Tateando Mudei de cidade algumas vezes na vida. Sempre foi uma experiência razoavelmente traumática. Afora as saudades iniciais, resta ainda, por um bom tempo, a irritação por se sentir constantemente perdido, sem os velhos parâmetros e pontos de referência. E a sensação de estar tateando no escuro não se resume apenas ao fator geográfico. Da infância à idade adulta residi em cidades médias, com pouco menos de 200 mil habitantes. É um tamanho de população suficiente para que você preserve um razoável anonimato quando transita em vizinhanças diferentes da sua. Porém, cidades desse porte também lhe permitem ter uma boa noção sobre o dia-a-dia do bairro ou região em que mora, sempre vendo, convivendo e se encontrando com as mesmas pessoas, ainda que estas não se tornem, nem remotamente, íntimas. Eu gostava (ou me acostumei, sei lá) dessa ambivalência entre ser “o filho da Margarida” no meu bairro e ser só um neguinho qualquer quando me afastava a três quilômetros de casa. Sempre achei legal ter como referência o comportamento de pessoas as quais eu já conhecia a rotina (muito embora eu sequer soubesse o nome). Por exemplo, se eu estivesse entrando no ônibus de manhã e já estivesse lá dentro uma mulher de quadris enormes e cabelos curtos, que sempre estava vestida de regata branca, esse era o sinal de que eu estava atrasado pra primeira aula e teria que, literalmente, correr desde o supermercado até a minha escola quando o ônibus me deixasse no ponto. Ou, então, durante uma tarde de sábado, enquanto eu tava jogando bola no campinho de terra batida da esquina de casa, se o senhor de bigode dono de uma Fiorino verde caindo aos pedaços a colocasse na rua e começasse a lavá-la, isso significava que a gente só teria tempo pra mais uma partida antes do pôr-do-sol. Mudar de cidade quando se tem esse nível de controle sobre a própria rotina, como se pode deduzir, é um choque. E quando passei a morar em São Paulo, logicamente, o desconforto foi muito maior. Pra começar, aqui a gente mal sabe quem mora em nosso prédio. À exceção do casal que tem o apartamento no mesmo corredor e da vizinha do térreo que vive no playground correndo atrás dos três (quatro?) filhos menores, não há rostos conhecidos no condomínio. Mesmos os guardas que se revezam na guarita são substituídos com tamanha frequência que muitos se vão antes mesmo de nos acostumarmos com suas fisionomias. Antes de vir definitivamente pra cá, obviamente eu já sabia que isso iria acontecer. Mesmo quando morava no interior, vim diversas vezes pra São Paulo (visitar parentes, na maioria dos casos) e ficava sempre imaginando como seria ver uma pessoa numa esquina qualquer e saber que jamais a encontraria depois. Me dei conta disso mais formalmente quando, certa vez, hospedado na casa de uma tia, ao voltar, sozinho, de um passeio, me surpreendi flertando com uma garota de longos cabelos ruivos durante o trajeto do ônibus que nos transportava. Ao chegar ao meu destino, refleti sobre o fato de que jamais, sob hipótese alguma, tornaria a vê-la. Quando, finalmente, me mudei pra São Paulo, além de toda a estranheza causada pela mudança, havia ainda essa sensação de ser um rosto aleatório na multidão, de uma forma que isso jamais irá se reverter. Feições, cabelos, expressões, cores, vozes, sotaques, gestos, tudo que torna uma pessoa única se traduz numa experiência que dura o tempo que o metrô demora a percorrer entre uma estação e outra. Há, evidentemente, um grande barato nessa invisibilidade causada por essa gigantesca aglomeração de seres humanos. Por exemplo, já li que alguns artistas se utilizam disso para compor personagens (seja de um livro, ou de uma peça de teatro), bastando entrar em algum vagão qualquer de metrô e ficar espiando, como quem não quer nada, o comportamento dos demais passageiros. Isso, claro, não é só um recurso disponível aos artistas, mas aos observadores em geral. O metrô é o exemplo paulistano mais clássico de posto avançado de voyerismo, mas essa prática é adotada amplamente em bares, restaurantes, ônibus e até na rua. Só não vejo esse comportamento curioso nos trens suburbanos, já que esse é um tipo de transporte muito duro, difícil, que torna as pessoas meio embrutecidas, sem muita paciência ou interesse para esse tipo de atitude contemplativa – não por acaso, o trem é um meio de locomoção majoritariamente masculino (um vagão de trem às 7 da manhã ou da noite nos traz a sensação de que São Paulo possui uma população 90% constituída de homens morenos com idade entre 20 e 40 anos). Mas, voltando ao ponto, durante uma simples viagem de metrô no trajeto entre casa e trabalho, é engraçado poder observar atentamente todos os traços e movimentos de uma pessoa enquanto ela displicentemente ouve música ou lê atentamente algum livro da faculdade ou simplesmente está esperando, impaciente, batendo nervosamente o pé enquanto olha pela janela, que o metrô chegue logo na sua estação. Porém, o que é ainda mais curioso é justamente olhar para alguém que esteja observando uma terceira pessoa, notar os seus olhos fixos em algum transeunte que lhe pareça interessante, a ausência de constrangimento em fitá-lo, a total atenção dispensada ao outro, distraindo-se de todo o resto, buscando, talvez, criar ou encontrar alguma empatia em feições estranhas. Um tipo de busca que nada mais é que o sintoma desse vazio provocado pela eterna ausência de familiaridade nos rostos que vêm e que vão, sem obedecer a qualquer padrão, lógica ou rotina. Estamos nos surpreendendo sempre, pro mal e pro bem. É como se, dia após dia, estivéssemos eternamente entrando em uma cidade diferente. Mesmo que estejamos transitando pelos mesmos lugares.
