Pais confusos, filhos incompreendidos

 

Não foram poucas as vezes que ouvi nas últimas duas décadas pais, médicos e educadores aflitos comentarem sobre a “banalização do sexo”, algo que supostamente estaria acometendo a juventude de nossos dias. Nos debates que abordam esse tema, em geral promovidos por meios de comunicação destinados aos próprios jovens, vozes adultas apontam o dedo em direção aos mais novos e decretam que, ultimamente, tudo que envolve uma relação entre duas pessoas tornou-se fácil demais, pouco desafiador. Segundo essa linha de pensamento, a libertinagem teria sobrepujado o mistério, a promiscuidade teria engolido o galanteio e a perversão teria atropelado o flerte.  “O romantismo acabou” é a frase-feita preferida nessas ocasiões.

 

Me incomoda saber que essas mesmas pessoas, ao comentarem sobre as formas de lazer mais praticadas pela juventude contemporânea, discursam que as pessoas, “hoje em dia”, estão mais distantes umas das outras. Afinal, a televisão substituiu a pipa, o peão e as bolinhas de gude, o vídeo-game substituiu a pelada de rua e a internet substituiu os gibis e os livros infanto-juvenis (e o Orkut substituiu a pracinha da esquina). Ou seja, os mesmos pais, médicos e educadores compactuam da idéia de que os jovens nascidos em uma era de acesso relativamente livre às telecomunicações estão usando seus recursos com o objetivo de se isolarem cada vez mais em seus respectivos quartos.

 

São idéias difíceis de se complementarem porque, oras bolas, são diametralmente opostas! O pior: ninguém se dá conta disso; são conceitos que, em geral, estão presentes simultaneamente nos mesmos cérebros.

 

Ou seja, a neurose contemporânea que tanto aflige a turma da meia-idade é formada por uma combinação de diagnósticos antagônicos com relação ao dia-a-dia dos mais jovens. É uma concepção esquisita de que um adolescente é capaz de ir pra cama com 3 meninas diferentes em uma semana ao mesmo tempo em que é um anti-social enclausurado ciberneticamente em um quarto. Os mesmos jovens que têm uma vida social super ativa, repleta de beijos fugazes e sexo sem compromisso, são também pessoas solitárias que passam a maior parte do tempo diante de um monitor. Será que é preciso ser tão inteligente e perspicaz pra descobrir que isso é um baita contrasenso?

 

Na verdade tudo é mais simples do que parece. Os atualmente jovens, quando se vêem numa situação em que não são mais crianças, têm os mesmos medos e dúvidas que seus pais tiveram décadas antes. A sensação de se tornar livre das amarras da infância é descoberta de forma simultânea à percepção de que seus pensamentos, palavras e atos acarretam consequências nem sempre previsíveis (ou desejáveis). A partir daí, cada um tenta lidar com isso da maneira que acha melhor e tenta aprender alguma coisa entre um tropeço e outro. A presença ou não de internet e a profusão de acessos à pornografia (que, de fato, está mais acessível a cada dia) não determina a vida social de ninguém, muito menos molda o caráter das pessoas. Além disso, a presença de dançarinas rebolativas na TV não implica na maior facilidade de um adolescente em obter sexo. E o fato de gostar de vídeo-game não impede ninguém de ir bater uma bola com os amigos da escola aos fins-de-semana.

 

Um rapazinho que tem acesso 24 horas a milhões de fotos e vídeos com mulheres nuas garante apenas uma boa dose de masturbação diária via TV a cabo, internet e revistas especializadas. O solavanco que ele sente no peito ao dar o seu primeiro beijo e a dificuldade que encontra, mais tarde, ao tentar convencer uma garota a se deitar com ele é que forjarão a sua vida afetiva, da mesma maneira que seus antepassados. Litros de esperma ejaculados na solidão do lar não garantem, em absoluto, o poder de persuasão que é exigido pelas garotas.

 

Além disso, características humanas como a socialização, a identificação com o outro, auto-afirmação e a capacidade de se relacionar com as pessoas são, mais do que necessárias, exigidas em todos os ambientes coletivos (casa, trabalho, escola, clube, etc.). Para entrar num mero grupo de trabalhos escolares ou mesmo participar de uma tribo urbana qualquer é fundamental que as pessoas saibam se comunicar e interagir umas com as outras.

 

Ninguém quer saber se você gosta de livros, pescaria ou seriados da Fox quando se está procurando um emprego, por exemplo. O que o seu futuro chefe quer é conhecer a sua capacidade de se expressar diante dos demais. E seria muita presunção achar que os jovens não sabem disso.

 

Claro que existem algumas diferenças, mas elas são apenas simbólicas. Se antes o legal era colecionar selos, hoje é bacana baixar músicas na internet. Se antes o lance era jogar futebol de botão com a rapaziada, hoje o que pega é reunir uma cambada pra algumas horas de Winning Eleven. Se antes era preciso passear pela vizinhança e ter boa dose de charme e cara-de-pau para bater um papo com a garota mais bonita da rua, hoje ela está ao alcance o mouse – em compensação, a concorrência pela mesma beldade cresceu em dose exponencial, com gaviões de toda a cidade adicionados no MSN dela.

 

Ou seja, a rotina de um jovem típico dos anos 2000 inclui doses de desafios, adrenalina, alegrias e frustrações em igual proporção em relação à rotina dos que foram jovens nos anos 60 ou 70.

 

Os adultos do amanhã fazem e desfazem amizades, se sentem fortes e inseguros, trocam idéias e divergências, cooperam e competem um com os outros, enfrentam conflitos externos e internos e alcançam a sua maturidade a partir do que conseguem assimilar de tudo isso, da mesma forma que os jovens de outrora faziam. No entanto, essa incompreensão persiste entre as gerações (como houve também entre nossos pais e nossos avós), mesmo que as diferenças, volto a dizer, sejam apenas superficiais. É bastante simples chegar a essa conclusão. Só que deduções simples não lotam palestras, nem formam filas em consultórios e tampouco alimentam a indústria da auto-ajuda.



Escrito por Álvaro às 17h32
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