Acabou a brincadeira Suponha um jovem casal, formado por duas pessoas que estejam lá pelos 20 e poucos anos, ambos recém-formados, ou já na reta final da faculdade, vivendo aquela fase de não querer mais morar com os pais, mas ainda sem grana suficiente para bancar uma casa. Ambos estão em início de carreira, ainda desempenhando atividades de baixa ou nenhuma remuneração. Um estágio, um treinamento, uma bolsa de estudos, às vezes nem isso. O caminho óbvio para o casal é juntar forças para ajeitar um cantinho próprio e conquistar a tão sonhada liberdade. Procuram alugar um apartamento de dimensões modestas, preços módicos, de preferência em algum lugar pertinho do trabalho e/ou da faculdade, com alguma oferta de compras e diversão na vizinhança.
O prédio é velhinho, meio zoado, mas o zelador é gente boa e, olha!, a padaria da esquina entrega leite na portaria. A casa é pequena, o dinheiro é curto, perde-se pouco tempo entre os locais de serviço, lazer e moradia, quase não há o que administrar além do amor que cada um nutre pelo outro. Ela cozinha, ele lava, eventualmente trocam de tarefas e se divertem ensinando ao outro as suas especialidades. A grande diversão, aliás, é o convívio mútuo, o aprendizado que cada um tem ao dividir o espaço com o outro, passeios no shopping e shows de rock tornam-se secundários. E, mesmo que fossem prioritários, não há dinheiro mesmo... o jeito é se adaptar. Adaptação! Eis a palavra-chave. Aos 20 e poucos anos é fácil se adaptar. Você já vem de um longo processo de adaptação, que se iniciou lá nos seus 12-13 anos, quando seu corpo passou por transformações tão profundas, capazes de assustar até você mesmo, sendo que durante esse meio-tempo, ainda teve as equações de 1º e 2º graus, o primeiro beijo, a prova de Genética, o encontro com a vida noturna, a tabela periódica, a descoberta da ressaca, o vestibular, novos amigos, novas normas, novas regras, novos conceitos, novas concepções de vida, enfim. Logo após a faculdade, a característica mais notável em qualquer pessoa é a sua adaptabilidade e a maneira como ela foi desenvolvida. No entanto, a vida coloca essa capacidade a toda prova logo depois dessa fase de inúmeras e impactantes transformações. Será quando você tiver que se conformar com a volta à rotina, à permanência dos compromissos e à imutabilidade das responsabilidades – tal qual verificava-se durante a infância, ainda na casa dos pais. O ponto de inflexão ocorre quando o casal ultrapassa os primeiros obstáculos, satisfaz seus desejos iniciais e começa a cultivar novos sonhos. Um carro novo, um apartamento maior, um jantar refinado, uma viagem ao exterior, um filho. O tempo ainda não é escasso, mas já não abunda quanto antes. Os dois já estão cumprindo jornada integral fora de casa, chegam em casa exaustos à noite, as risadas começam a rarear, passam a se curtir só nos finais de semana – isso quando não precisam visitar os parentes ou amigos que os intimaram para um churrasco de domingo à tarde. “A conta de luz subiu. O cartão de crédito estourou quando você comprou aqueles sapatos novos. Quem mandou querer trocar o carro? Aumente o limite do cheque especial, então. E meu curso, quem que paga? Eu sabia que era pra ter comprado aquela caixa de CDs quando eu tive oportunidade.” Os dias se tornam mais longos. O trabalho, além de cansativo, lhes obriga a conviver com pessoas medíocres. “Chegando em casa, quero tomar banho, tomar uma aspirina e ir direto pra cama.” Dão duro o mês inteiro, pagam as contas. Sobrou pouco. “Nossa, faz tempo que não vamos ao cinema. Eu deveria ter investido em ações”. Acabou a graça. A paciência se esgotou. Ambos têm quase 30 anos agora, possuem dois carros, uma poodle e financiaram um apartamento de 100 m² por 15 anos. Adaptabilidade, tolerância, serenidade, imaginação, criatividade. Tudo se esgotou no transcorrer de meia década, apenas. A tendência é piorar. Um projeto em comum é capaz de uni-los novamente. Um filho, talvez. Ele pediu demissão. Não suportava mais