O melhor da festa é esperar por ela Será? Domingo agora, dia 03/05/2009, será a grande final do Campeonato Paulista desse ano. São vários os atrativos: Corinthians em campo, enfrentando um adversário tradicional (Santos), com o Timão tendo a chance de se tornar campeão de forma invicta, Ronaldo jogando em grande fase e, como se não bastasse, meu aniversário. Estava duro, pra variar. Um amigo me empresta o dinheiro e eu me proponho a me arriscar na fila e tentar comprar os ingressos pra nós dois. Cheguei ao Pacaembu umas 7 e meia da manhã, no dia em que as vendas iriam começar. Nem fui trabalhar, tudo na esperança de comprar os ingressos. Pergunto a um funcionário do Pacaembu onde seria a fila pras numeradas. Ele me aponta um lugar e fico lá, lendo meu livro calmamente. Uma hora depois de chegar, uma repórter da CBN que dava plantão no local me entrevista, perguntando se havia alguma informação que os funcionários do Pacaembu tinham passado pra nós e me pergunta também se eu gostava de assistir jogos no tobogã. Falei que não importava muito aonde eu me localizaria no estádio, pois o importante era estar presente no jogo da final, mas que eu tava na fila pra comprar numeradas. Ela pergunta se eu tenho certeza de que a fila era aquela, pois a "organização" havia contado a ela que ali só seriam vendidos ingressos pro tobogã. Falei: "é... nesses eventos, muitas informações são desencontradas, né?". Ela concorda e vai embora. Alguns minutos depois, já perto das 9 da manhã (o horário marcado para que se iniciasse a venda de ingresso), um funcionário do Pacaembu (outro) grita avisando que a fila onde eu estava era só pro tobogã e que, dada a extensão da fila, naquele ponto onde eu me encontrava, até me aproximar das bilheterias os ingressos já teriam se esgotado. Legal! Pergunto pra ele onde é a fila pras numeradas. "Do outro lado lá, amigo." Muy amigo. Dou a volta no estádio e entro na fila paras as numeradas. A fila tá menor. "Se pá eu ainda consigo comprar antes das 10", penso. Enfim, 9 horas. Lógico (óbvio, claro, evidente) que as vendas não começam às 9 em ponto. Uma hora é confusão entre policiais e torcedores, outra hora é o sistema que cai, depois começam a vender e, lá pras 10 horas, 15 mil ingressos são "milagrosamente" vendidos em menos de 20 minutos. Eu e todo mundo lá esperamos, incrédulos, que a notícia seja desmentida. Todos ligam os rádios, celulares, palms, TVs portáteis, etc., procurando alguma notícia "oficial". "Segue a venda normal de ingressos no Pacembu, para a decisão de domingo", era a principal manchete dos meios de comunicação consultados. A polícia e os funcionários do Pacaembu insistem que os ingressos acabaram. Como ninguém acredita, os mesmos nos informam que o sistema caiu e que as vendas seria retomadas em instantes. Mais algum tempo de espera, ardendo ao sol. Os vendedores ambulantes das imediações fazem a festa. Após o meio-dia surge o boato de que liberariam mais uma carga extra de ingressos e que só estariam aguardando o retorno do sistema. O tempo passa, começam os programas esportivos do rádio e da TV, todos tentam se inteirar das últimas notícias do jeito que pode. Por fim, surge a notícia de que a "organização" avisou à imprensa, conclusivamente, que já não havia mais ingressos pra vender desde as 10 da manhã. Isso, como poderia se supor, gerou mais indignação. Um enorme contingente de pessoas que estava lá no Pacaembu dormindo desde terça-feira não conseguiu ingresso. Todos os presentes eram testemunhas de que poucas dezenas de pessoas apenas haviam sido atendidas nas bilheterias. A revolta era certa. Um pessoal da Gaviões viu alguns cambistas oferecendo ingressos por 200 reais pra uns garotos ricos, trajando tênis caros e uniformes do Colégio Dante Alighieri (provavelmente haviam matado aula para tentar comprar os ingressos). Tumulto, confusão, ocorre um princípio de linchamento nos cambistas, a Tropa de Choque da PM intervém, joga spray de pimenta e bomba no meio da turba enfurecida. E eu a uns 20m de distância, de