Milf

 

 

 


Vejo um amigo dizer que grilou ao se dar conta de que sua atual namorada tem o dobro da idade da anterior.

 

Na mesma época, um colega me confidenciou que também estava mantendo um relacionamento nesses termos. Como sou casado com uma mulher de uma geração anterior à minha, ele quis ouvir minha opinião.

 

O que tenho a dizer em casos assim, é que a beleza da juventude feminina é uma força poderosa e evidente demais pra ser ignorada. Desse modo, relacionar-se com uma mulher que já não apresente esse esplendor estético só vale a pena se a relação for, de fato, gratificante em outros aspectos a se considerar na vida a dois. Do contrario, é melhor nem começar.

 

Numa analogia mais propícia ao universo masculino, ser mais novo que a companheira é o mesmo que torcer pra time pequeno: a paixão que lhe prende àquilo é muito mais baseada nas pequenas realizações do dia-a-dia do que na explosão catártica das grandes conquistas.

 

Não é melhor, nem pior. Apenas, não é pra todos.



Escrito por Álvaro às 12h21
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Apertamento

 


 


Estou num momento da vida em que preciso me desfazer de muitas coisas do meu passado. Em resumo: meu apartamento tá pequeno demais para guardar minhas bugigangas dos tempos de solteirice.

 

Com muito pesar me desfiz da minha coleção de fitas VHS da série Anos Incríveis. É uma puta série, já que se propõe a debater de maneira digna e nem um pouco forçada os dilemas da adolescência. Ajuda muito o fato de ser escrita a quatro mãos, por um homem e uma mulher. Quando ainda era moleque, ao assistir aquilo, tive a impressão de que os roteiristas eram meus amigos de escola. Impressionante.

 

Claro que, apesar da inegável qualidade da série, certos clichês oitentistas se fizeram presentes. Um lugar-comum na dramaturgia juvenil daquela época é a presença de um adolescente cuja vida amorosa se resume a uma coleção de retumbantes fracassos, cujo efeito mais marcante é o complexo de inferioridade que o pobre coitado carrega consigo. Obviamente, existem exemplos mais recentes desse tipo de linha narrativa, mas acredito que esse estilo se consolidou nos anos 80 – o que, claro, serviu de inspiração para uma geração inteira de roteiristas da minha faixa etária e que são, hoje, os responsáveis pela redação de tais folhetins nas mais variadas mídias.

 

Enfim, dada essa circunstância, em que o protagonista se aproxima de um quadro de desilusão completa, a solução encontrada pelos autores é sempre a mesma: o sujeito procura de mil e uma maneiras se livrar de seus traumas (às vezes tentando conquistar a menina mais bonita da escola, às vezes batalhando por um simples beijo de quem quer que seja) e, no final, ele acaba se resolvendo com uma garota de beleza mediana que sempre esteve ao seu lado – e que, vejam só, sempre gostou dele em segredo. Apesar de um chavão dos mais batidos, OK, é uma saída digna para um roteirista que precisa escrever um happy ending para um personagem encurralado. O problema da falta de perspectivas do protagonista é resolvido, justamente, por uma mudança em sua própria... perspectiva. E todos viveram felizes para sempre.

 

Logicamente, isso não acontece na vida real. Quem é feio e loser não tem amigas; tampouco consegue atrair alguma simpatia platônica de uma menina, por mais sem-graça que seja a dita-cuja. Em geral, o pobre-coitado em questão, após um sem-número de aborrecimentos, ainda jovem, vê a sua auto-estima reduzida a pó. A tendência é que ele acabe se envolvendo com uma mulher que passou a vida acumulando as mesmas frustrações – um casal cuja coleção de problemas os aproxima de início, mas que não se satisfaz mutuamente por conta dos mesmos problemas que os levaram a essa situação: são feios e desinteressantes; e não é porque descobriram companhia que se tornam algo melhor do que eram antes. Passado algum tempo, se separam, têm de volta alguns lampejos das esperanças que possuíam na juventude, frustram-se novamente e terminam por encontrar, mais uma vez, pessoas tão aborrecidas quanto eles (isso quando eles próprios não voltam um pro outro, prolongando o ciclo), sem encontrar um alento satisfatório para seus dilemas.

 

Vida? Ninguém falou que seria fácil. Ainda sou obrigado a ouvir de um cretino que “a vida gosta de quem gosta dela”.

 

Voltando a Anos Incríveis, mesmo com os tais problemas roteirísticos, o grande lance da série, pra mim, foi descobrir que, enquanto houver um Kevin Arnold a servir de exemplo, sempre saberei que as minhas frustrações de adolescência não aconteciam só por que eu era preto. Apreendida a lição, jogo as fitas VHS no lixo. A apê é pequeno, mas dá pra desviar da arapuca numa boa.

