Homens se apaixonam por mulheres, mulheres se apaixonam por situações.



Categoria: Aforismos
Escrito por Álvaro às 17h16
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Cine Brasilis

 

Fui assistir ontem ao filme “Besouro”, um épico passado no começo do século XX que romantiza a história da luta dos negros, ainda recém-alforriados, contra os coronéis que dominavam o Recôncavo Baiano. É uma superprodução (guardadas todas as devidas proporções que se deve levar em conta quando se trata de um filme nacional) que foca, em especial, na forma como a capoeira era vista e usada sob aquele contexto, com direito a cenas de ação bem feitas e uma boa dose de pancadaria ao som de atabaques e berimbaus.

 

A película me lembrou muito alguns filmes que são verdadeiros clássicos da porrada, como as produções da década de 70, rodadas em Hong Kong, protagonizadas por mestres como Bruce Lee e Jackie Chan – também, evidentemente, guardadas as proporções, tendo em vista o gigantesco know how que os chineses têm em produções desse tipo. “Besouro”, em muitas passagens, me lembrou, em especial, um filme definitivo em se tratando de épicos da pancadaria: “Tai Chi”, estrelado pelo fenomenal Jet Li – o mote de ambas as histórias gira em torno de dois garotos, treinados pelo mesmo mestre em artes marciais, onde um se corrompe por se aproximar do poder político local, acaba traindo suas origens e por fim ocorre o inevitável enfrentamento contra seu ex-colega de treinamento, e por aí vai.

 

Durante a projeção do nosso “Besouro”, fiquei me perguntando por que, raios, o cinema nacional não se desenvolve pra valer e fica nesse eterno compasso de espera, dependendo de verba governamental a todo custo, sem que haja autonomia pra que qualquer roteiro possa sair do papel e ser devidamente rodado diante das câmeras. Minha dúvida maior se prende no fato de que o Brasil é um país cujo mercado interno consome, basicamente, produtos feitos por e para brasileiros, inclusive no que diz respeito a manifestações artísticas.

 

Embora alguns analistas sociais (um tanto afoitos, é verdade) se preocupem com uma suposta dominação cultural vinda de fora (em especial dos Estados Unidos), qualquer observador atento nota facilmente que o público brasileiro consome, basicamente, arte brasileira.

 

Sem entrar no mérito da questão, mas a forma de teledramaturgia esmagadoramente consumida pelas massas desse país se chama novela. E novela brasileira, escrita por brasileiros, encenada e dirigida por brasileiros, 100% falada em português.

 

No mercado editorial, qualquer que seja o setor que se deseja analisar, encontra-se pesos-pesados genuinamente brasileiros, sempre no topo das listas de best-sellers. No campo da ficção, temos o imbatível Paulo Coelho. No segmento da auto-ajuda, podemos encontrar sempre os mais diversos lançamentos de Roberto Shinyashiki, Lair Ribeiro e seus seguidores. No campo da religião, enxurradas de romances espíritas, escritos pelo eterno Chico Xavier e pela infatigável Zíbia Gasparetto e seus mais diversos clones.

 

No ramo musical, encontramos a mesma coisa: quando música ainda era um artigo de compra e venda, os campeões de venda eram, de forma alternada, ou sertanejos, ou pagodeiros, eventualmente ultrapassados por alguma bandinha de pop-rock ou algum modernete da MPB. Se formos observar o que as nossas rádios tocam, deslizando pelo dial encontramos diversas rádios que tocam, sim, música estrangeira. Mas as emissoras decididamente populares (e não utilizo o termo “popular” somente no sentido de “popularesco”) tocam música nacional durante a maior parte do tempo. E isso nas rádios FM. Na AM, então, a predominância do idioma português é absoluta. Aliás, basta uma caminhada pela cidade (qualquer cidade) para notar que se ouve música brasileira (em suas inúmeras vertentes) em 90% das casas e estabelecimentos comerciais, os mais diversos.

 

As demais manifestações artísticas, como dança, teatro, pintura, etc., não me atrevo a comentar, pois, infelizmente, a grande massa não tem qualquer contato significativo com elas.

 

Mas, por fim, voltando ao tal do cinema brasileiro, qual seria o motivo para que a produção nacional de filmes não desembuchasse de vez e passasse a criar um mercado sólido, de modo que a população que consome esse tipo de arte não fique eternamente à mercê dos blockbusters enlatados em Hollywood? O palpite que eu tenho é que o cinema é uma arte destinada a mostrar, da forma mais grandiloquente possível, os conflitos internos da psique humana, enquanto os autores nacionais ainda não entenderam isso muito bem, preferindo retratar os conflitos sociais. Dificilmente alguém que paga 50 reais pra levar a namorada no cinema (ou gasta 2 mil pra comprar uma TV de tela grande) tá interessado em saber que há um mendigo na frente do shopping que não come há 3 dias. Existem outras formas de se passar esse tipo de mensagem e o cinema, definitivamente, não é a mais adequada. Não à toa, os poucos filmes que obtém algum retorno financeiro são justamente aqueles mais interessados nas contradições humanas (mesmo que de forma pasteurizada, como na comédia romântica “Se Eu Fosse Você”, ou no sempre citado “Dona Flor e seus Dois Maridos”), por mais que os nossos “vanguardistas” esperneiem.

 

Há público para um cinema mais, digamos, contestador? Sim, é preciso reconhecer que existe. Os casos de “O Pagador de Promessas” e “Cidade de Deus” estão aí pra quem quiser ver. Mas a abordagem tem que ser em tom de empatia, nunca em tom de denúncia. Quando o telespectador se reconhece retratado na tela, despertamos o seu interesse pela história que decidimos contar. Mas esse é um resultado difícil de se obter, já que o cinema, por juntar texto, movimento, closes, sons e música, amplifica e dramatiza demais qualquer mensagem que se deseja levar ao espectador. Desse modo, sem haver algum tipo de cumplicidade entre protagonista e espectador, passa-se a ter a sensação de que você sentou pra assistir a um filme e, ao longo da película, está sendo julgado e condenado pelo protagonista, como se o diretor do filme estivesse de dedo em riste, lhe culpando pelos erros do mundo. Infelizmente, dentre os cineastas brasileiros, poucos entenderam essas nuances.



