“Eu comi a Feiticeira”

 

É verdade. Conheço um cara que pegou a Feiticeira. A própria, da TV. Antes, claro, dela virar uma dona-de-casa rechonchuda que vez por outra aparece em programas vespertinos para, com lágrimas nos olhos, aconselhar as jovens moças de agora a não repetirem a sua trajetória de exibicionismo televisivo, revistas masculinas, e fetichismo  adolescente.

 

Tomei contato com essa história ainda na faculdade, logo nas primeiras semanas. Tudo muito novo, os calouros procurando se conhecer e fazer amizade, cada um tentando contar algum “causo” mais curioso que o outro, para chamar a atenção de si e atrair a simpatia da maioria. Foi  quando um dos caras mais engraçados da minha classe soltou esse papo de “comi a Feiticeira” no meio de uma turma de colegas. Obviamente, ninguém levou muito a sério e todos caímos na gargalhada. Ele tentou insistir, dizendo que, não bastasse a mina ser gostosa daquele tanto, ainda por cima adorava sexo anal. As gargalhadas simplesmente se avolumaram. Diante do ataque de risos, o sujeito tentou argumentar, dizendo que na época ela ainda não tinha silicone nos seios e nem mesmo fazia o papel de Feiticeira na televisão, era simplesmente a Joana, assistente de palco do programa do Luciano Huck, não era ainda um sex symbol nacional, enfim. Mas não tinha mais remédio, a cada palavra pronunciada a turma ria ainda mais e por fim o cara já virou motivo de piada entre os colegas.

 

Assim sendo, toda vez que ele tocava no assunto ou alguém se lembrava da tal façanha, todos ao redor explodiam de dar risada, de tal forma que o sujeito desencanou totalmente de emitir uma palavra que fosse a esse respeito. Passou a ficar complicado falar disso, já que (óbvio) ninguém acreditava em nada do que ele dizia, o que por sua vez, com o correr do tempo, deixou o cara meio grilado toda vez que alguém tocava nesse assunto.

 

Daí, certa vez, eu conversei na real com ele e pedi pra ele ser sincero comigo e me contar direito como que surgiu toda essa história, se era só papo furado mesmo ou se tinha alguma verdade ali, essas coisas. E ele falou que era verdade, sim, contou detalhes, disse que foi num daqueles programas "H de Verão", que era itinerante pelas praias brasileiras, e calhou dele estar  uma praia do litoral norte (que não me lembro qual) bem no dia de gravação desse programa, que ele ficou na platéia, só olhando a menina de longe, flertando, e depois das gravações conseguiu se aproximar, conversou, combinaram de se encontrar numa balada naquela noite, etc. Também me disse que nunca mais falava aquilo em público, pois, pela lógica, realmente seria inconcebível aos olhos de qualquer pessoa que um moleque normal de 19 anos tivesse passado a noite ao lado de uma deusa desejada em todo o território nacional, fazendo barba, cabelo e bigode, ainda por cima. No final, até ele mesmo acabou admitindo que se tivesse ouvido a sua própria história da boca de outro, não teria botado fé. Soube rir de si mesmo, enfim.

 

Ouvindo o cara me contar todo esse rolo, até me lembrei de uma piada velha que um tio me contou: um sujeito qualquer estava viajando em um avião sobrevoando o mar, viu que entre os demais passageiros estava a Sharon Stone (eu falei que a piada era velha) e ficou imaginando como seria ir pra cama com ela. Lá pelas tantas, o avião explode no ar e somente ele e a Sharon escapam com vida, salvos em uma ilha deserta no meio do oceano. Algumas semanas depois, sem conseguir qualquer sinal de que poderiam ser resgatados, a Sharon estranha que o cara jamais tentou qualquer coisa com ela durante esse tempo todo. Intrigada, ela pergunta: "Faz tanto tempo que estamos aqui, sem fazer sexo, você não quer transar comigo?". O cara responde, na lata: "Eu não! De que me adianta comer a Sharon Stone e depois não ter ninguém pra quem contar?".