 



Escrito por Álvaro às 12h34
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PRIDE AND PREJUDICE – JANE AUSTEN

Por que li no original? Simplesmente porque o livro em inglês custava a bagatela de 6 reais, enquanto o traduzido sairia por 3 vezes esse valor  uma das ironias do mercado editorial brasileiro. Mas foi dureza encarar aquele accent arcaico e empolado.

 


O certo é que a autora é surpreendentemente espirituosa. O tal do humor britânico aparece logo na primeira frase do livro. E, embora seja um romance bastante sensível, o ritmo é leve e prazeroso, longe da água-com-açúcar.


Frase:

"I wonder who first discovered the efficacy of poetry in driving away love!"


Touché!



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 15h41
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Auto-conhecimento

 

 

 

Budismo, ioga, artes marciais em geral e outras doutrinas prometem a felicidade (ou força ou nirvana, whatever) via auto-conhecimento. Ciente de seus limites e capacidades, o sujeito consegue tocar a vida de forma mais equilibrada.

 

Me pergunto se auto-conhecimento serviria como objeto de busca. Salvo aqueles com severa limitação mental (de ordem genética ou traumática), todo mundo sabe muito bem onde errou e onde acertou por aí; o sujeito pode até se recusar em admitir determinados aspectos de sua personalidade, mas daí a dizer que não os conhece vai um bocado de distância.

 

Embora eu seja cheio das manias que caracterizam um típico paciente dos consultórios de psicologia, nunca me vi fazendo terapia pelo simples motivo de saber que analista algum seria capaz de me revelar alguma novidade sobre minha própria maneira de raciocinar. Aliás, seria bizarro se fosse o contrário.

 

No entanto, as atividades propostas pelas doutrinas do auto-conhecimento não concorrem propriamente com os psicanalistas, já que aquelas sempre partem do princípio de que o desenvolvimento mental se dá de forma análoga ao aperfeiçoamento das capacidades corpóreas; o que, no fundo, não passa de um engodo para vender a ideia de que limites unicamente físicos seriam fruto de uma suposta limitação psíquica.

 

O pior é, parando pra pensar, conclui-se que não há serventia prática alguma na ideia de levar o corpo a limites extremos, só a título de descobri-los. Afinal, de que me serve saber se sou capaz de suportar determinada dor ou levantar tantos quilos com a "força da mente" se, para isso, terei que treinar tanto o meu próprio corpo até ser impossível distinguir um suposto progresso mental nesse sentido? Ilustrando: o sujeito faz aulas de kung-fu durante 3 anos, passa a conseguir plantar bananeira e conclui que isso se deve à sua capacidade de controlar a própria mente. Hein?

 

Enfim, essas práticas orientais funcionam bem como um exercício bacana, que te traz condicionamento físico, consciência corporal, vigor aeróbico e, eventualmente, alguma melhora na qualidade da vida. Prometer algo além disso é mera tapeação.



Escrito por Álvaro às 10h20
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Fleuma histé(ó)rica

 

 

“Na Itália, por 30 anos sob os Bórgias, eles tiveram guerra, terror, assassinato e derramamento de sangue, mas produziram Michelângelo, Leonardo da Vinci e a Renascença. Na Suíça, eles tiveram amor fraternal, 500 anos de democracia e paz, e o que eles produziram? O relógio-cuco.”
Orson Welles, em O Terceiro Homem

 

 

Um conhecido foi, a serviço, passar uma temporada na Suíça e voltou, semana atrás. As impressões relatadas são as mais previsíveis: um país riquíssimo, onde tudo funciona de modo preciso e eficiente; as cidades são pacatas e o povo, cortês e educado.

 

Perguntei se as pessoas são realmente frias no trato social e a resposta que ouvi ilustra de forma precisa o observado: os suíços “importam” babás do Brasil e outras regiões tropicais e, até, de alguns países do sul da Europa, para cuidarem de suas crianças, já que os pais nativos, em geral, não fazem questão de construir laços afetivos com os filhos.

 

A conclusão disso é tão óbvia quanto desconcertante: Não há qualidade de vida na Suíça. Qual artista suíço você conhece? Existe um grande escritor que tenha nascido lá? Quais os maiores músicos daquele lugar? Além do Federer, existe sequer algum esportista relevante natural de lá? Que raio de lugar é esse em que todos marcham em uma existência irrelevante e nada inspiradora? Isso que eu chamo de “deitado eternamente em berço esplêndido”.

 

Leio, agora, que um grande banco suíço – expoente da ciência que o povo helvético melhor soube desenvolver, qual seja, especular com fortunas pouco confessáveis de estrangeiros endinheirados – pretende reger seus funcionários (funcionárias, em particular) através de um código estético que parece saído daquelas teocracias orientais que os europeus tanto se comprazem em condenar:

 

http://exame.abril.com.br/negocios/gestao/noticias/banco-ubs-proibe-saias-apertadas-e-lingerie-colorida

 

Tudo em nome de uma suposta “reputação” a ser preservada.