Escrito por Álvaro às 12h07
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“Eu comi a Feiticeira”

 

É verdade. Conheço um cara que pegou a Feiticeira. A própria, da TV. Antes, claro, dela virar uma dona-de-casa rechonchuda que vez por outra aparece em programas vespertinos para, com lágrimas nos olhos, aconselhar as jovens moças de agora a não repetirem a sua trajetória de exibicionismo televisivo, revistas masculinas, e fetichismo  adolescente.

 

Tomei contato com essa história ainda na faculdade, logo nas primeiras semanas. Tudo muito novo, os calouros procurando se conhecer e fazer amizade, cada um tentando contar algum “causo” mais curioso que o outro, para chamar a atenção de si e atrair a simpatia da maioria. Foi  quando um dos caras mais engraçados da minha classe soltou esse papo de “comi a Feiticeira” no meio de uma turma de colegas. Obviamente, ninguém levou muito a sério e todos caímos na gargalhada. Ele tentou insistir, dizendo que, não bastasse a mina ser gostosa daquele tanto, ainda por cima adorava sexo anal. As gargalhadas simplesmente se avolumaram. Diante do ataque de risos, o sujeito tentou argumentar, dizendo que na época ela ainda não tinha silicone nos seios e nem mesmo fazia o papel de Feiticeira na televisão, era simplesmente a Joana, assistente de palco do programa do Luciano Huck, não era ainda um sex symbol nacional, enfim. Mas não tinha mais remédio, a cada palavra pronunciada a turma ria ainda mais e por fim o cara já virou motivo de piada entre os colegas.

 

Assim sendo, toda vez que ele tocava no assunto ou alguém se lembrava da tal façanha, todos ao redor explodiam de dar risada, de tal forma que o sujeito desencanou totalmente de emitir uma palavra que fosse a esse respeito. Passou a ficar complicado falar disso, já que (óbvio) ninguém acreditava em nada do que ele dizia, o que por sua vez, com o correr do tempo, deixou o cara meio grilado toda vez que alguém tocava nesse assunto.

 

Daí, certa vez, eu conversei na real com ele e pedi pra ele ser sincero comigo e me contar direito como que surgiu toda essa história, se era só papo furado mesmo ou se tinha alguma verdade ali, essas coisas. E ele falou que era verdade, sim, contou detalhes, disse que foi num daqueles programas "H de Verão", que era itinerante pelas praias brasileiras, e calhou dele estar  uma praia do litoral norte (que não me lembro qual) bem no dia de gravação desse programa, que ele ficou na platéia, só olhando a menina de longe, flertando, e depois das gravações conseguiu se aproximar, conversou, combinaram de se encontrar numa balada naquela noite, etc. Também me disse que nunca mais falava aquilo em público, pois, pela lógica, realmente seria inconcebível aos olhos de qualquer pessoa que um moleque normal de 19 anos tivesse passado a noite ao lado de uma deusa desejada em todo o território nacional, fazendo barba, cabelo e bigode, ainda por cima. No final, até ele mesmo acabou admitindo que se tivesse ouvido a sua própria história da boca de outro, não teria botado fé. Soube rir de si mesmo, enfim.

 

Ouvindo o cara me contar todo esse rolo, até me lembrei de uma piada velha que um tio me contou: um sujeito qualquer estava viajando em um avião sobrevoando o mar, viu que entre os demais passageiros estava a Sharon Stone (eu falei que a piada era velha) e ficou imaginando como seria ir pra cama com ela. Lá pelas tantas, o avião explode no ar e somente ele e a Sharon escapam com vida, salvos em uma ilha deserta no meio do oceano. Algumas semanas depois, sem conseguir qualquer sinal de que poderiam ser resgatados, a Sharon estranha que o cara jamais tentou qualquer coisa com ela durante esse tempo todo. Intrigada, ela pergunta: "Faz tanto tempo que estamos aqui, sem fazer sexo, você não quer transar comigo?". O cara responde, na lata: "Eu não! De que me adianta comer a Sharon Stone e depois não ter ninguém pra quem contar?".



Escrito por Álvaro às 14h59
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ECCE HOMO – FRIEDRICH NIETZSCHE

Nietzsche foi um escritor ignorado durante a vida e sua obra atingiu maior repercussão quando da publicação do provocativo texto “O Anticristo”, mais ou menos na época em que o autor contraiu uma severa enfermidade em seu sistema nervoso que o tornou incapaz.

Eu, sinceramente, tenho lá alguma dificuldade com Nietzsche, já que não consigo saber exatamente quando ele está bancando o irônico ou simplesmente querendo chamar a atenção. Por exemplo:

 

“Para mim, o ‘amor ao próximo’ é nada mais do que uma fraqueza, um caso isolado que demonstra a incapacidade de opor resistência a um estímulo – a piedade é uma virtude apenas entre os décadents. Eu acuso os piedosos de se perderem em sua vergonha, em sua reverência, em seu instinto delicado para as distâncias; a piedade, por sua vez, acuso-a de feder a povo num simples piscar de olhos, e de ser mito parecida com as más maneiras, com as quais facilmente pode ser confundida, aliás – olhos piedosos podem, conforme as circunstâncias, interferir de modo destruidor em um destino grandioso, em um isolamento entre feridas, em um privilégio para as grandes culpas. A superação da piedade, eu coloco entre as virtudes nobres...” [grifos no original]

 

E também não compro a idéia de um cara que chama o cristianismo de manipulação social (cometendo o erro crasso de confundir o uso político da religião com a religião sem si) ao mesmo tempo que baba ovo pro budismo. Fica pior ainda quando tenta justificar o lado “psicológico” da coisa. Acaba saindo coisas como: Cristo prega o perdão – coisa de débil mental; Buda aconselha a responder a ofensa com um abraço – sabedoria oriental. Muito esperto. A velha história da grama do vizinho...

De todo modo, reconheço que a escrita do alemão é bastante curiosa. Cada parágrafo é um convite à pausa pra pensar sobre o que foi dito e sobre o modo como foi dito. É uma leitura lenta, reflexiva. Requer certo esforço. Um bom exercício de retórica.



