Escrito nas estrelas Não acredito em destino. Não acho que “o futuro está escrito” ou que sejamos meras marionetes de um porvir já estabelecido. Mas creio piamente que certas coisas não nos acontecem por acaso. Tomo como exemplo experiências ruins que tive nos últimos meses. Calma! Nada drástico, hehe. Me refiro ao contato que tive com a discografia do Faith no More e ao livro “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar. Em comum está o fato de eu nunca ter me interessado pelos dois ou de eu nunca tê-los encontrado a seu devido tempo, na época em que estiveram em evidência. Fui guiado a eles por conta de recomendações de amigos que os veneravam. Faith no More é uma banda que teve uma reconhecida importância durante a segunda metade de década de 80 e que estendeu sua influência no pop realizado no início dos anos 90. Tinha como principais características um bandleader bastante criativo e versátil, bons guitarristas e um baterista fraco tecnicamente, mas que possuía um estilo totalmente peculiar, que dava uma cara ímpar ao som do conjunto. Ouvi atrasado demais, talvez, mas achei as músicas muito datadas. Escolhi ouvir a discografia da banda em ordem cronológica e encontrei desde os beats eletrônicos dos 80’s nos primeiros discos até o grunge (com pitadas de acid-jazz!) dos 90’s nos álbuns mais recentes, tudo lá, no som dos caras. Você ouve uma música de cada vez e pensa consigo: “putz, isso é bem anos 80 mesmo” ou “nossa, olha esse teclado... já ouvi isso 15 anos atrás”. Cada álbum representando fielmente a sonoridade de sua época. Isso não chega a ser um demérito, mas torna qualquer forma de expressão restrita ao seu tempo, sem chance de alcançar a posteridade. Passada uma década após o último disco da banda, suas músicas já não têm nada a dizer. Quanto ao escritos Raduan Nassar, muito embora jamais tenha ouvido falar dele até questão de meses atrás, após ter lido seu nome pela primeira vez, passei a prestar atenção no que a crítica literária como um todo falava a seu respeito e notei que se tratava de um autor com poucas e marcantes obras. Em seu livro “Lavoura Arcaica”, me causou espanto a linguagem poética e a ausência de qualquer concessão, por parte do autor, em facilitar a leitura. Não há sequer indicações sobre o que os personagens querem dizer. Apenas um emaranhado de frases soltas e pensamentos aleatórios, tudo carregado de sentimentalismo camponês barato. Ao que parece, Nassar quis transmitir alguns de seus insights, mas não se preocupou em contar uma estória que fosse capaz de dar coesão a eles. Um menino obcecado por pés que resolve ir embora da casa dos pais não é um mote digno de uma romance que pretenda ser minimamente interessante. Podem até chamar isso de experimentalismo de linguagem. Pra mim, é simplesmente preguiça autoral. Sem contar que a renúncia a pontos e parágrafos me parece birra infantil, algo, no mínimo, desnecessário.
Essas experiências me levaram a crer que as obras de arte que até agora não vieram até mim de maneira natural não têm nada a me acrescentar. Exemplifico. Eu gosto de músicos de quem eu, inesperadamente, ouço alguma música (às vezes apenas um trecho). Daí eu corro atrás e vejo o restante do seu trabalho. Em geral, me surpreendo com músicas ainda melhores e passo a querer ouvir tudo que já foi gravado pelo artista. Corro atrás, inclusive, de suas influências musicais e seus parceiros habituais. Não me lembro de ter me decepcionado com esse método. Com os livros é a mesma coisa. Um trecho, uma citação, um ensaio, uma resenha, uma adaptação cinematográfica, enfim, qualquer contato inicial que eu tenha com a obra me trará interesse por ela. Sem indicações “no escuro” ou artificialismos diversos. O livro deve chegar até mim, e não o contrário. Se uma obra de arte qualquer não me chamou a atenção antes, por si só, não foi à toa. É porque, de fato, não havia por que me interessar. Nenhuma recomendação pode ser melhor do que uma amostra. E quando essa amostra chega até mim, a partir da emoção que me desperta, corro atrás, para sentir aquilo de novo. Isso acaba nos dando a sensação de que o universo ou alguma força superior nos guia em direção às coisas com as quais nos identificamos. Estamos sempre rumando ao nosso “destino”, enfim. Porém, o que ocorre é que nosso próprio inconsciente nos guia àquilo que mais gostamos. Estamos fazendo escolhas o tempo todo, muitas delas sem nos darmos conta. Nós mesmos estamos sempre atraindo o nosso destino e não o contrário. Talvez o segredo esteja aí. O meu próprio interesse é que deve motivar o contato com uma obra qualquer. O feeling que dá o tom da escolha só pode ser o meu, isso jamais deve ser delegado a outrem. O que é interessante pra alguém ou em determinada época pode não ter nada a me dizer em meu atual momento. Egocêntrico, eu? Não, pragmático. Até porque o que caracteriza melhor a grande obra é o fato de ser atemporal, universal. É isso que torna o seu autor um gênio da espécie. Se determinado autor não alcança isso, não merece minha atenção. Já existe muita coisa boa composta e escrita, esperando por meus olhos e ouvidos. E é pra essa direção que eu vou. Rumo ao meu destino.
Escrito por Álvaro às 08h44
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