Escrito por Álvaro às 14h59
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ECCE HOMO – FRIEDRICH NIETZSCHE

Nietzsche foi um escritor ignorado durante a vida e sua obra atingiu maior repercussão quando da publicação do provocativo texto “O Anticristo”, mais ou menos na época em que o autor contraiu uma severa enfermidade em seu sistema nervoso que o tornou incapaz.

Eu, sinceramente, tenho lá alguma dificuldade com Nietzsche, já que não consigo saber exatamente quando ele está bancando o irônico ou simplesmente querendo chamar a atenção. Por exemplo:

 

“Para mim, o ‘amor ao próximo’ é nada mais do que uma fraqueza, um caso isolado que demonstra a incapacidade de opor resistência a um estímulo – a piedade é uma virtude apenas entre os décadents. Eu acuso os piedosos de se perderem em sua vergonha, em sua reverência, em seu instinto delicado para as distâncias; a piedade, por sua vez, acuso-a de feder a povo num simples piscar de olhos, e de ser mito parecida com as más maneiras, com as quais facilmente pode ser confundida, aliás – olhos piedosos podem, conforme as circunstâncias, interferir de modo destruidor em um destino grandioso, em um isolamento entre feridas, em um privilégio para as grandes culpas. A superação da piedade, eu coloco entre as virtudes nobres...” [grifos no original]

 

E também não compro a idéia de um cara que chama o cristianismo de manipulação social (cometendo o erro crasso de confundir o uso político da religião com a religião sem si) ao mesmo tempo que baba ovo pro budismo. Fica pior ainda quando tenta justificar o lado “psicológico” da coisa. Acaba saindo coisas como: Cristo prega o perdão – coisa de débil mental; Buda aconselha a responder a ofensa com um abraço – sabedoria oriental. Muito esperto. A velha história da grama do vizinho...

De todo modo, reconheço que a escrita do alemão é bastante curiosa. Cada parágrafo é um convite à pausa pra pensar sobre o que foi dito e sobre o modo como foi dito. É uma leitura lenta, reflexiva. Requer certo esforço. Um bom exercício de retórica.



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 22h32
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Desejo proibido

 

Recentemente foi publicada uma pesquisa nos Estados Unidos onde foi confirmada uma tese bastante aceita pelo senso comum: muitas e muitas das mulheres solteiras se sentem mais atraídas por homens casados.

 

Vamos analisar isso de perto.

 

Em primeiro lugar, há uma possibilidade real de que os referidos homens casados sejam mais atraentes simplesmente por estarem mais amadurecidos do que os solteiros, um assunto que já foi discutido por aqui.

 

Em segundo lugar, é bom ver até que ponto esse tipo de constatação não é efeito de uma idealização que o ser humano faz, em especial quando se quer esconder algum grau de covardia. Um exemplo clássico disso é quando o sujeito está querendo bancar o corajoso, partindo pra cima de outro, simulando que irá agredí-lo, quando, na verdade, tudo o que ele quer é ser impedido por alguém – o famoso “me segura senão quebro a cara dele”, entende? Com as mulheres que alegam preferir se envolver com homens casados, é mesma coisa. Como não há coragem suficiente para se envolver numa relação de verdade com um homem desimpedido, encarando ônus e bônus, resta essa romantização, meio platônica, meio dramaticida, de ser um eterno mártir, ou estando sozinha ou mantendo encontros fugazes com um cara compromissado, fingindo pra si mesma que só não é feliz porque tem o azar de gostar de caras casados. Ao invés do “me segura”, ficam no “ai, que pena que não me apaixonei por um solteiro”.

 

Por último, tem ainda o tal do “proibido é mais gostoso”. Mas esse é fácil de derrubar. Afinal, se o presidente promulgasse uma lei instaurando a proibição de se consumir picolé de jiló com cobertura de rabanete ao vinagrete, ninguém iria sair correndo para devorar tal iguaria.