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 22h32
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Desejo proibido

 

Recentemente foi publicada uma pesquisa nos Estados Unidos onde foi confirmada uma tese bastante aceita pelo senso comum: muitas e muitas das mulheres solteiras se sentem mais atraídas por homens casados.

 

Vamos analisar isso de perto.

 

Em primeiro lugar, há uma possibilidade real de que os referidos homens casados sejam mais atraentes simplesmente por estarem mais amadurecidos do que os solteiros, um assunto já discutido anteriormente neste espaço (http://brancopreto.zip.net/arch2009-09-27_2009-10-03.html#2009_09-27_00_00_16-120112568-0).

 

Em segundo lugar, é bom ver até que ponto esse tipo de constatação não é efeito de uma idealização que o ser humano faz, em especial quando se quer esconder algum grau de covardia. Um exemplo clássico disso é quando o sujeito está querendo bancar o corajoso, partindo pra cima de outro, simulando que irá agredí-lo, quando, na verdade, tudo o que ele quer é ser impedido por alguém – o famoso “me segura senão quebro a cara dele”, entende? Com as mulheres que alegam preferir se envolver com homens casados, é mesma coisa. Como não há coragem suficiente para se envolver numa relação de verdade com um homem desimpedido, encarando ônus e bônus, resta essa romantização, meio platônica, meio dramaticida, de ser um eterno mártir, ou estando sozinha ou mantendo encontros fugazes com um cara compromissado, fingindo pra si mesma que só não é feliz porque tem o azar de gostar de caras casados. Ao invés do “me segura”, ficam no “ai, que pena que não me apaixonei por um solteiro”.

 

Por último, tem ainda o tal do “proibido é mais gostoso”. Mas esse é fácil de derrubar. Afinal, se o presidente promulgasse uma lei instaurando a proibição de se consumir picolé de jiló com cobertura de rabanete ao vinagrete, ninguém iria sair correndo para devorar tal iguaria.

 

Em resumo: homens casados podem se tornar mais atraentes pelo simples fato de seguirem o fluxo natural da vida e progredirem, evoluírem, prosperarem, etc. E algumas mulheres, ao invés de escolherem um felizardo para repartir essa jornada, preferem simplesmente idealizar que um cara “pronto” já caia do céu. Como na maioria das vezes esses já estão casados com alguém, resta a impressão de que os homens comprometidos são os melhores – ou seja, elas não se dão conta de que eles simplesmente tiveram o tempo e as condições necessárias para se desenvolver. Mas o que eu acho mesmo é que mulheres assim querem de verdade é ficar sozinhas, nesse eterno joguinho de namorico às escondidas, beijos relâmpago, sem compromisso, onde não há espaço para incômodos, tampouco é preciso efetuar concessões de parte a parte.

 

Tem cara que ainda topa encarar uma dessas, lhe servindo de massagem ao ego.

 

Fetiche idiota.

 



Escrito por Álvaro às 22h14
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O CÓDIGO DA VINCI – DAN BROWN

Romance policial competente, repleto de curiosidades, escrito com linguagem ágil e instigante. Em algumas passagens, muito embora o autor se esmere por encavalar um mistério dentro do outro, o fio condutor da história acaba por se tornar previsível demais. Mas essa mistura de ação frenética, simbologia e uma levíssima pitada de erotismo faz do livro um verdadeiro page turner. Não fez tanto sucesso à toa.

 

Trecho:

 O protagonista reflete acerca da fala de um parisiense, que exalta a visão da Torre Eiffel.

“ (...) a França, um país famoso pelo seu machismo, mania de conquistar mulheres e líderes minúsculos e inseguros como Napoleão e Pepino o Breve, não podia ter escolhido um símbolo nacional mais adequado do que um falo de 300 metros de altura.”

 

Hahaha! Boa! Que foi que disse que os best-sellers não têm nada a dizer?



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 23h02
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Tateando

 

Mudei de cidade algumas vezes na vida. Sempre foi uma experiência razoavelmente traumática. Afora as saudades iniciais, resta ainda, por um bom tempo, a irritação por se sentir constantemente perdido, sem os velhos parâmetros e pontos de referência. E a sensação de estar tateando no escuro não se resume apenas ao fator geográfico.

 

Da infância à idade adulta residi em cidades médias, com pouco menos de 200 mil habitantes. É um tamanho de população suficiente para que você preserve um razoável anonimato quando transita em vizinhanças diferentes da sua. Porém, cidades desse porte também lhe permitem ter uma boa noção sobre o dia-a-dia do bairro ou região em que mora, sempre vendo, convivendo e se encontrando com as mesmas pessoas, ainda que estas não se tornem, nem remotamente, íntimas.

 

Eu gostava (ou me acostumei, sei lá) dessa ambivalência entre ser “o filho da Margarida” no meu bairro e ser só um neguinho qualquer quando me afastava a três quilômetros de casa. Sempre achei legal ter como referência o comportamento de pessoas as quais eu já conhecia a rotina (muito embora eu sequer soubesse o nome). Por exemplo, se eu estivesse entrando no ônibus de manhã e já estivesse lá dentro uma mulher de quadris enormes e cabelos curtos, que sempre estava vestida de regata branca, esse era o sinal de que eu estava atrasado pra primeira aula e teria que, literalmente, correr desde o supermercado até a minha escola quando o ônibus me deixasse no ponto. Ou, então, durante uma tarde de sábado, enquanto eu tava jogando bola no campinho de terra batida da esquina de casa, se o senhor de bigode dono de uma Fiorino verde caindo aos pedaços a colocasse na rua e começasse a lavá-la, isso significava que a gente só teria tempo pra mais uma partida antes do pôr-do-sol.

 

Mudar de cidade quando se tem esse nível de controle sobre a própria rotina, como se pode deduzir, é um choque. E quando passei a morar em São Paulo, logicamente, o desconforto foi muito maior.