o cara da contabilidade que ganhava o dobro, mas que não sabia pronunciar “Shakespeare”. Ela quase bate nele, se contém, mas dorme aquela noite no sofá, com a poodle no colo. Ele não quer acordá-la. Tá com saudade. E remorso. Mas pensa: “por hoje chega”. Uma semana depois, e ela ainda é lacônica com ele. “Voltarei a estudar”, ele fala. No primeiro mês vendem o carro novo. Depois as bicicletas e o anel que o pai dela lhe deu na formatura. Por fim, até aquele casaco horrível comprado numa noite gelada em Curitiba foi parar no brechó. No mês em que o condomínio atrasou, ele foi convocado pro novo emprego. “Agora vai”, ele pensou. Os empréstimos contraídos para pagar os livros e apostilas corroem ainda boa parte do salário. Mas já não pesam tanto. E o melhor de tudo: acabam em setembro. Mesmo assim, ela ainda acha ele pouco responsável. Não se sente plenamente segura ao seu lado. Antigamente, havia até um quê de engraçado o fato deles não poderem ter ido naquela festa de música eletrônica, pois os ingresssos custavam 80 reais, e eles acabaram passando o sábado assistindo "Lost" e fritando bolinhos de chuva - ela contava isso às amigas solteiras e dava risada. Mas agora ela vê no extrato que só tem 200 reais até o fim do mês, acha pouco, tem medo de acontecer alguma coisa e precisar de mais. E se arrepende de não ter comprado aquela blusinha em oferta. Não tem mais graça nenhuma. Acabou a brincadeira. O que os faz permanecerem juntos? Adivinhe. Ao invés do jovem casal, imagine agora um cara de quase 30 anos recém-casado com uma mulher mais velha, divorciada e com duas filhas. Eleve tudo ao cubo.
Escrito por Álvaro às 17h37
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
Solta o som Que me perdoem as outras formas de arte, mas a música é, sem dúvida, a mais tocante criação humana. Confesso que ainda não explorei devidamente a arte em todos os seus gêneros e subdivisões. Artes plásticas, por exemplo, é algo que eu ignoro solenemente. Embora eu já tenha visto algumas mostras sensacionais de artes visuais, ainda me falta um bom caminho a percorrer nesse campo. Porém, é fato que, de todas as manifestações artísticas com as quais eu tive contato, a música é a que vai mais além. E, pelo jeito, não sou o único a ter essa impressão. Vi certa vez uma frase bastante precisa a esse respeito, algo como “a música é a única forma de arte que não lhe pede licença para tocar a alma”. Brilhante. Não quer ver um quadro? Feche ou desvie os olhos. Agora, evitar que uma música chegue ao seu cérebro é mais complicado, gostando ou não. Eu sou um curioso pela arte, com todas as suas manifestações e formas, tanto as mais antigas quanto as que surgiram e se consolidaram com o passar do fantástico século XX. Sempre que tenho alguma oportunidade de experimentar uma nova sensação propiciada pela arte, me jogo de cabeça sem o menor receio e tento curtir ao máximo as diferentes sensações. Durante alguma peça teatral, por exemplo, me arrepio diante de uma boa atuação, conjugada a um texto forte e uma encenação bem feita. Por outro lado, uma bela apresentação de dança facilmente me leva às lágrimas. Um livro emocionante e inteligente, por sua vez, pode me deixar em estado de choque durante e após a leitura. Filmes me fazem viver e sonhar com sensações que me são distantes, muitas vezes inalcançáveis. Já um vídeo-game me hipnotiza por horas, me faz esquecer o mundo lá fora. Por fim, os quadrinhos, que me entretiveram, educaram e forjaram a minha personalidade. Daí, vem a música, uma arte capaz de aglutinar todas essas emoções ao mesmo tempo, em uma breve execução de 4 a 6 minutos. Um déja vu bastante atual: pessoas que, ao se descreverem, dizem que “vivem por música”. O mais curioso disso é que ninguém aparenta ser fake por dizer isso, pois, de fato, por mais clichê que tal afirmação possa ser, é a mais pura verdade. Todos amam música. As vertentes admiradas são as mais diversas, mas todo mundo gosta de passar momentos de seu dia-a-dia ouvindo música, de