Comédia Nerd Quem era (pré) adolescente na primeira metade da década de 90 irá entender melhor. Estávamos no auge da briga entre Mega Drive e Super Nintendo (SNES). Nas escolas, a molecada se reunia nos intervalos entre as aulas, no pátio, nos corredores, na cantina, perto do portão, na quadra de futebol, onde fosse, o assunto era um só: a polêmica causada pelo lançamento do jogo Street Fighter II para o Mega Drive. Street Fighter II, como “todos” sabem, foi um jogo absolutamente revolucionário, que alterou definitiva e substancialmente todo e qualquer parâmetro no que se refere a games de porrada após seu lançamento, invadindo os fliperamas de todo o planeta. O primeiro vídeo-game doméstico a receber uma versão do jogo foi justamente o SNES. Porém, depois de cerca de um ano de atraso, enfim, os proprietários do Mega Drive também puderam descer a porrada em seus amigos através de uma boa sessão de pancadaria gamística com a turma formada por Ryu, Ken e cia. No entanto, uma vez distantes de seus vídeo-games domésticos, a fim de cumprir com seus deveres escolares, sobrava aos moleques de então discutirem, durante cada segundo livre, qual versão de Street Fighter era melhor, quais gráficos seriam mais bem feitos, onde o som era mais nítido, em qual plataforma a jogabilidade se aproximava mais da versão do fliperama, etc. Aqueles que acompanharam essa luta de perto sabem bem que a disputa Mega Drive X SNES era comparável à mais ferrenha rivalidade futebolística que podia existir entre cada grupo de moleques. Ocasionalmente, as discussões partiam para os finalmentes – como os briguentos em questão sempre eram nerds (magricelas ou gordinhos), as trocas de sopapos apenas causavam danos superficiais, como era de se supor. Enfim... Delimitado o contexto histórico, vamos aos fatos.
O ano era 1994, mais precisamente no mês de abril. Um belo dia, um moleque da minha escola pediu pra mãe dele, como presente de aniversário, um SNES. Ou seja, decidiu ir pra turma dos bobos (quem tinha SNES era bobo e não tem conversa, hahahaha... Mega Drive forever!!!). O moleque era meio riquinho, metido a besta, então armou uma baita festança na ocasião, chamando o povo de diversas classes da escola em que estudávamos, só pra se exibir. E fazia questão de anunciar aos quatro ventos que iria ganhar um SNES de aniversário, vindo direto da loja de brinquedos mais careira da cidade, embrulhado junto a um cartucho da versão mais recente de Street Fighter de então, mais dois controles completos e alguns jogos extras. Chegado o grande dia, na hora de abrir os presentes, com todos os colegas de escola perto de si, todos curiosíssimos para ver o tal vídeo-game, eis que ele rasga o embrulho, cuidadosamente elaborado pela sua carinhosa mamãe, e vê um formidável "Phantom System" embalado com uma fita das Tartarugas Ninja, uma fita do Rambo, uma pistola e dois controles. (O parêntese se faz necessário para explicar que, lançado no final dos anos 80, em 1994 o Phantom System já era um vídeo-game defasadíssimo, com jogos ultrapassados, alguns deles risíveis, como esse das Tartarugas Ninja, por exemplo). Diante de tal mico, o colega aniversariante, a grande estrela da noite, começa a gaguejar, soluçar e lacrimejar, diante do já incontível e estridente riso dos colegas. Quanto maior o estardalhaço causado pelas gargalhadas dos convidados, mais o moleque contém as lágrimas e, quando parecia que o mesmo já tava prestes a dar um chilique daqueles, ele cria forças, sai do meio da multidão e vai em direção à sua mãe, para justamente lhe perguntar o porquê daquela troca absurda. Afinal de contas, ele já havia dito a ela exatamente o aparelho que ele queria, já tinham visto o preço na loja, escolhido os jogos que seriam entrariam no pacote, tudo direitinho. E a mãe, calma e sorridentemente, sem entender muito bem a reação risonha dos colegas de seu pimpolho diante do presente que escolheu com tanto carinho, responde: "Ah, filhinho, aquele vídeo-game branco era feio, esquisito. Esse daí eu achei mais bonitinho, a fita dele é maior, o controle é grandão, vem com arminha de brinquedo junto, deve ser muito mais legal".
O moleque, óbvio, saiu da escola ao fim do semestre.
Escrito por Álvaro às 16h21
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