 

Pra começar, aqui a gente mal sabe quem mora em nosso prédio. À exceção do casal que tem o apartamento no mesmo corredor e da vizinha do térreo que vive no playground correndo atrás dos três (quatro?) filhos menores, não há rostos conhecidos no condomínio. Mesmos os guardas que se revezam na guarita são substituídos com tamanha frequência que muitos se vão antes mesmo de nos acostumarmos com suas fisionomias.

 

Antes de vir definitivamente pra cá, obviamente eu já sabia que isso iria acontecer. Mesmo quando morava no interior, vim diversas vezes pra São Paulo (visitar parentes, na maioria dos casos) e ficava sempre imaginando como seria ver uma pessoa numa esquina qualquer e saber que jamais a encontraria depois. Me dei conta disso mais formalmente quando, certa vez, hospedado na casa de uma tia, ao voltar, sozinho, de um passeio, me surpreendi flertando com uma garota de longos cabelos ruivos durante o trajeto do ônibus que nos transportava. Ao chegar ao meu destino, refleti sobre o fato de que jamais, sob hipótese alguma, tornaria a vê-la.

 

Quando, finalmente, me mudei pra São Paulo, além de toda a estranheza causada pela mudança, havia ainda essa sensação de ser um rosto aleatório na multidão, de uma forma que isso jamais irá se reverter. Feições, cabelos, expressões, cores, vozes, sotaques, gestos, tudo que torna uma pessoa única se traduz numa experiência que dura o tempo que o metrô demora a percorrer entre uma estação e outra.

 

Há, evidentemente, um grande barato nessa invisibilidade causada por essa gigantesca aglomeração de seres humanos. Por exemplo, já li que alguns artistas se utilizam disso para compor personagens (seja de um livro, ou de uma peça de teatro), bastando entrar em algum vagão qualquer de metrô e ficar espiando, como quem não quer nada, o comportamento dos demais passageiros. Isso, claro, não é só um recurso disponível aos artistas, mas aos observadores em geral.

 

O metrô é o exemplo paulistano mais clássico de posto avançado de voyerismo, mas essa prática é adotada amplamente em bares, restaurantes, ônibus e até na rua. Só não vejo esse comportamento curioso nos trens suburbanos, já que esse é um tipo de transporte muito duro, difícil, que torna as pessoas meio embrutecidas, sem muita paciência ou interesse para esse tipo de atitude contemplativa – não por acaso, o trem é um meio de locomoção majoritariamente masculino (um vagão de trem às 7 da manhã ou da noite nos traz a sensação de que São Paulo possui uma população 90% constituída de homens morenos com idade entre 20 e 40 anos).

 

Mas, voltando ao ponto, durante uma simples viagem de metrô no trajeto entre casa e trabalho, é engraçado poder observar atentamente todos os traços e movimentos de uma pessoa enquanto ela displicentemente ouve música ou lê atentamente algum livro da faculdade ou simplesmente está esperando, impaciente, batendo nervosamente o pé enquanto olha pela janela, que o metrô chegue logo na sua estação.

 

Porém, o que é ainda mais curioso é justamente olhar para alguém que esteja observando uma terceira pessoa, notar os seus olhos fixos em algum transeunte que lhe pareça interessante, a ausência de constrangimento em fitá-lo, a total atenção dispensada ao outro, distraindo-se de todo o resto, buscando, talvez, criar ou encontrar alguma empatia em feições estranhas.

 

Um tipo de busca que nada mais é que o sintoma desse vazio provocado pela eterna ausência de familiaridade nos rostos que vêm e que vão, sem obedecer a qualquer padrão, lógica ou rotina. Estamos nos surpreendendo sempre, pro mal e pro bem. É como se, dia após dia, estivéssemos eternamente entrando em uma cidade diferente. Mesmo que estejamos transitando pelos mesmos lugares.



Escrito por Álvaro às 14h21
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Amar é se sentir em casa



Categoria: Aforismos
Escrito por Álvaro às 11h34
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Efeito cascata

 

Durante um relacionamento qualquer, é bastante recorrente a idéia de que só porque estamos “presos” a alguém estamos constantemente perdendo oportunidades de mantermos relações com outras mulheres interessantes. Aliás, a impressão que se tem é que, exatamente por estar comprometido com alguma menina, as demais fêmeas da espécie (talvez motivadas por algum instinto primitivo de competição) ficam atiçadas, se atirando na frente dos rapazes que já estão amarrados a uma delas. Pergunte a qualquer homem e as histórias serão basicamente as mesmas: durante a solteirice, era preciso matar dois leões por dia para ter alguma chance de levar uma pequena na conversa; no entanto, bastou se enlaçar com uma fulana e pronto, todas as mulheres do trabalho, da academia, da faculdade e, principalmente, da noite, parecem mais disponíveis e interessadas do que jamais foram. “Bastou colocar a aliança no dedo e começou a chover mulher”, é o que sentenciam.

 

Mas é preciso tomar muito cuidado com esse tipo de idéia. Pra começo de conversa, existe, sim, boas possibilidades de um sujeito qualquer ficar algo mais atraente após o início de seu envolvimento com uma mulher. Mas isso ocorre devido a razões prosaicas. Por exemplo, o cara passa a cortar o cabelo e fazer a barba com maior frequência por sugestão da companheira. Podemos imaginar também que ela o presenteie com roupas que ela julga mais adequadas do que as que ele tinha antigamente – o que tem como efeito colateral o fato dele ficar mais bem arrumado aos olhos de outras mulheres também. Deve-se considerar ainda que com o passar do tempo o homem vai evoluindo em determinados aspectos: fica maior, mais forte, obtém uma renda melhor, passa a saber e conhecer mais coisas, aumenta o seu repertório de idéias e se torna mais experiente e menos ansioso. Não é preciso ser nenhum gênio para descobrir que esse acréscimo na atratividade do sujeito não adveio pura e simplesmente do fato dele ter se enamorado por alguém. Ao contrário, é somente o ciclo normal da vida.