Escrito por Álvaro às 14h21
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Efeito cascata Durante um relacionamento qualquer, é bastante recorrente a idéia de que só porque estamos “presos” a alguém estamos constantemente perdendo oportunidades de mantermos relações com outras mulheres interessantes. Aliás, a impressão que se tem é que, exatamente por estar comprometido com alguma menina, as demais fêmeas da espécie (talvez motivadas por algum instinto primitivo de competição) ficam atiçadas, se atirando na frente dos rapazes que já estão amarrados a uma delas. Pergunte a qualquer homem e as histórias serão basicamente as mesmas: durante a solteirice, era preciso matar dois leões por dia para ter alguma chance de levar uma pequena na conversa; no entanto, bastou se enlaçar com uma fulana e pronto, todas as mulheres do trabalho, da academia, da faculdade e, principalmente, da noite, parecem mais disponíveis e interessadas do que jamais foram. “Bastou colocar a aliança no dedo e começou a chover mulher”, é o que sentenciam. Mas é preciso tomar muito cuidado com esse tipo de idéia. Pra começo de conversa, existe, sim, boas possibilidades de um sujeito qualquer ficar algo mais atraente após o início de seu envolvimento com uma mulher. Mas isso ocorre devido a razões prosaicas. Por exemplo, o cara passa a cortar o cabelo e fazer a barba com maior frequência por sugestão da companheira. Podemos imaginar também que ela o presenteie com roupas que ela julga mais adequadas do que as que ele tinha antigamente – o que tem como efeito colateral o fato dele ficar mais bem arrumado aos olhos de outras mulheres também. Deve-se considerar ainda que com o passar do tempo o homem vai evoluindo em determinados aspectos: fica maior, mais forte, obtém uma renda melhor, passa a saber e conhecer mais coisas, aumenta o seu repertório de idéias e se torna mais experiente e menos ansioso. Não é preciso ser nenhum gênio para descobrir que esse acréscimo na atratividade do sujeito não adveio pura e simplesmente do fato dele ter se enamorado por alguém. Ao contrário, é somente o ciclo normal da vida. Lembro ainda que o ser humano é um ser nostálgico por natureza. Afinal, basta o cara se engraçar com uma moça e enfrentar a primeira dificuldade da relação que aflorará em sua alma uma irresistível saudade dos tempos em que podia farrear madrugada adentro, xavecando todas as meninas da balada, jogando conversa fora com os amigos e caprichando na pose a cada loirinha que se aproximasse. Logicamente que essa nostalgia é seletiva, deixando pra trás as lembranças das incontáveis noites em que ele terminava de mãos abanando ou daquela vez em que ele só conseguiu catar aquela gorduchinha com cara de sonsa que todos os losers do mundo já haviam pego. Resta ainda o fato de todos nós sabermos muito bem como proceder para ficarmos inacessíveis, caso isso seja realmente desejável. Numa situação hipotética em que, de fato, o assédio feminino se manifeste de forma mais evidente, a ponto de ficar inconveniente, qualquer homem sabe transmitir sua indiferença à interlocutora. Aliás, somos mestres nisso, chegando, por vezes, a sermos estúpidos. De modo que, num caso em que o cara tá tranqüilo com sua mulher, por mais que ele esteja em processo de evolução profissional, física, cultural, etc., não encontrará grandes dificuldades para se manter afastado de eventuais provações. No fundo, no fundo, tudo isso de “mulher atrai mulher” não passa de um fetiche, algo destinado a massagear o ego do homem. É gostoso pensar que atraímos olhares e cobiça por parte de mulheres que, em outras circunstâncias, poderiam vir a se tornar boas companhias. E, exatamente por ser pouco provável que uma das partes tome alguma iniciativa mais definitiva, uma vez que já estamos comprometidos, a mente se ocupa de idealizar essa fantasia.
Escrito por Álvaro às 23h00
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