse filme.

 

Esse episódio me lembrou de outra coisa que, à época que surgiu, também foi considerado um tremendo fenômeno, adquiriu uma aura cult e tudo mais. Me refiro à banda britânica Radiohead: guitarrinhas ardidas, gemidos de um vocalista desafinado posando de depressivo e letras que hoje em dia seriam facilmente rotuladas como emo. Bem chatinho mesmo.

 

Pensando bem, não são poucas as coisas que me desagradam, mas que fazem a alegria da esmagadora maioria (ou que pelo menos são apreciadas por parcelas importantes do meu círculo social, como o caso do Radiohead). Me lembro que, quando adolescente, dizia à minha mãe: “não sou brasileiro; não gosto de loira, nem de verão, nem de praia, não ligo muito pra carnaval, detesto ficar no campo e não suporto calor”.

 

Aliás, outra coisa que atesta essa minha inépcia à brasilidade é minha relação com o café. Tipo, eu até tomo café. Pra espantar o sono. Só. Já ouvi dizer que brasileiro, ao contrário do que pensa, não sabe tomar café, que além de contar com um produto de qualidade inferior em seus supermercados, não sabe prepará-lo de maneira adequada. Bem, não sei que raios possa ser tão diferente assim em outros países, mas me lembro de uma passagem do lendário mangá “Dragon Ball”, escrito por um japonês (ah! jura??), em que o protagonista, o garoto Goku, toma café pela primeira vez, já com 12 anos de idade, e suas impressões se resumem à frase “essa sopa tá quente e amarga, blearght”. Ou seja, mesmo em outras paradas, a impressão causada pelo café é a mesma. Minha conclusão disso é que as pessoas, a maior parte delas pelo menos, se acostumam com o amargor do café desde a tenra infância e, desse modo, conseguem apreciar outras sensações que a bebida desperta em seus paladares. Por outro lado, isso não obscurece o fato de que o café é um troço ruim pra danar. Vê-lo sendo consumido tão vorazmente continua sendo um mistério pra mim; bebem por inércia, talvez. A propósito, o cheiro do café sendo preparado é delicioso – opinião compartilhada por outras pessoas que, como eu, não gostam do sabor café (sim, descobri que não sou o único).

 

Toda essa conversa sobre cheiros e paladares me deu fome. Supondo que eu esteja em um shopping, dou uma olhada na praça de alimentação e vejo o que tem pra comer. Indeciso? Observo o que a maioria das pessoas pedem. Tirando os mais óbvios fast foods, me surpreendo ao ver que um contingente considerável se aglomera diante de uma lanchonete especializada em batatas recheadas. Olha, vou contar um segredo: nunca compre batata recheada; não existe na face da terra engodo maior do que aquilo. Tentei comer esse troço duas vezes e me arrependi amargamente (pois é, fui suficientemente burro a ponto de não ter aprendido com a primeira vez, ou seja, fui ludibriado em duas ocasiões). É ridículo. E todos (todos!) os lugares que vendem batatas recheadas seguem o mesmo padrão. A tal batata vem sempre servida entreaberta, coberta por um molho espesso, terrível e desumanamente quente, que parece que não esfriará antes da próxima era glacial. Diante da fome, ninguém quer ficar esperando muito o bendito molho esfriar e vai lá e saca uma garfada. O sujeito, lógico, queima a boca e toma um gole de refrigerante pra aliviar a dor. Convencido de que o negócio está, de fato, muito quente, o cristão se põe a assoprar a parte de cima da batata. E assopra e assopra e assopra e assopra. E assopra. Já cansado de tanto assoprar, dá mais uma garfada junto ao molho e leva à boca. Se queima de novo e toma outro gole do refrigerante. Nesse momento, a pessoa tem duas opções: se levantar e ir embora (a mais certa) ou continuar brigando com a batata e tentar devorá-la na marra. Após alguns minutos assoprando, se queimando e engolindo às pressas, óbvio que a pessoa já nem tá sentindo gosto algum – no máximo sente o sabor do refrigerante aliviando as queimaduras bucais. A partir desse ponto, o sujeito percebe que a batata, tão esplendorosamente recheada no cartaz da lanchonete, na verdade, contem só alguns gramas de molho escaldante em sua cobertura e que depois de tentar comer o tal molho com alguns milímetros de batata (já com a boca devidamente queimada e as papilas gustativas dormentes), já não resta mais nada a não ser uma batata com aspecto de velha, sem gosto de nada, meio crua por dentro. O que mais me chamou a atenção nessa cruzada toda foi reparar que um sem-número de casais formavam a grande maioria das filas presentes diante dessa lanchonete. Como assim? O sujeito leva a mulher dele pra um lugar desses? Não é possível que todos ali estejam indo pela primeira vez experimentar batata recheada. Muitos devem estar lá pela segunda, terceira, quarta vez, de modo que resta a pergunta: quem é o sádico e quem é o masoquista nessa história? Bem, acho que já me fiz entender: se nunca comeu batata recheada, caia fora; se já caiu nessa arapuca, bem-vindo ao clube dos trouxas; você gosta de batata recheada? mantenha distância, tenho medo de loucos.



Escrito por Álvaro às 13h39
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