 

Lembro ainda que o ser humano é um ser nostálgico por natureza. Afinal, basta o cara se engraçar com uma moça e enfrentar a primeira dificuldade da relação que aflorará em sua alma uma irresistível saudade dos tempos em que podia farrear madrugada adentro, xavecando todas as meninas da balada, jogando conversa fora com os amigos e caprichando na pose a cada loirinha que se aproximasse. Logicamente que essa nostalgia é seletiva, deixando pra trás as lembranças das incontáveis noites em que ele terminava de mãos abanando ou daquela vez em que ele só conseguiu catar aquela gorduchinha com cara de sonsa que todos os losers do mundo já haviam pego.

 

Resta ainda o fato de todos nós sabermos muito bem como proceder para ficarmos inacessíveis, caso isso seja realmente desejável. Numa situação hipotética em que, de fato, o assédio feminino se manifeste de forma mais evidente, a ponto de ficar inconveniente, qualquer homem sabe transmitir sua indiferença à interlocutora. Aliás, somos mestres nisso, chegando, por vezes, a sermos estúpidos. De modo que, num caso em que o cara tá tranqüilo com sua mulher, por mais que ele esteja em processo de evolução profissional, física, cultural, etc., não encontrará grandes dificuldades para se manter afastado de eventuais provações.

 

No fundo, no fundo, tudo isso de “mulher atrai mulher” não passa de um fetiche, algo destinado a massagear o ego do homem. É gostoso pensar que atraímos olhares e cobiça por parte de mulheres que, em outras circunstâncias, poderiam vir a se tornar boas companhias. E, exatamente por ser pouco provável que uma das partes tome alguma iniciativa mais definitiva, uma vez que já estamos comprometidos, a mente se ocupa de idealizar essa fantasia.

 



Escrito por Álvaro às 23h00
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HOLLYWOOD - CHARLES BUKOWSKI

 

 

Mais de uma pesoa me falou que "Hollywood" seria a obra-prima de Bukowski. É um belo e divertido livro, não há a menor dúvida disso. Mas já li momentos mais inspirados do Velho Safado.

 

Cena 1:

Um rapaz todo nervosinho sai aos berros de uma sala onde alguns homens conversam alegremente. O ambiente, outrora descontraído, fica pesado.

 

– Tenha calma, Hank – Sarah me diz. Ele está sóbrio, enquanto vocês já estão bêbados há horas. Você nunca esteve sóbrio em um lugar onde todos os demais estavam  bêbados?

 

– Não.

 


Cena 2:

 “Chegamos um pouco atrasados para a festa, mas ainda não havia muita gente. (...) Depois que Sarah e eu nos sentamos, aparece o garçom com o nosso vinho. Vinho branco. Bem, era de graça.”

 

 



Categoria: Resenhas
Escrito por Álvaro às 14h01
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Comédia Nerd

 

Quem era (pré) adolescente na primeira metade da década de 90 irá entender melhor.

 

Estávamos no auge da briga entre Mega Drive e Super Nintendo (SNES). Nas escolas, a molecada se reunia nos intervalos entre as aulas, no pátio, nos corredores, na cantina, perto do portão, na quadra de futebol, onde fosse, o assunto era um só: a polêmica causada pelo lançamento do jogo Street Fighter II para o Mega Drive.

 

Street Fighter II, como “todos” sabem, foi um jogo absolutamente revolucionário, que alterou definitiva e substancialmente todo e qualquer parâmetro no que se refere a games de porrada após seu lançamento, invadindo os fliperamas de todo o planeta. O primeiro vídeo-game doméstico a receber uma versão do jogo foi justamente o SNES. Porém, depois de cerca de um ano de atraso, enfim, os proprietários do Mega Drive também puderam descer a porrada em seus amigos através de uma boa sessão de pancadaria gamística com a turma formada por Ryu, Ken e cia.

 

No entanto, uma vez distantes de seus vídeo-games domésticos, a fim de cumprir com seus deveres escolares, sobrava aos moleques de então discutirem, durante cada segundo livre, qual versão de Street Fighter era melhor, quais gráficos seriam mais bem feitos, onde o som era mais nítido, em qual plataforma a jogabilidade se aproximava mais da versão do fliperama, etc.

 

Aqueles que acompanharam essa luta de perto sabem bem que a disputa Mega Drive X SNES era comparável à mais ferrenha rivalidade futebolística que podia existir entre cada grupo de moleques. Ocasionalmente, as discussões partiam para os finalmentes – como os briguentos em questão sempre eram nerds (magricelas ou gordinhos), as trocas de sopapos apenas causavam danos superficiais, como era de se supor.


Enfim... Delimitado o contexto histórico, vamos aos fatos.

 

O ano era 1994, mais precisamente no mês de abril. Um belo dia, um moleque da minha escola pediu pra mãe dele, como presente de aniversário, um SNES. Ou seja, decidiu ir pra turma dos bobos (quem tinha SNES era bobo e não tem conversa, hahahaha... Mega Drive forever!!!). O moleque era meio riquinho, metido a besta, então armou uma baita festança na ocasião, chamando o povo de diversas classes da escola em que estudávamos, só pra se exibir. E fazia questão de anunciar aos quatro ventos que iria ganhar um SNES de aniversário, vindo direto da loja de brinquedos mais careira da cidade, embrulhado junto a um cartucho da versão mais recente de Street Fighter de então, mais dois controles completos e alguns jogos extras.

 

Chegado o grande dia, na hora de abrir os presentes, com todos os colegas de escola perto de si, todos curiosíssimos para ver o tal vídeo-game, eis que ele rasga o embrulho, cuidadosamente elaborado pela sua carinhosa mamãe, e vê um formidável "Phantom System" embalado com uma fita das Tartarugas Ninja, uma fita do Rambo, uma pistola e dois controles. (O parêntese se faz necessário para explicar que, lançado no final dos anos 80, em 1994 o Phantom System já era um vídeo-game defasadíssimo, com jogos ultrapassados, alguns deles risíveis, como esse das Tartarugas Ninja, por exemplo).

 

Diante de tal mico, o colega aniversariante, a grande estrela da noite, começa a gaguejar, soluçar e lacrimejar, diante do já incontível e estridente riso dos colegas. Quanto maior o estardalhaço causado pelas gargalhadas dos convidados, mais o moleque contém as lágrimas e, quando parecia que o mesmo já tava prestes a dar um chilique daqueles, ele cria forças, sai do meio da multidão e vai em direção à sua mãe, para justamente lhe perguntar o porquê daquela troca absurda. Afinal de contas, ele já havia dito a ela exatamente o aparelho que ele queria, já tinham visto o preço na loja, escolhido os jogos que seriam entrariam no pacote, tudo direitinho.