 

Em resumo: homens casados podem se tornar mais atraentes pelo simples fato de seguirem o fluxo natural da vida e progredirem, evoluírem, prosperarem, etc. E algumas mulheres, ao invés de escolherem um felizardo para repartir essa jornada, preferem simplesmente idealizar que um cara “pronto” já caia do céu. Como na maioria das vezes esses já estão casados com alguém, resta a impressão de que os homens comprometidos são os melhores – ou seja, elas não se dão conta de que eles simplesmente tiveram o tempo e as condições necessárias para se desenvolver. Mas o que eu acho mesmo é que mulheres assim querem de verdade é ficar sozinhas, nesse eterno joguinho de namorico às escondidas, beijos relâmpago, sem compromisso, onde não há espaço para incômodos, tampouco é preciso efetuar concessões de parte a parte.

 

Tem cara que ainda topa encarar uma dessas, lhe servindo de massagem ao ego.

 

Fetiche idiota.

 



Escrito por Álvaro às 22h14
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O CÓDIGO DA VINCI – DAN BROWN

Romance policial competente, repleto de curiosidades, escrito com linguagem ágil e instigante. Em algumas passagens, muito embora o autor se esmere por encavalar um mistério dentro do outro, o fio condutor da história acaba por se tornar previsível demais. Mas essa mistura de ação frenética, simbologia e uma levíssima pitada de erotismo faz do livro um verdadeiro page turner. Não fez tanto sucesso à toa.

 

Trecho:

 O protagonista reflete acerca da fala de um parisiense, que exalta a visão da Torre Eiffel.

“ (...) a França, um país famoso pelo seu machismo, mania de conquistar mulheres e líderes minúsculos e inseguros como Napoleão e Pepino o Breve, não podia ter escolhido um símbolo nacional mais adequado do que um falo de 300 metros de altura.”

 

Hahaha! Boa! Que foi que disse que os best-sellers não têm nada a dizer?



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 23h02
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Tateando

 

Mudei de cidade algumas vezes na vida. Sempre foi uma experiência razoavelmente traumática. Afora as saudades iniciais, resta ainda, por um bom tempo, a irritação por se sentir constantemente perdido, sem os velhos parâmetros e pontos de referência. E a sensação de estar tateando no escuro não se resume apenas ao fator geográfico.

 

Da infância à idade adulta residi em cidades médias, com pouco menos de 200 mil habitantes. É um tamanho de população suficiente para que você preserve um razoável anonimato quando transita em vizinhanças diferentes da sua. Porém, cidades desse porte também lhe permitem ter uma boa noção sobre o dia-a-dia do bairro ou região em que mora, sempre vendo, convivendo e se encontrando com as mesmas pessoas, ainda que estas não se tornem, nem remotamente, íntimas.

 

Eu gostava (ou me acostumei, sei lá) dessa ambivalência entre ser “o filho da Margarida” no meu bairro e ser só um neguinho qualquer quando me afastava a três quilômetros de casa. Sempre achei legal ter como referência o comportamento de pessoas as quais eu já conhecia a rotina (muito embora eu sequer soubesse o nome). Por exemplo, se eu estivesse entrando no ônibus de manhã e já estivesse lá dentro uma mulher de quadris enormes e cabelos curtos, que sempre estava vestida de regata branca, esse era o sinal de que eu estava atrasado pra primeira aula e teria que, literalmente, correr desde o supermercado até a minha escola quando o ônibus me deixasse no ponto. Ou, então, durante uma tarde de sábado, enquanto eu tava jogando bola no campinho de terra batida da esquina de casa, se o senhor de bigode dono de uma Fiorino verde caindo aos pedaços a colocasse na rua e começasse a lavá-la, isso significava que a gente só teria tempo pra mais uma partida antes do pôr-do-sol.

 

Mudar de cidade quando se tem esse nível de controle sobre a própria rotina, como se pode deduzir, é um choque. E quando passei a morar em São Paulo, logicamente, o desconforto foi muito maior.

