Preparadas

 

Esses dias saiu uma daquelas pesquisas destinadas a ratificar “cientificamente” certos padrões comportamentais humanos que qualquer observador com um mínimo de bom senso descobre ainda na infância. Desta vez os tais “cientistas” procuravam descobrir qual a cor de lingerie que mais despertaria desejos junto à libido masculina. Bateram o martelo no vermelho. Ainda bem que eles descobriram...

 

Duas garotas de vinte e poucos anos lêem a notícia e comentam.

 

– É verdade. Quando se quer provocar um homem, uma lingerie vermelha é uma boa pedida.

– É mesmo, né? Mas, tipo, é preciso uma certa liberdade com o guri para se vestir dessa forma.

– É, se for ver bem, precisa de uma certa intimidade entre os dois, né?

– Claro, tipo, se a menina for logo de cara, no primeiro encontro, já com uma calcinha vermelha, vai parecer que, tipo, ela tá muito “preparadona”, né?

– Sim, sim.

 

São nesses momentos que eu me pergunto até que ponto a revolução feminista foi relevante para a sociedade brasileira. Será mesmo que as mulheres atingiram um ponto em que podem pensar, dizer e fazer o que querem? E outra: que raios de liberdade sexual é essa, tão proclamada aqui pelos trópicos, mas num discurso sem qualquer paralelo com a realidade?

 

Questões assim, além de provocarem alguma reflexão, podem confundir os incautos. Em primeiro lugar, vivemos em uma cultura que estimula (praticamente obriga) a mulher a se insinuar de forma mais ou menos libidinosa, a depender do contexto, mas que não sabe lidar bem com o flerte quando este parte do lado feminino. Isso por si só já seria uma fonte inesgotável de sentimentos contraditórios, porém os desvios de valores são ainda piores quando a mulher demonstra algum tipo de vontade em ultrapassar o terreno do flerte. Imediatamente ela se torna vulgar, segundo a ótica vigente.

 

Em segundo lugar, devemos ter a consciência de que estamos em um meio em que o homem, além de trabalhador, provedor e protetor de sua família, é festeiro, desportista de fim-de-semana, bebe como ninguém, é gozador com os amigos e arranca suspiros das moçoilas com sua personalidade supostamente forte. É o grande ideal do brasileiro: trabalha a semana toda (se for como peão de obra, melhor ainda), encara uma pelada com os camaradas no sábado de manhã, à tarde pula no carnaval fora de época, troca alguns sopapos ao entardecer e termina a noite se aventurando no motel com mais uma de suas conquistas. No domingo, churrasco com a família na hora do almoço (ele pilotando o braseiro, lógico), tonéis de cerveja durante o resto do dia e ainda dá duas sem tirar na patroa, “pra comparecer lá em casa” e encerrar a semana com chave de ouro.

 

Onde está o papel da mulher nessa história toda? Pois é...

 

Me recordo agora de um exemplo bastante ilustrativo sobre tudo isso. Muitos devem se lembrar da Maria Mariana, uma jovem atriz e escritora, autora de um best-seller dos anos 90, o livro “Confissões de Adolescente”, que deu origem a uma famosa peça de teatro (que, infelizmente, nunca vi) e uma bem-sucedida série de TV, ambas protagonizadas pela própria Maria Mariana. Ela é da mesma faixa etária que eu, ambos pertencemos à mesma geração, geração esta responsável pela introdução de um novo conceito, o “ficar”, algo que confundia tanto os adolescentes de então como seus respectivos pais.

 

O livro de Mariana tem o mérito de descrever em linguagem ágil e informal o cotidiano de uma menina de 15 anos em meio a essas descobertas, tendo que conviver com seus dilemas e conflitos ao mesmo tempo em que precisa dar alguma satisfação para pais e amigas sobre aquilo que ela mesma não consegue decifrar por inteiro. Naturalmente, foi um estouro de vendas, inclusive sob os aplausos de pais e professores que lidavam diretamente com adolescentes.

 

A série de TV, por sua vez, além de ser um primor técnico e artístico (a começar pela trilha sonora de reconhecido bom gosto, encabeçada pela canção de abertura cantada docemente por Gilberto Gil), prima também pela forma com que retrata as diferentes etapas que compõem aquele vácuo entre a infância e a fase adulta, com 4 irmãs com idades entre 12 e 19 anos que se complementam nessa tarefa. A Maria Mariana cabe o papel de irmã mais velha, a garota mais centrada e determinada da casa, que entre namoros, brigas e conselhos às irmãs mais novas (todas órfãs de mãe) faz um curso de Comunicação em uma universidade da elite carioca, batalha por estágios, elabora um jornal estudantil e lê Clarice Lispector em suas horas vagas.

 

Um dia desses me deparo com uma reportagem ao estilo “que fim levou” com ela, a própria Maria Mariana. Comentando sobre o tempo em que se manteve longe dos holofotes, ela conta que aos vinte e poucos anos se casou, resolveu se mudar para o interior, teve filhos e abandonou a(s) carreira(s), pois descobriu que seria mais importante cuidar dos filhos em tempo integral. Ela diz ainda que está divulgando seu livro mais recente, “Confissões de uma Mãe”, onde descreve essa nova fase em sua vida.

 

Deixe-me ver se entendi. A adolescente perspicaz, a jovem independente, artista de reconhecido talento e sucesso, que levou a milhões de pessoas a mensagem de despojamento, desembaraço e modernidade, decidiu copiar a avó e ser uma dona-de-casa. A menina que soube descrever como ninguém a juventude cosmopolita dos anos 90, livre das amarras normalmente impostas ao sexo feminino, toda a cultura juvenil da “new world order” da época, com todo o frescor ideológico dos anos seguintes à queda do muro de Berlim, chegou à conclusão que o bom da vida é se tornar uma matrona interiorana bancada pelo marido.

 

Tudo isso exposto, só me resta perguntar: preparadona pra que, cara pálida?



Escrito por Álvaro às 23h00
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