 

Além de terem inventado o relógio cuco, os suíços passarão a ser conhecidos também pela criação da lógica por trás do raciocínio onde uma mulher que tinge o cabelo não serve pra cuidar do dinheiro de um corrupto.


O futuro já chegou. Tá aí desde a idade média e ninguém percebeu.

 



Escrito por Álvaro às 15h48
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Estereótipos 

 

 

 

 

 

 

Woody Allen nos diz que clichês são a forma mais exata de expressar algo. Bukowski lembra que o senso comum nada mais é que a dedução lógica obtida a partir experiência humana acumulada ao longo dos séculos.

 

Também acho que estereótipos, muito embora possam levar a discriminações simplistas se levados ao pé-da-letra, nos indicam uma visão geral sobre o comportamento coletivo. Indo à região da tríplice fronteira que separa Brasil, Argentina e Paraguai, um melting pot dos mais caóticos que se possa conceber, percebi isso acerca das diferentes espécies de latinos, europeus e asiáticos que compõem a paisagem local.

 

Uma cena pra ilustrar: três chineses aguardam o avião no saguão do aeroporto; tal qual numa cena de um filme do Jackie Chan, temos o chefão, sentado no centro da mesa, compenetrado em frente ao laptop, celular em mãos, calvo, com semblante fechado, vestido de forma impecavelmente elegante; dos lados, os acompanhantes direcionam seus rostos rumo à TV mais próxima; o da direita mira no vazio, com a boca levemente aberta, aparentando sonolência; o da esquerda acompanha, com um largo sorriso, a ação da telinha – no caso, um filminho de Sessão da Tarde, sobre um cachorro acrobata. Ou seja, rigorosamente como nos filmes – que, eu supunha, teriam uma visão estigmatizada.

 

Minhas impressões ao visitar o Paraguai, igualmente, apenas constataram a força dos estereótipos: ruas caóticas, abulantes desesperados para vender-lhe toda sorte de traquitanas inúteis, ar poeirento, carros esquisitos fazendo zigue-zague entre a multidão e as barraquinhas amontoadas uma em cima da outra, e por aí vai. Algo que me surpreendeu, no entanto, foi a facilidade com que os paraguaios lhe identificam e, imediatamente, passam a se expressar em português (com pronúncia muitas vezes melhor que brasileiros menos abastados), tentando estabelecer alguma simpatia durante o contato e, claro, vender. Não é à toa que paraguaios mais exaltados consideram o Brasil um “porco imperialista”, da mesma maneira que brasileiros revoltadinhos acusam os EUA.

 

Em contraponto, quando argentinos vêem você (ou qualquer um turista de outro país), só falam espanhol e boa. A menos que alguém peça, por exemplo, uma informação em inglês, eles sequer cogitam em abandonar sua língua pátria. Arrogância? Obviamente, não. Orgulho? Com certeza. Eis outro lugar-comum que fez todo sentido durante a viagem.

 

Por fim, a constatação, ao longo do passeio pela beleza monumental das cataratas, de que brasileiro ainda está cultural e socialmente distante dos prazeres do turismo. Mesmo no Parque Nacional do Iguaçu, o que menos se ouvia falar era português entre os visitantes. Inglês era a língua mais escutada, mas havia um bom ruído alemão, traços de francês e uma mistureba de dialetos nórdicos indistinguíveis, além do castelhano de diferentes matizes. Até paraguaios estavam em maior número em relação aos brasileiros.

 

Coletivamente, o ser humano é previsível. Mas, claro, é sempre mais divertido observar in loco.

 



Escrito por Álvaro às 17h37
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NOTAS DO SUBSOLO – FIÓDOR DOSTOIÉVSKI

Livro pequenininho, daqueles que dá pra ler numa tacada só – apesar da densidade da primeira parte, “Subsolo”, que assusta um pouco no começo e dá a impressão de que não vai acabar mais.

Quanto à história em si, trata-se, no fim das contas, das memórias de um bunda-mole que nunca teve o ímpeto necessário para definir o que quer que fosse e, agora, já em seus últimos dias, relembra uma desventura amorosa que marcou a sua vida, dando vazão a rancores diversos. Na busca por convencer a si mesmo sobre seu valor, que, no fundo, sabe que não possui, pontua o relato com boa dose de auto-piedade – e alguns chiliques. 

 

Ao fim da leitura, me perguntei se essa novela não serviu de inspiração a Machado de Assis na composição de seu notório “Dom Casmurro”, igualmente narrado em primeira pessoa por um loser que, na velhice, especula sobre a culpa de terceiros pela inércia que permeou toda a sua existência.



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 12h12
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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, JOSE BONIFACIO, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, English, Livros, Informática e Internet, casado
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