gravata, fazendo cara de paisagem, quietinho na fila, encostado no muro, fingindo que tava lendo ainda meu livro (uma vez que, àquela hora, já não havia mais disposição ou estado emocional que me permitisse alguma concentração para ler). Acaba a correria. A Tropa de Choque fica montada, na frente dos guichês, como precaução. Eu já estava a poucos metros da bilheteria, ainda com esperança. A essa altura, já estava enturmado com os torcedores à minha volta, sempre trocando idéias e impressões sobre as partidas do Timão nesse ano. Vários já com experiência de filas e longas esperas, acostumados com informações desencontradas. “Pra que a polícia ficaria aqui montada desse jeito se já não houvesse mais ingresso pra vender? Se tivesse acabado mesmo, eles simplesmente dispersariam todo mundo.” O raciocínio me pareceu lógico. Meia-hora mais tarde, a Tropa de Choque se retira. Ninguém sabe interpretar o que seria aquilo. Uma recompensa pelo nosso bom comportamento? Ou um sinal de que, de fato, não havia mais ingressos? Na minha opinião, simplesmente se encheram de ficar derretendo naquele sol. Um cara me oferece um gole d’água. Recuso. “Vai desmaiar embaixo desse sol, hein? Cuidado.” O negócio é que eu tava muito apertado. Desde umas 8 da manhã eu já tava com vontade de fazer xixi. Acho que nunca em minha vida eu segurei tanto tempo. Por isso era o único por ali que não comprava nada dos vendedores. Chega uma hora da tarde. Não aguentava mais esperar. Precisava mijar. Pedi pros caras guardarem meu lugar e ficar de olho em uma nova informação. Haviam policiais e torcedores desorientados a vários quarteirões de distância do estádio. Tava difícil encontrar alguma privacidade ali na vizinhança. Enfim, vejo um muro imenso, sombreado por uma frondosa e robusta árvore. Nada me pareceu mais convidativo naquele momento. Uma vez aliviado, no caminho de volta ao estádio, reparo melhor nas casas. Puta bairro que é o Pacaembu. Casarões imensos, ruas tranquilas e arborizadas, tudo isso a 5 minutos da Av. Paulista, 15 minutos do Centro, com metrô pertinho e ao lado da casa do Corinthians. Deve ser caro. Oras, e daí que é caro? Sou muito mais morar aqui do que nesses condomínios para milionários malucos, distantes dezenas de quilômetros de tudo que interessa em São Paulo. Enfim, eu já tinha circulados por aquelas bandas, mas nunca fui tão a fundo no bairro como naquele dia. Que sorte de quem mora lá... Por fim, logo depois que eu volto ao meu lugar na fila, ficamos sabendo através do Globo Esporte que saiu um comunicado oficial, dado pelo próprio Presidente do Corinthians, falando que os ingressos acabaram mais cedo do que imaginavam, que a culpa era mesmo dos cambistas, que pedia desculpas à Fiel, blá-blá-blá... Mais confusão, mais corre-corre, uma verdadeira caça às bruxas. Qualquer tiozinho de barba desgrenhada e boné vira imediatamente um suspeito e a turba sai revistando esses tiozinhos, querendo arrebentar com qualquer cambista (ou qualquer um que se parecesse com um). Dessa vez a polícia só conversa. A TV ainda chega a tempo de filmar um cambista levando um direto no queixo e outro sendo chutado no chão por dezenas de corinthianos. Não sinto mais vontade de fazer xixi. Decido comprar uma cerveja. Duas horas. Já havia atingido meu limite. Fui almoçar no bar/restaurante ao lado do Museu do Futebol, ali pertinho. Que caro! 11 reais por um sanduíche “natural”. Um grupo de chorinho entretia os clientes. Estava um belo dia. Ao longe, ainda se ouvia gritos de torcida, mulher chorando pedindo ingresso, essas coisas. Depois de comer, ainda passei perto do muro onde eu fiquei, inutilmente, escorado durante mais de 5 horas naquele dia. Dentre os torcedores que havia conhecido, ainda restavam uns corajosos acreditando (o sonho não acabou). Fiquei quase o dia inteiro lá, em pé, embaixo de sol, à toa. Eu e mais 8 mil pessoas tivemos uma boa lição. Daqui 5 anos a gente tem uma Copa do Mundo aqui.
Escrito por Álvaro às 17h30
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|