 

E a mãe, calma e sorridentemente, sem entender muito bem a reação risonha dos colegas de seu pimpolho diante do presente que escolheu com tanto carinho, responde: "Ah, filhinho, aquele vídeo-game branco era feio, esquisito. Esse daí eu achei mais bonitinho, a fita dele é maior, o controle é grandão, vem com arminha de brinquedo junto, deve ser muito mais legal".

O moleque, óbvio, saiu da escola ao fim do semestre.



Escrito por Álvaro às 16h21
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Ecologia

Quando o Brasil tiver uma renda per capita de U$ 30.000, a gente pode sentar e conversar sobre mico-leão dourado e boto rosa e ver o que pode ser feito.



Categoria: Aforismos
Escrito por Álvaro às 18h06
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Escrito nas estrelas

 

Não acredito em destino. Não acho que “o futuro está escrito” ou que sejamos meras marionetes de um porvir já estabelecido. Mas creio piamente que certas coisas não nos acontecem por acaso.

 

Tomo como exemplo experiências ruins que tive nos últimos meses. Calma! Nada drástico, hehe. Me refiro ao contato que tive com a discografia do Faith no More e ao livro “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar. Em comum está o fato de eu nunca ter me interessado pelos dois ou de eu nunca tê-los encontrado a seu devido tempo, na época em que estiveram em evidência. Fui guiado a eles por conta de recomendações de amigos que os veneravam.

 

Faith no More é uma banda que teve uma reconhecida importância durante a segunda metade de década de 80 e que estendeu sua influência no pop realizado no início dos anos 90. Tinha como principais características um bandleader bastante criativo e versátil, bons guitarristas e um baterista fraco tecnicamente, mas que possuía um estilo totalmente peculiar, que dava uma cara ímpar ao som do conjunto. Ouvi atrasado demais, talvez, mas achei as músicas muito datadas. Escolhi ouvir a discografia da banda em ordem cronológica e encontrei desde os beats eletrônicos dos 80’s nos primeiros discos até o grunge (com pitadas de acid-jazz!) dos 90’s nos álbuns mais recentes, tudo lá, no som dos caras. Você ouve uma música de cada vez e pensa consigo: “putz, isso é bem anos 80 mesmo” ou “nossa, olha esse teclado... já ouvi isso 15 anos atrás”. Cada álbum representando fielmente a sonoridade de sua época. Isso não chega a ser um demérito, mas torna qualquer forma de expressão restrita ao seu tempo, sem chance de alcançar a posteridade. Passada uma década após o último disco da banda, suas músicas já não têm nada a dizer.

 

Quanto ao escritos Raduan Nassar, muito embora jamais tenha ouvido falar dele até questão de meses atrás, após ter lido seu nome pela primeira vez, passei a prestar atenção no que a crítica literária como um todo falava a seu respeito e notei que se tratava de um autor com poucas e marcantes obras. Em seu livro “Lavoura Arcaica”, me causou espanto a linguagem poética e a ausência de qualquer concessão, por parte do autor, em facilitar a leitura. Não há sequer indicações sobre o que os personagens querem dizer. Apenas um emaranhado de frases soltas e pensamentos aleatórios, tudo carregado de sentimentalismo camponês barato. Ao que parece, Nassar quis transmitir alguns de seus insights, mas não se preocupou em contar uma estória que fosse capaz de dar coesão a eles. Um menino obcecado por pés que resolve ir embora da casa dos pais não é um mote digno de uma romance que pretenda ser minimamente interessante. Podem até chamar isso de experimentalismo de linguagem. Pra mim, é simplesmente preguiça autoral. Sem contar que a renúncia a pontos e parágrafos me parece birra infantil, algo, no mínimo, desnecessário.

Essas experiências me levaram a crer que as obras de arte que até agora não vieram até mim de maneira natural não têm nada a me acrescentar.

 

Exemplifico. Eu gosto de músicos de quem eu, inesperadamente, ouço alguma música (às vezes apenas um trecho). Daí eu corro atrás e vejo o restante do seu trabalho. Em geral, me surpreendo com músicas ainda melhores e passo a querer ouvir tudo que já foi gravado pelo artista. Corro atrás, inclusive, de suas influências musicais e seus parceiros habituais. Não me lembro de ter me decepcionado com esse método.

 

Com os livros é a mesma coisa. Um trecho, uma citação, um ensaio, uma resenha, uma adaptação cinematográfica, enfim, qualquer contato inicial que eu tenha com a obra me trará interesse por ela. Sem indicações “no escuro” ou artificialismos diversos. O livro deve chegar até mim, e não o contrário.

 

Se uma obra de arte qualquer não me chamou a atenção antes, por si só, não foi à toa. É porque, de fato, não havia por que me interessar. Nenhuma recomendação pode ser melhor do que uma amostra.

 

E quando essa amostra chega até mim, a partir da emoção que me desperta, corro atrás, para sentir aquilo de novo. Isso acaba nos dando a sensação de que o universo ou alguma força superior nos guia em direção às coisas com as quais nos identificamos. Estamos sempre rumando ao nosso “destino”, enfim. Porém, o que ocorre é que nosso próprio inconsciente nos guia àquilo que mais gostamos. Estamos fazendo escolhas o tempo todo, muitas delas sem nos darmos conta. Nós mesmos estamos sempre atraindo o nosso destino e não o contrário.

 

Talvez o segredo esteja aí. O meu próprio interesse é que deve motivar o contato com uma obra qualquer. O feeling que dá o tom da escolha só pode ser o meu, isso jamais deve ser delegado a outrem. O que é interessante pra alguém ou em determinada época pode não ter nada a me dizer em meu atual momento.

 

Egocêntrico, eu? Não, pragmático. Até porque o que caracteriza melhor a grande obra é o fato de ser atemporal, universal. É isso que torna o seu autor um gênio da espécie. Se determinado autor não alcança isso, não merece minha atenção. Já existe muita coisa boa composta e escrita, esperando por meus olhos e ouvidos. E é pra essa direção que eu vou. Rumo ao meu destino.