modo a tornar esses períodos, por menores e exíguos que sejam, mais agradáveis. As facilidades trazidas pela popularização e constante aperfeiçoamento dos aparelhos sonoros portáteis foi um catalisador desse consumo voraz de música nas últimas décadas. Embora na década de 80 ainda causasse alguma estranheza ver pessoas, principalmente de meia-idade, usufruindo seus walkmen, nos anos 90 esse desconforto foi se dissipando e os discmen foram se multiplicando junto à população. Passado o ano 2000, com a massificação do MP3, ver gente portando fones de ouvido se tornou tão banal quanto ver pessoas de óculos. A música chegou a ocupar um espaço tamanho que hoje em dia eu já acho esquisito entrar em um carro e notar que não há um aparelho de som ou se este encontra-se desligado. Não consigo conceber como seria viver em outras épocas, quando o acesso à música era mais escasso ou mesmo inexistente. Sim, a música é uma arte recente e a tecnologia necessária para armazená-la (discos, fitas, CDs, MP3, nada disso existia há menos de um século) é mais recente ainda. Imagino que as pessoas conseguiam (conseguiam?) tocar as suas vidas sem toda essa necessidade de escutar um sonzinho durante as tarefas diárias ou seus momentos de lazer. Voltando ao início do raciocínio, quando foi dito que a música é uma arte tocante, profunda e até inevitável. Essa relação do homem com a música se revelou uma força-motriz capaz de trazer à tona uma completa inversão do que se entendia até pouco tempo no que diz respeito ao contato da humanidade com as artes em geral. Se nas demais formas de arte os artistas são seres venerados e a apreciação das artes se confunde com uma espécie de ritual, a música, por sua vez, aproxima artista e público de uma forma a confundir, muitas vezes, a razão e os sentimentos da platéia. Existem casos e mais casos de fãs que estabelecem um vínculo com seus músicos favoritos que beira o doentio. Isso foi algo inerente ao surgimento da música pop e perdura até hoje. É algo que jamais outra forma de arte qualquer chegou perto de alcançar. Por mais que existam fãs alucinadas pelos galãs do cinema norte-americano, Hollywood nunca foi capaz de provocar uma comoção social tão grande quanto os Beatles (que chegaram ao ponto de não poder mais fazer shows em estádios, pois os gritos histéricos de suas fãs abafavam o som dos instrumentos), só para ficar no exemplo mais óbvio. Há ainda a questão de parte do público simplesmente se apropriar do produto do artista. Há poucos anos atrás começaram a proliferar sites que compartilhavam músicas em formato digital. No início, a indústria musical tentou vetar a difusão dos programas de compartilhamento de arquivos musicais na rede. Dada a pulverização e a capilaridade de tais ferramentas, constatou-se a impossibilidade de conter tal movimento. Muitos músicos contemporâneos, já forjados nesse ambiente de franca disponibilidade de músicas na internet, procuram conviver de forma pacífica com esse fenômeno. Porém, o modo como irão tirar o seu sustento através de sua arte permanece uma incógnita. Enfim, a compulsão do ser humano pela música vem se mostrando tão curiosa quanto violenta e transformadora. Me pergunto se algum dia a humanidade se desencantará, perderá esse fascínio que mantém em relação à música. Aliás, melhor nem tentar imaginar como será esse dia. Prefiro curtir uma bela canção da melhor maneira possível: num quarto escuro, com as portas fechadas e o aparelho de som no volume mais alto possível antes de atingir o limite do insuportável. Aliás, curioso isso: mesmo ouvindo música o dia inteiro, enquanto desempenhamos as nossas tarefa do dia-a-dia, o momento de maior prazer com a música é justamente quando ela nos permite sair da rotina - pode ser num mega-show ou em casa, curtindo cada acorde, prestando atenção no arranjos e descobrindo novos instrumentos, "escondidos" na melodia, da maneira mais prosaica possível.
Escrito por Álvaro às 23h33
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|