 

Pra começar, aqui a gente mal sabe quem mora em nosso prédio. À exceção do casal que tem o apartamento no mesmo corredor e da vizinha do térreo que vive no playground correndo atrás dos três (quatro?) filhos menores, não há rostos conhecidos no condomínio. Mesmos os guardas que se revezam na guarita são substituídos com tamanha frequência que muitos se vão antes mesmo de nos acostumarmos com suas fisionomias.

 

Antes de vir definitivamente pra cá, obviamente eu já sabia que isso iria acontecer. Mesmo quando morava no interior, vim diversas vezes pra São Paulo (visitar parentes, na maioria dos casos) e ficava sempre imaginando como seria ver uma pessoa numa esquina qualquer e saber que jamais a encontraria depois. Me dei conta disso mais formalmente quando, certa vez, hospedado na casa de uma tia, ao voltar, sozinho, de um passeio, me surpreendi flertando com uma garota de longos cabelos ruivos durante o trajeto do ônibus que nos transportava. Ao chegar ao meu destino, refleti sobre o fato de que jamais, sob hipótese alguma, tornaria a vê-la.

 

Quando, finalmente, me mudei pra São Paulo, além de toda a estranheza causada pela mudança, havia ainda essa sensação de ser um rosto aleatório na multidão, de uma forma que isso jamais irá se reverter. Feições, cabelos, expressões, cores, vozes, sotaques, gestos, tudo que torna uma pessoa única se traduz numa experiência que dura o tempo que o metrô demora a percorrer entre uma estação e outra.

 

Há, evidentemente, um grande barato nessa invisibilidade causada por essa gigantesca aglomeração de seres humanos. Por exemplo, já li que alguns artistas se utilizam disso para compor personagens (seja de um livro, ou de uma peça de teatro), bastando entrar em algum vagão qualquer de metrô e ficar espiando, como quem não quer nada, o comportamento dos demais passageiros. Isso, claro, não é só um recurso disponível aos artistas, mas aos observadores em geral.

 

O metrô é o exemplo paulistano mais clássico de posto avançado de voyerismo, mas essa prática é adotada amplamente em bares, restaurantes, ônibus e até na rua. Só não vejo esse comportamento curioso nos trens suburbanos, já que esse é um tipo de transporte muito duro, difícil, que torna as pessoas meio embrutecidas, sem muita paciência ou interesse para esse tipo de atitude contemplativa – não por acaso, o trem é um meio de locomoção majoritariamente masculino (um vagão de trem às 7 da manhã ou da noite nos traz a sensação de que São Paulo possui uma população 90% constituída de homens morenos com idade entre 20 e 40 anos).

 

Mas, voltando ao ponto, durante uma simples viagem de metrô no trajeto entre casa e trabalho, é engraçado poder observar atentamente todos os traços e movimentos de uma pessoa enquanto ela displicentemente ouve música ou lê atentamente algum livro da faculdade ou simplesmente está esperando, impaciente, batendo nervosamente o pé enquanto olha pela janela, que o metrô chegue logo na sua estação.

 

Porém, o que é ainda mais curioso é justamente olhar para alguém que esteja observando uma terceira pessoa, notar os seus olhos fixos em algum transeunte que lhe pareça interessante, a ausência de constrangimento em fitá-lo, a total atenção dispensada ao outro, distraindo-se de todo o resto, buscando, talvez, criar ou encontrar alguma empatia em feições estranhas.

 

Um tipo de busca que nada mais é que o sintoma desse vazio provocado pela eterna ausência de familiaridade nos rostos que vêm e que vão, sem obedecer a qualquer padrão, lógica ou rotina. Estamos nos surpreendendo sempre, pro mal e pro bem. É como se, dia após dia, estivéssemos eternamente entrando em uma cidade diferente. Mesmo que estejamos transitando pelos mesmos lugares.



Escrito por Álvaro às 14h21
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Amar é se sentir em casa



Categoria: Aforismos
Escrito por Álvaro às 11h34
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