Escrito por Álvaro às 08h44
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Pais confusos, filhos incompreendidos

 

Não foram poucas as vezes que ouvi nas últimas duas décadas pais, médicos e educadores aflitos comentarem sobre a “banalização do sexo”, algo que supostamente estaria acometendo a juventude de nossos dias. Nos debates que abordam esse tema, em geral promovidos por meios de comunicação destinados aos próprios jovens, vozes adultas apontam o dedo em direção aos mais novos e decretam que, ultimamente, tudo que envolve uma relação entre duas pessoas tornou-se fácil demais, pouco desafiador. Segundo essa linha de pensamento, a libertinagem teria sobrepujado o mistério, a promiscuidade teria engolido o galanteio e a perversão teria atropelado o flerte.  “O romantismo acabou” é a frase-feita preferida nessas ocasiões.

 

Me incomoda saber que essas mesmas pessoas, ao comentarem sobre as formas de lazer mais praticadas pela juventude contemporânea, discursam que as pessoas, “hoje em dia”, estão mais distantes umas das outras. Afinal, a televisão substituiu a pipa, o peão e as bolinhas de gude, o vídeo-game substituiu a pelada de rua e a internet substituiu os gibis e os livros infanto-juvenis (e o Orkut substituiu a pracinha da esquina). Ou seja, os mesmos pais, médicos e educadores compactuam da idéia de que os jovens nascidos em uma era de acesso relativamente livre às telecomunicações estão usando seus recursos com o objetivo de se isolarem cada vez mais em seus respectivos quartos.

 

São idéias difíceis de se complementarem porque, oras bolas, são diametralmente opostas! O pior: ninguém se dá conta disso; são conceitos que, em geral, estão presentes simultaneamente nos mesmos cérebros.

 

Ou seja, a neurose contemporânea que tanto aflige a turma da meia-idade é formada por uma combinação de diagnósticos antagônicos com relação ao dia-a-dia dos mais jovens. É uma concepção esquisita de que um adolescente é capaz de ir pra cama com 3 meninas diferentes em uma semana ao mesmo tempo em que é um anti-social enclausurado ciberneticamente em um quarto. Os mesmos jovens que têm uma vida social super ativa, repleta de beijos fugazes e sexo sem compromisso, são também pessoas solitárias que passam a maior parte do tempo diante de um monitor. Será que é preciso ser tão inteligente e perspicaz pra descobrir que isso é um baita contrasenso?

 

Na verdade tudo é mais simples do que parece. Os atualmente jovens, quando se vêem numa situação em que não são mais crianças, têm os mesmos medos e dúvidas que seus pais tiveram décadas antes. A sensação de se tornar livre das amarras da infância é descoberta de forma simultânea à percepção de que seus pensamentos, palavras e atos acarretam consequências nem sempre previsíveis (ou desejáveis). A partir daí, cada um tenta lidar com isso da maneira que acha melhor e tenta aprender alguma coisa entre um tropeço e outro. A presença ou não de internet e a profusão de acessos à pornografia (que, de fato, está mais acessível a cada dia) não determina a vida social de ninguém, muito menos molda o caráter das pessoas. Além disso, a presença de dançarinas rebolativas na TV não implica na maior facilidade de um adolescente em obter sexo. E o fato de gostar de vídeo-game não impede ninguém de ir bater uma bola com os amigos da escola aos fins-de-semana.

 

Um rapazinho que tem acesso 24 horas a milhões de fotos e vídeos com mulheres nuas garante apenas uma boa dose de masturbação diária via TV a cabo, internet e revistas especializadas. O solavanco que ele sente no peito ao dar o seu primeiro beijo e a dificuldade que encontra, mais tarde, ao tentar convencer uma garota a se deitar com ele é que forjarão a sua vida afetiva, da mesma maneira que seus antepassados. Litros de esperma ejaculados na solidão do lar não garantem, em absoluto, o poder de persuasão que é exigido pelas garotas.

 

Além disso, características humanas como a socialização, a identificação com o outro, auto-afirmação e a capacidade de se relacionar com as pessoas são, mais do que necessárias, exigidas em todos os ambientes coletivos (casa, trabalho, escola, clube, etc.). Para entrar num mero grupo de trabalhos escolares ou mesmo participar de uma tribo urbana qualquer é fundamental que as pessoas saibam se comunicar e interagir umas com as outras.

 

Ninguém quer saber se você gosta de livros, pescaria ou seriados da Fox quando se está procurando um emprego, por exemplo. O que o seu futuro chefe quer é conhecer a sua capacidade de se expressar diante dos demais. E seria muita presunção achar que os jovens não sabem disso.

 

Claro que existem algumas diferenças, mas elas são apenas simbólicas. Se antes o legal era colecionar selos, hoje é bacana baixar músicas na internet. Se antes o lance era jogar futebol de botão com a rapaziada, hoje o que pega é reunir uma cambada pra algumas horas de Winning Eleven. Se antes era preciso passear pela vizinhança e ter boa dose de charme e cara-de-pau para bater um papo com a garota mais bonita da rua, hoje ela está ao alcance o mouse – em compensação, a concorrência pela mesma beldade cresceu em dose exponencial, com gaviões de toda a cidade adicionados no MSN dela.

 

Ou seja, a rotina de um jovem típico dos anos 2000 inclui doses de desafios, adrenalina, alegrias e frustrações em igual proporção em relação à rotina dos que foram jovens nos anos 60 ou 70.

 

Os adultos do amanhã fazem e desfazem amizades, se sentem fortes e inseguros, trocam idéias e divergências, cooperam e competem um com os outros, enfrentam conflitos externos e internos e alcançam a sua maturidade a partir do que conseguem assimilar de tudo isso, da mesma forma que os jovens de outrora faziam. No entanto, essa incompreensão persiste entre as gerações (como houve também entre nossos pais e nossos avós), mesmo que as diferenças, volto a dizer, sejam apenas superficiais. É bastante simples chegar a essa conclusão. Só que deduções simples não lotam palestras, nem formam filas em consultórios e tampouco alimentam a indústria da auto-ajuda.



