Rewind

 

Já não é de hoje. Em qualquer lugar que a gente vá tem câmeras espalhadas por todos os lados. Todos.

 

Mas, ao contrário de George Orwell, o que me intriga não é o “grande irmão” à espreita, focando suas lentes sobre o cotidiano das pessoas com o fim de manipulá-las. Me chama a atenção as câmeras portáteis manuseadas por gente comum. Desde os anos 90 as filmadoras vêm ficando cada vez mais e mais baratas, principalmente nos países mais desenvolvidos, chegando a virar artigo de consumo de massa. Mesmo no Brasil chegou a ser um produto adquirido por parcelas importantes de nossa classe média baixa.

 

No entanto, as filmadoras antigas, com fitas VHS (ou mesmo as populares “palm-cams”), não chegavam a ser utilizadas com tanta freqüência por seus possuidores. Era mais algo destinado a filmar festinhas familiares (aqueles casamentos em que o vestido da noiva fica roxo no vídeo e os aniversários onde todo mundo sai com o rosto verde), reuniões com amigos, takes eventuais de alguma viagem, partos dos filhos (bleargh), uma ou outra peripécia da criançada, teatrinho da escola... situações prosaicas, enfim, mas já programadas e predeterminadas. Sempre devidamente registradas por algum abnegado que se propunha a zanzar com a câmera de lá pra cá enquanto os demais se divertiam, comiam, bebiam, batiam papo, brincavam, se emocionavam, etc.

 

Hoje em dia, noto um fenômeno bastante diferente em relação ao uso das filmadoras atuais que, de tão práticas, pequenas e leves, nos acompanham o tempo inteiro (acopladas aos nossos celulares, máquinas fotográficas e até mesmo MP3 players).

 

Decerto o que me intriga não é a conveniência desses aparelhos, mas sim a maneira como as pessoas os utilizam. Qualquer ocorrência inesperada ou incomum que desperte a nossa atenção já parece digna de registro. Uma briga na rua, carros batendo, fogos de artifício estourando no céu, uma mulher bonita passando pela calçada, alguma (sub)celebridade fazendo compras... tudo é motivo para que as pessoas saquem as suas câmaras do(a) bolso(a) e registrem, ansiosas, esses eventos. É curioso notar que preferem ver o ocorrido através do olhar digital da câmera e assistir aos detalhes no monitor, quando estes já fizerem parte do passado, ao invés de acompanhar tudo in loco, ao vivo, e registrar tudo “apenas” com as cores, sons e emoções que suas retinas e ouvidos emitem aos seus cérebros.

 

O que seria melhor? Acompanharmos atentamente algum acontecimento, com olhos, ouvidos e mente bem abertos e contarmos apenas com a boa vontade da nossa memória para reviver os detalhes do ocorrido? Ou será que valeria mais a pena, em nome da posteridade, abrirmos mão da emoção momentânea, concentrando-nos em filmar certos trechos, tentando acompanhar com a inevitável imperfeição da câmera e abrindo mão de alguns detalhes que passam desapercebidos pelo vídeo?

 

Tanto o foco da câmera quanto a memória humana tornam esses registros incompletos. Resta saber qual deles transmite melhor para o futuro aquilo que veio a despertar o seu interesse naquele determinado momento em que tudo aconteceu.

 

Não é preciso ser muito esperto pra se obter essa resposta.



Escrito por Álvaro às 09h36
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