Escrito por Álvaro às 17h32
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Preparadas

 

Esses dias saiu uma daquelas pesquisas destinadas a ratificar “cientificamente” certos padrões comportamentais humanos que qualquer observador com um mínimo de bom senso descobre ainda na infância. Desta vez os tais “cientistas” procuravam descobrir qual a cor de lingerie que mais despertaria desejos junto à libido masculina. Bateram o martelo no vermelho. Ainda bem que eles descobriram...

 

Duas garotas de vinte e poucos anos lêem a notícia e comentam.

 

– É verdade. Quando se quer provocar um homem, uma lingerie vermelha é uma boa pedida.

– É mesmo, né? Mas, tipo, é preciso uma certa liberdade com o guri para se vestir dessa forma.

– É, se for ver bem, precisa de uma certa intimidade entre os dois, né?

– Claro, tipo, se a menina for logo de cara, no primeiro encontro, já com uma calcinha vermelha, vai parecer que, tipo, ela tá muito “preparadona”, né?

– Sim, sim.

 

São nesses momentos que eu me pergunto até que ponto a revolução feminista foi relevante para a sociedade brasileira. Será mesmo que as mulheres atingiram um ponto em que podem pensar, dizer e fazer o que querem? E outra: que raios de liberdade sexual é essa, tão proclamada aqui pelos trópicos, mas num discurso sem qualquer paralelo com a realidade?

 

Questões assim, além de provocarem alguma reflexão, podem confundir os incautos. Em primeiro lugar, vivemos em uma cultura que estimula (praticamente obriga) a mulher a se insinuar de forma mais ou menos libidinosa, a depender do contexto, mas que não sabe lidar bem com o flerte quando este parte do lado feminino. Isso por si só já seria uma fonte inesgotável de sentimentos contraditórios, porém os desvios de valores são ainda piores quando a mulher demonstra algum tipo de vontade em ultrapassar o terreno do flerte. Imediatamente ela se torna vulgar, segundo a ótica vigente.

 

Em segundo lugar, devemos ter a consciência de que estamos em um meio em que o homem, além de trabalhador, provedor e protetor de sua família, é festeiro, desportista de fim-de-semana, bebe como ninguém, é gozador com os amigos e arranca suspiros das moçoilas com sua personalidade supostamente forte. É o grande ideal do brasileiro: trabalha a semana toda (se for como peão de obra, melhor ainda), encara uma pelada com os camaradas no sábado de manhã, à tarde pula no carnaval fora de época, troca alguns sopapos ao entardecer e termina a noite se aventurando no motel com mais uma de suas conquistas. No domingo, churrasco com a família na hora do almoço (ele pilotando o braseiro, lógico), tonéis de cerveja durante o resto do dia e ainda dá duas sem tirar na patroa, “pra comparecer lá em casa” e encerrar a semana com chave de ouro.

 

Onde está o papel da mulher nessa história toda? Pois é...

 

Me recordo agora de um exemplo bastante ilustrativo sobre tudo isso. Muitos devem se lembrar da Maria Mariana, uma jovem atriz e escritora, autora de um best-seller dos anos 90, o livro “Confissões de Adolescente”, que deu origem a uma famosa peça de teatro (que, infelizmente, nunca vi) e uma bem-sucedida série de TV, ambas protagonizadas pela própria Maria Mariana. Ela é da mesma faixa etária que eu, ambos pertencemos à mesma geração, geração esta responsável pela introdução de um novo conceito, o “ficar”, algo que confundia tanto os adolescentes de então como seus respectivos pais.

 

O livro de Mariana tem o mérito de descrever em linguagem ágil e informal o cotidiano de uma menina de 15 anos em meio a essas descobertas, tendo que conviver com seus dilemas e conflitos ao mesmo tempo em que precisa dar alguma satisfação para pais e amigas sobre aquilo que ela mesma não consegue decifrar por inteiro. Naturalmente, foi um estouro de vendas, inclusive sob os aplausos de pais e professores que lidavam diretamente com adolescentes.

 

A série de TV, por sua vez, além de ser um primor técnico e artístico (a começar pela trilha sonora de reconhecido bom gosto, encabeçada pela canção de abertura cantada docemente por Gilberto Gil), prima também pela forma com que retrata as diferentes etapas que compõem aquele vácuo entre a infância e a fase adulta, com 4 irmãs com idades entre 12 e 19 anos que se complementam nessa tarefa. A Maria Mariana cabe o papel de irmã mais velha, a garota mais centrada e determinada da casa, que entre namoros, brigas e conselhos às irmãs mais novas (todas órfãs de mãe) faz um curso de Comunicação em uma universidade da elite carioca, batalha por estágios, elabora um jornal estudantil e lê Clarice Lispector em suas horas vagas.

 

Um dia desses me deparo com uma reportagem ao estilo “que fim levou” com ela, a própria Maria Mariana. Comentando sobre o tempo em que se manteve longe dos holofotes, ela conta que aos vinte e poucos anos se casou, resolveu se mudar para o interior, teve filhos e abandonou a(s) carreira(s), pois descobriu que seria mais importante cuidar dos filhos em tempo integral. Ela diz ainda que está divulgando seu livro mais recente, “Confissões de uma Mãe”, onde descreve essa nova fase em sua vida.

 

Deixe-me ver se entendi. A adolescente perspicaz, a jovem independente, artista de reconhecido talento e sucesso, que levou a milhões de pessoas a mensagem de despojamento, desembaraço e modernidade, decidiu copiar a avó e ser uma dona-de-casa. A menina que soube descrever como ninguém a juventude cosmopolita dos anos 90, livre das amarras normalmente impostas ao sexo feminino, toda a cultura juvenil da “new world order” da época, com todo o frescor ideológico dos anos seguintes à queda do muro de Berlim, chegou à conclusão que o bom da vida é se tornar uma matrona interiorana bancada pelo marido.

 

Tudo isso exposto, só me resta perguntar: preparadona pra que, cara pálida?



Escrito por Álvaro às 23h00
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